{"id":5043,"date":"2013-06-04T18:27:39","date_gmt":"2013-06-04T18:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5043"},"modified":"2016-05-28T14:04:49","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:49","slug":"da-caixa-preta-ao-cubo-branco-cronica-sobre-a-ressignificacao-de-um-espaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/da-caixa-preta-ao-cubo-branco-cronica-sobre-a-ressignificacao-de-um-espaco\/","title":{"rendered":"Da caixa preta ao cubo branco: cr\u00f4nica sobre a ressignifica\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><b>Pre\u00e2mbulo<\/b><\/p>\n<p>Demorei a conhecer a nova sede do Museu de Arte Contempor\u00e2nea da USP, no Ibirapuera. Em princ\u00edpio, por falta de tempo. Mas, talvez, tamb\u00e9m por um trauma: por conta de um carro clonado, frequentei durante anos a m\u00e1quina burocr\u00e1tica do Detran que ocupava aquele edif\u00edcio h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p>Eu recebia em m\u00e9dia duas novas multas a cada m\u00eas, todas trazendo a foto de um carro quase igual ao meu cometendo infra\u00e7\u00f5es pelas ruas da cidade. O que era lido nessas fotografias (bom pretexto para retomar o foco deste blog)? Apenas os caracteres da placa, id\u00eanticos aos meus. Tanto faz se a foto tamb\u00e9m mostrava diferen\u00e7as significativas no ve\u00edculo, at\u00e9 mesmo no tamanho e na tipografia da placa, e tanto faz que eu tivesse recebido uma multa \u2013 tamb\u00e9m com foto \u2013 em Campinas, mais ou menos no mesmo hor\u00e1rio em que o clone levava outra a trezentos quil\u00f4metros dali. Para a burocracia, eu era o culpado. A interpreta\u00e7\u00e3o da fotografia sempre depende de um sistema de codifica\u00e7\u00e3o que, neste caso, s\u00f3 permitia ler aquelas letras e n\u00fameros. Vil\u00e9m Flusser j\u00e1 havia insinuado que suas considera\u00e7\u00f5es sobre a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica valiam para outros aparelhos: aquele pr\u00e9dio \u00e9 o exemplo mais claro que tive do que pode ser uma caixa preta.<\/p>\n<p>Num surto raiva, disse certa vez a um delegado do Detran que, caso aquele pr\u00e9dio viesse a explodir, eu me declarava antecipadamente suspeito. Isso me custou naquele dia uns dois guich\u00eas a mais, meia d\u00fazia de carimbos, e aquela propina que eles fazem parecer legalizada pelas m\u00e3os dos despachantes.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria tem final feliz, n\u00e3o s\u00f3 porque o carro clonado foi apreendido (mais ou menos feliz, porque custou a vida de um cidad\u00e3o atropelado), mas porque o edif\u00edcio sobreviveu e p\u00f4de finalmente ser exorcizado, dando \u00e0 obra de Niemeyer um destino mais digno. Quem conheceu o Detran, certamente ver\u00e1 no novo museu uma esp\u00e9cie de &#8220;memorial da resist\u00eancia&#8221;, a celebra\u00e7\u00e3o de nossa sobreviv\u00eancia diante de um estado muitas vezes perverso.<\/p>\n<p>Nessa transforma\u00e7\u00e3o, ocorre-me que arte e burocracia tem uma grande afinidade: ambas s\u00e3o atividades com uma justificativa em si mesma. A diferen\u00e7a \u00e9 que a arte se assume e se potencializa nessa condi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m burocracia se revelaria uma performance muito criativa se n\u00e3o fingisse servir para alguma coisa.<\/p>\n<p><b>O museu em processo<\/b><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/fotomac1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-5060\" alt=\"fotomac\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/fotomac-620x456.jpg\" width=\"620\" height=\"456\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o projeto de reforma e ocupa\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o sofreu atrasos, mas \u00e9 um privil\u00e9gio chegar ali e ver o processo em andamento. Sensa\u00e7\u00e3o de que a casa est\u00e1 pronta, mas a a\u00e7\u00e3o de habit\u00e1-la ainda n\u00e3o se transformou em rotina, de modo que a parede mais neutra ainda ainda permanece vis\u00edvel, e nos convida a pensar nas diversas formas de ocup\u00e1-la. Trata-se de algo que \u201cdesnaturaliza\u201d o museu como lugar da arte, porque exp\u00f5e seus pr\u00f3prios c\u00f3digos e determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio disso n\u00f3s sentimos em espa\u00e7os tradicionais em que as obras parecem descansar em paz por toda a eternidade, onde tudo parece t\u00e3o resolvido que nossa presen\u00e7a se torna estranha, ruidosa e desconfort\u00e1vel. O que encontro no MAC \u00e9 um momento importante de apoderamento de um espa\u00e7o p\u00fablico, em que as obras ainda parecem como coisas vivas a procura de um lugar de di\u00e1logo e, ainda, em que os visitantes n\u00e3o se sentem como objetos profanos que perturbam o sil\u00eancio de um espa\u00e7o sagrado.