{"id":432,"date":"2010-01-22T15:26:00","date_gmt":"2010-01-22T15:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=432"},"modified":"2016-05-28T14:34:03","modified_gmt":"2016-05-28T14:34:03","slug":"coletivizando-o-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/coletivizando-o-coletivo\/","title":{"rendered":"Coletivizando o Coletivo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mote<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/ciadefoto.com.br\/blog\/?p=1837\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"  \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/2497199617_9bb25c101b_b.jpg\" alt=\"Cia de Foto. Primeira imagem da proposta S\u00e3o Paulo de Muitos\" width=\"235\" height=\"157\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Cia de Foto. Primeira imagem da proposta &quot;S\u00e3o Paulo de Muitos&quot;<\/p><\/div>\n<p>Nestes dias, vimos uma iniciativa da <a href=\"http:\/\/ciadefoto.com.br\/blog\/?p=1837\">Cia de Foto<\/a> que abriu \u00e0 comunidade de fot\u00f3grafos o convite para ocupar duas p\u00e1ginas da Revista da Folha com imagens de S\u00e3o Paulo, na edi\u00e7\u00e3o que sair\u00e1 na v\u00e9spera do anivers\u00e1rio da cidade. Desde algum tempo, acompanho a produ\u00e7\u00e3o da Cia e o blog, mas n\u00e3o tinha id\u00e9ia do poder agregador dessa turma: com a provoca\u00e7\u00e3o que fizeram, reuniram mais de 200 autores, entre fot\u00f3grafos importantes, outros emergentes, alguns espor\u00e1dicos (como eu) e, claro, outros coletivos. A id\u00e9ia se espalhou e ganhou corpo com o t\u00edtulo de \u201cS\u00e3o Paulo de Muitos\u201d.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>A rede como evento<\/strong><\/p>\n<p>Por falta de tempo e desenvoltura, freq\u00fcento menos do que deveria os blogs e as redes sociais. Mas temos que admitir a for\u00e7a desses meios. A internet j\u00e1 me salvou da solid\u00e3o da pesquisa outras vezes. \u00a0Independentemente da quantidade de leitores que conquistamos, o mais incr\u00edvel \u00e9 descobrir e fazer contato com um tanto de gente boa que tem produzido e pensado a fotografia. Foi assim que encontrei alguns blogs, foi assim que deu vontade de ter um. E aqui estamos, eu e o Rubens, tamb\u00e9m gra\u00e7as ao incentivo de outros blogueiros que encontramos no momento certo: Pio Figueiroa, Livia Aquino, Georgia Quintas&#8230;<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de mais rico nessas experi\u00eancias n\u00e3o \u00e9 o conte\u00fado de cada blog, mas alguma coisa que acontece entre eles. \u00c0s vezes, eu sinto que as redes proporcionam uma intera\u00e7\u00e3o e uma imers\u00e3o semelhante \u00e0quela que s\u00f3 vemos nos grandes eventos, mas ainda mais potencializada. Digo isso porque, pela rede, tenho esbarrado em muita gente legal, com conversas informais, mas muito comprometidas, algo que eu s\u00f3 vivi nas antigas Semanas Nacionais de Fotografia. Infelizmente, n\u00e3o tenho frequentado, mas n\u00e3o esque\u00e7o da import\u00e2ncia de eventos como o Paraty em Foco que, al\u00e9m de cruzar alguns blogs, \u00e9 um desses grandes espa\u00e7os em que o pessoal da fotografia se cruza em carne e osso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m como nos grandes eventos, ao lado daqueles que aproveitam esses tantos pequenos encontros, h\u00e1 os que sabem criar condi\u00e7\u00f5es para que eles aconte\u00e7am. \u00c9 esse o papel que a Cia tem feito muito bem nas redes, mandando recados, dando dicas, estimulando, provocando, convidando um blogueiro a ver o post do outro. No final das contas, \u00e9 um trabalho de a\u00e7\u00e3o cultural, que une um contingente de pessoas que s\u00f3 agora percebo.