{"id":4626,"date":"2012-12-10T14:43:20","date_gmt":"2012-12-10T14:43:20","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4626"},"modified":"2017-03-01T12:24:11","modified_gmt":"2017-03-01T12:24:11","slug":"acontecimento-e-imaginacao-em-sincronias-fotograficas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/acontecimento-e-imaginacao-em-sincronias-fotograficas\/","title":{"rendered":"Acontecimento e imagina\u00e7\u00e3o em sincronias fotogr\u00e1ficas*"},"content":{"rendered":"<p>Michael Ruetz ficou conhecido pelas imagens das marchas triunfais da Oposi\u00e7\u00e3o Extraparlamentar Alem\u00e3 \u2013 APO e das manifesta\u00e7\u00f5es no <em>campus<\/em> da Universidade Livre de Berlim ap\u00f3s o assassinato do jovem Benno Ohnesorg, em 1969. Documentou tamb\u00e9m a invas\u00e3o da Tchecoeslov\u00e1quia pelas tropas sovi\u00e9ticas e, como enviado da revista alem\u00e3 <em>Stern,<\/em> cobriu a ditadura militar na Gr\u00e9cia. Mais tarde, fotografou a vit\u00f3ria de Salvador Allende no Chile, a guerra em Guin\u00e9-Bissau e v\u00e1rios outros eventos internacionais.<\/p>\n<div id=\"attachment_4628\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4628\" rel=\"attachment wp-att-4628\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4628\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4628\" title=\"1_RUETZ_imagem 1\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/1_RUETZ_imagem-11.jpg\" width=\"620\" height=\"411\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4628\" class=\"wp-caption-text\">Protesto contra o assassinato do jovem Benno Ohnesorg, baleado \u00e0 queima roupa por um policial alem\u00e3o durante uma manifesta\u00e7\u00e3o no mesmo ano. No microfone, Rudi Dutschke, expressivo l\u00edder do movimento estudantil alem\u00e3o. 3 de junho de 1967, Universidade Livre de Berlim.<\/p><\/div>\n<p>Seu trabalho pode provavelmente ser comparado ao de muitos fotojornalistas que testemunharam a amplitude, a diversidade e a intensidade dos movimentos sociais e pol\u00edticos que invadiram o mundo nos anos 60 estendendo-se at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. S\u00e3o imagens que nos possibilitam conhecer os rostos dos movimentos sociais, as fei\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias da hist\u00f3ria, aquilo que Michael L\u00f6wy aponta como significativa contribui\u00e7\u00e3o da fotografia.<\/p>\n<div id=\"attachment_4631\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4631\" rel=\"attachment wp-att-4631\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4631\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4631\" title=\"2_RUETZ_imagem 13\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/2_RUETZ_imagem-131.jpg\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4631\" class=\"wp-caption-text\">Manifesta\u00e7\u00e3o contra a Guerra do Vietn\u00e3. Ao centro Gudrun Ensslin, l\u00edder e guerrilheira alem\u00e3, mais tarde assassinada na pris\u00e3o.<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_4630\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4630\" rel=\"attachment wp-att-4630\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4630\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4630\" title=\"3_RUETZ_imagem 3\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/3_RUETZ_imagem-31.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4630\" class=\"wp-caption-text\">Manifesta\u00e7\u00e3o contra Guerra do Vietn\u00e3. 21 de outubro de 1967, Berlim.<\/p><\/div>\n<p>Tal produ\u00e7\u00e3o pode ser pensada como a imagem de um regime temporal constitu\u00eddo pela fotografia ao longo de seu percurso moderno, em que a experi\u00eancia fotogr\u00e1fica apresentava importante sincronia com o conceito de acontecimento. Trata-se de uma esp\u00e9cie de limiar discursivo de um modelo imag\u00e9tico que, progressivamente, ser\u00e1 ultrapassado, configurando, mais tarde, outros regimes de visibilidade e, sobretudo, outros regimes fototemporais. Vejamos esta imagem do dia primeiro de maio de 1967, em Berlim.