{"id":487,"date":"2010-02-23T06:24:08","date_gmt":"2010-02-23T06:24:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=487"},"modified":"2016-05-28T14:33:40","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:40","slug":"gordon-matta-clark-o-registro-como-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/gordon-matta-clark-o-registro-como-obra\/","title":{"rendered":"Gordon Matta-Clark: o registro como obra"},"content":{"rendered":"<p>Gordon Matta-Clark (1943-1978) pertenceu a uma gera\u00e7\u00e3o de artistas que, a partir dos anos 60 e 70, rompeu com as linguagens tradicionais para realizar a\u00e7\u00f5es cujo valor est\u00e1 sobretudo na experi\u00eancia e nos debates que propiciam. Seus trabalhos mais importantes s\u00e3o interven\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os urbanos, \u00e0s vezes sutis como a compra de propriedades min\u00fasculas e in\u00fateis que restaram da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria em Nova York; \u00e0s vezes grandiosas, como orif\u00edcios e recortes gigantescos feitos em edif\u00edcios que estavam prestes a desaparecer da paisagem.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, \u00e9 uma boa oportunidade para discutir uma quest\u00e3o mal digerida pela hist\u00f3ria da fotografia: o registro  da obra elevado, ele pr\u00f3prio, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de obra de arte. Esses mesmos anos 60 e 70 abriram espa\u00e7os para todo um universo de obras ef\u00eameras ou, \u00e0s vezes, inacess\u00edveis ao p\u00fablico: performances, processos criativos sem produtos efetivos, instala\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias ou sujeitas a uma r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00f5es de pequeno ou grande porte mas que aconteciam em lugares privados ou muito distantes do olhar do p\u00fablico. Assumindo-se como provis\u00f3rias, essas experi\u00eancias foram documentadas atrav\u00e9s da fotografia, cinema, v\u00eddeo e de outros rastros que eventualmente deixaram. Tornando-se reconhecidas, as imagens que geraram passaram a ser expostas em galerias e museus e, ainda, arquivadas, vendidas e colecionadas, ganhado uma aura que ultrapassa seu valor informativo.<\/p>\n<div id=\"attachment_501\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-501\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-501\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/Gordon-Matta-Clark-splitting-1974-487x391.jpg\" alt=\"Gordon Matta-Clark, splitting, 1974\" width=\"487\" height=\"391\" \/><p id=\"caption-attachment-501\" class=\"wp-caption-text\">Gordon Matta-Clark, splitting, 1974<\/p><\/div>\n<p>No caso de Matta-Clark,\u00a0<a href=\"http:\/\/oneartworld.com\/artists\/G\/Gordon+Matta-Clark.html?atab=auctions\">uma r\u00e1pida pesquisa na web<\/a> permite verificar que essas fotografias s\u00e3o vendidas com certa regularidade em leil\u00f5es. Ainda que a no\u00e7\u00e3o de originalidade aplicada a fotografia seja sempre discut\u00edvel, trata-se c\u00f3pias assinadas diretamente pelo artista, ou acompanhadas de certificados de autenticidade emitidos por ele ou, no m\u00ednimo, legitimadas por um hist\u00f3rico de exposi\u00e7\u00f5es que incluem grandes retrospectivas e bienais.<\/p>\n<p>Para aqueles que tiveram o olhar formado pelo esp\u00edrito transgressor das \u00faltimas d\u00e9cadas, essa assimila\u00e7\u00e3o dos registros documentais pelas institui\u00e7\u00f5es de arte n\u00e3o chega a ser um problema. No m\u00e1ximo, \u00e9 uma ocasi\u00e3o para refletir sobre o quanto o mercado exige, mesmo das experi\u00eancias mais desmaterializadas, que a arte produza algum tipo de objeto colecion\u00e1vel. Para os cr\u00edticos espec\u00edficos da fotografia, para a hist\u00f3ria espec\u00edfica da fotografia e para os fot\u00f3grafos, a quest\u00e3o soa mais desconfort\u00e1vel, porque a imagem \u00e9 aqui apenas um meio, n\u00e3o um fim. \u00c9 instrumental, perif\u00e9rica, submissa a um processo de cria\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha a fotografia como centro de suas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Matta-Clark n\u00e3o \u00e9 o caso mais problem\u00e1tico. Quem for \u00e0 retrospectiva perceber\u00e1 que muitas vezes a documenta\u00e7\u00e3o em fotografia, cinema ou v\u00eddeo estava planejada. As a\u00e7\u00f5es eram passageiras, mas j\u00e1 consideravam em suas po\u00e9ticas os meios para falar \u00e0 posteridade.  