{"id":4541,"date":"2012-11-13T11:31:16","date_gmt":"2012-11-13T11:31:16","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4541"},"modified":"2016-05-28T14:07:11","modified_gmt":"2016-05-28T14:07:11","slug":"realegorizacoes-da-caverna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/realegorizacoes-da-caverna\/","title":{"rendered":"Realegoriza\u00e7\u00f5es da caverna"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>Este texto norteou a conversa com <a href=\"http:\/\/ciadefoto.com.br\/blog\/2012\/11\/o-silencio-do-artistacomo-dito-por-alex-de-campos-moura-texto-para-turma-da-faap\/\">Pio Figueiroa (texto dispon\u00edvel no site da Cia de Foto)<\/a>, no <a href=\"http:\/\/www.veredas-sp.com\/\" target=\"_blank\">Espa\u00e7o Veredas<\/a>, sobre a exposi\u00e7\u00e3o <strong>A Espessura da Travessia.<\/strong>\u00a0Ali, foram reunidos trabalhos de um grupo de alunos da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Fotografia da Faap, realizados a partir da leitura de textos de Plat\u00e3o. As leituras foram conduzidas pela professora a Edilamar Galv\u00e3o.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Plat\u00e3o, criador de imagens<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4543\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4543\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4543\" title=\"_MG_4321\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/MG_4321-620x413.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" \/><p id=\"caption-attachment-4543\" class=\"wp-caption-text\">Sabrina Meira<\/p><\/div>\n<p>Como supor que seria poss\u00edvel encontrar em Plat\u00e3o um convite \u00e0 \u00a0fotografia. Justo ele que tem fornecido, ainda hoje, duros argumentos contra a produ\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o nos instiga a sair da escurid\u00e3o da caverna, mesmo que a claridade seja, em princ\u00edpio, desconfort\u00e1vel ao olhar. De um lado, ele assume a luz como met\u00e1fora de um saber que s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado pela raz\u00e3o, de outro, toma os sentidos como aquilo que nos prende \u00e0 ignor\u00e2ncia. No fundo da caverna, as imagens, sombras t\u00e3o sedutoras quanto enganosas, aquilo que existe de mais distante da verdade (o <em>eidos<\/em>). Retirar o homem da caverna se desdobra, ent\u00e3o,\u00a0no desejo de expulsar o artista de sua rep\u00fablica ideal.<\/p>\n<p>O sacrif\u00edcio da imagem \u00e9, acima de tudo, um exerc\u00edcio filos\u00f3fico. Na pr\u00e1tica, tanto Plat\u00e3o quanto seus herdeiros tiveram que negociar tamb\u00e9m com as formas sens\u00edveis a raz\u00e3o metaf\u00edsica que defendiam. Para come\u00e7ar, Plat\u00e3o foi, ele pr\u00f3prio, um grande criador de imagens, a exemplo dessa e de tantas outras alegorias que soube construir t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Vale pontuar que a cr\u00edtica de Plat\u00e3o se volta sobretudo para um car\u00e1ter supostamente superficial da arte grega. Em sua maturidade, ele manifesta simpatia pela arte dos antigos eg\u00edpcios (<em>Leis<\/em>), em ess\u00eancia, porque respeitavam um rigor convencional que a livraria a imagem dos movimentos contingentes da natureza f\u00edsica e imporia formas est\u00e1veis que apontam para uma dimens\u00e3o atemporal da realidade. Em seu momento, Plat\u00e3o n\u00e3o poderia ter percebido o quanto a arte grega era, por si mesma, idealizada, apoiada numa geometria que dificilmente se confunde com as formas que a natureza apresenta ao olhar.<\/p>\n<p>S\u00e9culos depois, o cristianismo medieval viveria um grande dilema: ao mesmo tempo que herdou dos romanos o gosto pelas imagens, posicionou sua filosofia dentro de uma linhagem de pensamento <em>neo plat\u00f4nica<\/em>. Em seus momentos mais f\u00e9rteis e menos violentos, esse dilema orientou um riqu\u00edssimo debate teol\u00f3gico sobre como deve ser essa imagem que quer representar os valores divinos e eternos (ver os textos de <em>A Pintura<\/em>, vol. 2, <em>A Teologia da Imagem<\/em>, compilados por Jacquelinte Lichtenstein). O cristianismo buscou com seus \u00edcones um modelo de representa\u00e7\u00e3o que fugia das apar\u00eancias para revelar uma verdade defendida como mais substancial. Trata-se de uma imagem que, sem\u00a0constrangimentos, poder\u00edamos chamar de plat\u00f4nica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A inven\u00e7\u00e3o do humano<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4546\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4546\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4546\" title=\"f\u00e9don x4 web\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/f\u00e9don-x4-web-620x739.