{"id":4971,"date":"2013-05-14T17:52:54","date_gmt":"2013-05-14T17:52:54","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4971"},"modified":"2016-05-28T14:04:57","modified_gmt":"2016-05-28T14:04:57","slug":"apropriacao-como-critica-aos-discursos-totalizantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/apropriacao-como-critica-aos-discursos-totalizantes\/","title":{"rendered":"Apropria\u00e7\u00e3o como cr\u00edtica aos discursos totalizantes*"},"content":{"rendered":"<p>A fotografia foi considerada uma forma menor de express\u00e3o porque, supostamente, limitava-se a coletar do mundo, por meio de um gesto mec\u00e2nico, fragmentos de formas prontas e j\u00e1 resolvidas em seus sentidos. Em resposta, a afirma\u00e7\u00e3o da fotografia como arte exigiu reduzir a realidade a um estado de mat\u00e9ria-prima insignificante, dispon\u00edvel para a manipula\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo e para a proje\u00e7\u00e3o de sentidos que lhe s\u00e3o totalmente subjetivos. Se essas posi\u00e7\u00f5es extremas nos deixam uma li\u00e7\u00e3o, \u00e9 a necessidade de enxergar o processo de cria\u00e7\u00e3o como algo que concilia <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>encontro<\/em>. Nessa perspectiva, toda fotografia tem algo \u201capropria\u00e7\u00e3o\u201d: esse gesto simples de deslocamento das coisas cuja pot\u00eancia de ressignifica\u00e7\u00e3o a arte do s\u00e9culo XX nos ensinou a enxergar.<\/p>\n<p>Na mesma medida em que aceitamos que a fotografia constr\u00f3i seu sentido numa negocia\u00e7\u00e3o com o mundo, aquilo que chamamos de realidade assimila cada vez mais as imagens como um de seus elementos constituintes. Ou seja, se a realidade nunca existe para o olhar humano como mat\u00e9ria-bruta, \u00e9 poss\u00edvel pensar as imagens como parte dessa mesma realidade. \u00c9 assim que a fotografia passa a existir n\u00e3o apenas como investimento est\u00e9tico, ela pr\u00f3pria retorna muitas vezes ao processo de cria\u00e7\u00e3o como fragmento de mundo dispon\u00edvel para apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_4980\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/main_callout_imagem-11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4980\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4980\" alt=\"Jo\u00e3o Castilho [trabalho mostrado na exposi\u00e7\u00e3o &quot;Imagem Mi(g)rante&quot;\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/main_callout_imagem-1-620x312.jpg\" width=\"620\" height=\"312\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4980\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Castilho, <em>Filme Velado<\/em>, 2012 [trabalho mostrado na exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Imagem Mi(g)rante&#8221;, na Galeria Zipper, com curadoria de Mario Gioia]<\/p><\/div>A apropria\u00e7\u00e3o de imagens, cole\u00e7\u00f5es ou acervos fotogr\u00e1ficos representa hoje uma dimens\u00e3o importante da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Essas experi\u00eancias t\u00eam o m\u00e9rito constituir, com certa espontaneidade, um lugar que ignora os embates hist\u00f3ricos que separam a fotografia de outras artes visuais. Al\u00e9m disso,\u00a0\u00e9 por meio dessas apropria\u00e7\u00f5es que muitos artistas estabelecem uma cr\u00edtica bastante contundente a uma s\u00e9rie de \u201cdiscursos totalizantes\u201d que contaminam nossa no\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e realidade, teorias que apenas conseguem abordar as experi\u00eancias for\u00e7ando-as a caber dentro das defini\u00e7\u00f5es que oferecem. A seguir, uma s\u00edntese de alguns desses discursos que podemos repensar por meio das apropria\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Historicismo<\/b><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica positivista fez acreditar que era papel do historiador representar fielmente os fatos por meio de grandes narrativas, bem como estabelecer entre eles uma precisa rela\u00e7\u00e3o de determina\u00e7\u00e3o. Isso pressup\u00f5e que as tens\u00f5es que permeiam as mudan\u00e7as podem ser ignoradas, resumidas por seus vetores dominantes, aqueles que podem ser definidos como \u201ccausa\u201d. O resultado disso \u00e9 que tais mudan\u00e7as parecem sempre ocorrer numa dire\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que chamamos de \u201cprogresso\u201d. Esses vetores dominantes, que d\u00e3o \u00e0 narrativa a ilus\u00e3o de um perfeito assentamento dos fatos em suas rela\u00e7\u00f5es de determina\u00e7\u00e3o, aponta aquilo que Benjamin chamaria de \u201chist\u00f3ria dos vencedores\u201d (\u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d, tese 7).