{"id":4857,"date":"2013-04-02T03:13:46","date_gmt":"2013-04-02T03:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4857"},"modified":"2017-03-01T12:40:35","modified_gmt":"2017-03-01T12:40:35","slug":"referencias-cruzadas-outras-luzes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/referencias-cruzadas-outras-luzes\/","title":{"rendered":"Refer\u00eancias cruzadas \u2013 outras luzes"},"content":{"rendered":"<p>In\u00fameras vezes declarei meu desejo de publicar uma hist\u00f3ria da fotografia a partir de imagens que venho colecionando h\u00e1 anos. Minha impress\u00e3o \u00e9 de que centenas (ou seriam milhares?) de fotografias vagam dispersas pelo mundo do acaso e clamam para serem reunidas de outra maneira, a fim de nos oferecer um outro olhar sobre o documento fotogr\u00e1fico. Como pesquisador atento, vibro com cada imagem que salta expressiva de um \u00e1lbum familiar ou at\u00e9 mesmo de um conjunto aleat\u00f3rio reunido numa velha caixa de sapatos.<\/p>\n<p>Acredito que os arquivos institucionalizados s\u00e3o de reconhecimento p\u00fablico, suas fotografias est\u00e3o total ou parcialmente catalogadas e parte delas j\u00e1 foi at\u00e9 mesmo\u00a0publicada. A circula\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es, circunscritas aos mesmos grupos de pesquisa e interesse, provoca repeti\u00e7\u00f5es e certa comodidade para os jovens pesquisadores que preferem quase sempre trabalhar com aquilo que de alguma forma est\u00e1 consagrado pelo <i>mainstream<\/i>.<\/p>\n<p>Tenho material iconogr\u00e1fico (fotogr\u00e1fico e impresso) suficiente para uma boa publica\u00e7\u00e3o, mas falta ainda reunir mais informa\u00e7\u00f5es que contextualizem com qualidade as fotografias que foram abandonadas em seu curso, mas que almejam sua resignifica\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria. Algumas dessas imagens descartadas merecem uma nova chance e podem ser consideradas pe\u00e7as importantes de um quebra-cabe\u00e7a que, no momento, ainda est\u00e1 em plena montagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nas \u00faltimas duas semanas, deparei-me com algumas fotografias que foram desvinculadas de seus contextos originais. Apesar de tentar entender essas atitudes, procuro estabelecer novos v\u00ednculos. Nelas, vislumbrei conex\u00f5es e narrativas que me estimulam a pens\u00e1-las em outras trajet\u00f3rias, mais pr\u00f3ximas do meu interesse de pensar a mem\u00f3ria da linguagem. A partir daquilo que foi esquecido, entendo a fotografia como enunciados determinantes para refletir sobre o homem no tempo e no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Num velho \u00e1lbum familiar, identifico o casal que fotografava suas viagens e foi nele que encontrei uma intrigante fotografia. Fiz um esfor\u00e7o para n\u00e3o adquirir o \u00e1lbum, mas convenci o propriet\u00e1rio a me vender apenas uma fotografia: a imagem do casal diante de uma escultura gigante, n\u00e3o t\u00e3o atraente como aquelas feitas diante da torre Eifel ou as que registram os passeios pelos canais de Veneza. De imediato, relacionei esta fotografia com algo que j\u00e1 tinha visto na <i>Revista S. Paulo<\/i>, publicada em 1936.<\/p>\n<p>O professor e pesquisador M\u00e1ximo Barro, amigo de longa data, ampliou meu conhecimento sobre o gigante presente na fotografia. Tratava-se de uma escultura em gesso criada pelo artista paulista Ferri, a partir de um desenho de Luiz Peixoto, um dos revist\u00f3logos mais incr\u00edveis da \u00e9poca \u2013 que tamb\u00e9m era letrista, m\u00fasico, cen\u00f3grafo, figurinista, diretor e produtor. Muito provavelmente, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com o filme King Kong (dire\u00e7\u00e3o Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack), de 1933, cuja estr\u00e9ia no Brasil deu-se anos mais tarde. Enquanto o filme trazia o gorila gigante no topo do emblem\u00e1tico Empire State Building, nosso carnaval criava um Rei Momo, tamb\u00e9m gigante, nas imedia\u00e7\u00f5es do edif\u00edcio Martinelli, o primeiro arranha-c\u00e9u de S\u00e3o Paulo. Portanto, as evid\u00eancias s\u00e3o claras. A escultura foi inaugurada na gest\u00e3o do prefeito Fabio Prado, cujo diretor do Departamento de Cultura era Mario de Andrade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4866\" alt=\"foto2_3\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/foto2_31-620x467.jpg\" width=\"620\" height=\"467\" \/><\/p>\n<p>As p\u00e1ginas da <i>Revista S. Paulo<\/i> mostraram em duas diferentes edi\u00e7\u00f5es o \u201cmonumento\u201d que consagrou a folia paulistana. O ano de 1936 marca a primeira colabora\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico municipal com o carnaval da cidade. Portanto, a fotografia adquirida se relaciona com as p\u00e1ginas da revista, de autoria de Theodor Preising e Benedito Junqueira Duarte, dois nomes essenciais da produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica brasileira. B.J. Duarte foi tamb\u00e9m um dos fundadores do Foto Clube Bandeirante, mais tarde