Mesmo assim, ainda \u00e9 irrelevante discutir se os registros foram feitos pelo artista ou por terceiros. Uma vez que tanto se lutou para construir a no\u00e7\u00e3o de &#8220;fotografia de autor&#8221;, essa submiss\u00e3o e esse anonimato podem se tornar dolorosos.<\/p>\n<div id=\"attachment_527\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-527\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-527 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/Yves-Klein-Salto-no-Vazio-1960-foto-Harry-Shunk1.jpg\" alt=\"Yves Klein - Salto no Vazio - 1960 - foto Harry Shunk\" width=\"270\" height=\"340\" \/><p id=\"caption-attachment-527\" class=\"wp-caption-text\">Salto no Vazio (1960) de Yves Klein, em foto de Harry Shunk<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico o caso do fot\u00f3grafo Harry Shunk, que fotografou v\u00e1rios artistas dessa gera\u00e7\u00e3o irrequieta em plena a\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que ele teve autoridade para manter seu nome em evid\u00eancia e sua cole\u00e7\u00e3o reunida (adquirida em 2008 pela Funda\u00e7\u00e3o Roy Lichtenstein). N\u00e3o confundimos, por exemplo, a performance de Yves Klein com a documenta\u00e7\u00e3o feita por Shunk. Cada um tem seu trabalho, cada um tem seu valor.<\/p>\n<p>Portanto, as alternativas s\u00e3o: ou o fot\u00f3grafo desaparece de cena ou reivindica um lugar pr\u00f3prio e exclusivo. Uma terceira possibilidade, mais adequada \u00e0 complexidade dessa situa\u00e7\u00e3o, tem surgido com for\u00e7a no contexto da arte contempor\u00e2nea: a possibilidade de assumir a cria\u00e7\u00e3o como um processo coletivo. Mas, acostumados ao trabalho solit\u00e1rio, ensimesmado, silencioso, zen, ainda temos dificuldes de fazer tais parcerias. Tamb\u00e9m temos limita\u00e7\u00f5es na hora de contruir o di\u00e1logo com uma outra arte. O v\u00eddeo, que nasceu sob esses clima de ruptura, soube buscar rapidamente categorias que respondessem ao desejo de hibridiza\u00e7\u00e3o. \u00c9, por exemplo, o caso da v\u00eddeo-performance, que est\u00e1 efetivamente mais preocupada com a integra\u00e7\u00e3o do que com a hierarquia entre as linguagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_492\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-492\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-492\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/georges-rousse_Dravert_2007-280x241.jpg\" alt=\"Georges Rousse, Dravert, 2007\" width=\"280\" height=\"241\" \/><p id=\"caption-attachment-492\" class=\"wp-caption-text\">Georges Rousse, Dravert, 2007<\/p><\/div>\n<p>No caso da fotografia, as experi\u00eancias est\u00e3o a\u00ed, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil discuti-las abertamente. Conhecemos artistas que realizam a\u00e7\u00f5es exclusivamente para a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, como Georges Rousse, Cindy Sherman, Vik Muniz, Sophie Calle. Mas os olhares formados pela fotografia tendem a minimizar os aspectos de performance, cenografia, arquitetura, instala\u00e7\u00e3o dessas experi\u00eancias, para resolv\u00ea-los como etapas de uma \u201cpr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o\u201d que n\u00e3o deixa de ser tipica e essencialmente fotogr\u00e1fica. Nosso olhar conservador se orgulha de saber que a fotografia \u00e9 aqui um fim (n\u00e3o um meio), que \u00e9 a raz\u00e3o de ser da obra, e que as outras a\u00e7\u00f5es estavam a seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>O problema est\u00e1 colocado. Para os esp\u00edritos mais abertos, deixo algumas pondera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> Antes de responder se o registro \u00e9 ou n\u00e3o uma obra de arte, temos que pensar o que essas mesmas experi\u00eancias nos prop\u00f5em a respeito da no\u00e7\u00e3o de \u201cobra\u201d. N\u00e3o \u00e9 nossa concep\u00e7\u00e3o tradicional de cria\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica que ir\u00e1 nos ajudar a resolver o problema, assim como, isoladamente, as no\u00e7\u00f5es de pintura, escultura, arquitetura, teatro tampouco ajudariam.