{"id":4477,"date":"2012-10-23T01:00:12","date_gmt":"2012-10-23T01:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4477"},"modified":"2016-12-29T12:15:06","modified_gmt":"2016-12-29T12:15:06","slug":"o-silencio-e-a-passividade-de-um-novo-comeco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-silencio-e-a-passividade-de-um-novo-comeco\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio e a passividade de um novo come\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Os tios mais velhos reclamam porque nunca poder\u00e3o ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crian\u00e7as se deliciam com o imediatismo das m\u00faltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de m\u00e3o em m\u00e3o. Enfim, o cl\u00e1ssico conflito de gera\u00e7\u00f5es entre os mais velhos e os mais jovens, s\u00f3 que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum dom\u00ednio t\u00e9cnico e demais complexidades. Na verdade, existe entre eles uma enorme diferen\u00e7a perceptual que envolve justamente o ato de fotografar (ritual que se consolidou ao longo da hist\u00f3ria), e o ato cada vez mais imediato de ver a imagem constitu\u00edda numa tela. Uma convers\u00e3o t\u00e9cnica t\u00e3o inimagin\u00e1vel anos atr\u00e1s que chega a surpreender e causar perplexidade at\u00e9 mesmo nos mais cr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>Se, por um lado, h\u00e1 um encantamento e uma euforia pela imediata vis\u00e3o daquilo que acaba de acontecer \u2013 e isso satisfaz nossa insaci\u00e1vel curiosidade \u2013, por outro, decepciona parte daqueles que, apesar de distanciados das telas, aprenderam a entender o ato fotogr\u00e1fico como o registro de momentos vividos pela humanidade e que seriam visualizados posteriormente, em outras circunst\u00e2ncias. Estes \u00faltimos, ao longo de mais de 170 anos de hist\u00f3ria, aprenderam a olhar n\u00e3o somente para esta realidade fotografada, mas tamb\u00e9m para a realidade das imagens e, naturalmente, para as pr\u00f3prias imagens.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que temos hoje com a fotografia com certeza \u00e9 de outra ordem. Gostaria de refletir sobre esta quest\u00e3o e percorrer alguns dos caminhos que possibilitam uma nova compreens\u00e3o do processo de fotografar, disponibilizar, arquivar e ver imagens digitais que circulam livremente atrav\u00e9s das telas. Nesse estado de incerteza que nos encontramos, penso que seja necess\u00e1rio avaliar tanto esse momento de total euforia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atual tecnologia de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagens, quanto o desencanto daqueles que est\u00e3o impossibilitados de ver a fotografia materializada na sua plenitude enquanto objeto. E, por favor, n\u00e3o se trata de saudosismo, muito menos de conservadorismo.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que hoje quando vemos fotografias, a tela \u00e9 o suporte e quase sempre nos encontramos sozinhos diante dela. Esse ato solit\u00e1rio, muitas vezes solid\u00e1rio, ou seja, em conex\u00e3o, \u00e9 resultado de um forte apelo comercial que imp\u00f5e necessidades de termos v\u00e1rias tecnologias de acesso que permitem o isolado ato de ver. E, eventualmente, de compartilhar. H\u00e1 uma mudan\u00e7a sintom\u00e1tica que aparentemente pode parecer revolucion\u00e1ria para o nosso tempo, mas na verdade, um olhar retrospectivo \u00e9 suficiente para entender que, desde o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o da imagem t\u00e9cnica, o ato de ver se converteu num exerc\u00edcio de imers\u00e3o introspectiva.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo franc\u00eas Paul Ricoeur (1913 \u2013 2005) nos lembra que \u201c\u00e9 preciso reencontrar a incerteza na hist\u00f3ria\u201d. Olhar um daguerre\u00f3tipo, por exemplo, \u00e9 buscar o melhor \u00e2ngulo de incid\u00eancia de luz a fim de dar visibilidade \u00e0 imagem que nos traz uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de choque perceptivo. Objeto \u00fanico, o daguerre\u00f3tipo anunciava uma longa trajet\u00f3ria a ser percorrida pela imagem t\u00e9cnica e possibilitou a primeira compreens\u00e3o de que fotografias pertencem a um regime de particularidades.