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"739\" \/><p id=\"caption-attachment-4546\" class=\"wp-caption-text\">Guta Galli<\/p><\/div>\n<p>Suponho que Plat\u00e3o n\u00e3o tinha ideia de que as imagens haviam surgido justamente dentro das cavernas. Ele apenas deve ter intu\u00eddo que o apego \u00e0s apar\u00eancias estava ligado a uma condi\u00e7\u00e3o primitiva de submiss\u00e3o do homem \u00e0quilo que de mais imediato a natureza lhe impunha: as apar\u00eancias.<\/p>\n<p>Situando as imagens na caverna, Plat\u00e3o pretendia demonstrar sua insufici\u00eancia. No entanto, sua origem hist\u00f3rica nesse exato lugar pode demonstrar tamb\u00e9m suas pot\u00eancias. As pinturas do paleol\u00edtico s\u00e3o emblem\u00e1ticas das primeiras tentativas de agir sobre uma natureza que, de fato, parecia ca\u00f3tica aos olhos daquelas comunidades. Como parte desse gesto simb\u00f3lico inaugural, isto \u00e9, como primeiro esfor\u00e7o de dar um sentido \u00a0a essa natureza, podemos dizer que foi exatamente ali, diante dessas representa\u00e7\u00f5es, que certo animal se revelou humano. Essa \u00e9 a hip\u00f3tese de Werner Herzog, no filme <em>A caverna dos sonhos esquecidos<\/em>: dentro da caverna, juntamente com aquelas imagens, o esp\u00edrito humano teria sido forjado.<\/p>\n<p>A tese \u00e9 incompat\u00edvel com o pensamento de Plat\u00e3o, para quem a alma \u00e9 imortal, portanto eterna, \u201cn\u00e3o criada\u201d.\u00a0 Tanto faz se, por meio das imagens, o ser humano forjou ou descobriu sua condi\u00e7\u00e3o humana. Fato \u00e9 que, de um modo ou de outro, a imagem participou intensamente desse processo.<\/p>\n<p>A caverna n\u00e3o \u00e9, nessa hist\u00f3ria, um lugar acidental. Assim como suas paredes, as formas da natureza n\u00e3o tinham para aqueles homens contornos muito claros. Eram essas bordas indefinidas e obscuras das imagens iluminadas por tochas que permitiam supor uma continuidade entre suas formas e o mundo.<\/p>\n<p>Se \u00e9 ali que se revela o desejo negociar com o caos um comportamento acess\u00edvel ao pensamento humano, podemos dizer que a primeira luz lan\u00e7ada sobre a natureza veio, portanto, de dentro da caverna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Religa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4545\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4545\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4545\" title=\"diptico_2b\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/diptico_2b-620x332.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"332\" \/><p id=\"caption-attachment-4545\" class=\"wp-caption-text\">Candice Japiassu<\/p><\/div>\n<p>Plat\u00e3o nos deixa a vis\u00e3o de uma realidade definida por suas formas ordenadas e eternas. Para reconhecer tais formas, ele nos convida a renegar e superar a apar\u00eancia enganosa e sempre mutante da natureza. Com isso, ele vem consolidar uma cis\u00e3o entre subst\u00e2ncia e apar\u00eancia, entre sentidos e raz\u00e3o, tamb\u00e9m entre palavra e imagem, que marcar\u00e1 toda a filosofia posterior.<\/p>\n<p>Ainda que esse dualismo seja persistente, Alfredo Bosi (<em>Fenomenologia do Olhar<\/em>) buscar\u00e1 na hist\u00f3ria da arte e do pensamento experi\u00eancias que almejam super\u00e1-lo. O Renascimento \u2013 e, em particular, Leonardo da Vinci \u2013 \u00e9 para ele o esbo\u00e7o de um modelo bem sucedido.<\/p>\n<div id=\"attachment_4566\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/homemvitruviano.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4566\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-4566 \" title=\"homemvitruviano\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/homemvitruviano-360x423.jpeg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"338\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4566\" class=\"wp-caption-text\">Leonardo da Vinci, Homem Vitruviano, c. 1490<\/p><\/div>\n<p>Como Plat\u00e3o, os eruditos da Renascen\u00e7a buscavam apoiar o conhecimento na const\u00e2ncia das leis. Mas, ao contr\u00e1rio do que faz o fil\u00f3sofo grego, eles n\u00e3o precisam renegar a apar\u00eancia das coisas: eles buscaram intuir essa regularidade dos pr\u00f3prios movimentos da natureza. A ordem, que \u00e9 ao mesmo tempo matem\u00e1tica e divina, se expressa na natureza f\u00edsica, e n\u00e3o apesar dela. Uma representa\u00e7\u00e3o disso \u00e9 o <em>Homem Vitruviano<\/em>, de Leonardo, cujo movimento corporal revela uma geometria perfeita e, portanto, o di\u00e1logo de suas formas com uma raz\u00e3o mais est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Superando o dualismo, Leonardo busca compreender tanto a apar\u00eancia quanto o mecanismo das coisas. Para isso, lembra Bosi, coloca em conjun\u00e7\u00e3o suas habilidades como artista e cientista, pensa o corpo ao pint\u00e1-lo, contempla-o sua estrutura ao dissec\u00e1-lo. O olhar \u00e9 pensado como \u201ca janela da alma, o espelho do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o que \u00e9 a perspectiva proposta pela pintura renascentista? \u00c9 justamente a tentativa de dar dignidade \u00e0 uma representa\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir de um ponto de vista humano. \u00c9 tamb\u00e9m o desejo de extrair desse olhar a refer\u00eancia que estabiliza e hierarquiza todos os elementos da natureza a serem representados. Portanto, a perspectiva representa uma raz\u00e3o que se manifesta por meio dos sentidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Excesso de luz<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4544\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4544\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4544\" title=\"A Imortalidade da Alma\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/A-Imortalidade-da-Alma-p-620x555.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"555\" \/><p id=\"caption-attachment-4544\" class=\"wp-caption-text\">Marcelo Paciornik<\/p><\/div>\n<p>Como um artefato que permite emular esse olhar racionalizado da perspectiva, a <em>c\u00e2mara obscura<\/em> j\u00e1 participa dessa hist\u00f3ria. De certo modo, ela \u00e9 uma vers\u00e3o sint\u00e9tica daquela mesma caverna em cujas paredes se projetaram nossas primeiras imagens. S\u00f3 que, agora, aquilo que \u00e9 escuro \u2013 o car\u00e1ter ca\u00f3tico da natureza \u2013 parece ter sido devidamente aprisionado e domesticado.<\/p>\n<p>Vil\u00e9m Flusser sugere que, confiando demasiadamente no programa t\u00e9cnico que opera de forma autom\u00e1tica essa raz\u00e3o, abrimos m\u00e3o de compreend\u00ea-lo. Com isso, essa raz\u00e3o se torna opaca, o aparelho se torna para n\u00f3s uma \u201ccaixa preta\u201d, impenetr\u00e1vel ao nosso entendimento. Ao operar um programa que n\u00e3o compreendemos, passamos a agir em fun\u00e7\u00e3o dele: o fot\u00f3grafo torna-se um \u201cfuncion\u00e1rio\u201d do aparelho (<em>Filosofia da Caixa Preta<\/em>).<\/p>\n<p>A confian\u00e7a na raz\u00e3o constr\u00f3i por si mesma suas armadilhas. A mesma luz que permite o suposto dom\u00ednio das suas formas sens\u00edveis, parece agora ofuscar nosso entendimento. Nesse mundo em que a escurid\u00e3o foi domesticada e as imagens s\u00e3o produzidas a partir do dom\u00ednio da luz, os herdeiros de Plat\u00e3o se v\u00eaem obrigados a repensar o desenho de sua antiga alegoria.<\/p>\n<p>Susan Sontag inicia o primeiro de seus <em>Ensaios sobre a fotografia, <\/em>\u201cNa caverna de Plat\u00e3o\u201d,<em> <\/em>dizendo que \u201ca humanidade permanece (&#8230;) na caverna de Plat\u00e3o, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade\u201d. Em seguida, ela ir\u00e1 observar que isso est\u00e1 demonstrado pelo car\u00e1ter voraz da fotografia, que permite ao homem crer que \u00e9 poss\u00edvel apreender e possuir todas as coisas. Dada a onipresen\u00e7a dessas imagens, fica subentendido que a caverna est\u00e1 agora a c\u00e9u aberto. Ela \u00e9 o mundo todo que julgamos ter se tornado plenamente acess\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da fotografia. A ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 mais, portanto, representada pela escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Saramago tamb\u00e9m afirma, no document\u00e1rio <em>Janela da Alma<\/em> (de Jo\u00e3o Jardim e Walter Carvalho) que \u201cnunca estivemos t\u00e3o dentro da caverna de Plat\u00e3o\u201d. As imagens n\u00e3o est\u00e3o reclusas \u00e0 escurid\u00e3o, eles ocuparam o lugar de toda a realidade. Por isso, sua cegueira \u00e9 branca, luminosa (<em>Ensaio sobre a cegueira<\/em>).