{"id":4362,"date":"2012-10-01T16:28:41","date_gmt":"2012-10-01T16:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4362"},"modified":"2016-12-29T14:45:20","modified_gmt":"2016-12-29T14:45:20","slug":"entre-morros-excesso-de-referencia-e-abstracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/entre-morros-excesso-de-referencia-e-abstracao\/","title":{"rendered":"Entre Morros \u2013 excesso de refer\u00eancia e abstra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4366\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4366\" rel=\"attachment wp-att-4366\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4366\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4366\" title=\"Claudia_Jaguaribe_03\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Claudia_Jaguaribe_03-620x262.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"262\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4366\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Jaguaribe<\/p><\/div>\n<p>A cada novo ensaio fotogr\u00e1fico de Claudia Jaguaribe nos deparamos com reinven\u00e7\u00f5es que buscam sintonizar suas inquieta\u00e7\u00f5es visuais com os desafios da contemporaneidade. Viver hoje exige, antes de tudo, estar antenado diante da multiplicidade das a\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas que nos cercam e do ritmo acelerado imposto pelas tecnologias que nos empurra para um estado de d\u00favida e indetermina\u00e7\u00e3o. Afinal, como sobreviver e como se inserir criativamente nessa situa\u00e7\u00e3o de permanente incerteza?<\/p>\n<p>\u00c9 com essa perspectiva que podemos avaliar seu livro mais recente, <em>Entre Morros<\/em>, editado pela Cosac Naify que traz ainda textos de Mauricio Lissovsky (UFRJ), Sergio Burgi (IMS) e Antonio Gon\u00e7alves Filho (rep\u00f3rter especial do <em>Estado<\/em>). O livro prop\u00f5e ao leitor uma viagem imagin\u00e1ria \u00e0 cidade do Rio de Janeiro por meio de um conjunto de fotografias panor\u00e2micas verticais que \u00e9 interrompido por um duplo folder que demanda nossa interven\u00e7\u00e3o \u2013 e, ap\u00f3s sua abertura nos surpreendemos com um bel\u00edssimo panorama horizontal. Ou seja, esse jogo cruzado entre imagens panor\u00e2micas verticais e horizontais proposto pelo desenho do projeto, torna o livro um objeto diferenciado. O t\u00edtulo \u00e9 verticalmente impresso no canto esquerdo da capa, se prolonga na lombada e sugere tamb\u00e9m uma divis\u00e3o da paisagem entre as capas e os morros cariocas. Sem d\u00favida um livro-objeto com insinua\u00e7\u00e3o metalingu\u00edstica.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos Claudia Jaguaribe recebeu o convite para participar do Prix Pictel 2011 cujo tema era \u201cGrowth\u201d, crescimento num sentindo amplo. Foi quando ela come\u00e7ou amadurecer a ideia de desenvolver um projeto de olhar para sua cidade, o Rio de Janeiro, sem cair na armadilha de produzir mais um conjunto de imagens facilmente reconhec\u00edveis. Queria pensar como a fotografia da paisagem poderia trazer novos elementos relativos \u00e0 quest\u00e3o da identidade, no\u00e7\u00e3o de lugar e de pertencimento.<\/p>\n<p>Ao sobrevoar a cidade e se impressionar com as mais incr\u00edveis superposi\u00e7\u00f5es, instituiu como ponto de partida o abandono da perspectiva renascentista, presente na fotografia desde sua origem e fim de encontrar alternativas visuais que fossem capazes de representar o tempo presente centrado na quest\u00e3o da mobilidade e da velocidade. O primeiro impacto foi justamente quando se deparou com um inusitado muro no Morro Dona Marta, constru\u00eddo para conter o crescimento desordenado da comunidade sobre a mata. As fotografias tomadas na ocasi\u00e3o mostravam exatamente o inverso, ou seja, era impressionante como a cidade n\u00e3o se continha em sua expans\u00e3o e inexistiam limites.