{"id":5095,"date":"2013-06-18T11:23:26","date_gmt":"2013-06-18T11:23:26","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5095"},"modified":"2022-12-04T13:19:44","modified_gmt":"2022-12-04T13:19:44","slug":"quantos-anjos-cabem-em-uma-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/quantos-anjos-cabem-em-uma-fotografia\/","title":{"rendered":"Quantos anjos cabem em uma fotografia?*"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente se espanta que brilhantes fil\u00f3sofos medievais, como Tom\u00e1s de Aquino e Duns Scotus, tenham dedicado tanto tempo a discutir quantos anjos poderiam dan\u00e7ar na cabe\u00e7a de um alfinete. Mas, ao contr\u00e1rio do que hoje se sup\u00f5e, essa pergunta n\u00e3o era despropositada. E debat\u00ea-la n\u00e3o era jogar conversa fora. Significava, entre outras coisas, perguntar-se em quantas m\u00ednimas partes (\u201c\u00e1tomos\u201d, dizia-se, em grego) uma subst\u00e2ncia poderia ser dividida. Tanto que, em 2001, um f\u00edsico qu\u00e2ntico, Anders Sandberg, teve a pachorra de fazer a conta e estimou essa quantidade que 8,6766 x 10<sup>49\u00a0<\/sup>anjos (viva a Wikipedia!).<\/p>\n<p>O problema dos anjos no espa\u00e7o, portanto, foi relativamente f\u00e1cil de resolver. Levou uns 800 anos, apenas. Bem mais dif\u00edcil \u00e9 o problema dos anjos do tempo. No <i>Talmud \u2013<\/i> extenso coment\u00e1rio judaico \u00e0s leis de Deus, escrito durante os primeiros s\u00e9culos da nossa era \u2013, podemos ler que \u201canjos s\u00e3o recriados a cada instante em multid\u00f5es inumer\u00e1veis para cantar seu hino a Deus antes de serem destru\u00eddos e desaparecer no nada.\u201d<\/p>\n<p>Assim, enquanto os anjos bailarinos ocupam-se do espa\u00e7o, os anjos cantores ocupam-se do tempo. Ou melhor, das qualidades singulares e \u00fanicas, de cada instante no tempo, pois a cada instante corresponde um anjo espec\u00edfico, insubstitu\u00edvel. Estes s\u00e3o os anjos da guarda dos acontecimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 s\u00e9culos, a pintura tem se ocupado dos anjos do espa\u00e7o. Quase sempre s\u00e3o representados como pequenos seres gordinhos, habitando as nuvens. Mas os anjos do tempo, os guardi\u00e3es dos momentos \u00fanicos, s\u00f3 se tornaram vis\u00edveis com a fotografia.<\/p>\n<p>Desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, a fotografia cruzou o limiar do instant\u00e2neo. Mas os primeiros fot\u00f3grafos que se aventuraram a explorar suas possibilidades tinham nos olhos nublados pela retina dos cientistas. Cronofot\u00f3grafos como Eadweard Muybridge, Etienne Jules-Marey e Albert Londe estavam interessados nas trajet\u00f3rias, no fracionamento das poses, na fisiologia do movimento: o homem que salta, a mulher que desce a escada, o jovem que chuta uma bola, n\u00e3o passavam de seres espaciais, cujo movimento era expresso por uma sucess\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es. Foi preciso que uma crian\u00e7a, uma crian\u00e7a-prod\u00edgio, tomasse para si o aparelho para que outra qualidade do instant\u00e2neo surgisse. Essa crian\u00e7a de olhar n\u00e3o-domesticado pela arte e pela ci\u00eancia foi Jacques-Henri Lartigue. O primeiro fot\u00f3grafo a revelar no interst\u00edcio dos instantes, os anjos do tempo.<\/p>\n<p>Lartigue cresceu em uma \u00e9poca em tudo acelerava, os meios de transporte, o cinema, as comunica\u00e7\u00f5es; a pr\u00f3pria velocidade da luz, com a relatividade de Einstein, tornava-se o novo paradigma da f\u00edsica. Mas era antes a luz da velocidade que a velocidade da luz que lhe interessava. Pois ele pr\u00f3prio, o menino, \u00e9 fugaz. Fugaz como as coisas que lhe cercam. Na sua nona elegia, o poeta Rainer Maria Rilke evocou o ponto de vista dos anjos do tempo, o ponto de vista de quem v\u00ea as coisas em seu \u201ccaminho de sa\u00edda\u201d<\/p>\n<blockquote><p><em>E tais coisas, que vivem<\/em><i><br \/>\n<em>do perecer, compreendem que as celebres; ef\u00eameras,<\/em><br \/>\n<em>cr\u00eaem que n\u00f3s, os mais ef\u00eameros, as podemos salvar.