{"id":5003,"date":"2013-05-21T19:19:38","date_gmt":"2013-05-21T19:19:38","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=5003"},"modified":"2023-03-02T21:20:08","modified_gmt":"2023-03-02T21:20:08","slug":"referencias-cruzadas-outras-luzes-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/referencias-cruzadas-outras-luzes-ii\/","title":{"rendered":"Refer\u00eancias cruzadas \u2013 outras luzes (II)"},"content":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei com precis\u00e3o quando surgiu meu interesse por uma informa\u00e7\u00e3o qualquer que \u201ccerque\u201d a fotografia. Lembro-me bem das embalagens que utilizava h\u00e1 mais de 30 anos em minhas atividades e que tinham alguma import\u00e2ncia \u00e0 medida que, em cada filme e em cada caixa de papel fotogr\u00e1fico, percebia diferen\u00e7as entre cores, tipos gr\u00e1ficos e design. Isso identificava os produtos que nos idos dos anos 1970 eram de marcas bem distintas. Al\u00e9m disso, os an\u00fancios publicados nas revistas <i>Iris<\/i>, <i>Fot\u00f3ptica<\/i>, <i>Cin\u00f3tica<\/i> e a do <i>Foto Cine Bandeirante<\/i> eram bem curiosos.<\/p>\n<p>Hoje, quando me deparo com o material acumulado nos \u00faltimos anos sinto que foi certeira minha decis\u00e3o de buscar a papelaria impressa em torno da fotografia. Tenho concentrado meu olhar nas lojas de material fotogr\u00e1fico que, invariavelmente, tamb\u00e9m ofereciam os servi\u00e7os de revela\u00e7\u00e3o de filmes e amplia\u00e7\u00e3o de c\u00f3pias. Temos algumas casas muito tradicionais que foram fundadas ainda no s\u00e9culo XIX como distribuidora de material qu\u00edmico fotogr\u00e1fico, para mais tarde incorporar em seus servi\u00e7os o atendimento ao fot\u00f3grafo amador.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-5011 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/digitalizar0012-360x500.jpg\" alt=\"digitalizar0012\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p>Uma das mais lembradas \u00e9 a Casa Stolze S. A., fundada em 1874, provavelmente em Hamburgo segundo Boris Kossoy, e que nos anos 1920 atendia seus clientes na Rua Direita, 14, no famoso tri\u00e2ngulo central da cidade de S\u00e3o Paulo. Mantinha filiais na Rua S\u00e3o Bento, 23, em S\u00e3o Paulo, e na Rua Jo\u00e3o Pessoa, 193, em Recife, o que ampliava significativamente sua esfera de atua\u00e7\u00e3o. O propriet\u00e1rio Carlos Henrique Stolze, no final s\u00e9culo XIX, j\u00e1 se encontrava no Brasil associado a Werner Otto St\u00fcck, oferecendo servi\u00e7os atrav\u00e9s da Casa Stolze &amp; St\u00fcck. Deles, tenho um cat\u00e1logo datado de 1911 que traz uma incr\u00edvel diversidade de c\u00e2meras e acess\u00f3rios para a produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica em geral, afora todo o material necess\u00e1rio para processamento e apresenta\u00e7\u00e3o da c\u00f3pia fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>O material gr\u00e1fico come\u00e7a a ficar interessante na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, logo ap\u00f3s o advento das novas possibilidades de impress\u00e3o. Tamb\u00e9m coincide com o surgimento de dezenas de revistas ilustradas em que a fotografia era a novidade da comunica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, eficiente e precisa. Veja por exemplo a atualidade do que registrou o poeta Olavo Bilac, em 1904, no primeiro n\u00famero da luxuosa revista <i>Kosmos<\/i>: \u201cA atividade humana aumenta numa progress\u00e3o pasmosa. J\u00e1 os homens de hoje s\u00e3o for\u00e7ados a pensar e a executar em um minuto o que seus av\u00f3s pensavam e executavam em uma hora. (&#8230;) O livro est\u00e1 morrendo, justamente porque j\u00e1 pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, \u00e0 leitura de cem p\u00e1ginas impressas sobre o mesmo assunto.