{"id":4323,"date":"2012-09-17T17:32:17","date_gmt":"2012-09-17T17:32:17","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4323"},"modified":"2016-05-28T13:44:05","modified_gmt":"2016-05-28T13:44:05","slug":"bea-feitler-revolucionaria-direcao-de-arte-e-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/bea-feitler-revolucionaria-direcao-de-arte-e-fotografia\/","title":{"rendered":"Bea Feitler, revolucion\u00e1ria \u2013 dire\u00e7\u00e3o de arte e fotografia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4332\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4332\" rel=\"attachment wp-att-4332\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4332\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4332\" title=\"fotogal3\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/fotogal3-360x270.jpeg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"270\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4332\" class=\"wp-caption-text\">Bea Feitler, 1965<\/p><\/div>\n<p>Na tarde do \u00faltimo domingo de junho de 1994, ao chegar em Nova York, eu me dirigi rapidamente ao Whitney Museum para aproveitar os \u00faltimos momentos da exposi\u00e7\u00e3o\u00a0 <em>Evidence 1944 \u2013 1994<\/em>, de Richard Avedon, que encerrava sua temporada. Foi ali que me deparei com o nome da Bea Feitler (1938\u20131982) associado \u00e0 fotografia, em particular, com o projeto do livro <em>Diary of a Century<\/em>, di\u00e1rio fotogr\u00e1fico de Jacques-Henri Lartigue, organizado por Avedon e publicado em 1970.<\/p>\n<p>J\u00e1 conhecia a obra mas, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o sabia que esse era o primeiro projeto de livro inteiramente paginado por aquela que se tornara reconhecida como a melhor profissional em design gr\u00e1fico e dire\u00e7\u00e3o de arte entre o in\u00edcio das d\u00e9cadas de 1960 e 1980. Brasileira, nascida no Rio de Janeiro, era filha de pais judeus instalados na cidade desde 1936, vindos da Europa assolada pelo nazismo. Nos anos cinquenta, estimulada pelo pai, empres\u00e1rio do setor gr\u00e1fico, foi para Nova York estudar na <em>Parsons School of Design<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_4331\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4331\" rel=\"attachment wp-att-4331\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4331\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4331\" title=\"Revistas Senhor e Setenta(Bill King)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Revistas-Senhor-e-SetentaBill-King-360x245.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"245\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4331\" class=\"wp-caption-text\">Revistas Senhor e Setenta<\/p><\/div>\n<p>Como pesquisador, interessa-me e muito as conex\u00f5es estabelecidas entre fot\u00f3grafos, editores, diretores de arte, entre outros profissionais envolvidos na \u00e1rea de propaga\u00e7\u00e3o com qualidade da imagem fotogr\u00e1fica. E logo percebi que o nome de Bea Feitler deveria receber aten\u00e7\u00e3o. O primeiro passo foi olhar para sua produ\u00e7\u00e3o realizada aqui no Brasil. Conhecendo a import\u00e2ncia da revista <em>Senhor<\/em> na \u00e1rea das publica\u00e7\u00f5es, consegui reunir os sessenta primeiros n\u00fameros, editada no Rio de Janeiro por Nahum Sirotsky e Simao Waisman, e circulados entre o final dos anos cinquenta e inicio dos anos sessenta. Bea foi estimulada pelo diretor de arte Carlos Scliar, que ficou encantado com seu portf\u00f3lio e convidou-a para ser sua assistente. Foi atrav\u00e9s dessa experi\u00eancia profissional que se aproximou de v\u00e1rias personalidades da intelectualidade brasileira e que deu inicio a sua trajet\u00f3ria de \u201csorte, sucesso e drama\u201d.<\/p>\n<p>Ainda hoje \u00e9 percept\u00edvel a revolucionaria atitude na cria\u00e7\u00e3o de algumas das suas capas assinadas, que se tornaram c\u00e9lebres e hoje s\u00e3o refer\u00eancias de experi\u00eancia e ousadia gr\u00e1fica. Sabemos tamb\u00e9m que nesse per\u00edodo produziu diversas capas de livro, entre elas, aquela emblem\u00e1tica de <em>O Homem Nu<\/em>, de Fernando Sabino, de 1960.