<\/p>\n<p>Demonstrados os riscos pol\u00edticos desse tipo de m\u00e9todo, reivindicou-se a possibilidade de abordar a hist\u00f3ria por meio das pequenas narrativas, constru\u00edda a partir de fragmentos, reminisc\u00eancias, ru\u00ednas, representa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o almejam compor uma unidade de discurso e n\u00e3o permitem deduzir as rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito visadas por essa historiografia.<\/p>\n<p>Benjamin valoriza a atua\u00e7\u00e3o do cronista porque este n\u00e3o distingue os pequenos e os grandes acontecimentos. Para ele, \u201cnada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a hist\u00f3ria\u201d (\u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d, tese 3). De modo semelhante, muitos artistas que se apropriam de imagens n\u00e3o ignoram personagens e olhares que se tornaram an\u00f4nimos, porque n\u00e3o est\u00e3o comprometidos com a autoridade que o historicismo busca para suas fontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Monumentaliza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p>Sobretudo por meio de duas grandes guerras, o s\u00e9culo XX cobrou a consci\u00eancia de que o progresso n\u00e3o joga necessariamente a nosso favor. Em outras palavras, trouxe a consci\u00eancia de que nossa pr\u00f3pria perman\u00eancia como civiliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em risco. Tamb\u00e9m demonstrou a impossibilidade de traduzir por meio das narrativas as cat\u00e1strofes que produziram essa consci\u00eancia. Como lembra Benjamin, na Primeira Guerra \u201cos combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experi\u00eancias comunic\u00e1veis, e n\u00e3o mais ricos\u201d (Benjamin, \u201cExperi\u00eancia e pobreza\u201d).<\/p>\n<p>A ang\u00fastia que resulta desse risco de desapari\u00e7\u00e3o e da impossibilidade de narrar tem como resposta, no p\u00f3s-guerra, a constru\u00e7\u00e3o de grandes monumentos e a ansiedade de constituir arquivos que possam acolher todas as formas poss\u00edveis de documentos, artefatos e testemunhos referentes a certa experi\u00eancia que merece ser lembrada (Andreas Huyssen, <i>Seduzidos pela mem\u00f3ria<\/i>), visando tamb\u00e9m garantir \u00a0uma interpreta\u00e7\u00e3o segura daquilo que supostamente representam. Essa estrat\u00e9gia quantitativa revela tamb\u00e9m uma abordagem totalizante da mem\u00f3ria. Se a destrui\u00e7\u00e3o dos arquivos havia sido uma pr\u00e1tica recorrente nos regimes fascistas, \u00e9 igualmente perigosa a imposi\u00e7\u00e3o de um processo definitivo de organiza\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o das reminisc\u00eancias.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias est\u00e9ticas de apropria\u00e7\u00e3o t\u00eam o m\u00e9rito de assumir a incompletude dos fragmentos com que lida e, mais do que isso, de arrancar das lacunas que restam o potencial de intera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria com o presente. Com isso, garante o espa\u00e7o para o que pode haver de involunt\u00e1rio na mem\u00f3ria, sentidos que se constituem numa rela\u00e7\u00e3o com cada momento do olhar, e que n\u00e3o s\u00e3o dados a conhecer previamente, muito menos, definitivamente.<\/p>\n<div id=\"attachment_4993\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/imagem_migrante_top1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4993\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4993\" alt=\"Nati Canto\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/imagem_migrante_top-620x368.jpg\" width=\"620\" height=\"368\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4993\" class=\"wp-caption-text\">Nati Canto, Reminisc\u00eancias\/Remanesc\u00eancias, 2013 [trabalho mostrado na exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Imagem Mi(g)rante&#8221;, na Galeria Zipper, com curadoria de Mario Gioia]<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Oposi\u00e7\u00e3o entre realidade e representa\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Cada vez mais, tomamos as imagens como refer\u00eancia para pensar o mundo e definir nossos comportamentos. A resposta filos\u00f3fica a essa constata\u00e7\u00e3o vem normalmente sob a forma de uma den\u00fancia: a imagem usurpa o lugar da realidade (Jean Baudrillard, <i>Simulacros e Simula\u00e7\u00e3o<\/i>) que, ent\u00e3o, se v\u00ea reduzida a um jogo de meras apar\u00eancias. Muitos artistas assumem essa teoria como quest\u00e3o central em seus trabalhos (a exemplo de Cindy Sherman e Sherrie Levine). Alguns, pontualmente, usar\u00e3o tamb\u00e9m a estrat\u00e9gia da apropria\u00e7\u00e3o como forma de demarcar o excesso, a repetitividade e o vazio dessas imagens (a exemplo de Pen\u00e9lope Umbrico e Joachim Schmid).