{"id":4642,"date":"2012-12-17T13:29:31","date_gmt":"2012-12-17T13:29:31","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4642"},"modified":"2016-05-28T14:07:01","modified_gmt":"2016-05-28T14:07:01","slug":"fotografos-humanos-as-vezes-covardes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografos-humanos-as-vezes-covardes\/","title":{"rendered":"Fot\u00f3grafos, humanos, \u00e0s vezes, covardes"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4649\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/o-NY-POST-COVER-5701.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4649\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4649 \" title=\"o-NY-POST-COVER-570\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/o-NY-POST-COVER-5701-360x389.jpeg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"389\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4649\" class=\"wp-caption-text\">The New Yorker Post, com foto de Umar Abbas. Diz a manchete: Condenado. Empurrado nos trilhos do metr\u00f4, este homem est\u00e1 prestes a morrer<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 duas semanas, um homem foi empurrado nos trilhos do metr\u00f4 de Nova York. Ele tentava subir de volta \u00e0 plataforma enquanto Umar Abbas, um fot\u00f3grafo <em>freelancer<\/em>, registrava a cena. Uma das imagens, feita pouco antes do homem ser atropelado pelo trem, foi publicada na primeira p\u00e1gina do tabloide <em>The New York Post<\/em>. \u00a0O epis\u00f3dio trouxe \u00e0 tona um debate que retorna de tempos em tempos sobre a \u00e9tica do jornalismo.<\/p>\n<div id=\"attachment_4643\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/kevin-carter-vulture.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4643\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4643\" title=\"kevin-carter-vulture\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/kevin-carter-vulture-360x240.jpeg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4643\" class=\"wp-caption-text\">Kevin Carter, Sud\u00e3o, 1993.<\/p><\/div>\n<p>Muitos lembraram da foto feita pelo sul-africano Kevin Carter, que mostra um urubu \u00e0 espreita de uma crian\u00e7a subnutrida e quase morta. \u00c9 muito diferente porque, havendo no extraquadro um continente inteiro na mesma situa\u00e7\u00e3o, aquilo que se revela urgente assume outra escala. Ou seja, aquela crian\u00e7a iria morrer de qualquer jeito, n\u00e3o ali, diante da c\u00e2mera, mas muito em breve. E a ideia de que ela seria devorada pelo urubu \u00e9 muito mais um efeito ret\u00f3rico produzido pela imagem. Portanto, se o fot\u00f3grafo tivesse largado a c\u00e2mera para espantar o animal, ficar\u00edamos comovidos, mas n\u00e3o poder\u00edamos dizer que seu gesto teria sido mais \u00fatil do que sua imagem.<\/p>\n<p>Umar Abbas fez seu trabalho. Alguns se perguntaram sobre os limites \u00e9ticos da profiss\u00e3o e outros cobravam dele uma atitude mais humana que profissional.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo franc\u00eas Andr\u00e9 Comte-Sponville demonstra que c\u00f3digos profissionais de \u00e9tica tem pouco a ver com valores morais, no sentido estrito do termo (<em>O capitalismo \u00e9 moral?<\/em>, 2005). Um comportamento regido por um valor moral \u00e9 sempre desinteressado, n\u00e3o precisa de justificativas e n\u00e3o tem finalidade. Algu\u00e9m que age segundo esse tipo de valor, faz o que faz porque desconhece outra possibilidade. Enquanto isso, algu\u00e9m que segue um c\u00f3digo de conduta pode agir \u201cconforme o dever\u201d, mas n\u00e3o necessariamente \u201cpor dever\u201d, com diz Comte-Sponville. Em termos morais, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se um jornalista deve ou n\u00e3o interferir no objeto de uma not\u00edcia, mas se um homem deve ajudar ao outro que est\u00e1 em risco. O problema moral est\u00e1 fora do \u00e2mbito profissional.