{"id":476,"date":"2010-02-07T17:05:25","date_gmt":"2010-02-07T17:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=476"},"modified":"2016-05-28T14:33:48","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:48","slug":"a-fotografia-e-a-gravidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-a-gravidade\/","title":{"rendered":"A fotografia e a gravidade"},"content":{"rendered":"<p>Em algum momento de nossa hist\u00f3ria, a fotografia foi assimilada de tal modo que tanto suas imagens quanto suas din\u00e2micas de produ\u00e7\u00e3o parecem ter se naturalizado. Isso significa que lidamos com ela da mesma forma com que lidamos com a gravidade: ela est\u00e1 dada, ela \u00e9 como deve ser, e participa de nossas vidas de modo fluido, sem que precisemos nos perguntar como funciona.<\/p>\n<p>Seria incr\u00edvel (se n\u00e3o durasse s\u00e9culos) viver esse momento em que uma tecnologia nasce e se difunde, algo que poderia ser l\u00fadico como caminhar na lua ou desconfort\u00e1vel como andar com um escafandro, situa\u00e7\u00f5es em que a gravidade ganha espessura.<\/p>\n<p>Em todo caso, a rela\u00e7\u00e3o ideal com a tecnologia se d\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o em que ela j\u00e1 produz sentido mas ainda soa como artif\u00edcio. Quando est\u00e1 aqu\u00e9m disso, ela pode ser violenta: por exemplo, quando a ci\u00eancia positivista usa a documenta\u00e7\u00e3o para justificar a educa\u00e7\u00e3o do selvagem, a assepsia dos h\u00e1bitos, a cura dos loucos etc. Quando est\u00e1 al\u00e9m, pode ser alienante, porque aceitar a t\u00e9cnica como natural \u00e9 igualmente perigoso: \u00e9 quando n\u00f3s mesmos passamos a posar espontaneamente como pessoas civilizadas, sadias e normais, sem pensar o que isso significa.<\/p>\n<p>Dever\u00edamos guardar um pouco da curiosidade corajosa das crian\u00e7as quando desmontam seus brinquedos, mesmo que, depois, eles nunca mais funcionem. Porque o pragmatismo adulto imp\u00f5e o contr\u00e1rio: n\u00e3o compreender as coisas \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para seu bom funcionamento. Da\u00ed o recado de Vil\u00e9m Flusser, quando nos provoca a abrir a \u201ccaixa preta\u201d, lembrando que o que ele pensa sobre a fotografia vale tamb\u00e9m para outros aparelhos (os administrativos, os pol\u00edticos&#8230;).<\/p>\n<p>Nunca vimos tanto a fotografia como imagem, mas vale o esfor\u00e7o de enxergar tamb\u00e9m a fotografia como procedimento, como performance, ritual, experi\u00eancia. Sem saudosismos: n\u00e3o falo necessariamente de carregar a c\u00e2mera com o filme, sair \u00e0 \u201cca\u00e7a\u201d, ampliar a foto. Tamb\u00e9m h\u00e1 gestos, manias e quest\u00f5es mobilizadas pelas imagens captadas pelo celular, processadas no photoshop, postadas nas redes sociais, compradas nos bancos de imagem etc.<\/p>\n<p>O desejo de olhar um pouco mais n\u00e3o apenas para o plano e o instante das imagens, mas para o seu entorno, sua espessura, sua dura\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tem aparecido muito nas conversas recentes com os amigos.<\/p>\n<p>No meio disso, lembrei de um filme encantador: <em>Ping-Pong da Mong\u00f3lia<\/em>. \u00c9 a hist\u00f3ria de um menino que vive no meio do nada e que encontra uma bolinha de ping-pong. Com curiosidade e coragem, ele cria fantasias sobre a origem e a raz\u00e3o desse objeto estranho. A aventura que surge a partir disso funciona bem como met\u00e1fora desse momento perigoso e fascinante, em que sentimos o presente se movendo entre o peso da tradi\u00e7\u00e3o e a for\u00e7a do progresso. Essa instabilidade \u00e9 tanto mais interessante do que a sensa\u00e7\u00e3o de que o passado \u00e9 algo resolvido e o futuro \u00e9 algo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>E para apresentar o contexto em que se dar\u00e1 essa aventura, o filme come\u00e7a com uma experi\u00eancia que nos interessa particularmente: a performance de um retrato de fam\u00edlia, aqui, t\u00e3o deslumbrante quanto desajeitada.<br \/>\n<script type='text\/javascript' src='https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/html\/flashembed2.min.js'><\/script>\n<div >\n<div id='hana_flv_flow_1' style='display:block;width:400px;height:300px;background-color:#555555;color:#ffffff;padding:0'>\n<div class='inactive_message'><\/div>\n\n*Video:ping-pong da mong\u00f3lia, hao ning, 2005<\/div>\n<\/div>\n\n<script type='text\/javascript'>\nif (typeof g_hanaFlash !== 'undefined' && !g_hanaFlash){\n    jQuery('#hana_flv_flow_1').css( 'padding', '5px' );\n\tjQuery('#hana_flv_flow_1 .inactive_message').html('Sorry, your browser does not support Flash Video Player');\n}else{\n    flashembed2('hana_flv_flow_1',\n      { src:'https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/plugins\/hana-flv-player\/flowplayer\/FlowPlayerDark.swf', wmode: 'transparent', width: 400,  height: 300 },\n      { config: { videoFile: 'http:\/\/www.iconica.com.br\/videos\/ping_pong.flv', autoPlay: false ,loop: false, autoRewind: true, autoBuffering: true,\n\t\t\t initialScale: 'fit' ,showVolumeSlider: true,showMuteVolumeButton: false, showMenu: false, controlBarBackgroundColor: 0x000000\n\n\t    }}\n    );\n}\n<\/script>  Ping-Pong da Mong\u00f3lia, Hao Ning, 2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em algum momento de nossa hist\u00f3ria, a fotografia foi assimilada de tal modo que tanto suas imagens quanto suas din\u00e2micas de produ\u00e7\u00e3o parecem ter se naturalizado. 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