<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 preciso buscar nas imagens algo mais do uma apar\u00eancia que elas pr\u00f3prias ajudam a moldar. Mas as teorias que op\u00f5em radicalmente imagem e realidade parecem sonhar com a possibilidade de uma exist\u00eancia das coisas em estado puro e origin\u00e1rio, algo que, para um ser simb\u00f3lico como o homem, s\u00f3 pode existir como fantasia te\u00f3rica. Viver dentro de uma cultura \u00e9 dar sentido \u00e0s coisas e assumir pap\u00e9is. N\u00e3o h\u00e1 portanto como pensar uma realidade humana sem dar conta das representa\u00e7\u00f5es que o homem constr\u00f3i de si mesmo e de seu entorno.<\/p>\n<p>Superada a posi\u00e7\u00e3o manique\u00edsta que op\u00f5e imagem e realidade, e que se interroga sobre a veracidade ou a falsidade das fotografias, reencontramos nas apropria\u00e7\u00f5es uma estrat\u00e9gia que visa tocar efetivamente a hist\u00f3ria de um sujeito, de uma fam\u00edlia, de um grupo social, naquilo que invariavelmente eles pr\u00f3prios t\u00eam de representa\u00e7\u00e3o, uma &#8220;realidade simb\u00f3lica&#8221; da qual essas fotografias participam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Hegemonia da hist\u00f3ria da arte<\/b><\/p>\n<p>O historiador e antrop\u00f3logo Hans Belting aponta os riscos de querer organizar a hist\u00f3ria das imagens sob a perspectiva hegem\u00f4nica da arte (<em>O fim da hist\u00f3ria da arte<\/em>). Na pr\u00e1tica, o que ele quer dizer, e que n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil demonstrar, \u00e9 que boa parte das imagens \u00e0 qual a hist\u00f3ria da arte se refere n\u00e3o teve em seu momento qualquer pretens\u00e3o de constituir aquilo que hoje entendemos como obra de arte. Olhando para o passado, percebemos que muitas imagens compunham din\u00e2micas utilit\u00e1rias: a magia, os ritos religiosos ou sociais, documenta\u00e7\u00f5es, ilustra\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, propaganda etc. Pensando o mundo contempor\u00e2neo, torna-se ainda mais evidente o fato de que apenas uma parte da nossa produ\u00e7\u00e3o de imagens est\u00e1 relacionada a prop\u00f3sitos art\u00edsticos. A hist\u00f3ria da arte deveria ser, portanto, apenas um cap\u00edtulo de uma hist\u00f3ria mais ampla das imagens.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a apropria\u00e7\u00e3o de imagens \u2013 que est\u00e3o em \u00e1lbuns de fam\u00edlia, ou nos jornais, na publicidade \u2013 representa o \u00a0reconhecimento, por parte dos pr\u00f3prios artistas, de que h\u00e1 uma cultura visual para al\u00e9m do universo da arte. Significa tamb\u00e9m o desejo de colocar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica em di\u00e1logo com esse aspecto mais amplo da cultura do qual as imagens participam, sem a necessidade de uma hierarquiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>* Este texto, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o feita na Galeria Zipper, em janeiro de 2013, em debate com Jo\u00e3o Castilho e Thyago Nogueira, sobre a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Imagem Mi(g)rante&#8221;, que teve curadoria de Mario Gioia. Artistas: Adriana Affortunati, Ana Lucia Mariz, Fernanda Barreto, Ivan Grilo, Jo\u00e3o Castilho, Marcelo Amorim, Marcia Rosolia, Mariana Tassinari, Mayana Redin, Monica Tinoco, Nati Canto e Selene Alge.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fotografia foi considerada uma forma menor de express\u00e3o porque, supostamente, limitava-se a coletar do mundo, por meio de um gesto mec\u00e2nico, fragmentos de formas prontas e j\u00e1 resolvidas em seus sentidos. Em resposta, a afirma\u00e7\u00e3o da fotografia como arte exigiu reduzir a realidade a um estado de mat\u00e9ria-prima insignificante, dispon\u00edvel para a manipula\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo e para a proje\u00e7\u00e3o de sentidos que lhe s\u00e3o totalmente subjetivos. Se essas posi\u00e7\u00f5es extremas nos deixam uma li\u00e7\u00e3o, \u00e9 a necessidade de enxergar o processo de cria\u00e7\u00e3o como algo que concilia inven\u00e7\u00e3o e encontro. 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