<\/p>\n<p>O que a Cia faz nas redes \u00e9 uma esp\u00e9cie de met\u00e1fora de seu pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o, em que a intera\u00e7\u00e3o \u00e9 mais forte do que os gestos individuais, em que o todo \u00e9 mais que a soma das partes. Ou seja, o coletivo j\u00e1 \u00e9 em si uma rede, esp\u00e9cie de microcosmo an\u00e1logo ao cosmo da internet, que por sua vez \u00e9 an\u00e1logo ao macrocosmo que chamamos de cultura.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Autoria<\/strong><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, toda cria\u00e7\u00e3o tem algo de coletivo. Quando um pintor usa a perspectiva, quando um fot\u00f3grafo regula sua c\u00e2mera, quando um editor de imagens seleciona um efeito no photoshop, todos est\u00e3o recorrendo a um saber acumulado, transformado em programa e colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos criadores. Desse modo, h\u00e1 um universo de an\u00f4nimos que s\u00e3o sempre co-autoras das nossas imagens de modo que, quando expressamos algo, a cultura fala junto conosco.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de autoria, sobretudo ligada a um indiv\u00edduo, n\u00e3o existiu sempre na hist\u00f3ria. Existe com mais clareza h\u00e1 uns 500 anos. Antes, os contornos desse sujeito n\u00e3o eram assim t\u00e3o claros. Por exemplo, n\u00e3o se sabe ao certo se Homero escreveu a Il\u00edada e a Odiss\u00e9ia, se foi um cantador erudito que organizou narrativas que circulavam pela Gr\u00e9cia, ou se \u00e9 uma esp\u00e9cie de personagem s\u00edntese dos pr\u00f3prios mitos que s\u00e3o narrados por sua suposta voz. Outro exemplo: um sacerdote medieval n\u00e3o pensava como sendo suas as decis\u00f5es sobre o \u00edcone que pintava, ele se supunha instrumento de algo maior do que ele, por isso, n\u00e3o havia sentido em assinar a obra. Foi a modernidade (no sentido amplo, algo que come\u00e7a a se organizar l\u00e1 pelos s\u00e9culos XVI, XVII) que construiu a no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo, algu\u00e9m que se sente aut\u00f4nomo com rela\u00e7\u00e3o a Deus, \u00e0 natureza e \u00e0 coletividade. \u00c9 a\u00ed que surgem os g\u00eanios, com seus estilos peculiares, suas personalidades marcantes, com suas assinaturas valiosas.<\/p>\n<p>Em 1969, Foucault realizou uma confer\u00eancia chamada \u201cO que \u00e9 um autor?\u201d, lan\u00e7ando sobre a literatura quest\u00f5es que podemos conduzir a outras artes. Para ele, \u201cautor\u201d \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o, ou seja, algo que n\u00e3o existe em si, mas para algumas finalidades dadas historicamente, dentre elas, garantir que a obra opere sob a condi\u00e7\u00e3o de propriedade privada. Uma outra fun\u00e7\u00e3o \u00e9 permitir checar um pensamento diante de um nome que merece ou n\u00e3o nossa confian\u00e7a, em outras palavras, que tem ou n\u00e3o autoridade. Como n\u00e3o encontramos alternativas satisfat\u00f3rias ao capitalismo, ok, a demarca\u00e7\u00e3o dessa propriedade privada (o direito autoral) permanece indispens\u00e1vel, \u00e9 nosso meio de sobreviv\u00eancia. Mas n\u00e3o deixa de ser perturbador \u2013 uma pequena revolu\u00e7\u00e3o \u2013 substituir o \u201cnome pr\u00f3prio\u201d que nos situa diante de uma obra pelo nome coletivo.