{"id":4415,"date":"2012-10-16T00:41:17","date_gmt":"2012-10-16T00:41:17","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4415"},"modified":"2016-12-29T19:59:32","modified_gmt":"2016-12-29T19:59:32","slug":"nova-york-em-dois-tempos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/nova-york-em-dois-tempos\/","title":{"rendered":"Nova York em dois tempos: Chantal Akerman e Jem Cohen"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-4461\" title=\"low_car_billboard\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/low_car_billboard-620x413.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/low_men_at_work11.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-4432\" title=\"low_men_at_work\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/low_men_at_work1-620x412.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><\/p>\n<p>Acabo de voltar de Nova York, haver\u00e1 o que contar aqui em breve. Mas a viagem come\u00e7ou um tanto antes, sobretudo com dois document\u00e1rios que vi recentemente, <em>News From Home<\/em> (1977), de Chantal Akerman e <em>Lost Book Found<\/em> (1986), de Jem Cohen. De algum modo, foi a partir deles que surgiu o desejo de fazer essa viagem.<\/p>\n<p>S\u00e3o olhares muito distintos. Akerman, rec\u00e9m chegada da B\u00e9lgica, mostra em toda sua extens\u00e3o as din\u00e2micas que descobre nessa cidade. Parada ou em movimento, permanece sempre receptiva aos acontecimentos, mesmo quando eles demoram a ganhar forma. Cohen \u00e9 praticamente um cidad\u00e3o local (nasceu no Afeganist\u00e3o onde seu pai estava a servi\u00e7o do governo dos Estados Unidos) mas, tamb\u00e9m para ele, h\u00e1 o que se descobrir em Nova York. O percurso que ele faz \u00e9 improv\u00e1vel, fragment\u00e1rio, esp\u00e9cie de jogo repleto de saltos e conex\u00f5es aleat\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong><em>News from home<\/em><\/strong> \u00e9 um filme bastante silencioso. Os longos planos s\u00e3o perturbados de vez em quando pela leitura de cartas enviadas pela m\u00e3e de Akerman, uma figura carente e controladora: \u201cescreva mais vezes\u201d, \u201cquando voc\u00ea volta?\u201d, \u201cfiquei surpresa de n\u00e3o receber nenhuma carta sua esta semana\u201d, \u201cpor que voc\u00ea se mudou?\u201d, \u201cescreva para a tia Tonia\u201d, \u201cdizem que Nova York \u00e9 terr\u00edvel e desumana\u201d, \u201cpela en\u00e9sima vez, voc\u00ea recebeu os $ 20 que mandei?\u201d, \u201conde e com quem est\u00e1 vivendo?\u201d, \u201cv\u00e1 ver seu tio de vez em quando\u201d, \u201csua carta foi muito breve\u201d, \u201cmande algumas fotos\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/51458985\" width=\"530\" height=\"360\" frameborder=\"0\" title=\"News From Home, 1977 - Chantal Akerman (Fragmento)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Assistindo ao filme com os v\u00edcios da fotografia, foi inevit\u00e1vel reconhecer nessas tomadas composi\u00e7\u00f5es que pareciam pedir para serem fixadas, fotografias potenciais que n\u00e3o chegaram a ser feitas. Fato \u00e9 que, diante de tantas exig\u00eancias de sua m\u00e3e, Akerman parece recusar a urg\u00eancia de qualquer decis\u00e3o,\u00a0quer apenas que olhar se perca no destino incerto que as coisas assumem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/51417521\" width=\"640\" height=\"480\" frameborder=\"0\" title=\"News From Home, 1977 - Chantal Akerman (Fragmento)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/51417728\" width=\"640\" height=\"480\" frameborder=\"0\" title=\"News From Home, 1977 - Chantal Akerman (Fragmento)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>J\u00e1 <em><strong>Lost Book Found<\/strong><\/em>, somos conduzidos por um narrador aparentemente fict\u00edcio, mas que Cohen assume portar elementos de sua biografia. Trata-se de um vendedor de amendoim que, todos os dias, conduz seu carrinho at\u00e9 a mesma calcada de Nova York. Ali, ele come\u00e7a a perceber alguns personagens, dentre eles, um homem que vive de recuperar coisas ca\u00eddas nas grades do metr\u00f4. Um desses objetos \u00e9 um livro de anota\u00e7\u00f5es com listas que organizam todo tipo de coisa com crit\u00e9rios pouco apreens\u00edveis. O narrador o l\u00ea por algumas horas e, depois, prop\u00f5e compr\u00e1-lo, mas n\u00e3o h\u00e1 acordo sobre o valor. Ele nunca mais encontra esse &#8220;pescador de objetos&#8221; perdidos, mas o livro marcar\u00e1 para sempre sua experi\u00eancia com a cidade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=UUv4naSu7ngwHnFBXCq0yLcA\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Inspirado pela leitura das Passagens de Walter Benjamin, essa colagem de cenas, sonoridades e frases, sem haver necessariamente sincronia entre uma coisa e outra, define a estrat\u00e9gia do document\u00e1rio. Tudo um tanto banal, mas muito revelador dos percursos inesgot\u00e1veis que o olhar pode fazer nessa cidade (no fragmento abaixo, vemos tamb\u00e9m a refer\u00eancia tomada por Sam Mendes para a famosa cena da dan\u00e7a do saco pl\u00e1stico em seu filme <em>Beleza Americana<\/em>, de 1999).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/_MYh9YmVlxc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u00c9 evidente a identifica\u00e7\u00e3o de Cohen com o \u201cpescador\u201d. E h\u00e1 tamb\u00e9m algo de fotogr\u00e1fico tanto no modo como esses objetos s\u00e3o arrancados do fluxo da cidade pelas frestas das grades, quanto no modo como s\u00e3o revelados pelo colecionador. O filme, que se descola frequentemente da narrativa para aderir \u00e0 estrat\u00e9gia fragment\u00e1ria das listas, tamb\u00e9m se assemelha \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de um fot\u00f3grafo que exibe em sequ\u00eancia as cenas captadas em seu percurso sem ter que justificar a passagem de uma imagem \u00e0 outra. O cineasta teve forma\u00e7\u00e3o em fotografia, e n\u00e3o esconde a influ\u00eancia que recebeu de alguns fot\u00f3grafos de rua, sobretudo aqueles ligados ao movimento norte-americano conhecido como <em>Photo League<\/em>.<\/p>\n<p>Esses n\u00e3o s\u00e3o trabalhos recentes, mas as duas cidades ainda est\u00e3o l\u00e1. Nova York \u00e9 um lugar onde se v\u00ea muitas caras e se ouve muitas l\u00ednguas. \u00c9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o em que velocidades distintas convivem: \u00e9 poss\u00edvel vagar e seguir o rastro das coisas, ou deixar que se combinem espontaneamente perdendo-se no meio delas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de voltar de Nova York, haver\u00e1 o que contar aqui em breve. Mas a viagem come\u00e7ou um tanto antes, sobretudo com dois document\u00e1rios que vi recentemente, News From Home (1977), de Chantal Akerman e Lost Book Found (1986), de Jem Cohen. De algum modo, foi a partir deles que surgiu o desejo de fazer essa viagem. S\u00e3o olhares muito distintos. Akerman, rec\u00e9m chegada da B\u00e9lgica, mostra em toda sua extens\u00e3o as din\u00e2micas que descobre nessa cidade. Parada ou em movimento, permanece sempre receptiva aos acontecimentos, mesmo quando eles demoram a ganhar forma. 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