{"id":4483,"date":"2012-10-29T22:11:45","date_gmt":"2012-10-29T22:11:45","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4483"},"modified":"2016-05-28T14:07:21","modified_gmt":"2016-05-28T14:07:21","slug":"arte-e-especulacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/arte-e-especulacao\/","title":{"rendered":"Arte, mercado e especula\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Diante da dificuldade de justificar o valor que algumas obras contempor\u00e2neas alcan\u00e7am em leil\u00f5es internacionais, parece evidente a exist\u00eancia de uma bolha especulativa. Antes de seguir, vale pensar um pouco o sentido do que chamamos de especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, a economia n\u00e3o trata necessariamente da circula\u00e7\u00e3o de bens, mas de representa\u00e7\u00f5es que podem ser lastreadas por uma riqueza potencial, aquela que se espera gerar a partir de uma capacidade produtiva demonstrada. No capitalismo tardio (ou p\u00f3s-moderno, ou p\u00f3s-industrial, ou seja l\u00e1 o nome que se queira dar) essa virtualiza\u00e7\u00e3o da economia se radicaliza. O que move o mercado continua sendo uma promessa, mas agora sustentada pela pr\u00f3pria aposta daqueles que aderem a ela.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 portanto um jogo tautol\u00f3gico, autorreferente: o pre\u00e7o sobe porque est\u00e3o apostando, cai porque porque param de apostar, sem a necessidade de justificativas exteriores ao jogo. No final das contas, o que se deve garantir n\u00e3o \u00e9 a potencialidade da riqueza, mas a flu\u00eancia da circula\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es: est\u00e1 tudo bem, desde que ela n\u00e3o seja interrompida.<\/p>\n<p>A especula\u00e7\u00e3o \u2013 o efeito do espelho \u2013 existe quando os movimentos de um mercado refletem a si mesmos. Falamos em bolha porque a valoriza\u00e7\u00e3o dessas representa\u00e7\u00f5es \u00e9 um tanto artificial: quando um incidente \u2013 igualmente especulativo, independente do significado que tenha fora do jogo \u2013 perturba essa flu\u00eancia, a circula\u00e7\u00e3o emperra e somos lembrados de que o que temos na m\u00e3o \u00e9 algo vazio, sem lastro. Em princ\u00edpio, o especulador n\u00e3o precisa entender aquilo que compra, e tanto faz se se trata de im\u00f3veis, jogadores de futebol ou fotografias. Mas \u00e9 bem verdade que a arte toca-lhe tamb\u00e9m a vaidade e, nesse desejo de tornar vis\u00edvel o objeto de seu investimento, persiste alguma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A obra de arte parece ser um produto ideal para essa economia radicalmente virtualizada porque ela \u00e9, por sua pr\u00f3pria natureza, uma representa\u00e7\u00e3o apoiada em valores intang\u00edveis, e n\u00e3o h\u00e1 par\u00e2metros para objetiv\u00e1-los. Ningu\u00e9m hoje se perguntaria para que serve a obra de arte, que facilidades ela traz para a vida, que doutrina pretende disseminar ou se ainda \u00e9 capaz de salvar as nossas almas. Ela tem uma raz\u00e3o em si mesma que podemos sempre discutir ou questionar. Mas a Est\u00e9tica, em nome da autonomia do objeto a que est\u00e1 dedicada, \u00e9 incapaz de criar par\u00e2metros para pensar o valor mercantil de uma obra de arte. Por isso, o mercado se sente particularmente livre para coloc\u00e1-la em seu jogo.<\/p>\n<p>Certa vez, Robert Morris vendeu uma de suas obras ao arquiteto Philip Johnson,\u00a0que n\u00e3o lhe pagou no prazo combinado. Ironizando a possibilidade de criar artif\u00edcios para traduzir valores est\u00e9ticos em valor de mercado, ele registrou em 1963, em um tabeli\u00e3o,\u00a0um documento escrito em prolixa linguagem jur\u00eddica:<\/p>\n<blockquote><p><em>Declara\u00e7\u00e3o de Despojamento Est\u00e9tico &#8211;\u00a0O abaixo assinado Robert Morris, sendo o realizador da constru\u00e7\u00e3o em metal intitulada Litanies, descrita na Prova A anexa, por estas palavras retira da referida constru\u00e7\u00e3o toda qualidade e todo conte\u00fado est\u00e9ticos e declara que desta data em diante a mesma n\u00e3o possui tais qualidades e conte\u00fado.