<\/p>\n<div id=\"attachment_4632\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4632\" rel=\"attachment wp-att-4632\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4632\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4632\" title=\"4_RUETZ_imagem 4\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/4_RUETZ_imagem-41.jpg\" width=\"620\" height=\"380\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4632\" class=\"wp-caption-text\">Demonstra\u00e7\u00e3o no Primeiro de Maio, 1967, Berlim Oriental.<\/p><\/div>\n<p>Essa imagem apresenta para mim, em especial, uma figura exemplar da profunda conex\u00e3o entre um modo de experimentar o tempo e um modo de g\u00eanese fotogr\u00e1fica. Primeiramente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de notar intensa sincronia no interior da imagem. Sempre me pareceram curiosos movimentos coletivos espont\u00e2neos que se realizassem por meio de marchas, nessa esp\u00e9cie de transe volunt\u00e1rio e consciente. O que \u00e9 espantoso nas marchas \u00e9 a efetua\u00e7\u00e3o de simultaneidades de gestos, como nessa fotografia. Alguns militantes se d\u00e3o as m\u00e3os, outros mantem a marcha apenas por meio do ritmo (imagino). Fora da imagem est\u00e1 o fot\u00f3grafo, que s\u00f3 pode intervir com seu corte, seu piscar mec\u00e2nico, quando tamb\u00e9m se sintoniza com a marcha em curso. Esse sistema sincr\u00f4nico nos faz pensar que, no momento de produ\u00e7\u00e3o dessa fotografia, ningu\u00e9m esteve fora dela; tudo parece sugerir, ali\u00e1s, que ningu\u00e9m jamais esteve, nesse instante, fora dessa imagem.<\/p>\n<p>Talvez porque a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade dessa fotografia seja exatamente uma sincronia mais ampla do que o mero disparar do obturador em algum momento possivelmente correto. Fotografia e marcha compartilham o mesmo horizonte hist\u00f3rico, bem como os projetos ideol\u00f3gicos e os programas partid\u00e1rios da \u00e9poca<em>.<\/em> Trata-se, a meu ver, de um sentimento de tempo que permeia fot\u00f3grafo e fotografados, que possibilita que ele (o tempo) seja vivido como experi\u00eancia privilegiada; como acontecimento capaz de construir outro futuro, na \u00e9poca ainda aberto.<\/p>\n<p>O acontecimento trata de um tempo de singularidade e descontinuidade que se contrap\u00f5e ao tempo da irrelev\u00e2ncia, do evento ordin\u00e1rio, do fluxo ininterrupto. Sup\u00f5e uma multiplicidade de dura\u00e7\u00f5es e afasta-se das s\u00e9ries temporais \u00fanicas e mensur\u00e1veis. Pensar o tempo por meio do conceito de acontecimento nos possibilita investigar em que condi\u00e7\u00f5es o mundo objetivo permite uma produ\u00e7\u00e3o subjetiva de novidade, isto \u00e9, uma \u201ccri\u00e7\u00e3o\u201d. Como seria poss\u00edvel, em meio \u00e0 realidade do fluxo temporal, intervir com uma esp\u00e9cie de crivo, algo que difira, algo que possibilite o outro, algo que aflore de um tempo prenhe de alteridade, heterog\u00eaneo e relacional. Tal reflex\u00e3o exige uma an\u00e1lise acerca dos conceitos de singularidade e de repeti\u00e7\u00e3o, sucess\u00e3o e simultaneidade, identidade e diferen\u00e7a, dura\u00e7\u00e3o e instantaneidade, ruptura e continuidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_4629\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4629\" rel=\"attachment wp-att-4629\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4629\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4629\" title=\"berlin alexanderplatz\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/5_RUETZ_imagem-51.jpg\" width=\"620\" height=\"414\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4629\" class=\"wp-caption-text\">Festival da juventude comunista. 4 de Agosto de 1973, Alexanderplatz, Alemanha oriental.<\/p><\/div>\n<p>Esse debate, \u00e9 claro, n\u00e3o surgiu na d\u00e9cada de 1960, quando essas imagens foram realizadas. Tratou-se, antes, de uma ampla controv\u00e9rsia acerca da textura temporal, at\u00f4mica ou fluida, que, a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX, envolveu pensadores como Nietzsche, William James, Bergson, Poincar\u00e9 e, no s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m mobilizou Edmund Husserl, Karl Jaspers, Martin Heidegger, Walter Benjamin, entre outros.