{"id":4955,"date":"2013-05-07T15:51:38","date_gmt":"2013-05-07T15:51:38","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4955"},"modified":"2017-03-01T12:42:38","modified_gmt":"2017-03-01T12:42:38","slug":"os-postais-efemeros-da-enigmatica-serie-f","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/os-postais-efemeros-da-enigmatica-serie-f\/","title":{"rendered":"Os postais ef\u00eameros da enigm\u00e1tica S\u00e9rie F"},"content":{"rendered":"<p>O que significa para a cronologia da fotografia apresentar novos nomes e fatos que poder\u00e3o trazer mais consist\u00eancia \u00e0 sua hist\u00f3ria? Evidentemente, os novos dados s\u00e3o sempre bem vindos, mas n\u00e3o podemos esquecer que muitas vezes eles nascem relacionados a uma experi\u00eancia vivida, relatada oralmente por aqueles que participaram do processo. \u00c0 medida que nos distanciamos no tempo, algumas dessas iniciativas se valorizam, outras se perdem nas sombras do esquecimento, e temos aquelas que v\u00e3o se manifestando aos poucos, at\u00e9 encontrar o momento exato para se tornarem p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Como muitos sabem, tenho uma pequena cole\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es postais brasileiros e essa paix\u00e3o surgiu quando percebi, no in\u00edcio de minha forma\u00e7\u00e3o como pesquisador da fotografia brasileira, a potencialidade desse objeto enquanto fonte de informa\u00e7\u00e3o. Claro que estou pensando nas milhares de s\u00e9ries (sim, milhares!) produzidas na primeira metade do s\u00e9culo XX. Com isso, eu me aproximei de um universo delirante de colecionadores, cartofilistas apaixonados pelos temas, pelas cidades, pelos bondes, pelas s\u00e9ries e muito mais. Particularmente, meu interesse \u00e9 a pr\u00f3pria fotografia. Busco entender a produ\u00e7\u00e3o de um conjunto de cart\u00f5es postais a partir dos diferentes interesses de seus produtores \u2013 social, pol\u00edtico, comercial, cultural.<\/p>\n<div id=\"attachment_4961\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4961\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4961\" alt=\"Pal\u00e1cio das Ind\u00fastrias - F 393\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/img7-620x398.jpg\" width=\"620\" height=\"398\" \/><p id=\"caption-attachment-4961\" class=\"wp-caption-text\">Pal\u00e1cio das Ind\u00fastrias &#8211; F 393<\/p><\/div>\n<p>Ado Kyrou, em seu cl\u00e1ssico livro <i>L\u2019Age D\u2019Or de la Carte Postale<\/i>, defende que esse per\u00edodo de ouro ocorreu entre 1900 e 1925, quando as t\u00e9cnicas de impress\u00e3o evolu\u00edram e possibilitaram \u00e0 fotografia um espa\u00e7o de dissemina\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, bem diverso dos jornais e das revistas ilustradas. No Brasil, s\u00f3 para se concentrar nos mais conhecidos, tivemos uma rica produ\u00e7\u00e3o cartofilista nas s\u00e9ries de Marc Ferrez, Guilherme Gaensly, Augusto Malta, entre outros.<\/p>\n<p>Em contrapartida, tivemos uma produ\u00e7\u00e3o de menor escala, na maioria das vezes em suporte fotogr\u00e1fico, que podemos hoje entender como c\u00f3pias de \u00e9poca, atualmente de dif\u00edcil acesso e raramente encontrado nos nichos especializados em comercializar esse tipo de produto. No Brasil, os cart\u00f5es postais, em sua maioria, t\u00eam como temas vistas urbanas ou rurais evidenciando ora a transforma\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os nas capitais e grandes cidades, ora a rotina de trabalho nas fazendas de caf\u00e9 ou cana de a\u00e7\u00facar. Excepcionalmente, temos algumas cenas do cotidiano, nas quais a figura humana \u00e9 destacada em sua profiss\u00e3o, como uma das s\u00e9ries de Ferrez, por exemplo.