\u201d<\/p>\n<p>Como sabemos, o in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u00e9 de um intenso frenesi tecnol\u00f3gico e claro que a fotografia aplicada nas revistas ilustradas e nos jornais vai cumprir um papel decisivo na leitura apressada da cidade da \u00e9poca. Mas isso \u00e9 assunto para outro post. O interessante \u00e9 que, a partir das duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, h\u00e1 um clima de novidade no ar, e muitas casas comerciais se instalam ou ampliam suas atividades com a finalidade de atender uma demanda nascida com a prolifera\u00e7\u00e3o das c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas. Era preciso revelar e ampliar as fotografias produzidas pelos amadores.<\/p>\n<p>Bem, o que me interessa mesmo \u00e9 a papelaria que foi criada para atender essa demanda e como os envelopes serviram tamb\u00e9m para fazer a propaganda dos grandes fornecedores, tais como a Kodak, a Ilford, a Agfa, entre outros. Devemos associar essa manifesta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica com as tend\u00eancias gerais da \u00e9poca. \u00c9 poss\u00edvel verificar nas primeiras d\u00e9cadas a influ\u00eancia do <i>art nouveau<\/i> e, mais tarde, a incorpora\u00e7\u00e3o dos elementos b\u00e1sicos da tipologia e do design ao <i>art d\u00e9co<\/i>. Essa multiplica\u00e7\u00e3o dos processos de impress\u00e3o deve-se ao r\u00e1pido florescimento da ind\u00fastria gr\u00e1fica que, em \u00e2mbito nacional, assimilou pelo menos duas novidades importantes: a zincografia e a autotipia. A zincografia permite que o suporte para o original seja o pr\u00f3prio papel, e a autotipia vai viabilizar o uso da ret\u00edcula (malha de vidro) permitindo <i>os meios tons (half tone nos EUA e na Inglaterra). <\/i>Esse \u00faltimo processo permite gravar uma chapa denominada clich\u00ea que pode ser impressa juntamente com os textos tipogr\u00e1ficos. Orlando da Costa Ferreira, em seu livro <i>Imagem e Letra<\/i>, de 1976, foi o primeiro a atribuir a devida import\u00e2ncia \u00e0 hist\u00f3ria gr\u00e1fica no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Algumas das caracter\u00edsticas do <i>art nouveau<\/i> s\u00e3o as curvas e as dire\u00e7\u00f5es imprevistas de suas linhas, normalmente din\u00e2micas e ondulantes, criando ritmos e assimetrias que se harmonizam. H\u00e1 tamb\u00e9m o efeito decorativo muito utilizado no design, em particular nas artes gr\u00e1ficas, em que \u00e9 poss\u00edvel encontrar in\u00fameros exemplos no in\u00edcio da Rep\u00fablica brasileira que utilizava com frequ\u00eancia as formas florais e curvil\u00edneas. Veja os exemplos do est\u00fadio de C. Rosen e um envelope da Casa Duarte e Salerno do in\u00edcio dos anos 1920.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-5014 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/dupla-360x500.jpg\" alt=\"dupla\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/joia_capa_dupla1.jpg\" data-size=\"700x491\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-6802 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/joia_capa_dupla1-360x253.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/joia_capa_dupla1-360x253.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/joia_capa_dupla1-674x473.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/joia_capa_dupla1.