\u00a0 Podemos saltar para o cinetosc\u00f3pio idealizado pelo inventor norte-americano Thomas Edison (1847-1931) que, em 1891, patenteou o equipamento \u2013 uma caixa com imagens gravadas numa pel\u00edcula com cerca de 15m, enroladas numa bobina que, quando acionada, permitia a visualiza\u00e7\u00e3o do movimento. Pagava-se para ter essa m\u00e1gica sensa\u00e7\u00e3o intermediada por um visor individual.<\/p>\n<div id=\"attachment_4479\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4479\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-4479 size-large\" title=\"32\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/32-674x828.jpeg\" width=\"674\" height=\"828\" \/><p id=\"caption-attachment-4479\" class=\"wp-caption-text\">Cinetosc\u00f3pio de Thomas Edison<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_4478\" style=\"width: 361px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4478\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-4478 size-medium\" title=\"Kinetoscope\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Kinetoscope-351x500.jpeg\" width=\"351\" height=\"500\" \/><p id=\"caption-attachment-4478\" class=\"wp-caption-text\">Cinetosc\u00f3pio de Thomas Edison<\/p><\/div>\n<p>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre colocar uma moeda para poder assistir um exerc\u00edcio f\u00edlmico de Edson e conectar-se ao <em>You Tube<\/em> para assistir um v\u00eddeo? O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico foi dotando a humanidade de artefatos que ampliaram significativamente a possibilidade receptiva, mas ao mesmo tempo, notamos o aparecimento de media\u00e7\u00f5es cada vez mais complexas entre os homens, e entre estes e a realidade. Mas a recep\u00e7\u00e3o continua sendo um ato solit\u00e1rio. Hoje, as imagens se propagam com tal velocidade que, em quest\u00e3o de minutos entre o fazer e disponibilizar, curtir e compartilhar, tornam-se irrelevantes, ou seja, invis\u00edveis, descart\u00e1veis.<\/p>\n<p>No geral, todos ficam fascinados com sua pr\u00f3pria imagem. Um esp\u00edrito narcisista domina a sociedade contempor\u00e2nea que publica sem piedade seu pr\u00f3prio cotidiano. Esse uso exacerbado da primeira pessoa pelo sujeito n\u00e3o tem nada de insubordina\u00e7\u00e3o ou produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado transformador; tem sim a forma de um discurso antipol\u00edtico, desprovido de qualquer natureza cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Os mais indignados podem resistir a esta etapa de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagens; os encantados com as tecnologias devem surfar intensamente o novo momento; mas os observadores atentos podem traduzir essa etapa como o vazio silencioso de uma civiliza\u00e7\u00e3o mobilizada pela imagem t\u00e9cnica que, por sua vez, hegem\u00f4nica e padronizada, desencanta e n\u00e3o provoca emo\u00e7\u00e3o alguma neste novo come\u00e7o. Esse \u00e9 o desenho social imposto pela facilita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica trazida pela globaliza\u00e7\u00e3o: um enorme espelho que propaga uma profus\u00e3o de imagens in\u00fateis, que se prop\u00f5em duradouras, mas s\u00e3o apenas ef\u00eameras fotografias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tios mais velhos reclamam porque nunca poder\u00e3o ver aquelas centenas de fotografias produzidas em uma festa familiar. Em contrapartida, as crian\u00e7as se deliciam com o imediatismo das m\u00faltiplas telas luminosas que mostram essas mesmas fotografias reclamadas passando de m\u00e3o em m\u00e3o. Enfim, o cl\u00e1ssico conflito de gera\u00e7\u00f5es entre os mais velhos e os mais jovens, s\u00f3 que desta vez muito mais acentuado, uma vez que exige algum dom\u00ednio t\u00e9cnico e demais complexidades. 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