<\/p>\n<p>Tal pol\u00eamica, cuja express\u00e3o se encontrou em v\u00e1rios c\u00edrculos intelectuais, centrava-se em discuss\u00f5es sobre interpreta\u00e7\u00f5es qualitativas e quantitativas do tempo e, sobretudo, sobre a possibilidade de haver, na s\u00e9rie temporal, um momento aut\u00eantico: momento do tempo capaz de explodir o intermin\u00e1vel procedimento de contagem de n\u00fameros, de estilha\u00e7ar o tempo homog\u00eaneo e cont\u00ednuo. Duas quest\u00f5es estavam em jogo: o que seria o \u201cagora\u201d \u2013 sua dimens\u00e3o, extens\u00e3o ou intensidade \u2013 e se esse agora poderia distinguir-se, assumindo papel de momento transformador. O que poderia ser considerado, de fato, um momento de ruptura \u2013 alterador do tempo vazio do capitalismo? Tal debate ganha pot\u00eancia renovada diante da realidade cada vez mais saturada do consumo \u2013 da constante produ\u00e7\u00e3o de objetos, informa\u00e7\u00f5es e imagens em s\u00e9rie, circulando e proliferando. Por um lado, h\u00e1 uma l\u00f3gica cultural, plantada desde o s\u00e9culo anterior e j\u00e1 bastante arraigada no XX, que exige e apreende com naturalidade bruscas altera\u00e7\u00f5es e novos produtos. Por outro, a \u201csequencializa\u00e7\u00e3o\u201d do novo exige que sejam pensados modos aut\u00eanticos de interrup\u00e7\u00e3o e de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Como a fotografia se relaciona com os debates e as experi\u00eancias temporais dessa modernidade? Para o fot\u00f3grafo, tal qual se formulou na modernidade, era necess\u00e1rio estar sempre preparado para perceber a emerg\u00eancia desse tempo singular do acontecimento. Tal expecta\u00e7\u00e3o suporia (e, simultaneamente, produziria) potencial heterogeneidade: cada instante do tempo vertia-se em abertura ao distinto e ao diferencial. Desde que a fotografia se tornou instant\u00e2nea a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica passou a ser um modo de decifrar o tempo, de afront\u00e1-lo e, tamb\u00e9m, de qualific\u00e1-lo. Os apreciadores do instant\u00e2neo experimentaram e deixaram-se surpreender pelos efeitos que a captura do instante produz, fundando sua a\u00e7\u00e3o numa produ\u00e7\u00e3o de permanente problematiza\u00e7\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Trata-se sobretudo de uma profunda conex\u00e3o com a passagem do tempo: quando dispara, promove um reconhecimento do agora. Estar pronto a fotografar modernamente \u00e9, em simult\u00e2neo, esperar e promover, perceber e produzir uma mudan\u00e7a. Os fot\u00f3grafos modernos, que observam e \u2018ca\u00e7am\u2019, procuram decifrar o tempo e sentem-se autorizados a investigar e eleger o instante exato de captura para que ali se cristalize tal reconhecimento. Assim, est\u00e3o permanentemente \u00e0 procura, como se incentivassem sua pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o a fazer o mesmo movimento que a lente realiza quando procura o foco: produzem um esfor\u00e7o de qualifica\u00e7\u00e3o temporal para que, no instante correto, aquela imagem decante as mudan\u00e7as sucessivas e se fixe no plano focal. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, que haja certa economia de pensamento e sensa\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e precipita\u00e7\u00e3o, enfim, um trabalho de dura\u00e7\u00e3o simult\u00e2neo ao esfor\u00e7o de \u201cinstantaneiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Permitir que se estabele\u00e7am crit\u00e9rios de relev\u00e2ncia acerca do instante durante sua pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o significa precipit\u00e1-lo, colocando em pr\u00e1tica a capacidade moderna de produzir progn\u00f3sticos: s\u00f3 desse modo o instante estar\u00e1 minimamente coincidente com o piscar do obturador. Tal opera\u00e7\u00e3o exige uma dilata\u00e7\u00e3o temporal peculiar e, em grande medida, uma decorrente inclina\u00e7\u00e3o para o futuro. Como Maur\u00edcio Lissovsky sintetiza: \u201cna imin\u00eancia do instante singular, restitui-se ao tempo sua pot\u00eancia de interrup\u00e7\u00e3o. Isso que cabe \u00e0 espera, numa \u00e9tica do instante, \u00e9 resguardar o futuro e, em seu interior, a temporalidade do acontecimento e da diferen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_4627\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4627\" rel=\"attachment wp-att-4627\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4627\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4627\" title=\"6_RUETZ_imagem 6\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/6_RUETZ_imagem-6-360x544.jpg\" width=\"360\" height=\"544\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4627\" class=\"wp-caption-text\">Confer\u00eancia de Hebert Marcuse, Hist\u00f3ria, transcend\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o social. 