<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong>Independentemente do tipo de arte que adoramos ou abominamos, vale a pena pensar o valor social dessa experi\u00eancia de difus\u00e3o e de socializa\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 pela imagem t\u00e9cnica, mesmo quando ela n\u00e3o soa t\u00e3o nobre, dif\u00edcil e singular quanto outras obras tradicionais. Como sugeria Benjamin ao discutir o poss\u00edvel papel revolucion\u00e1rio da \u201creprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d, n\u00e3o lhe interessava naquele momento a \u201cfotografia como arte\u201d, debate t\u00e3o recorrente quanto infrut\u00edfero, mas \u201ca arte como fotografia\u201d.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Qual nome responde pela autoria quando um registro fotogr\u00e1fico ascende \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de obra? N\u00e3o haveria orgulho em ver o nome do fot\u00f3grafo na ficha t\u00e9cnica, por exmeplo, junto aos pedreiros e motoristas de tatores que ajudaram Matta-Clark a rasgar suas paredes. A obra, sobretudo a obra conceitual, \u00e9 de quem a pensa. Nesse sentido, falta ao fot\u00f3grafo construir esse lugar de algu\u00e9m que pensa a rela\u00e7\u00e3o de sua imagem com outra obra, ou que a faz junto com outro artista. Atrapalha muito um preconceito que vem de dentro, a vergonha de se supor &#8220;apenas registrando&#8221;, sobretudo quando h\u00e1 um grande nome diante da c\u00e2mera. Melhor que isso, seria assusmir o trabalho fotogr\u00e1fico como &#8220;releitura&#8221;, como &#8220;tradu\u00e7\u00e3o&#8221; e, quem sabe, como parte de uma a\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong> A possibilidade de algo s\u00f3 \u201cexistir por meio da representa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um fen\u00f4meno tipicamente contempor\u00e2neo, que toca a arte recente, mas tamb\u00e9m nossa hist\u00f3ria, nossa vida social, nossos valores, enfim, tudo daquilo que chamamos de realidade. Por exemplo, para aqueles que amam viajar e fotografar, como separar a viagem em si da viagem que foi constru\u00edda para a fotografia? \u00c9 verdade que h\u00e1 excessos e distor\u00e7\u00f5es, situa\u00e7\u00f5es em que a imagem toma completamente o lugar da experi\u00eancia. Mas, de modo geral, a imagem em si \u00e9 tamb\u00e9m uma experi\u00eancia. Por vezes achamos que a fotografia \u00e9 um instrumento submisso a uma realidade exterior a ela, por vezes, pensamos que a realidade foi totalmente engolida e substitu\u00edda pelas imagens (nestes casos, chamadas pejorativamente de simulacros). No meio dessas posi\u00e7\u00f5es radicais, existe uma medida mais interessante, que \u00e9 pensar a realidade como resultado de uma intera\u00e7\u00e3o entre as coisas e suas representa\u00e7\u00f5es. Se a imagem puder ser vista como algo que n\u00e3o t\u00e3o alheio \u00e0 realidade, as documenta\u00e7\u00f5es, os debates da cr\u00edtica, os projetos curatoriais poder\u00e3o ser pensados como elementos n\u00e3o t\u00e3o exteriores \u00e0 obra.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um problema nosso, Matta-Clark sobrevive a isso, \u00e9 maior do que isso. Com ou sem essas quest\u00f5es, vale a pena ver a exposi\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Gordon Matta-Clark: Desfazer o espa\u00e7o<\/strong> est\u00e1 em cartaz no Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo (no Parque do Ibirapuera), at\u00e9 04\/04\/10.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">[ @ ]<\/p>\n<p>PS.: acabo de ver que nosso amigo Eder Chiodetto dar\u00e1 um curso no Espa\u00e7o Saber do Clube Hebraica:<\/p>\n<p><strong>SABER VER A ARTE CONTEMPOR\u00c2NEA<\/strong><\/p>\n<p>Saber ver a arte contempor\u00e2nea far\u00e1 uma abordagem geral da Arte hoje em dia sob vis\u00e3o do mestre Eder Chiodetto com foco no trabalho do fot\u00f3grafo Gordon Matta-Clark, um dos artistas mais importantes para a hist\u00f3ria da fotografia al\u00e9m de estudar os trabalhos de artistas brasileiros como Vik Muniz e Ros\u00e2ngela Renn\u00f3.<\/p>\n<p>\u00c0s ter\u00e7as-feiras, das 20h30 \u00e0s 22h30.<br \/>\nIn\u00edcio: 16\/03<br \/>\n3818-8888\/3818-8812<br \/>\nespacosaber@hebraica.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gordon Matta-Clark (1943-1978) pertenceu a uma gera\u00e7\u00e3o de artistas que, a partir dos anos 60 e 70, rompeu com as linguagens tradicionais para realizar a\u00e7\u00f5es cujo valor est\u00e1 sobretudo na experi\u00eancia e nos debates que propiciam. 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