{"id":4900,"date":"2013-04-23T21:30:12","date_gmt":"2013-04-23T21:30:12","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4900"},"modified":"2016-05-28T13:39:46","modified_gmt":"2016-05-28T13:39:46","slug":"revistas-papeis-efemeros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/revistas-papeis-efemeros\/","title":{"rendered":"Revistas \u2013 pap\u00e9is ef\u00eameros"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 declarei minha fissura por revistas. De prefer\u00eancia as mais antigas, editadas entre 1940 e 1970 no Brasil, per\u00edodo em que a fotografia brasileira come\u00e7a a se libertar da vis\u00e3o que a toma como representa\u00e7\u00e3o objetiva dos fatos para, aos poucos, ser entendida como uma forma de express\u00e3o daqueles que dela se utilizavam. Recentemente completei minha cole\u00e7\u00e3o da revista <i>Mirante das Artes, etc<\/i>, editada por Pietro Maria Bardi para alavancar sua galeria de mesmo nome, localizada \u00e0 rua Estados Unidos, 1494. Com 12 edi\u00e7\u00f5es e periodicidade bimestral, iniciou seu percurso em janeiro\/fevereiro de 1967 e encerrou seu ciclo em novembro\/dezembro de 1968. A revista teve projeto gr\u00e1fico de Lina Bo Bardi e seu logotipo foi desenhado por Wesley Duke Lee.<\/p>\n<div id=\"attachment_4902\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4902\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4902\" alt=\"Logo, Mirante das Artes\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Foto3_resized-620x420.jpg\" width=\"620\" height=\"420\" \/><p id=\"caption-attachment-4902\" class=\"wp-caption-text\">Logo, Mirante das Artes<\/p><\/div>\n<p>O formato generoso da publica\u00e7\u00e3o, 32,5 x 23 cm fechada, possibilitava uma pagina\u00e7\u00e3o diferenciada, e seu conte\u00fado estava sintonizado com a explos\u00e3o da cultura de massa no Brasil \u2013 al\u00e9m de arte e mercado, trazia cr\u00edticas e coment\u00e1rios sobre televis\u00e3o, design, arquitetura, moda, publicidade, m\u00fasica e claro, fotografia, que \u00e9 de nosso interesse em particular. Vale destacar que antes dessa experi\u00eancia o casal Bardi editou a revista <i>Habitat<\/i>, criada em 1950, ve\u00edculo em que eles j\u00e1 defendiam suas ideias acerca da cultura industrial. Na vis\u00e3o deles, em vez de amea\u00e7ar as artes tradicionais, ela deveria ser compreendida no \u00e2mbito de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural mais ampla que transformaria radicalmente o pa\u00eds.<\/p>\n<div id=\"attachment_4903\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4903\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4903\" alt=\"Mirante das Artes\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/mirante_das_artes-620x422.jpg\" width=\"620\" height=\"422\" \/><p id=\"caption-attachment-4903\" class=\"wp-caption-text\">Mirante das Artes<\/p><\/div>\n<p>Mais tarde, em 1977, Bardi torna-se diretor da revista <i>Arte Vogue<\/i>, especial da revista <i>Vogue<\/i> editada pela Carta Editorial, que teve v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es. Aqui tamb\u00e9m repetiu a experi\u00eancia e publicou indistintamente discuss\u00f5es sobre os mesmos temas anteriores, n\u00e3o esquecendo de valorizar a fotografia e seu incipiente mercado. No editorial da primeira edi\u00e7\u00e3o pod\u00edamos ler: \u201cA comunica\u00e7\u00e3o visual \u00e0s vezes prevalecer\u00e1 sobre a escrita \u2013 em fun\u00e7\u00e3o das novas prefer\u00eancias impostas pela mudan\u00e7a dos gostos e pelo desejo de ver mais do que ler. (&#8230;) Assim saltando fora do \u00e2mbito das artes ditas pl\u00e1sticas, anotaremos coisas do palco e do v\u00eddeo, a m\u00fasica, a publicit\u00e1ria pot\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o integrada no cotidiano, a gr\u00e1fica e o livro. Lugar preferencial daremos, tamb\u00e9m, a outros cap\u00edtulos da arte: a fotogr\u00e1fica, express\u00e3o da individualidade. E a tantas mais ocorr\u00eancias e novidades que representarem parcelas da nutri\u00e7\u00e3o cultural.