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o da \u201cautoria\u201d, assim como do \u201csujeito\u201d, \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o abrimos m\u00e3o. Mas ela corre sempre o risco de tornar a arte uma manifesta\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica, e cria a ilus\u00e3o de que algumas conquistas hist\u00f3ricas s\u00e3o produto de a\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos. Entre a massa alienada que obedece a estere\u00f3tipos e o indiv\u00edduo que acredita criar tudo a partir do zero e de si mesmo, a id\u00e9ia de \u201crede\u201d parece trazer uma medida mais adequada \u00e0 realidade de uma experi\u00eancia cultural. No que se refere particularmente \u00e0 arte, a id\u00e9ia de \u201ccoletivo\u201d tem o mesmo valor: permite construir e manter uma identidade autoral forte sem cair no culto ao indiv\u00edduo, a um nome.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia coletiva<\/strong><\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo franc\u00eas Pierre L\u00e9vy observa que as redes constituem um aparato de percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e aprendizado exterior aos indiv\u00edduos. Como experi\u00eancia descentralizada, essa nova cogni\u00e7\u00e3o resulta no que chamou de \u201cintelig\u00eancia coletiva\u201d, maior em amplitude e alcance que a intelig\u00eancia individual ou mesmo a acad\u00eamica; uma intelig\u00eancia que se desenvolve de modo aut\u00f4nomo com rela\u00e7\u00e3o aos projetos individuais ou institucionais. \u00c9 uma id\u00e9ia importante, mesmo que eu n\u00e3o seja t\u00e3o otimista quanto L\u00e9vy: ao lado dessa intelig\u00eancia existe tamb\u00e9m a possibilidade de desenvolvimento aut\u00f4nomo de algumas burrices coletivas, sobretudo quando dissolvemos todas as refer\u00eancias de qualidade em nome de um &#8220;democratismo&#8221;.<\/p>\n<p>Acho mais produtivo quando aliamos a liberdade de express\u00e3o nas redes a projetos que assumem a responsabilidade de propor par\u00e2metros para as a\u00e7\u00f5es. Ou seja, tamb\u00e9m nesse sentido, o ideal me parece algo entre a vaidade individual e a aliena\u00e7\u00e3o das massas. Coletivo (seja um grupo de artistas, de pesquisadores, de blogs) \u00e9, porque n\u00e3o, um nome que podemos dar a essa boa medida. No caso espec\u00edfico da Cia de Foto, enquanto buscam refer\u00eancias para seus pr\u00f3prios trabalhos, estimulam e reverberam aquilo que julgam ter qualidade, conectam e ampliam o sentido de produ\u00e7\u00f5es isoladas, e colocam lado a lado nomes com diferentes pesos de autoridade. Em outras palavras, enquanto criam, fazem o que poderiamos chamar de pol\u00edtica cultural (se o termo n\u00e3o estivesse t\u00e3o desgastado), talvez a mais adequada aos nossos tempos e aos potenciais das novas tecnologias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mote Nestes dias, vimos uma iniciativa da Cia de Foto que abriu \u00e0 comunidade de fot\u00f3grafos o convite para ocupar duas p\u00e1ginas da Revista da Folha com imagens de S\u00e3o Paulo, na edi\u00e7\u00e3o que sair\u00e1 na v\u00e9spera do anivers\u00e1rio da cidade. Desde algum tempo, acompanho a produ\u00e7\u00e3o da Cia e o blog, mas n\u00e3o tinha id\u00e9ia do poder agregador dessa turma: com a provoca\u00e7\u00e3o que fizeram, reuniram mais de 200 autores, entre fot\u00f3grafos importantes, outros emergentes, alguns espor\u00e1dicos (como eu) e, claro, outros coletivos. A id\u00e9ia se espalhou e ganhou corpo com o t\u00edtulo de \u201cS\u00e3o Paulo de Muitos\u201d. A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[834,827],"tags":[701],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=432"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7218,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432\/revisions\/7218"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}