{"id":4344,"date":"2012-09-24T20:02:34","date_gmt":"2012-09-24T20:02:34","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4344"},"modified":"2018-08-07T11:43:48","modified_gmt":"2018-08-07T11:43:48","slug":"quatro-licoes-de-chris-marker","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/quatro-licoes-de-chris-marker\/","title":{"rendered":"Quatro li\u00e7\u00f5es de Chris Marker"},"content":{"rendered":"<p>Viagens no tempo aparecem de forma recorrente na obra do fot\u00f3grafo e cineasta Chris Marker, a exemplo do que vemos em seus trabalhos mais conhecidos, o \u201cfoto-romance\u201d <em>La Jet\u00e9e <\/em>(1962) e, mais sutilmente, em\u00a0<em>Sans Soleil<\/em> (1983).<\/p>\n<div style=\"width: 788px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-4344-1\" width=\"788\" height=\"480\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/sans_soleil....mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/sans_soleil....mp4\">https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/sans_soleil....mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p> &nbsp;<\/p>\n<p>Viajar no tempo \u00e9 algo que ele mesmo faz na rela\u00e7\u00e3o que estabelece com seus arquivos. Desde seus primeiros trabalhos, ele assume transitar por um terreno inst\u00e1vel: os sentidos das imagens. E faz delas o palco em que a hist\u00f3ria contracena com o presente. Dessas experi\u00eancias, podemos tirar algumas li\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p><strong>1. as imagens se transformam quando confrontam outros discursos<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 comentamos num <a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/dois-foto-filmes-raros-de-chris-marker\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">post anterior<\/a> o exerc\u00edcio cinematogr\u00e1fico que ele realizou no document\u00e1rio <em>Carta da Sib\u00e9ria <\/em>(1957): ele demonstra o quanto as imagens documentais mais simples podem ser suscet\u00edveis \u00e0s leituras ideol\u00f3gicas, sobretudo quando se trata, como o seu caso, de falar da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em plena tens\u00e3o da Guerra Fria. Para isso, ele associa um mesmo fragmento de montagem cinematogr\u00e1fica a tr\u00eas diferentes trilhas sonoras e narra\u00e7\u00f5es em <em>off<\/em>, mostrando que essas imagens podem sustentar, conforme se queira, posi\u00e7\u00f5es muito distintas sobre um mesmo objeto.<\/p>\n<div style=\"width: 480px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-4344-2\" width=\"480\" height=\"320\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/siberie....mp4?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/siberie....mp4\">https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/siberie....mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. as imagens nunca permanecem id\u00eanticas a si mesmas no tempo<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Olympia 52<\/em> (1952), Marker tenta captar a atmosfera dos Jogos Ol\u00edmpicos de Helsinki, o primeiro a ter a participa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica competindo ao lado dos Estados Unidos. Portanto, momento emblem\u00e1tico da possibilidade de uma conviv\u00eancia pac\u00edfica num mundo radicalmente polarizado. Percorrendo competi\u00e7\u00f5es de diversas modalidades, Marker mostra despretensiosamente, entre os participantes da tradicional prova de equita\u00e7\u00e3o, um jovem militar chileno completando com \u00eaxito seu percurso. Vinte e cinco anos depois, em <em>O fundo do ar \u00e9 vermelho<\/em> (1977), Marker retorna a seus arquivos para repassar os conflitos e convuls\u00f5es sociais dos anos anteriores, que considera cruciais para o s\u00e9culo XX. Num dado momento, ele reencontra a mesma imagem do cavaleiro chileno, identificando nesse momento aquele que viria se tornar o General Mendoza, bra\u00e7o direito do ditador Augusto Pinochet. O diretor ent\u00e3o conclui: \u201cnunca sabemos o que filmamos\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_4346\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4346\" rel=\"attachment wp-att-4346\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4346\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4346\" title=\"11_olympia52\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/11_olympia52-620x447.