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o do livro de Otto Stupakoff, editado pela Cosac Naify, tive oportunidade de ouvir muitas hist\u00f3rias envolvendo aquela que seria sua madrinha em Nova York. Bea foi respons\u00e1vel direta por abrir as primeiras p\u00e1ginas para sua fotografia e propiciar, atrav\u00e9s dos in\u00fameros jantares e encontros em sua casa, a aproxima\u00e7\u00e3o com Richard Avedon e Diane Arbus, entre outros profissionais que se transformaram nos mestres da fotografia produzida no per\u00edodo. Ano passado, visitei a exposi\u00e7\u00e3o de Diane Arbus em Paris, e no texto biogr\u00e1fico de parede era poss\u00edvel ler que a fot\u00f3grafa produziu um portf\u00f3lio para vender seu trabalho e o primeiro deles, e o \u00fanico vendido, foi adquirido exatamente por Bea Feitler, sua melhor amiga.<\/p>\n<div id=\"attachment_4327\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4327\" rel=\"attachment wp-att-4327\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4327\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4327\" title=\"Feitler Hiro 3\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Feitler-Hiro-3-360x454.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"454\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4327\" class=\"wp-caption-text\"><em>Harper\u2019s Bazaar, foto de\u00a0<\/em>Hiro<\/p><\/div>\n<p>Tudo isso, para qualquer pesquisador da \u00e1rea, merece aten\u00e7\u00e3o e claro, numa vis\u00e3o mais ampliada, o trabalho de Bea Feitler em particular merece destaque na cronologia da fotografia brasileira, uma vez que sua inser\u00e7\u00e3o no mercado internacional foi pioneira e sua vis\u00e3o inovadora do uso da fotografia no desenho gr\u00e1fico foi indiscutivelmente aceita. Foi incorporada ao <em>staff<\/em> da revista <em>Harper\u2019s Bazaar<\/em> em janeiro de 1961, como assistente de Marvin Israel, que substituiu o lend\u00e1rio Alexey Brodovitvh, que trabalhou na revista entre 1934 e 1958. A partir de 1963, Bea Feitler e Ruth Ansel formariam uma parceria que n\u00e3o s\u00f3 deu continuidade ao trabalho dos diretores de arte anteriores, como soube introduzir um novo e inigual\u00e1vel frescor visual.<\/p>\n<p>Foi Bea Feitler que revolucionou a revista a partir dos trabalhos conjuntos com Richard Avedon, os grafismos inusitados de Hiro, os ensaios nada convencionais de Diane Arbus, as sutilezas dos enquadramentos de Frank Horvat, entre muitos outros fot\u00f3grafos que marcaram \u00e9poca na revista. Foi nesse denso e revolucion\u00e1rio caldo cultural que Otto Stupakoff encontrou abertura para iniciar sua trajet\u00f3ria internacional. Por isso mesmo, ele n\u00e3o cansava de elogiar Bea como a profissional que era \u201ca melhor diretora de arte que j\u00e1 existiu no mundo\u201d.<\/p>\n<p>No livro que fizemos juntos, ele deixou claro que Bea \u201cfoi a \u00fanica diretora de arte que conheci que sentia uma responsabilidade pedag\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o ao fot\u00f3grafo. N\u00e3o s\u00f3 o ajudava a encontrar o seu estilo, como tamb\u00e9m o ajudava a se desenvolver como profissional, a tal ponto e com tal seriedade, que n\u00e3o admitia a hesita\u00e7\u00e3o do fot\u00f3grafo durante um trabalho\u201d. Por in\u00fameras vezes, Otto tamb\u00e9m me descreveu os jantares na casa de Bea onde aconteciam as discuss\u00f5es de ordem est\u00e9tica-editorial com ela e Avedon, e as sa\u00eddas estrat\u00e9gicas para circular no Central Park com Diane Arbus, entre outras lembran\u00e7as que ativavam minha imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Penso a fotografia exatamente assim, ou seja, uma discuss\u00e3o cont\u00ednua, que n\u00e3o termina com o trabalho finalizado, mas envolve \u201co onde, como e porqu\u00ea\u201d faz\u00ea-lo circular; envolve vida, sentimento, paix\u00f5es e trocas permanentes de ideias. Isso me parece fundamental e decisivo para a forma\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do artista. Mais do que nunca, Bea Feitler marca presen\u00e7a na hist\u00f3ria da fotografia aplicada.