<\/p>\n<p>Nos anos 1940 e 1960, per\u00edodo em que a produ\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es postais se arrefeceu em todo o mundo, destacam-se algumas interessantes iniciativas em S\u00e3o Paulo. Entre elas, o Foto Postal Colombo, de Sulpizio Colombo, 1888-1970; a CTP (copyright Theodor Preising), de Theodor Preising, 1883-1962; a FotoLabor, de Werner Haberkorn, 1907-1997; e uma misteriosa e numerosa S\u00e9rie F, entre outras. Vou me concentrar na S\u00e9rie F que tanto j\u00e1 perturbou os colecionadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, chegou-se a conclus\u00e3o de que a S\u00e9rie F era uma produ\u00e7\u00e3o da Loja Fot\u00f3ptica e, t\u00e3o logo constatou-se a informa\u00e7\u00e3o, fui checar com meu querido amigo Thomaz Farkas, fot\u00f3grafo pioneiro do Foto Cine Clube Bandeirante, produtor de cinema, empres\u00e1rio de sucesso e grande incentivador da fotografia brasileira atrav\u00e9s da revista e da Galeria Fot\u00f3ptica.<\/p>\n<p>Para minha surpresa, Farkas n\u00e3o s\u00f3 confirmou as expectativas como, ao longo de v\u00e1rias conversas, foi passando boas informa\u00e7\u00f5es sobre a enigm\u00e1tica S\u00e9rie F. O curioso \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 numerada e chega a mais de mil imagens, mas desconhecemos a s\u00e9rie completa. Indaguei-o por diversas vezes para verificar quem poderia ter a s\u00e9rie, mas nem mesmo a Fot\u00f3ptica teve a preocupa\u00e7\u00e3o de manter pelo menos uma cole\u00e7\u00e3o em seus arquivos.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o das imagens tamb\u00e9m \u00e9 curiosa. Sem uma edi\u00e7\u00e3o fechada ou pr\u00e9-visualizada, me surpreendi ao saber que as fotografias transformadas em cart\u00e3o postal t\u00eam autorias distintas. Podemos, no limite, afirmar que cada imagem tem um autor diferente, porque a sele\u00e7\u00e3o se dava de modo muito peculiar. Segundo Farkas, o fot\u00f3grafo amador deixava seu filme na loja para revelar e ampliar, atividade bastante comum nesse per\u00edodo intermedi\u00e1rio da democratiza\u00e7\u00e3o do fazer fotogr\u00e1fico. O laboratorista, ao se deparar com uma boa imagem \u2013 os crit\u00e9rios eram absolutamente subjetivos \u2013, informava o chefe do laborat\u00f3rio e o balconista da loja que faziam a intermedia\u00e7\u00e3o com o fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Este, por sua vez, quase sempre ficava lisonjeado com a escolha e, em troca de alguns postais e mais alguns descontos, permitia o uso de sua imagem. A tiragem \u00e9 outro mist\u00e9rio, pois Farkas n\u00e3o soube me dizer com exatid\u00e3o os n\u00fameros praticados, mas lembrava-se de alguns cart\u00f5es postais de sucesso que chegavam a 500 c\u00f3pias. As c\u00f3pias eram ampliadas em papel Wessel e, na maioria das vezes, a tiragem era feita manualmente.<\/p>\n<p>Um dos funcion\u00e1rios mais graduados da Fot\u00f3ptica era Fredi Kleemann (1927-1974), de origem alem\u00e3 e que, durante anos, foi balconista e eventualmente laboratorista. Segundo depoimento de German Lorca, o chefe do laborat\u00f3rio era um senhor chamado Alexandre e talvez um dos respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o das fotografias. Kleemann, por sua vez, tamb\u00e9m se notabilizou por produzir um precioso acervo fotogr\u00e1fico do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia (TBC), onde tamb\u00e9m atuava como ator. Seu acervo foi adquirido pela Secretaria Municipal de Cultura, na gest\u00e3o de S\u00e1bado Magaldi, e encontra-se dispon\u00edvel para consultas na Divis\u00e3o de Pesquisas do Centro Cultural S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<div id=\"attachment_4960\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4960\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4960\" alt=\"Afinando a Viola - F 227, que remete a uma das obras de Almeida \/ O jornaleiro Cl\u00f3vis - S. Paulo - F 130\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/img5_6-620x477.jpg\" width=\"620\" height=\"477\" \/><p id=\"caption-attachment-4960\" class=\"wp-caption-text\">Afinando a Viola &#8211; F 227, que remete a uma das obras de Almeida Junior \/ O jornaleiro Cl\u00f3vis &#8211; S. Paulo &#8211; F 130<\/p><\/div>\n<p>Vemos a cidade como metr\u00f3pole emergente, alguns de seus personagens mais c\u00e9lebres, como