<\/p>\n<p>Quanto ao jornalismo, suas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas ainda visam a afirma\u00e7\u00e3o dessa atividade dentro do limite do que se consideram boas pr\u00e1ticas, e visa o bom tr\u00e2nsito de seus agentes e de suas produ\u00e7\u00f5es na sociedade. \u00c9 uma quest\u00e3o de interesse tanto social quanto\u00a0corporativista. E que fique claro: assim deve ser, para que n\u00e3o se perca de vista a voca\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de casos extremos, o debate sobre a \u00e9tica profissional sempre patina, porque n\u00e3o cabe ao jornalismo priorizar de modo generalista quest\u00f5es de ordem moral, em detrimento daquilo que \u00e9 de sua efetiva compet\u00eancia. N\u00e3o lhe cabe impor ao jornalista deixe de cumprir seus deveres profissionais quando n\u00e3o puder cumprir seus deveres morais. N\u00e3o se pode esperar que o c\u00f3digo de \u00e9tica exija dos fot\u00f3grafos que larguem suas c\u00e2meras quando estiverem em condi\u00e7\u00f5es imediatas de ajudar aqueles que fotografam. Caso contr\u00e1rio, o jornalismo se confundiria com uma religi\u00e3o, e a credencial do jornalista equivaleria a uma esp\u00e9cie de canoniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso significa que \u201cjornalista\u201d e \u201cser moral\u201d s\u00e3o dois pap\u00e9is que um sujeito pode viver autenticamente, simultaneamente, mas nem sempre sem conflitos. O mesmo deve acontecer com m\u00e9dicos, advogados, pol\u00edticos&#8230; Os debates abstratos pressup\u00f5e uma s\u00edntese ideal desses pap\u00e9is que, nesses momentos cruciais, revela seu limite.<\/p>\n<p>Em contrapartida, dizer que, ali, o fot\u00f3grafo deveria ter se preocupado mais com quest\u00f5es \u201chumanas\u201d do que \u201cprofissionais\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o garante muita coisa. Dizer que o homem \u00e9 um ser moral significa que ele tem uma tend\u00eancia muito espont\u00e2nea a se colocar quest\u00f5es sobre as boas e m\u00e1s condutas, n\u00e3o significa que ele n\u00e3o esteja resolvido quanto \u00e0 isso. Ou seja, humanos s\u00e3o fal\u00edveis, s\u00e3o muitas vezes covardes, tremem diante do perigo. A voga dos \u201cc\u00f3digos de conduta\u201d (no trabalho, na escola, no esporte, na pol\u00edtica, nos diferentes espa\u00e7os p\u00fablicos&#8230;) \u00e9, segundo Comte-Sponville, sintoma de uma especial dificuldade que temos, hoje, de buscar par\u00e2metros morais mais consolidados. De todo modo, se a atitude do fot\u00f3grafo representa um lapso moral, podemos julg\u00e1-lo, tanto quanto dever\u00edamos julgar as outras pessoas que presenciaram o fato e tampouco ajudaram a v\u00edtima (testemunhos falam em 18 pessoas).<\/p>\n<p>As cobran\u00e7as recaem sobre o fot\u00f3grafo com um peso singular. Imaginem que o vendedor de bilhetes ou o engraxate seguissem trabalhando, mesmo tendo visto o desespero do homem ca\u00eddo nos trilhos. Parece haver uma diferen\u00e7a: o trabalho desses profissionais teria simplesmente prosseguido, por in\u00e9rcia ou covardia, n\u00e3o vem ao caso. J\u00e1 o trabalho do fot\u00f3grafo come\u00e7a com o incidente, ele lhe \u00e9 lucrativo. E, para piorar, enquanto esses outros trabalhos n\u00e3o geram evid\u00eancia da suposta omiss\u00e3o, o testemunho que o fot\u00f3grafo opera se volta contra ele. A fotografia nos convence de que o fato ocorreu, tanto quanto n\u00e3o nos deixa esquecer da presen\u00e7a do fot\u00f3grafo, da dist\u00e2ncia que tinha do fato, da a\u00e7\u00e3o que realizou e daquela que n\u00e3o realizou. A imagem \u00e9 sua ben\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Se decidirmos perdoar o fot\u00f3grafo porque \u201cerrar \u00e9 humano\u201d, ainda cabe cobrar o jornal por estampar em sua primeira p\u00e1gina uma imagem t\u00e3o cruel. A institui\u00e7\u00e3o, sim, est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de contornar com o debate a passionalidade do instante e as fissuras morais do sujeito. De fato, aquela imagem parece dispens\u00e1vel, assim como talvez o pr\u00f3prio jornal tenha, em si, pouco a contribuir com o mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 isso efetivamente que alimenta a pol\u00eamica: essa seria apenas mais uma capa sensacionalista, pronta para ser esquecida, se a mesma imagem tivesse sido captada por uma c\u00e2mera de seguran\u00e7a, e n\u00e3o por um profissional. Portanto, no cerne da discuss\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 a postura do