<\/p>\n<div id=\"attachment_4328\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4328\" rel=\"attachment wp-att-4328\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4328\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4328\" title=\"Foto Avedon\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Foto-Avedon-360x481.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"481\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4328\" class=\"wp-caption-text\">Richard Avedon<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar a capa da <em>Harper\u2019s Bazaar<\/em> de abril de 1965, a partir da fotografia de Richard Avedon, dedicada \u00e0 corrida espacial, em que o rosto da modelo Jean Shrimpton est\u00e1 emoldurado por um capacete recortado em papel rosa e fundo cinza, totalmente improvisado por Bea, dada a urg\u00eancia que tinha em fechar a edi\u00e7\u00e3o, em contraste com o logo da revista em verde-lim\u00e3o. O momento era de ousadia e plena efervesc\u00eancia: pop art, libera\u00e7\u00e3o feminina, corrida espacial, entre outras revolu\u00e7\u00f5es e press\u00f5es libert\u00e1rias dos anos sessenta que foram agentes transformadores da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Depois foi diretora de arte da revista <em>Ms<\/em>, publicada entre julho de 1972 e junho de 1976, e trabalhou diretamente com Mary Ellen Mark, Bill King e Annie Leibovitz, entre outros. Com F\u00e1tima Ali e a editora Abril desenvolveu como consultora a revista <em>Setenta<\/em>, que teve onze edi\u00e7\u00f5es em 1970, e teve como colaborador o fot\u00f3grafo norte-americano Bill King. Ela ainda participou de in\u00fameros projetos de livros, capas de discos e criou para o <em>The Alvin Alley American Dancer Theater<\/em> todo o material gr\u00e1fico \u2013 cartazes, folhetos, libretos \u2013 e at\u00e9 mesmo alguns figurinos. A dan\u00e7a era a sua segunda grande paix\u00e3o. Mas tamb\u00e9m deixou sua marca na revista <em>Rolling Stone<\/em>, criando entre tantas, a contundente capa em janeiro de 1981, logo ap\u00f3s o assassinato de John Lennon, que aparece nu abra\u00e7ado a Yoko Ono na fotografia de Annie Leibovitz. H\u00e1 apenas a fotografia e o logotipo da revista. O resto \u00e9 sil\u00eancio iconizando a dor e o luto de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_4330\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4330\" rel=\"attachment wp-att-4330\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4330\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4330\" title=\"Foto Leibovitz\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Foto-Leibovitz-360x431.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"431\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4330\" class=\"wp-caption-text\">Rolling Stone: John Lenon e Yoko Ono<\/p><\/div>\n<p>Ao folhear as p\u00e1ginas do livro <em>O design de Bea Feitler<\/em>, recentemente publicado pela Cosac Naify, \u00e9 poss\u00edvel conhecer a melhor refer\u00eancia brasileira na \u00e1rea de design gr\u00e1fico e tamb\u00e9m ter acesso parcial ao seu universo pessoal, por meio de retratos, raros snapshots feitos por seus amigos \u00edntimos \u2013 Duane Michals (1963), Richard Avedon (1964), Diane Arbus (1965), Hiro (1967), Jacques-Henri Lartigue (1968), Bill King (1970), Annie Leibovitz (1977), entre outros.<\/p>\n<p>Morreu em 1982, ap\u00f3s constatar um raro tipo de c\u00e2ncer muscular. Com certeza, viveu em profundidade cada momento e soube trazer para o seu trabalho as principais marcas do seu tempo. No final do ano de sua morte foi criada a <em>Bea Feitler Foundation for the School of Visual Arts<\/em>, respons\u00e1vel por outorgar anualmente bolsas de estudos aos jovens talentos da \u00e1rea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na tarde do \u00faltimo domingo de junho de 1994, ao chegar em Nova York, eu me dirigi rapidamente ao Whitney Museum para aproveitar os \u00faltimos momentos da exposi\u00e7\u00e3o\u00a0 Evidence 1944 \u2013 1994, de Richard Avedon, que encerrava sua temporada. Foi ali que me deparei com o nome da Bea Feitler (1938\u20131982) associado \u00e0 fotografia, em particular, com o projeto do livro Diary of a Century, di\u00e1rio fotogr\u00e1fico de Jacques-Henri Lartigue, organizado por Avedon e publicado em 1970. 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