{"id":437,"date":"2010-01-26T03:47:36","date_gmt":"2010-01-26T03:47:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=437"},"modified":"2016-05-28T14:33:56","modified_gmt":"2016-05-28T14:33:56","slug":"avatar-coisas-que-a-historia-da-fotografia-ensina-sobre-o-futuro-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/avatar-coisas-que-a-historia-da-fotografia-ensina-sobre-o-futuro-do-cinema\/","title":{"rendered":"Avatar: coisas que a hist\u00f3ria da fotografia ensina sobre o futuro do cinema"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/TYIqtFeXZbM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div><strong>Making of de <em>Avatar<\/em>, 2009. Dica do Blog <a href=\"http:\/\/www.brainstorm9.com.br\/2010\/01\/20\/avatar-criando-o-mundo-de-pandora\/\">Brainstorm9<\/a>.<\/strong><\/div>\n<p>Armado de duas sobrinhas como pretexto, fui ver Avatar, iMax, 3D, pacote completo. O tempo voou, foi uma \u00f3tima divers\u00e3o. O filme de James Cameron tem o que h\u00e1 de melhor em termos de efeitos especiais, uma hist\u00f3ria bem constru\u00edda que alia saudosismo buc\u00f3lico e imagin\u00e1rio high-tech (como disse minha sobrinha, a floresta de Pandora tem nativos e animais que j\u00e1 vem com USB). Al\u00e9m disso, o filme faz o esfor\u00e7o poss\u00edvel nesse contexto para deixar o esp\u00edrito mais elevado: \u201co filme tem mensagem\u201d, ouvi \u00a0numa conversa entre dois desconhecidos. Considerando a m\u00e9dia das superprodu\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Quem tiver d\u00favida, v\u00e1 ver coisas como <em>Independence Day<\/em>, <em>O C\u00f3digo Da Vinci<\/em>, <em>Eu sou a lenda<\/em> que tamb\u00e9m explodiram nas bilheterias.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da sess\u00e3o pensando muito no que falam sobre o filme, que tem sido aclamado como um marco na hist\u00f3ria do cinema. Ser\u00e1? Certamente n\u00e3o pelo enredo, que est\u00e1 na medida para o p\u00fablico que busca entretenimento, n\u00e3o mais que isso. Talvez pelos efeitos especiais, que impressionam muito. Mas tamb\u00e9m impressionaram muito os efeitos de Guerra nas Estrelas (1977), Tron (1982), Matrix (1999). Essas coisas t\u00eam prazo de validade, e os seres de Avatar podem parecer bonecos de pano daqui a 20 anos.<\/p>\n<p>O 3D \u00e9 a quest\u00e3o. D\u00e1 pra notar que o filme foi desenhado para ser visto desse modo, sobretudo a fauna e na flora ex\u00f3ticas do planeta Pandora, cheias de planos bem demarcados e movimentos inesperados. Funciona muito bem. \u00c9 pretensioso dizer que \u00e9 um marco na hist\u00f3ria do cinema, mas certamente \u00e9 um marco na hist\u00f3ria do cinema 3D: a tecnologia est\u00e1 mais bem resolvida do que na \u00e9poca de <em>Tubar\u00e3o<\/em> e, ao contr\u00e1rio de coisas como <em>O fundo do mar<\/em> que s\u00e3o exibidas agora nessas salas, Avatar pelo menos \u00e9 um filme.<\/p>\n<p>O futuro do cinema \u00e9 esse? Por mim, n\u00e3o precisaria, mas vamos discutir um pouco.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o quase n\u00e3o vale. Mesmo que eu tenha me divertido, n\u00e3o \u00e9 esse o cinema que me toca. Por enquanto, o que penso \u00e9 que vale a pena ver de vez em quando um filme com essa tecnologia, como vale a pena andar de montanha russa no Hopi Hari&#8230; \u00c9 legal, \u00e9 uma experi\u00eancia pra se ter, mas n\u00e3o \u00e9 o que me interessa no cinema. Atrapalha um pouco o fato de eu ter visto tamb\u00e9m nesta semana <em>O Eclipse<\/em> (1962) de Antonioni, em tudo oposto a Avatar: lento, p&amp;b, silencioso, denso, e sem um mundo paralelo que possa salvar o ser humano de seus fracassos. A\u00ed eu fico confuso, cheio de preconceitos, e meus pensamentos sobre o 3D ficam contaminados por compara\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem o menor sentido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/oSqhOzdTG-g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div>Seria