<\/p>\n<div id=\"attachment_4365\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4365\" rel=\"attachment wp-att-4365\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4365\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4365\" title=\"Claudia_Jaguaribe_04\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Claudia_Jaguaribe_04-620x254.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"254\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4365\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Jaguaribe<\/p><\/div>\n<p>O momento contempor\u00e2neo \u00e9 sin\u00f4nimo de urg\u00eancia e Claudia desenvolveu um ensaio que traduz os diferentes aspectos da cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o da paisagem natural. Al\u00e9m disso, suas imagens oferecem possibilidades visuais que instigam o leitor, respons\u00e1vel por estabelecer as associa\u00e7\u00f5es e as filia\u00e7\u00f5es dessa elaborada constru\u00e7\u00e3o. Decididamente, a incr\u00edvel imagina\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica da artista associada \u00e0s diferentes pr\u00e1ticas e a procedimentos espec\u00edficos propicia os mais variados links com o tempo presente. Nasce uma paisagem espetacularizada, envolvente e sedutora, perfeitamente aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Seu trabalho, centrado justamente na destrui\u00e7\u00e3o da perspectiva fotogr\u00e1fica cl\u00e1ssica, culturalmente codificada, prop\u00f5e uma imagem a partir de fragmentos de v\u00e1rias outras imagens que desencadeiam uma irresist\u00edvel e evocativa mem\u00f3ria. Hoje, parece natural admitir que o impulso de ver gera um olhar apressado. Claudia nos obriga o inverso, pois ao jogar com a superposi\u00e7\u00e3o das fotografias tomadas de diferentes pontos de vista cria uma imagem que exige uma vis\u00e3o atenta, muito mais ampla que o pr\u00f3prio olhar. Ela imp\u00f5e um ritmo inst\u00e1vel \u00e0 imagem e a leitura desatenta da foto se perde numa esp\u00e9cie de desorienta\u00e7\u00e3o espacial e uma desinforma\u00e7\u00e3o sensorial.<\/p>\n<p>Somos ent\u00e3o atravessados pela articula\u00e7\u00e3o das novas sintaxes \u2013 fraturas visuais que interrompem o percurso e geram estranhas descontinuidades. <em>Entre Morros<\/em> apresenta um resultado fascinante \u00e0 medida que a fotografia ganha uma dimens\u00e3o din\u00e2mica e n\u00e3o mais est\u00e1tica como antigamente. Essa experi\u00eancia demonstra que a variedade dos caminhos percorridos pela artista intensifica nosso exerc\u00edcio de ver. Ela nos mostra que a fotografia ainda possui uma incr\u00edvel capacidade de produzir neste tempo presente de tecnologias digitais, novas formas de registro da paisagem. Claudia neste ensaio refor\u00e7a a ideia de que \u201ca fotografia \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de muitos fatores que derivam de uma realidade, mas que apontam para mais do que isso\u201d.<\/p>\n<p>A credibilidade de uma imagem fotogr\u00e1fica n\u00e3o depende exclusivamente da media\u00e7\u00e3o que a artista estabelece entre o registro e o referente. Depende sim de uma atitude, das escolhas assumidas e principalmente da maneira como a imagem ser\u00e1 disseminada. Ao percorrer o livro \u00e9 poss\u00edvel perceber que algumas imagens trazem refer\u00eancias de outras. Sem d\u00favida, elas se espelham em algumas representa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e reconhec\u00edveis como as fotografias de Marc Ferrez, por exemplo. Claudia combina intuitivamente a linguagem do documental, identificando aspectos da geografia, com in\u00e9ditas superposi\u00e7\u00f5es. Com isso, abre outras pot\u00eancias imag\u00e9ticas que de t\u00e3o excepcionais nem sempre nos damos conta da ilus\u00e3o criada para evocar uma refer\u00eancia hist\u00f3rica numa paisagem que n\u00e3o existe.