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 o <i>art d\u00e9co<\/i><i> <\/i>(termo de origem francesa, abrevia\u00e7\u00e3o de <i>arts d\u00e9coratifs<\/i>) \u00e9 um movimento popular de design que prevaleceu entre 1925 (ano de<i> Exposition Internationale des Arts D\u00e9coratifs et Industries Modernes<\/i>) at\u00e9 meados dos anos 1940, que buscava simplicidade no estilo. Algumas das caracter\u00edsticas s\u00e3o as linhas retas ou circulares estilizadas, as utiliza\u00e7\u00f5es das formas geom\u00e9tricas e aerodin\u00e2micas. O <i>art d\u00e9co<\/i> tem presen\u00e7a marcante na papelaria produzida no per\u00edodo, como mostra o envelope da Casa Stolze, em parceria com a Kodak e a \u00d3ptica Photo Moderna, que traz uma tipografia centrada nos c\u00e2nones do movimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O envelope de S\u00e3o Paulo Photographico, feito em parceria com a Agfa, evidencia a transi\u00e7\u00e3o, pois enquanto a representa\u00e7\u00e3o da mulher tem o estilo aproximado ao <i>art nouveau<\/i>, o logotipo Agfa Foto j\u00e1 \u00e9 totalmente sintonizado com o <i>art d\u00e9co<\/i>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/digitalizar00131.jpg\" data-size=\"457x383\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-6527 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/digitalizar00131-360x302.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/digitalizar00131-360x302.jpg 360w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/digitalizar00131.jpg 457w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apreciando algumas pe\u00e7as da cole\u00e7\u00e3o, podemos facilmente perceber a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem publicit\u00e1ria atrav\u00e9s desses suportes e constatar que esse rico fen\u00f4meno ainda n\u00e3o est\u00e1 devidamente associado \u00e0 hist\u00f3ria da fotografia. Outro dado interessante \u00e9 que a principal preocupa\u00e7\u00e3o de alguns desses laborat\u00f3rios era fixar uma identidade visual junto ao p\u00fablico consumidor.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o em cores nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado deu um salto gigantesco de qualidade e isso pode ser detectado na tipografia utilizada e nas cores chapadas. Vale ressaltar o quanto \u00e9 surpreendente o apuro t\u00e9cnico no acabamento, o que denota a preocupa\u00e7\u00e3o na integra\u00e7\u00e3o entre texto e imagem, as conex\u00f5es com a linguagem modernista da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Bem, essa amostra \u00e9 parte de uma pesquisa mais ampla que venho desenvolvendo sobre os pap\u00e9is ef\u00eameros da fotografia, uma vez que esse material nem sempre foi preservado mas, quando se monta um conjunto fica mais f\u00e1cil estabelecer rela\u00e7\u00f5es, compreender e valorizar sua import\u00e2ncia. Infelizmente, quase nunca aparecem os cr\u00e9ditos do designer e da gr\u00e1fica respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o. A primeira preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecer novos olhares para a hist\u00f3ria da fotografia e reiterar essa hist\u00f3ria atrav\u00e9s, por exemplo, dessa rica e permanente pe\u00e7a gr\u00e1fica, quase sempre esquecida pelos pesquisadores. Elas guardam uma mem\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 aquela constitu\u00edda apenas por artistas e marcas globais, mas tamb\u00e9m pelas lojas e seus an\u00f4nimos clientes, que a cada semana, deixavam seus filmes para revelar e ampliar. Agora, eles ser\u00e3o lembrados e a palavra revela\u00e7\u00e3o tornar-se perfeitamente adequada.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/blog\/?p=4857\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" class=\"broken_link\"><strong>Refer\u00eancias Cruzadas &#8211; outras luzes (I)<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei com precis\u00e3o quando surgiu meu interesse por uma informa\u00e7\u00e3o qualquer que \u201ccerque\u201d a fotografia. Lembro-me bem das embalagens que utilizava h\u00e1 mais de 30 anos em minhas atividades e que tinham alguma import\u00e2ncia \u00e0 medida que, em cada filme e em cada caixa de papel fotogr\u00e1fico, percebia diferen\u00e7as entre cores, tipos gr\u00e1ficos e design. Isso identificava os produtos que nos idos dos anos 1970 eram de marcas bem distintas. 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