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_4901\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4901\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4901\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/arte_vogue-620x387.jpg\" width=\"620\" height=\"387\" \/><p id=\"caption-attachment-4901\" class=\"wp-caption-text\">Arte Vogue<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 importante fazer esse exerc\u00edcio retrospectivo para entender que a fotografia foi sempre muito valorizada por Pietro Maria Bardi. N\u00e3o podemos esquecer que, em 1949, Geraldo de Barros e Thomaz Farkas foram convidados para organizar o laborat\u00f3rio de fotografia do Masp introduzindo pioneiramente a fotografia num museu brasileiro. Farkas realizou sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual no mesmo ano e Geraldo de Barros exibiu a s\u00e9rie <i>Fotoforma<\/i> no ano seguinte. Sem essa vis\u00e3o progressista, a fotografia jamais teria o espa\u00e7o e a resson\u00e2ncia que teve no per\u00edodo.<\/p>\n<p>Em todos os n\u00fameros da revista <i>Mirantes das Artes, etc<\/i> encontramos refer\u00eancias ao movimento fotogr\u00e1fico do per\u00edodo. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel conhecer alguns anunciantes, entre eles, a Fot\u00f3ptica, parceira desde sempre da fotografia brasileira; a Livraria Kosmos Editora, respons\u00e1vel pela edi\u00e7\u00e3o de importantes livros de fotografia; a pr\u00f3pria galeria Mirante das Artes anunciando \u00c1lbuns de Fotografia de Maureen Bisilliat, Otto Stupakoff, Olivier Perroy, M.A. Vigliolia, Jos\u00e9 Medeiros.<\/p>\n<div id=\"attachment_4905\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4905\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4905\" alt=\"\u00c1lbuns de Fotografias\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/varios-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><p id=\"caption-attachment-4905\" class=\"wp-caption-text\">\u00c1lbuns de Fotografias<\/p><\/div>\n<p>Logo no primeiro n\u00famero abre-se a se\u00e7\u00e3o \u201cOlho da Fotografia\u201d com a entrevista <i>Lew Parrella conversa<\/i>. Parrella \u00e9 um fot\u00f3grafo americano que chegou a S\u00e3o Paulo em 1961. Sua experi\u00eancia anterior inclu\u00eda a edi\u00e7\u00e3o americana da revista su\u00ed\u00e7a <i>Camera<\/i> e, antes disso, o trabalho como assistente dos fot\u00f3grafos Arnold Newman, Phillipe Halsman e W. Eugene Smith. Tamb\u00e9m foi curador e cr\u00edtico de fotografia. Ali, podemos identificar aquilo que seria o tom dessa se\u00e7\u00e3o ao longo das v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es da revista: a cr\u00edtica \u00e0 falta de t\u00e9cnica, educa\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica e forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para os profissionais brasileiros.<\/p>\n<p>Em uma das suas respostas sobre o fot\u00f3grafo brasileiro daquele momento, afirmou: \u201c&#8230;Mas antes de mais nada temos que trabalhar nas condi\u00e7\u00f5es em que se acham os profissionais. Os padr\u00f5es\u00a0 com os quais a fotografia \u00e9 aproveitada est\u00e3o atualmente determinados por inexperientes e n\u00e3o qualificados. Eis a raz\u00e3o pela qual o campo dos fot\u00f3grafos permanece num n\u00edvel inadequado; a maioria s\u00e3o <i>(sic.)<\/i> simples \u2018tiro-ao-alvo\u2019, rep\u00f3rteres de n\u00edvel med\u00edocre ou t\u00e9cnicos talvez tecnicamente adequados mas culturalmente deficientes.\u201d E, mais adiante, destaca dois profissionais: \u201cVemos um Otto Stupakoff atingindo personalidade em n\u00edvel superior \u00e0 m\u00e9dia de oferecimento e aprecia\u00e7\u00e3o de trabalho acabou encontrando em Nova York a posi\u00e7\u00e3o merecida; um Jos\u00e9 Medeiros, profissional s\u00e9rio e vivo, acaba procurando trabalho no cinema.\u201d<\/p>\n<p>Ao longo das edi\u00e7\u00f5es, podemos ver cr\u00e9dito destacado nas fotografias de Peter Scheier, Cartier-Bresson, Dulce Carneiro, Gregori Warchavchik, Jos\u00e9 Xavier, Lenita Perroy, Pierre Verger, Hans Gunter Flieg, Marcel Gautherot, German Lorca, e mais aqueles acima citados. Na edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 9, vemos a \u00fanica capa fotogr\u00e1fica, assinada por Alice Brill. Enfim, \u00e9 poss\u00edvel detectar os nomes que se consagrariam nas d\u00e9cadas posteriores na constela\u00e7\u00e3o da fotografia brasileira e, mesmo assim, alguns s\u00e3o desconhecidos pelas novas gera\u00e7\u00f5es. Da\u00ed meu interesse em trazer \u00e0 superf\u00edcie, sempre que poss\u00edvel, esses nomes que se preocuparam em produzir uma fotografia diferenciada.