o jornaleiro Cl\u00f3vis flagrado em plena atividade no centro velho da cidade de S\u00e3o Paulo, a flora e a fauna, e alguns cart\u00f5es de atividades t\u00e3o singulares que mereceram o destaque de estar na S\u00e9rie F, da Fot\u00f3ptica. \u00c9 bom especular: como essa quest\u00e3o era difundida entre os usu\u00e1rios do laborat\u00f3rio? Ser\u00e1 que eles fotografavam com a inten\u00e7\u00e3o de ter sua fotografia selecionada? O distanciamento hist\u00f3rico e a falta de documenta\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o permitam que tenhamos respostas precisas. Mas, garanto que durante meus encontros com Farkas, em diferentes ocasi\u00f5es, provoquei bastante sua mem\u00f3ria para extrair o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es com a inten\u00e7\u00e3o de colaborar nessa complexa teia que \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria da fotografia contada a partir dos seus principais colaboradores.<\/p>\n<div id=\"attachment_4962\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4962\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4962\" alt=\"Edif\u00edcio Martinelli - S. Paulo - F 74 \/ Rua S\u00e3o Bento - S. Paulo -  F 548, local da Loja Fot\u00f3ptica\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/img8_9-620x452.jpg\" width=\"620\" height=\"452\" \/><p id=\"caption-attachment-4962\" class=\"wp-caption-text\">Edif\u00edcio Martinelli &#8211; S. Paulo &#8211; F 74 \/ Rua S\u00e3o Bento &#8211; S. Paulo &#8211; F 548, local da Loja Fot\u00f3ptica<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_4959\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4959\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4959\" alt=\"Caf\u00e9  - F 282 \/ Algodoeiro - F 361\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/img1_4-620x473.jpg\" width=\"620\" height=\"473\" \/><p id=\"caption-attachment-4959\" class=\"wp-caption-text\">Caf\u00e9 &#8211; F 282 \/ Algodoeiro &#8211; F 361<\/p><\/div>\n<p>Como a S\u00e9rie F \u00e9 volumosa, reunimos um grupo de colecionadores para juntar as pe\u00e7as e tentar entender atrav\u00e9s da numera\u00e7\u00e3o das imagens, os temas tratados e os espa\u00e7os p\u00fablicos eleitos. Claro que, para a Fot\u00f3ptica, a produ\u00e7\u00e3o significava mais uma op\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cio e valoriza\u00e7\u00e3o do cliente. A ideia, segundo Farkas, veio de seu pai Desid\u00e9rio Farkas, e por diversas vezes lembrou-me que havia a produ\u00e7\u00e3o de c\u00f3pias em tamanho postal e, entre as melhores fotografias, produziam-se ainda c\u00f3pias em tamanho 18X24 cm. Ao olhar retrospectivamente o neg\u00f3cio com os olhos de hoje, podemos supor que se tratava de um empreendimento que visava tamb\u00e9m valorizar a fotografia como meio de express\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabemos que, de tempos em tempos, surge uma novidade no cen\u00e1rio da fotografia brasileira. Estamos atentos para a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, mas n\u00e3o podemos deixar cair no esquecimento empreendimentos como esse, de desaparecimento programado \u00e0 medida que o postal \u00e9 um objeto ef\u00eamero e descart\u00e1vel. Trazer de volta \u00e0 luz boas iniciativas \u00e9 tamb\u00e9m nossa responsabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que significa para a cronologia da fotografia apresentar novos nomes e fatos que poder\u00e3o trazer mais consist\u00eancia \u00e0 sua hist\u00f3ria? Evidentemente, os novos dados s\u00e3o sempre bem vindos, mas n\u00e3o podemos esquecer que muitas vezes eles nascem relacionados a uma experi\u00eancia vivida, relatada oralmente por aqueles que participaram do processo. \u00c0 medida que nos distanciamos no tempo, algumas dessas iniciativas se valorizam, outras se perdem nas sombras do esquecimento, e temos aquelas que v\u00e3o se manifestando aos poucos, at\u00e9 encontrar o momento exato para se tornarem p\u00fablicas. 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