tabloide, e sim a decis\u00e3o do fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Na impossibilidade de um veredito mais claro, resta a oportunidade para pensar uma distor\u00e7\u00e3o que recai sobre a profiss\u00e3o do jornalista, principalmente, a do fotojornalista. O que nos leva a essa atividade \u00e9 muitas vezes algo um tanto rom\u00e2ntico, a vontade de operar um bem coletivo, e certa disposi\u00e7\u00e3o para a aventura e para o risco. Mas, no dia a dia da profiss\u00e3o, a coisa mais heroica que o jornalista enfrenta \u00e9 a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia dentro de um ambiente de trabalho estressante e pouco motivador.<\/p>\n<p>No final das contas, o que se abala com esse epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 a \u00e9tica profissional ou a f\u00e9 no ser humano, mas a imagem idealizada com a qual o meio se afirma, o romantismo que ainda sustenta as expectativas e os sonhos em torno da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltando a Kevin Carter: ele fotografou uma crian\u00e7a que parecia prestes a ser devorada por um urubu, ganhou um Pulitzer e se suicidou. Mesmo que a rela\u00e7\u00e3o entre a foto e sua morte n\u00e3o seja assim t\u00e3o direta, a sequ\u00eancia de epis\u00f3dios produz inevitavelmente um forte impacto ret\u00f3rico que restitui ao fot\u00f3grafo sua aura heroica. Narrada desse modo, a hist\u00f3ria reconcilia, por um suposto sentimento de culpa, o profissional e o homem moral. Ele teria cumprido sua obriga\u00e7\u00e3o de denunciar e oferecido a vida para redimir o drama de n\u00e3o poder salvar a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Outro exemplo que vem do cinema: sem muitas explica\u00e7\u00f5es,\u00a0Aleksander, o fot\u00f3grafo de guerra do filme <em>Antes da Chuva<\/em> (<em>Before the rain<\/em>, Mil\u010do Man\u010devski, 1994), decide abandonar a profiss\u00e3o e a mulher que ama, sua editora. Questionado por ela, ele explica laconicamente a raz\u00e3o de sua crise: \u201ceu matei!\u201d Mais adiante, veremos que sua afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 mais literal do que se poderia supor.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/55737996\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" title=\"Before the Rain(Antes da Chuva)-Milcho Manchevski By Capsuladacultura\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia a arma \u00e9 tomada como met\u00e1fora para pensar a fotografia, e esse filme apenas situa, por meio de uma situa\u00e7\u00e3o limite, o outro lado da moeda de nossas expectativas: se esperamos que a fotografia seja poderosa a ponto de salvar vidas, ela n\u00e3o pode tamb\u00e9m tir\u00e1-las? O personagem do filme encontrar\u00e1 em seu isolamento a ocasi\u00e3o de se redimir e resgatar sua dignidade moral (a profissional j\u00e1 n\u00e3o lhe importa).<\/p>\n<p>\u00c9 um filme genial, mas a hist\u00f3ria de Umar Abbas e de tantos outros profissionais tem pouco a ver com isso. Eles n\u00e3o t\u00eam lugar em nossas narrativas, n\u00e3o fundam escolas, n\u00e3o balizam comportamentos. \u00c9 apenas pelo erro que s\u00e3o eventualmente notados.\u00a0Em geral, fot\u00f3grafos n\u00e3o s\u00e3o nem her\u00f3is nem assassinos, e n\u00e3o tem em torno de si um estado de exce\u00e7\u00e3o \u2013 como a guerra \u2013 para justificar seus dilemas morais. Eles s\u00e3o humanos, sentem medo, padecem da covardia, e se entregam a uma rotina mais med\u00edocre do que gostar\u00edamos. Felizmente, n\u00e3o nos faltam boas refer\u00eancias: grandes artistas, grandes pessoas, trabalhos heroicos realizados com ou sem a c\u00e2mera. Voltemos a elas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 duas semanas, um homem foi empurrado nos trilhos do metr\u00f4 de Nova York. Ele tentava subir de volta \u00e0 plataforma enquanto Umar Abbas, um fot\u00f3grafo freelancer, registrava a cena. Uma das imagens, feita pouco antes do homem ser atropelado pelo trem, foi publicada na primeira p\u00e1gina do tabloide The New York Post. \u00a0O epis\u00f3dio trouxe \u00e0 tona um debate que retorna de tempos em tempos sobre a \u00e9tica do jornalismo. 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