\u00a05 de novembro de 1963<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Se documentos, planilhas e certificados s\u00e3o artif\u00edcios estranhos ao universo est\u00e9tico, eles comp\u00f5em um protocolo muito efetivo no mercado.\u00a0Vale dizer que esse documento foi comprado pelo mesmo arquiteto, e pertence hoje \u00e0 cole\u00e7\u00e3o do MoMA.<\/p>\n<div id=\"attachment_4486\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4486\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4486\" title=\"morris\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/morris1.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"458\" \/><p id=\"caption-attachment-4486\" class=\"wp-caption-text\">Robert Morris, Documento, 1963<\/p><\/div>\n<p>No campo da fotografia, um caso que tem particularmente nos impressionado \u00e9 o de Andreas Gursky. Com <a href=\"http:\/\/www.findartinfo.com\/search\/listprices.asp?sort=&amp;keyword=85808&amp;page=1&amp;name=&amp;pageno=1\">uma dezena de obras que alcan\u00e7aram em d\u00f3lares a casa dos sete d\u00edgitos<\/a>, \u00e9 dele a fotografia com o maior pre\u00e7o alcan\u00e7ado num leil\u00e3o de arte, vendida em 2011 por 4,38 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<div id=\"attachment_4489\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4489\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4489\" title=\"gursky-rhein\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/gursky-rhein-620x322.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"322\" \/><p id=\"caption-attachment-4489\" class=\"wp-caption-text\">Andreas Gursky, Rhein II, 1999<\/p><\/div>\n<p>Surpreende particularmente o fato de um fot\u00f3grafo vivo e relativamente jovem superar figuras como a dos cl\u00e1ssicos, Atget, Man Ray, Walker Evans, Cartier-Bresson etc. Mas o fato \u00e9 que Gursky est\u00e1 situado no mercado da arte contempor\u00e2nea, n\u00e3o\u00a0no da fotografia. Os par\u00e2metros s\u00e3o distintos e, de algum modo, a arte contempor\u00e2nea se beneficia de certa falta de distanciamento. A possibilidade de regular o pre\u00e7o pela consolida\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de um artista \u00e9 uma \u00e2ncora que esse mercado se d\u00e1 ao luxo de dispensar.<\/p>\n<p>Nesse mercado, vemos que o pre\u00e7o de Gursky ainda est\u00e1 um tanto abaixo daquele atingido por outros artistas vivos. No caso da pintura, o recorde pertence a uma obra de Gerard Richter, que alcan\u00e7ou 34 milh\u00f5es de d\u00f3lares num leil\u00e3o recente. Como em todo mercado especulativo, a explica\u00e7\u00e3o para essas cifras \u00e9 ainda tautol\u00f3gica: um artista \u00e9 valorizado pela disposi\u00e7\u00e3o do mercado em disputar suas obras; por sua vez, essa disposi\u00e7\u00e3o \u00e9 incrementada pela sua valoriza\u00e7\u00e3o de suas obras.<\/p>\n<p><strong>Brasil<\/strong><\/p>\n<p>O crescimento da quantidade de galerias de arte no Brasil \u00e9 vis\u00edvel a olho nu, mas essas cifras s\u00e3o para n\u00f3s uma realidade estranha e distante.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.select.art.br\/article\/reportagens%20e%20artigos\/arte-negocio?page=unic\"> Dados publicados pela revista <em>Select<\/em><\/a>\u00a0apontam nos dois \u00faltimos anos um crescimento de 44% num volume de neg\u00f3cios que ainda \u00e9 bastante dependente de compradores estrangeiros. Dentre as galerias pesquisadas, a m\u00e9dia de pre\u00e7os das obras mais caras \u00e9 de R$ 540 mil. Portanto, ao contr\u00e1rio da bolha que se anuncia no mercado internacional, nossas galerias ainda t\u00eam espa\u00e7o para crescer.