<\/p>\n<div id=\"attachment_4363\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4363\" rel=\"attachment wp-att-4363\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4363\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4363\" title=\"Claudia_Jaguaribe_02\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Claudia_Jaguaribe_02-360x583.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"583\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4363\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Jaguaribe<\/p><\/div>\n<p>A fot\u00f3grafa optou por desenvolver seu ensaio distante do consagrado cart\u00e3o postal e da crueza miser\u00e1vel reconhecida diariamente nos notici\u00e1rios da TV. Em muitas imagens, como essa ao lado, <em>Menina na Laje<\/em>, ela opta no primeiro plano pela presen\u00e7a de uma crian\u00e7a em sua brincadeira cotidiana e, \u00e0 medida que nosso olhar avan\u00e7a sobre a paisagem \u00e9pica constru\u00edda, podemos perceber uma esp\u00e9cie de am\u00e1lgama que opera por associa\u00e7\u00e3o e proximidade, que se insinua como um quebra-cabe\u00e7a interpretativo. A crian\u00e7a est\u00e1 l\u00e1, tranquila, mas n\u00e3o \u00e9 nada diante da grandeza daquilo que lhe pertence \u2013 e n\u00e3o \u00e9 ocupado.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tens\u00e3o na fotografia. Ao contr\u00e1rio, prevalece a inven\u00e7\u00e3o justamente na combina\u00e7\u00e3o de diferentes registros. Os diversos fragmentos superpostos t\u00eam como origem os voos de helic\u00f3ptero, o perto e o distante, o alto, o particular e o geral. Informa\u00e7\u00e3o, velocidade e distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o as palavras chave da p\u00f3s-modernidade e, no caso temos, com certa dose de exatid\u00e3o, o dentro e o fora da paisagem, bem como a vis\u00e3o sem cerim\u00f4nia da montagem dos diferentes tempos a partir de novas pr\u00e1ticas art\u00edsticas, como por exemplo, o uso do arquivo de imagens da artista. A vista do mar no alto dessa fotografia trai gloriosamente nossa vis\u00e3o.<\/p>\n<p>O forte potencial expressivo do ensaio \u00e9 resultado de uma composi\u00e7\u00e3o elaborada que por sua vez revela uma organiza\u00e7\u00e3o complexa. A paisagem adquire a consist\u00eancia de uma realidade e cada um dos elementos compositivos se institui como unidades visuais que podem ser apreendidas separadamente.<\/p>\n<p>O desafio, pois, deste trabalho fotogr\u00e1fico \u00e9 refletir tanto sobre sua contribui\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, quanto a possibilidade de desencadear uma nova consci\u00eancia sobre a paisagem urbana. Claudia associa com singularidade as dist\u00e2ncias cronol\u00f3gicas e topogr\u00e1ficas a fim de provocar nossas percep\u00e7\u00f5es diante daquilo que \u00e9 aparentemente reconhec\u00edvel. O que torna vis\u00edvel \u00e9 uma trama confusa, gerada por uma arquitetura complexa e uma natureza fragmentada, que desafiam a fotografia e seu prov\u00e1vel referente.<\/p>\n<p>Sabemos que em muitas vezes, o excesso de refer\u00eancia nos aproxima da abstra\u00e7\u00e3o. Claudia Jaguaribe se utiliza dos simulacros visuais para desencadear verdadeiras experi\u00eancias sensoriais. Sua fotografia n\u00e3o cristaliza o momento \u2013 ao contr\u00e1rio, provoca espanto e admira\u00e7\u00e3o, encantamento e perturba\u00e7\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 fotografia documental tradicional. Ela disponibiliza novas evid\u00eancias e explora o car\u00e1ter combinat\u00f3rio e simult\u00e2neo do nosso c\u00e9rebro. Por isso mesmo o ensaio apresenta grande capilaridade entre a fotografia documental e a experimental e nos mostra que a imagem t\u00e9cnica n\u00e3o corresponde mais a uma ordem imut\u00e1vel do universo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cada novo ensaio fotogr\u00e1fico de Claudia Jaguaribe nos deparamos com reinven\u00e7\u00f5es que buscam sintonizar suas inquieta\u00e7\u00f5es visuais com os desafios da contemporaneidade. 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