interessante ver algum grande diretor experimentando o 3D, quem sabe, aliando uma tecnologia surpreendente com um conte\u00fado surpreendente. H\u00e1 30 anos, Antonioni e Coppola decidiram brincar com as cores e as luzes, fazendo longas-metragens em v\u00eddeo: o primeiro fez <em>O Mist\u00e9rio de Oberwald <\/em>(1981), que passou batido, e o segundo, <em>O Fundo do Cora\u00e7\u00e3o <\/em>(1982), que o diretor de fotografia preferiu refazer todinho em pel\u00edcula antes de lan\u00e7ar. Mas um exemplo de que \u00e9 poss\u00edvel conciliar efeitos especiais e conte\u00fado \u00e9 Kubrick, com 2001 (1968), que \u00e9 intenso, belo e, ainda hoje, os efeitos convencem. Ali\u00e1s, a sess\u00e3o de Avatar come\u00e7ou muito bem, com um trailer tamb\u00e9m 3D do ainda n\u00e3o lan\u00e7ado <em>Alice<\/em>, de Tim Burton, um desses caras que transitam bem pelo entretenimento e pelo experimentalismo. Enfim, pode vir coisa muito boa, mas eu ainda n\u00e3o vejo \u201co meu cinema\u201d indo na dire\u00e7\u00e3o do 3D.<\/div>\n<p>Tendemos a pensar o cinema 3D como \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o do realismo. Mas temos que desconfiar desse conceito: toda estrat\u00e9gia de representa\u00e7\u00e3o, quando nos habituamos a ela, nos parece realista. E, ao contr\u00e1rio, para os olhares n\u00e3o acomodados, a mais sofisticada das imagens pode parecer tosca. No limite, isso quer dizer que um eg\u00edpcio antigo acharia a fotografia uma imagem estilizada, distorcida, talvez prec\u00e1ria, como achamos as imagens deles. Isso pode ser pensado em termos hist\u00f3ricos: a representa\u00e7\u00e3o mais fiel \u00e9 aquela cujos c\u00f3digos foram mais enraizados na cultura, ao longo de d\u00e9cadas ou s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Mas nosso olhar globalizado se tornou vers\u00e1til, e essa acomoda\u00e7\u00e3o pode ser muito r\u00e1pida: depois de alguns minutos, aqueles que t\u00eam o esp\u00edrito aberto podem achar muito convincente um filme mudo e P&amp;B de Chaplin, a <em>Branca de Neve<\/em> totalmente 2D da Disney, um filme todo feito com fotografia como o <em>La Jet\u00e9e<\/em> de Chris Marker, ou outro sem cen\u00e1rio como o Dog Ville de Lars Von Trier.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o impacto de Avatar 3D tamb\u00e9m se atenua. No come\u00e7o, voc\u00ea se esquiva dos objetos que se projetam em sua dire\u00e7\u00e3o (do mesmo jeito que a plat\u00e9ia fez com <em>A chegada do trem em La Ciotat<\/em>, dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo). Depois de meia hora, tudo se naturaliza, voc\u00ea se habitua e come\u00e7a a ver o filme do jeito que est\u00e1 acostumado. Se de vez em quando um objeto gigantesco n\u00e3o fosse atirado bruscamente na sua dire\u00e7\u00e3o, voc\u00ea nem se lembraria que pagou mais caro para ter uma dimens\u00e3o a mais.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, seja qual for o tipo de filme que as pessoas gostam, duvido que saiam das sess\u00f5es pensando algo como: &#8220;at\u00e9 que o filme \u00e9 bom, mas falta alguma coisa, talvez uma dimens\u00e3ozinha&#8230;&#8221;. Mesmo que todas as novidades sejam bem vindas, \u00e0s vezes a tecnologia d\u00e1 respostas a quest\u00f5es que n\u00e3o foram colocadas, ou que n\u00e3o s\u00e3o priorit\u00e1rias. Lembro do Arlindo Machado comentando a TV de alta-defini\u00e7\u00e3o numa aula na USP: &#8220;ser\u00e1 \u00f3timo, mas as pessoas n\u00e3o clamam por mais pixels, elas querem uma programa\u00e7\u00e3o melhor&#8221;.<\/p>\n<p>Todo o cinema ser\u00e1 3D em breve? O suposto acr\u00e9scimo de realismo pode n\u00e3o ser t\u00e3o decisivo quanto imaginamos. A hist\u00f3ria da fotografia que conhecemos t\u00e3o bem nos mostra movimentos distintos. A cor veio pra ficar, mas n\u00e3o porque foi uma evolu\u00e7\u00e3o da linguagem, porque tornou a imagem melhor ou mais realista. O P&amp;B resistiu muito al\u00e9m do que se esperava, mas foi se tornando uma artesania complicada e economicamente invi\u00e1vel. Houve nesse caso uma press\u00e3o da ind\u00fastria para a padroniza\u00e7\u00e3o. Com as c\u00e2meras digitais, o P&amp;B virou um \u201cefeito\u201d dispon\u00edvel tanto na c\u00e2mera e quanto nas ferramentas de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, mas a cor estabeleceu sua hegemonia.