<\/p>\n<p>Mas temos aqui nossos pr\u00f3prios e humildes sintomas decorrentes do aquecimento artificial do mercado.\u00a0No Brasil, arte contempor\u00e2nea ainda \u00e9 assunto de especialistas: seu p\u00fablico \u00e9 formado essencialmente de artistas, curadores, cr\u00edticos, galeristas, colecionadores, pesquisadores, o que significa que o circuito se define por uma esp\u00e9cie de autofagia.\u00a0Apesar dos n\u00fameros t\u00edmidos, o desejo de constituir um mercado muito antes de formar um p\u00fablico pode tamb\u00e9m representar uma esp\u00e9cie de bolha, em termos relativos, t\u00e3o problem\u00e1tica quanto aquela que se caracteriza por pre\u00e7os astron\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em Nova York, fiquei surpreso com edif\u00edcios comerciais no badalado Meatpacking dedicados exclusivamente \u00e0s galerias de arte. S\u00e3o, na verdade, escrit\u00f3rios de negocia\u00e7\u00e3o: chegar l\u00e1 com a expectativa de ver exposi\u00e7\u00f5es ou de pensar a arte pode ser uma experi\u00eancia muito frustrante. Esse pragmatismo seria precipitado para o Brasil, significaria queimar etapas. L\u00e1, enquanto um Gerhard Richter \u00e9 negociado num desses escrit\u00f3rios, uma dezena de suas obras disputa a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico nos museus da cidade.<\/p>\n<p>Diante da falta de par\u00e2metros para julgar o valor mercantil da obra de arte, h\u00e1 algo que deveria lastrear minimamente a valoriza\u00e7\u00e3o almejada pelo contexto brasileiro: um olhar mais efetivo sobre as obras. Ou seja, a possibilidade de que, antes de ser negociada, ela fa\u00e7a sentido num circulo um pouco maior do que o dos especialistas.\u00a0Dif\u00edcil imaginar a constru\u00e7\u00e3o de um mercado brasileiro para a arte sem a m\u00ednima afirma\u00e7\u00e3o cultural daquilo que se quer negociar. Por isso, mesmo que n\u00e3o seja essa sua fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, cabe tamb\u00e9m ao mercado permanecer em di\u00e1logo com curadores, educadores, cr\u00edticos, historiadores, para atuar de maneira mais firme na forma\u00e7\u00e3o desse olhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso assumir uma atitude purista. Num mundo em que todas as trocas s\u00e3o mediadas pelo capital, n\u00e3o faz sentido demonizar a vontade de estabelecer um mercado para a arte. N\u00e3o se trata, portanto, de lutar \u201ccontra\u201d, mas \u201cpor\u201d um mercado menos alheio ao papel cultural da arte. Para usar uma termo em voga, \u00e9 uma quest\u00e3o de &#8220;sustentabilidade&#8221; dos investimentos que se deseja alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Ben Lewis, com o mesmo cinismo que lhe tornou conhecido na s\u00e9rie Art Safari, realizou para a BBC o document\u00e1rio &#8220;The Great Contemporary Art Bubble Trailer Documentary&#8221;. Mais pela ironia inteligente do que pelas conclus\u00f5es, vale a pena conferir (a vers\u00e3o integral pode ser encontrada na internet).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/gth8_3msnIk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante da dificuldade de justificar o valor que algumas obras contempor\u00e2neas alcan\u00e7am em leil\u00f5es internacionais, parece evidente a exist\u00eancia de uma bolha especulativa. Antes de seguir, vale pensar um pouco o sentido do que chamamos de especula\u00e7\u00e3o. H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, a economia n\u00e3o trata necessariamente da circula\u00e7\u00e3o de bens, mas de representa\u00e7\u00f5es que podem ser lastreadas por uma riqueza potencial, aquela que se espera gerar a partir de uma capacidade produtiva demonstrada. 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