<\/em><br \/>\n<em>Querem que em nosso invis\u00edvel cora\u00e7\u00e3o as transformemos \u2014<\/em><br \/>\n<em>oh infinitamente \u2014 em n\u00f3s. [&#8230;]<\/em><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>O fot\u00f3grafo-menino nos conta que se interessava pela \u201cvida que passa\u201d. Como o poeta, celebra a efemeridade das coisas, sua passagem, sua transitoriedade. Mas ele n\u00e3o as examina, n\u00e3o as diz de fora. Ele as v\u00ea do interior de seu movimento, porque o movimento delas e seu pr\u00f3prio movimento t\u00eam a mesma natureza. Ele as flagra em sua perp\u00e9tua transforma\u00e7\u00e3o, do interior de sua pr\u00f3pria metamorfose de menino que cresce. O nome desta simultaneidade entre as coisas e o fot\u00f3grafo n\u00e3o \u00e9 sincronicidade. \u00c9 simpatia.<\/p>\n<p>Simpatia: assim o filosofo Henri Bergson denominava o movimento que nos transporta para o interior de um objeto para \u201ccoincidir com o que ele tem de \u00fanico e que, em conseq\u00fc\u00eancia, resulta inef\u00e1vel\u201d. Por meio da simpatia, o jovem Lartigue n\u00e3o apenas fotografa o Grande Pr\u00eamio que transcorre diante de seus olhos, mas ele se transporta para o interior do carro: fot\u00f3grafo, autom\u00f3vel, piloto \u2013 um s\u00f3 movimento. O que a fotografia do jovem Lartigue nos exibe \u00e9 o movimento selvagem, antes que o instant\u00e2neo tivesse sido civilizado pelo cinema e pela linguagem da fotografia moderna. Menino-prod\u00edgio. Crian\u00e7a-selvagem.<\/p>\n<div id=\"attachment_5100\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-Car-Trip-papa-at-80-Kilometers-an-hour-19131.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5100\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5100 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-Car-Trip-papa-at-80-Kilometers-an-hour-1913-674x900.jpg\" alt=\"Jacques-Henri Lartigue, Grande Pr\u00eamio, 1912\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5100\" class=\"wp-caption-text\">Jacques-Henri Lartigue, Grande Pr\u00eamio, 1912<\/p><\/div>\n<p>J\u00e1 adolescente, ia de segunda a sexta ao Bois de Boulogne fotografar as belas mo\u00e7as que por ali passeavam, desfilando seus magn\u00edficos chap\u00e9us. Lartigue tinha fascina\u00e7\u00e3o por chap\u00e9us femininos como se fossem ind\u00edcios de uma pot\u00eancia oculta de voar. Uma pot\u00eancia que s\u00f3 este dispositivo m\u00e1gico chamado c\u00e2mera fotogr\u00e1fica era capaz de revelar.<\/p>\n<p>Escrevi que ia todos os dias, mas isto \u00e9 apenas calend\u00e1rio. Em suas fotografias \u00e9 sempre domingo. Lartigue foi o maior de todos os fot\u00f3grafos de domingo porque tinha aquilo que Theodor Adorno chamou \u201colhos sab\u00e1ticos\u201d. Os olhos sab\u00e1ticos s\u00e3o aqueles capazes de redimir a beleza amea\u00e7ada por uma cultura onde tudo que vemos torna-se coisa \u00fatil, torna-se algo posto a nosso servi\u00e7o. Os olhos sab\u00e1ticos (os olhos de domingo) s\u00e3o aqueles \u201cque fazem justi\u00e7a a tudo que existe\u201d: \u201colhos que se perdem nessa beleza \u00fanica\u201d, escreve, \u201ce que salvam no objeto algo da calma do dia da cria\u00e7\u00e3o\u201d. Mas a beleza que estes olhos revelam nunca \u00e9 universal, nunca \u00e9 o belo dos estetas esnobes. \u00c9 sempre uma beleza particular, singular, contingente, instant\u00e2nea, feliz.<\/p>\n<div id=\"attachment_5102\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-Avenue-du-Bois-de-Boulogne-Paris-19111.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5102\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5102 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-Avenue-du-Bois-de-Boulogne-Paris-1911-674x900.jpg\" alt=\"Jacques-Henri Lartigue, Avenida do Bosque, 1911\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5102\" class=\"wp-caption-text\">Jacques-Henri Lartigue, Avenida do Bosque, 1911<\/p><\/div>\n<p>Talvez n\u00e3o haja melhor imagem para resumir a obra de Lartigue, a obra fotogr\u00e1fica de uma vida, que o transcurso de um longo e intermin\u00e1vel domingo. Nos seus \u00e1lbuns de juventude, \u00e9 sempre de manh\u00e3. Nas fotografias da maturidade, tamb\u00e9m \u00e9 domingo, mas ao entardecer<b>.<\/b> Ainda a mesma simpatia, mas agora atravessada pelo sil\u00eancio, pela serenidade e pela m\u00fasica, que tanto amava.