13 de Maio de 1967, Audit\u00f3rio da Universidade Livre de Berlim.<\/p><\/div>\n<p>Chegamos, ent\u00e3o, \u00e0 \u00faltima parte de nossa reflex\u00e3o. J\u00e1 falamos que nesse sistema sincr\u00f4nico, que abarca fot\u00f3grafo e fotografado, n\u00e3o h\u00e1 apenas a sintonia exigida pela marcha, mas tamb\u00e9m estreita conex\u00e3o entre o gesto fotogr\u00e1fico e o reconhecimento de que aquele momento verte-se em marco social e que, sendo acontecimento, poderia distinguir-se do fluxo natural e transformar a hist\u00f3ria. Falamos aqui acerca da ideia de que os homens podem apoderar-se de seu tempo e disputar seu destino. Isso indica uma \u00faltima e talvez mais significativa conson\u00e2ncia: a marcha n\u00e3o deseja apenas intervir na ruptura, mas, principalmente, plantar, lutar, exigir que o futuro seja diferente. A fotografia n\u00e3o deseja apenas decalcar no instante o t\u00edtulo de marco: ela tamb\u00e9m deseja entrar em comunh\u00e3o com o futuro, visar ao que est\u00e1 por vir. A fotografia aqui materializa o pr\u00f3prio projeto moderno de futuro, posto que esse marco s\u00f3 se estabelece como acontecimento segundo um certo horizonte de expectativas. Assim, o tempo, nessa imagem de Ruetz, \u00e9 uma experi\u00eancia privilegiada porque n\u00e3o equivale a simples passagem cronol\u00f3gica. Sugere uma grande suspens\u00e3o temporal que, simultaneamente, verte-se na pot\u00eancia do <em>acontecimento<\/em>. Est\u00e1 repleta de coragem, derrota, frusta\u00e7\u00e3o, medo, confian\u00e7a, pol\u00edtica e, sobretudo, de uma profunda sincronia entre a fotografia e o que, em cada \u00e9poca, \u00e9 poss\u00edvel desejar e imaginar como futuro.<\/p>\n<p>Assim, o que parece significativo nas imagens de Ruetz n\u00e3o se resume a ter sido testemunha da for\u00e7a das manifesta\u00e7\u00f5es coletivas que disputavam e reinventavam ent\u00e3o o espa\u00e7o p\u00fablico. O vigor de seu trabalho est\u00e1, principalmente, em permanecer impregnado dos sonhos de nossa hist\u00f3ria. Como percebeu Walter Benjamin e assinala Maur\u00edcio Lissovsky, a temporalidade de que tratam as imagens fotogr\u00e1ficas \u00e9 fundamentalmente o futuro \u2013 aninhado como um segredo que nos convida de modo permanente a ser desvendado. Uma grande arca de futuros pret\u00e9ritos poss\u00edveis, a fotografia arquiva os vest\u00edgios n\u00e3o s\u00f3 dos fatos ocorridos, mas tamb\u00e9m dos sonhos que constituem a materialidade de nossas vidas. As hist\u00f3rias que poderiam ter acontecido e as hist\u00f3rias que se perderam no caminho, as que n\u00e3o venceram e as que poderiam n\u00e3o ter vencido permanecem \u2212 todas elas \u2212 arquivadas em imagens fotogr\u00e1ficas como as de Ruetz, \u00e0 espera do leitor capaz de desvend\u00e1-las. O gesto dessas fotografias nos faz indagar que horizontes de transforma\u00e7\u00e3o habitavam aquele tempo; que projetos foram esquecidos, enfraquecidos, afogados; que expectativas sobreviveram, foram guardadas ou substitu\u00eddas; de que sonhos, afinal, \u00e9ramos feitos nos tempos j\u00e1 passados?<\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p>*\u00a0A exposi\u00e7\u00e3o de Michael Ruetz <strong><em>1968: tempos inc\u00f4modos<\/em><\/strong>, promovida pelo Goethe-Zentrum Bras\u00edlia, estar\u00e1 na Caixa Cultural em Bras\u00edlia at\u00e9 dia 27 de janeiro de 2013.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Ruetz ficou conhecido pelas imagens das marchas triunfais da Oposi\u00e7\u00e3o Extraparlamentar Alem\u00e3 \u2013 APO e das manifesta\u00e7\u00f5es no campus da Universidade Livre de Berlim ap\u00f3s o assassinato do jovem Benno Ohnesorg, em 1969. 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