<\/p>\n<p>O museu claramente assume e busca compensar algumas limita\u00e7\u00f5es, sem escond\u00ea-las. A quest\u00e3o mais discutida nesse sentido \u00e9 o \u201cp\u00e9 direito\u201d baixo dos andares do pr\u00e9dio principal.\u00a0Mas o que seria um espa\u00e7o ideal para a obra arte? Essa \u00e9 uma grande oportunidade para um projeto dedicado \u00e0 arte contempor\u00e2nea que, com frequ\u00eancia, faz de uma de suas causas a consci\u00eancia sobre o espa\u00e7o que ocupa. N\u00e3o esconder os vazios e as limita\u00e7\u00f5es do edif\u00edcio parece ser um modo de afirmar uma hist\u00f3ria, as escolhas e os conflitos dessa ocupa\u00e7\u00e3o, mais do que de celebrar um resultado.<\/p>\n<p>O exemplo mais claro disso est\u00e1 no pr\u00e9dio anexo, onde vemos o di\u00e1logo de dois artistas com o projeto. Num piso, a instala\u00e7\u00e3o \u201cSala de Espera\u201d, de Carlito Carvalhosa: um conjunto de postes de madeira, apoiados num equil\u00edbrio provis\u00f3rio e improv\u00e1vel, \u00a0que contrastam com assepsia do branco e perturbam com a distribui\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona das colunas, como se reivindicassem um car\u00e1ter de ru\u00edna para um pr\u00e9dio que se demonstrou bem acabado.<\/p>\n<div id=\"attachment_5050\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Carvalhosa_031.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5050\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5050\" alt=\"Carlito Carvalhosa, Sala de Espera, 2013\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Carvalhosa_03-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5050\" class=\"wp-caption-text\">Carlito Carvalhosa, Sala de Espera, 2013<\/p><\/div>\n<p>No outro piso, a s\u00e9rie \u201cObra\u201d, de Mauro Restiffe: que documenta n\u00e3o apenas o processo de reforma do espa\u00e7o, como tamb\u00e9m os di\u00e1logos provis\u00f3rios que se produziram a paisagem. A montagem \u00e9 pensada para lembrar daquilo que os pr\u00f3prios tapumes que sustentam as imagens escondem: colunas, vigas, emendas nas paredes, al\u00e9m de certo estado de tens\u00e3o e precariedade do processo de reforma. A s\u00e9rie narra uma hist\u00f3ria sem efeitos ret\u00f3ricos, apenas com a autoridade de quem vivenciou a transforma\u00e7\u00e3o do lugar. Restiffe constr\u00f3i\u00a0 janelas que n\u00e3o mostram apenas o entorno do espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m do tempo: o limiar sutil que separa o espa\u00e7o idealizado da ru\u00edna. A ru\u00edna \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e simb\u00f3lica da qual aquele museu emergiu, e tamb\u00e9m o lugar para onde um projeto que tamb\u00e9m depende da burocracia e das decis\u00f5es pol\u00edticas est\u00e1 sempre sob amea\u00e7a de retornar.<\/p>\n<div id=\"attachment_5051\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Restiffe_091.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5051\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5051\" alt=\"Mauro Restiffe, Obra, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Restiffe_09-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5051\" class=\"wp-caption-text\">Mauro Restiffe, Obra, 2012<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_5052\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Restiffe_031.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5052\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-5052\" alt=\"Mauro Restiffe, Obra, 2012\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/Restiffe_03-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5052\" class=\"wp-caption-text\">Mauro Restiffe, Obra, 2012<\/p><\/div>\n<p>A \u00faltima surpresa ficou para o piso superior do pr\u00e9dio. Enquanto o andar aguarda em sil\u00eancio a chegada de um restaurante, \u00a0j\u00e1 temos livre acesso a um panorama de S\u00e3o Paulo como raramente encontramos. Naquele mesmo lugar onde todos movimentos um dia emperravam na burocracia, agora, o olhar transita de forma bastante flu\u00edda. Enquanto pensa suas estrat\u00e9gias para dar sentido \u00e0s obras do acervo, o museu ressignifica a pr\u00f3pria cidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/panorama1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-5053\" alt=\"panorama\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/panorama-620x155.jpg\" width=\"620\" height=\"155\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos trabalhos de Restiffe e Carvalhosa, tr\u00eas outras exposi\u00e7\u00f5es podem ser vistas na nova sede do MAC: &#8220;Di Humanista&#8221;, &#8220;O Agora, o Antes: uma s\u00edntese do acervo do MAC USP&#8221; e &#8220;Doa\u00e7\u00f5es recentes&#8221;: \u00a0<a href=\"http:\/\/www.mac.usp.br\/mac\" target=\"_blank\">www.mac.usp.br\/mac<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pre\u00e2mbulo Demorei a conhecer a nova sede do Museu de Arte Contempor\u00e2nea da USP, no Ibirapuera. 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