<\/p>\n<p>Por sua vez, o pesquisador brasileiro Norval Baitello parece chegar a um lugar semelhante, vindo pelo sentido oposto. Para questionar uma imagem que, agora, s\u00f3 \u00e9 capaz de mostrar repetidamente as superf\u00edcies das coisas, ele lembra que \u201cas imagens n\u00e3o s\u00e3o, distintamente do que \u00e0s vezes somos tentados a pensar, subprodutos da luz, formas de luz ou seres do dia. S\u00e3o muito mais, em sua origem e desde ent\u00e3o, habitantes da noite, possuem muito mais faces invis\u00edveis do que aquelas que se deixam ver, mant\u00e9m estreitos la\u00e7os hist\u00f3ricos com o sombrio e com o insond\u00e1vel, com zonas profundas de n\u00f3s mesmos, com as quais tememos contato\u201d (<em>A era da iconofagia<\/em>). \u00c9 um interessante movimento que parece querer reencontrar o potencial da imagem resgatando a for\u00e7a simb\u00f3lica das imagens que habitavam a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No meio do caminho<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4547\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4547\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4547\" title=\"Lira e Harmonia\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/Lira-e-Harmonia-620x427.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"427\" \/><p id=\"caption-attachment-4547\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Batista<\/p><\/div>\n<p>Quando Flusser convida a abrir a caixa preta, \u00e9 para novamente \u201cbranque\u00e1-la\u201d, ou seja, para restituir como nossa essa raz\u00e3o que define seu programa t\u00e9cnico. Mas podemos aproveitar a ocasi\u00e3o para reivindicar outra tarefa igualmente necess\u00e1ria: reconhecer na fotografia as fissuras que restam na t\u00e9cnica, por onde um <em>pathos<\/em> transborda daquela escurid\u00e3o aparentemente domesticada.<\/p>\n<p>Essa mesma imagem que prometia conformar a rebeldia dos sentidos aos modelos de uma ci\u00eancia racionalista, se mostra com frequ\u00eancia uma das express\u00f5es mais perme\u00e1veis aos afetos. Ao congelar os movimentos da natureza segundo princ\u00edpios modelados pela raz\u00e3o, essa imagem continua inst\u00e1vel, articulada ao desejo e aos aspectos involunt\u00e1rios da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Esse suposto fracasso aponta para uma pot\u00eancia da imagem, exatamente aquela que j\u00e1 estava anunciada desde as cavernas: n\u00e3o se trata apenas de dar contornos mais ordenados \u00e0s apar\u00eancias das coisas, mas de aproveitar as zonas escuras da imagem para estabelecer uma conex\u00e3o com aquilo que, na natureza, permanece invis\u00edvel. Na fotografia, h\u00e1 que se assumir os pap\u00e9is que seguem jogando tanto a luz quanto a sombra.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 alegoria de Plat\u00e3o. Podemos imaginar que, saindo do fundo da caverna em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz plena, houve no meio do caminho um lugar privilegiado em que o homem pode perceber um mundo feito de contrastes. Nesse degrad\u00ea se fazia representar o sentido complexo que a natureza sempre iria reivindicar.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto que Plat\u00e3o ainda convida intensamente \u00e0s imagens? O que se presta a ser pensado por elas n\u00e3o \u00e9 tanto o lugar das coisas precisas que Plat\u00e3o almeja alcan\u00e7ar; mas sim o trajeto, o seu m\u00e9todo: no \u201cdi\u00e1logo\u201d, a d\u00favida n\u00e3o \u00e9 apenas aceit\u00e1vel, mas \u00e9 efetivamente necess\u00e1ria. Esse \u00e9 seu grande legado: n\u00e3o tanto as verdades definitivas que, no final das contas, ele n\u00e3o ousou inventariar, mas a dial\u00e9tica, movimento que faz da contradi\u00e7\u00e3o seu principal combust\u00edvel. Nesse lugar, a imagem ainda encontra a luz e a sombra de que \u00e9 feita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto norteou a conversa com Pio Figueiroa (texto dispon\u00edvel no site da Cia de Foto), no Espa\u00e7o Veredas, sobre a exposi\u00e7\u00e3o A Espessura da Travessia.\u00a0Ali, foram reunidos trabalhos de um grupo de alunos da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Fotografia da Faap, realizados a partir da leitura de textos de Plat\u00e3o. As leituras foram conduzidas pela professora a Edilamar Galv\u00e3o. &nbsp; Plat\u00e3o, criador de imagens Como supor que seria poss\u00edvel encontrar em Plat\u00e3o um convite \u00e0 \u00a0fotografia. Justo ele que tem fornecido, ainda hoje, duros argumentos contra a produ\u00e7\u00e3o de imagens. 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