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"447\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4346\" class=\"wp-caption-text\">Chris Marker, Olympia 52, 1952<\/p><\/div>\n<p><strong>3. as imagens tamb\u00e9m nos olham<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Staring Back<\/em> (2006), exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica que percorre meio s\u00e9culo de imagens de seu arquivo, Marker parte de uma imagem que mostra os rostos tensos de pessoas num balc\u00e3o, na Place de la Republique, em Paris, numa manifesta\u00e7\u00e3o pela liberta\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia, em 1961. Ele chama aten\u00e7\u00e3o para o fundo da imagem: \u201colhe a \u00e1rvore\u201d. Em seguida, percorre uma s\u00e9rie de outros protestos, em momentos e pa\u00edses distintos, at\u00e9 retornar ao mesmo balc\u00e3o, na mesma pra\u00e7a, em 2002, quando jovens se organizam contra a chegada do candidato de direita, Jean-Marie Le Pen, ao segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Ele ent\u00e3o completa: \u201cde volta ao balc\u00e3o na Place de la Republique, onde todas as manifesta\u00e7\u00f5es importantes come\u00e7aram ou terminaram\u201d. Vemos ali a mesma \u00e1rvore. Marker relata que, enquanto percorria o mundo e assistia \u00e0 sua reconfigura\u00e7\u00e3o, enquanto passava do cinema ao v\u00eddeo e do v\u00eddeo ao computador, \u201cela cresceu, s\u00f3 um pouco. Entre essas poucas polegadas, quarenta anos da minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Ele busca ent\u00e3o os personagens de suas fotos que olharam de volta para ele, explicita ou sutilmente. Mais adiante, mostra personagens e fatos que deseja rever: \u201ceu os mirei, mas n\u00e3o o bastante, n\u00e3o por tempo suficiente\u201d. <em>Staring Back<\/em> \u00e9 um duplo movimento: do olhar que retorna \u00e0 hist\u00f3ria, e do olhar que a hist\u00f3ria nos retorna.\u00a0Um gesto perdido nas imagens pode condensar o testemunho de eventos hist\u00f3ricos que nos concernem, de modo que nos sentimos visados por esse gesto que, antes, mal hav\u00edamos percebido.<\/p>\n<div id=\"attachment_4345\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4345\" rel=\"attachment wp-att-4345\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4345\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4345\" title=\"15_staring back\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/15_staring-back-620x225.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"225\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4345\" class=\"wp-caption-text\">Chris Marker, Staring Back, 2006<\/p><\/div>\n<p><strong>4. um autor \u00e9 o confronto de diferentes sujeitos<\/strong><\/p>\n<p>Marker sabe que o tempo transforma as imagens e, tamb\u00e9m, a autoridade desse sujeito \u2013 o autor \u2013 em que nos apoiamos para buscar nelas um sentido mais est\u00e1vel. Em 2003, convidado a falar de dois filmes relan\u00e7ados num \u00fanico DVD, ele disse: \u201cvinte anos separam <em>La Jet\u00e9e\u00a0<\/em>de <em>Sans Soleil<\/em>. E outros vinte anos at\u00e9 o presente. Nestas condi\u00e7\u00f5es, se eu pudesse falar em nome dessas pessoas que fizeram esses filmes, n\u00e3o seria uma entrevista, seria espiritismo\u201d.<\/p>\n<p>Baudelaire dizia que &#8220;o\u00a0poeta goza desse incompar\u00e1vel privil\u00e9gio que \u00e9 o de ser ele mesmo e um outro\u201d.\u00a0 Chris Marker \u2013 que n\u00e3o \u00e9 seu nome verdadeiro \u2013 aparece em v\u00e1rios trabalhos sob outros pseud\u00f4nimos e alteregos, quase sempre reconhec\u00edveis, mas um tanto diversos. Sua biografia \u00e9 obscura e raramente encontramos um retrato seu. Houve quem afirmasse que ele n\u00e3o existe, e Alain Resnais, seu amigo e parceiro em v\u00e1rios filmes, afirmava algo n\u00e3o menos curioso: \u201ch\u00e1 uma teoria que circula e que n\u00e3o \u00e9 sem fundamento, segundo a qual Marker seria um extraterrestre. Ele tem a apar\u00eancia de um humano, mas ele vem talvez do futuro ou de um outro planeta. Talvez do futuro, o que nos faz pensar que a ra\u00e7a dos terr\u00e1queos se parecer\u00e1 com Marker em alguns s\u00e9culos&#8221;.<\/p>\n<p>Chris Marker morreu h\u00e1 dois meses. Mas, levando em conta suas li\u00e7\u00f5es, ainda veremos seus trabalhos futuros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viagens no tempo aparecem de forma recorrente na obra do fot\u00f3grafo e cineasta Chris Marker, a exemplo do que vemos em seus trabalhos mais conhecidos, o \u201cfoto-romance\u201d La Jet\u00e9e (1962) e, mais sutilmente, em\u00a0Sans Soleil (1983). &nbsp; Viajar no tempo \u00e9 algo que ele mesmo faz na rela\u00e7\u00e3o que estabelece com seus arquivos. Desde seus primeiros trabalhos, ele assume transitar por um terreno inst\u00e1vel: os sentidos das imagens. E faz delas o palco em que a hist\u00f3ria contracena com o presente. Dessas experi\u00eancias, podemos tirar algumas li\u00e7\u00f5es: 1. as imagens se transformam quando confrontam outros discursos J\u00e1 comentamos num post [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,835,829,885],"tags":[470,478,698,731,747],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4344"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4344"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4344\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12060,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4344\/revisions\/12060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}