denominado de Escola Paulista, a modernidade tardia da fotografia brasileira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4858\" alt=\"foto1\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/foto1-620x447.jpg\" width=\"620\" height=\"447\" \/><\/p>\n<p>Outra fotografia que causou alegria foi a do beb\u00ea propagando o novo filme da Kodak \u2013 o Plus-X. A surpresa \u00e9 que a fotografia est\u00e1 montada na papelaria do Est\u00fadio F.A. \u2013\u00a0 nada menos que o mestre Chico Albuquerque (1917 \u2013 2000), em seu famoso est\u00fadio localizado numa ampla casa na Avenida Rebou\u00e7as, 1700, que servia de resid\u00eancia e est\u00fadio. A fotografia est\u00e1 assinada e anuncia um novo filme, formato 120 \u2013 aten\u00e7\u00e3o: veja o pente colado \u00e0 caixa e que serve como escala. Uma fotografia de autorrefer\u00eancia, pura metalinguagem, pouco conhecida na iconografia do autor at\u00e9 ent\u00e3o publicada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4863\" alt=\"foto5\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/foto5-620x465.jpg\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/p>\n<p>Apesar de dispens\u00e1vel a apresenta\u00e7\u00e3o do profissional, o que me surpreende \u00e9 encontrar a fotografia no circuito dos esquecidos, ou seja, a imagem que teve suas liga\u00e7\u00f5es interrompidas, que estava \u00e0 margem e que passou desapercebida por in\u00fameros olhos at\u00e9 encontrar os meus. Se a conviv\u00eancia gera a diferen\u00e7a, fico feliz em poder compartilhar alguns dos meus achados pois, de certa maneira, me fascina essa possibilidade amea\u00e7adora: seja a de perdermos pe\u00e7as fundamentais \u00e0 nossa hist\u00f3ria (e provavelmente j\u00e1 perdemos muitas); seja a de encontrar fragmentos visuais que podem se tornar exemplos\u00a0 de coer\u00eancia profissional da trajet\u00f3ria do artista.<\/p>\n<p>Por fim, a fotografia de um time de futebol, o Mineiro Athletico Club, Campe\u00e3o de Ouro Preto de 1933, com um estranho sinal no canto inferior direito, na verdade, a assinatura do fot\u00f3grafo Luiz Fontana (1897 \u2013 1968). Pouco conhecido no plano geral da fotografia brasileira, o ouro-pretano Luiz Fontana \u00e9 filho de imigrantes italianos e atuou na cidade entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1950, com est\u00fadio no Largo do Ros\u00e1rio. Desde que iniciei minha pesquisa na cartofilia, busco completar sua s\u00e9rie de cart\u00f5es postais, toda numerada, que ele produziu sobre a vida cotidiana e a paisagem em transforma\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4862\" alt=\"foto4\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/foto4-620x426.jpg\" width=\"620\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p>Fot\u00f3grafo de talento e sensibilidade tamb\u00e9m documentou as festas profanas e religiosas. Raramente encontramos cita\u00e7\u00f5es e demais informa\u00e7\u00f5es sobre seu trabalho, mas sabemos que iniciou como amador e logo se profissionalizou atrav\u00e9s de uma pequena loja de sua propriedade. Nela, comercializava artigos fotogr\u00e1ficos, sua produ\u00e7\u00e3o de postais, al\u00e9m de retratar a sociedade local e a paisagem. Sua cole\u00e7\u00e3o de vistas produzidas no per\u00edodo que antecedeu ao tombamento pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico capta a ess\u00eancia do cotidiano de Ouro Preto. Esta fotografia que apresentamos acima, do campeonato de 1933, \u00e9 apenas um exemplo de sua diferenciada produ\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se concentrou apenas na riqueza arquitet\u00f4nica do espa\u00e7o urbano. Foi al\u00e9m ao documentar conscientemente todo o movimento s\u00f3cio-cultural-religioso com intelig\u00eancia e coer\u00eancia.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s destas tr\u00eas fotografias encontradas no subterr\u00e2neo da hist\u00f3ria e realizadas com objetivos t\u00e3o distintos, \u00e9 poss\u00edvel perceber que ao cruzar os autores no tempo e no espa\u00e7o nos deparamos com a vastid\u00e3o de um territ\u00f3rio ainda inexplorado. Vale a pena sonhar, pois \u00e9 poss\u00edvel ampliar nossa iconografia e suas conex\u00f5es a partir dessas imagens jogadas ao acaso por pessoas que n\u00e3o entendem o valor do documento fotogr\u00e1fico. Essas imagens, entre muitas outras, poder\u00e3o trazer novas luzes \u00e0 fotografia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00fameras vezes declarei meu desejo de publicar uma hist\u00f3ria da fotografia a partir de imagens que venho colecionando h\u00e1 anos. Minha impress\u00e3o \u00e9 de que centenas (ou seriam milhares?) de fotografias vagam dispersas pelo mundo do acaso e clamam para serem reunidas de outra maneira, a fim de nos oferecer um outro olhar sobre o documento fotogr\u00e1fico. Como pesquisador atento, vibro com cada imagem que salta expressiva de um \u00e1lbum familiar ou at\u00e9 mesmo de um conjunto aleat\u00f3rio reunido numa velha caixa de sapatos. 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