<\/p>\n<p>Mas e a fotografia estereosc\u00f3pica (3D)? Id\u00eantica em ess\u00eancia ao atual cinema 3D, e dispon\u00edvel desde o s\u00e9culo XIX, simplesmente n\u00e3o pegou. Passou de brinquedo de adulto a brinquedo de crian\u00e7a, mas n\u00e3o criou uma din\u00e2mica convincente para a fotografia. Nesse caso, pesaram mais os rituais consolidados em torno de uma imagem simples, que pode ser manipulada livremente, que pode estar num \u00e1lbum, no meio de um livro, impressa no jornal, pendurada na parece, no blog, no Flickr&#8230;<\/p>\n<p>Gostei da brincadeira de Avatar, mas n\u00e3o consigo imaginar meus filmes preferidos em 3D. E apostaria que os pr\u00f3ximos filmes da minha vida v\u00e3o continuar como sempre estiveram. Mas, se esse for o caminho da ind\u00fastria como andam dizendo, a ponto de n\u00e3o fazer sentido ter um filme de alto investimento em tecnologia tradicional, talvez o abismo entre o cinema de arte e o cinema de entretenimento fique um tanto maior (mesmo que diretores geniais possam fazer experi\u00eancias inusitadas e complexas com as novas tecnologias, mesmo que a ind\u00fastria possa surpreender com produ\u00e7\u00f5es comerciais de grande profundidade).<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. A produ\u00e7\u00e3o de um filme convencional dever\u00e1 assumir desde o in\u00edcio uma baixa expectativa de bilheteria. Por sua vez, manter uma sala convencional poder\u00e1 se tornar um luxo sem sentido, para a alegria das igrejas evang\u00e9licas. Tanto uma coisa quanto outra vai depender ainda mais de patroc\u00ednios e pol\u00edticas p\u00fablicas. A\u00ed as coisas ficam definitivamente imprevis\u00edveis. Se essa for a tend\u00eancia, talvez esse cinema como conhecemos passe a ser exibido em espa\u00e7os que tem mais a ver com a din\u00e2mica das galerias e museus, ou em mostras ainda mais alternativas do que as atuais. Sem problemas, estaremos l\u00e1!<\/p>\n<p>Saindo do iMAX e, depois, almo\u00e7ando no Am\u00e9rica do mesmo shopping, fiquei pensando nessas coisas todas, at\u00e9 que recebi uma mensagem iluminada&#8230; Encontrei ali mesmo Carlos Moreira, fot\u00f3grafo que viu muita coisa mudar e que permanece ativo, fotografando e ensinando, meditando quando necess\u00e1rio e indo ao Shopping quando conveniente. Quando eu fiz algumas de suas oficinas, h\u00e1 20 anos, ele j\u00e1 discutia os benef\u00edcios das novas tecnologias, assim como nos convidava a tirar de vez em quando a bateria da c\u00e2mera para desligar o fot\u00f4metro. Ent\u00e3o, entendi que n\u00e3o importa o que se tornar\u00e1 hegem\u00f4nico: estar\u00e1 tudo bem enquanto houver alguma brecha de escolha e um pouco de coragem. E nos divertiremos muito tamb\u00e9m se n\u00e3o houver grandes preconceitos com o que h\u00e1 pela frente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Making of de Avatar, 2009. Dica do Blog Brainstorm9. Armado de duas sobrinhas como pretexto, fui ver Avatar, iMax, 3D, pacote completo. O tempo voou, foi uma \u00f3tima divers\u00e3o. O filme de James Cameron tem o que h\u00e1 de melhor em termos de efeitos especiais, uma hist\u00f3ria bem constru\u00edda que alia saudosismo buc\u00f3lico e imagin\u00e1rio high-tech (como disse minha sobrinha, a floresta de Pandora tem nativos e animais que j\u00e1 vem com USB). Al\u00e9m disso, o filme faz o esfor\u00e7o poss\u00edvel nesse contexto para deixar o esp\u00edrito mais elevado: \u201co filme tem mensagem\u201d, ouvi \u00a0numa conversa entre dois desconhecidos. 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