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 4, a se\u00e7\u00e3o \u201cOlho da Fotografia\u201d traz um texto assinado por Alvaro Semina denominado <i>Fotos massificantes<\/i>, no qual \u00e9 percept\u00edvel uma leve cr\u00edtica ao regime militar e a valoriza\u00e7\u00e3o de outra fotografia: \u201cA massifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 atrav\u00e9s da televis\u00e3o, r\u00e1dio, cinema, propaganda ou manchete de jornais. No Brasil est\u00e1 surgindo um novo elemento massificador. Trata-se da fotografia. N\u00e3o evidentemente a fotografia que labora num campo est\u00e9tico, procurando revelar, conhecer e inventar. Mas um g\u00eanero original de fotografia que, depois de 1964, alguns jornais brasileiros vem pondo em circula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>As revistas de arte que circularam no per\u00edodo do regime militar n\u00e3o s\u00f3 elaboraram cr\u00edticas ao governo mas, ao mesmo tempo, criaram uma discuss\u00e3o em torno da fotografia que ganhava espa\u00e7o nos museus e galerias internacionais. Na edi\u00e7\u00e3o de n\u00famero 6, \u201cOlho da Fotografia\u201d traz o texto <i>Uma Sub-profiss\u00e3o?<\/i>, assinado por Luis Humberto Martins Pereira, nosso primeiro decano na \u00e1rea acad\u00eamica da fotografia atrav\u00e9s da Universidade de Bras\u00edlia. Leiam o fragmento que continua atual: \u201c\u00c9 arte na medida em que se consegue utilizar essa linguagem, plasticamente ordenada, atrav\u00e9s de um firme dom\u00ednio dos meios e conseguir comunicar aquilo que de uma forma ou de outra conseguiu nos sensibilizar. Em resumo \u00e9 um ato de op\u00e7\u00e3o, uma forma de express\u00e3o individual, resultante de um pensamento consciente e de uma atitude diante da vida.\u201d<\/p>\n<p>A revista <i>Mirante das Artes, etc<\/i> foi pioneira entre as revistas de arte ao trazer a fotografia para o primeiro plano. Claramente critica a car\u00eancia dos nossos profissionais ao afirmar que sendo \u201cmestres em fotografar o Carnaval e o futebol, mestres em fotografar ladr\u00f5es nas delegacias, nossos fot\u00f3grafos n\u00e3o se dedicam \u00e0 cultura\u201d. Tamb\u00e9m assume a precariedade da nossa forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e cultural, e coloca em discuss\u00e3o a necessidade de se criar condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para fotografarmos n\u00e3o apenas quantitativamente, mas produzir uma fotografia que estivesse em sintonia com as artes visuais, que naquele momento experimentava as primeiras experi\u00eancias internacionais.<\/p>\n<p>As velhas revistas s\u00e3o esclarecedoras. Elas balizam a mem\u00f3ria e trazem significativas refer\u00eancias para a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria que seja justa com seus participantes. Nesse breve panorama, tive a inten\u00e7\u00e3o de estimular ideias a partir de um olhar retrospectivo e tornar p\u00fablico fragmentos que est\u00e3o esquecidos, justamente pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que permitam acesso irrestrito \u00e0s informa\u00e7\u00f5es arquivadas nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 declarei minha fissura por revistas. De prefer\u00eancia as mais antigas, editadas entre 1940 e 1970 no Brasil, per\u00edodo em que a fotografia brasileira come\u00e7a a se libertar da vis\u00e3o que a toma como representa\u00e7\u00e3o objetiva dos fatos para, aos poucos, ser entendida como uma forma de express\u00e3o daqueles que dela se utilizavam. Recentemente completei minha cole\u00e7\u00e3o da revista Mirante das Artes, etc, editada por Pietro Maria Bardi para alavancar sua galeria de mesmo nome, localizada \u00e0 rua Estados Unidos, 1494. 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