<\/p>\n<p>\u2013 Quantos anjos cabem em uma fotografia? Na verdade, n\u00e3o sei. Quantos instantes felizes cabem em nossas vidas? Quantas vezes podemos nos libertar da utilidade das coisas e mir\u00e1-las com olhos de crian\u00e7a, como se acabassem de ter sido criadas?<\/p>\n<p>As fotografias de Lartigue est\u00e3o povoadas de anjos: suas primas e primos, principalmente, que saltam, mergulham, correm, piruetam e pivoteiam. Estes seres n\u00e3o s\u00e3o apenas os personagens, o assunto, o objeto de suas imagens. S\u00e3o os anjos do tempo capturados em pleno voo, assinalando para n\u00f3s a singularidade de cada instante, celebrando em cada imagem a experi\u00eancia \u00fanica do seu acontecimento.<\/p>\n<div id=\"attachment_5103\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-VO91.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5103\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-5103 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Jacques-Henri-Lartigue-VO9-674x900.jpg\" alt=\"Jacques-Henri Lartigue, A prima Bichonade, 1905\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5103\" class=\"wp-caption-text\">Jacques-Henri Lartigue, A prima Bichonade, 1905<\/p><\/div>\n<p>Em uma f\u00e1bula antiga, do grego Esopo, h\u00e1 um atleta que se vangloria de ter realizado um grande salto sobre o Rodes, mas, infelizmente, n\u00e3o dispunha de testemunhas para comprov\u00e1-lo. Um gaiato que escutava a conversa interv\u00e9m: \u201cN\u00e3o h\u00e1 problema\u201d. E, apontando para ch\u00e3o, provoca: \u201cAqui est\u00e1 o Rodes, salta aqui!\u201d.<\/p>\n<p>O desafio ficou c\u00e9lebre na tradu\u00e7\u00e3o latina de Erasmo: \u201cHic Rhodus, hic saltus!\u201d. Muitos s\u00e9culos depois, em um livro absolutamente improv\u00e1vel \u2013 <i>Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito <\/i>\u2013, Hegel fez uma par\u00f3dia deste mote, escrevendo: \u201cAqui est\u00e1 a rosa, dan\u00e7a aqui\u201d. Pois para o fil\u00f3sofo, nenhum indiv\u00edduo poderia saltar para al\u00e9m do seu tempo. Mas isto n\u00e3o deveria ser jamais motivo de lamenta\u00e7\u00e3o. Antes de ser um grilh\u00e3o que nos constrange, este v\u00ednculo ao presente \u00e9 uma rosa \u2013 a alegria do pensamento, aqui e agora.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><i>&#8211; Hic saltus! Hic salta!<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><i>&#8211; <\/i>Pula aqui! Dan\u00e7a Aqui! \u2013 convida o menino, com a cabe\u00e7a enfiada na c\u00e2mera. Nas fotos de Jacques-Henri Lartigue, os anjos do tempo tamb\u00e9m sabem dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<p>* A prop\u00f3sito da exposi\u00e7\u00e3o dedicada a Jacques-Henri Lartigue, que inaugurou semana passada no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es sobre a exposi\u00e7\u00e3o, no\u00a0<a href=\"http:\/\/ims.uol.com.br\/programacao\/D1231\" class=\"broken_link\">site do Instituto Moreira Salles<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente se espanta que brilhantes fil\u00f3sofos medievais, como Tom\u00e1s de Aquino e Duns Scotus, tenham dedicado tanto tempo a discutir quantos anjos poderiam dan\u00e7ar na cabe\u00e7a de um alfinete. Mas, ao contr\u00e1rio do que hoje se sup\u00f5e, essa pergunta n\u00e3o era despropositada. E debat\u00ea-la n\u00e3o era jogar conversa fora. Significava, entre outras coisas, perguntar-se em quantas m\u00ednimas partes (\u201c\u00e1tomos\u201d, dizia-se, em grego) uma subst\u00e2ncia poderia ser dividida. Tanto que, em 2001, um f\u00edsico qu\u00e2ntico, Anders Sandberg, teve a pachorra de fazer a conta e estimou essa quantidade que 8,6766 x 1049\u00a0anjos (viva a Wikipedia!). O problema dos anjos no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":5098,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[833,822,838],"tags":[338,431,471,747],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5095"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5095"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5095\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12194,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5095\/revisions\/12194"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5098"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}