{"id":4256,"date":"2012-09-10T12:02:39","date_gmt":"2012-09-10T12:02:39","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4256"},"modified":"2016-05-28T14:08:43","modified_gmt":"2016-05-28T14:08:43","slug":"de-stoker-a-cronenberg-os-modos-de-reencarnar-do-vampiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/de-stoker-a-cronenberg-os-modos-de-reencarnar-do-vampiro\/","title":{"rendered":"De Stoker a Cronenberg: os modos de reencarnar do vampiro"},"content":{"rendered":"<p>Bram Stoker n\u00e3o inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que j\u00e1 vagava pelas lendas europeias. Humanizado e rom\u00e2ntico, seu Dr\u00e1cula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman.<\/p>\n<div id=\"attachment_4308\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4308\" rel=\"attachment wp-att-4308\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4308\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4308\" title=\"Bela Lugosi as Count Dracula and Helen Chandler in Dracula - 1931\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Bela-Lugosi-as-Count-Dracula-and-Helen-Chandler-in-Dracula-19311-620x409.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"409\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4308\" class=\"wp-caption-text\">Bela Lugosi e Helen Chandler, Dr\u00e1cula, 1931<\/p><\/div>\n<p>Com seu sangue impuro, o vampiro \u00e9 um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da m\u00e1 fama, \u00e9 um ser tolerante: est\u00e1 sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam com o imagin\u00e1rio de cada momento e de cada p\u00fablico. Imposs\u00edvel inventariar aqui todas as suas varia\u00e7\u00f5es. Mas,\u00a0para nos lembrar de sua imortalidade, ele sempre reaparece uma segunda vez em cada uma de suas formas mais expressivas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o a aprender com o vampiro: nessas reencarna\u00e7\u00f5es, encontramos o pr\u00f3prio modo de perpetua\u00e7\u00e3o da imagem.<\/p>\n<p><strong>A c\u00f3pia<\/strong><\/p>\n<p><em>O sueco Deixa ela entrar <\/em>(2008) \u00e9 talvez o melhor filme de vampiro da d\u00e9cada anterior. \u00c9 a hist\u00f3ria de um amor nada rom\u00e2ntico \u2013 talvez, mais um misto de compaix\u00e3o e depend\u00eancia \u2013 entre duas crian\u00e7as marginalizadas, o solit\u00e1rio Oskar, que apanha dos amigos da escola, e a pequena vampira Eli, que se muda para seu pr\u00e9dio (no roteiro original, entendemos que Eli \u00e9, na verdade, um menino que havia sido castrado s\u00e9culos antes). Tinha tudo para ser um sucesso: roteiro impec\u00e1vel, efeitos competentes, bons ingredientes \u2013 amor, medo, viol\u00eancia \u2013 e personagens em voga \u2013\u00a0vampiro e v\u00edtima de bulling\u2013, mas a atmosfera e o ritmo\u00a0n\u00f3rdico da narrativa entediou o p\u00fablico.<\/p>\n<div id=\"attachment_4272\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4272\" rel=\"attachment wp-att-4272\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4272\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4272\" title=\"lettherightonein2\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/lettherightonein2-620x348.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"348\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4272\" class=\"wp-caption-text\"><em>Deixa ela entrar<\/em> (<em>L\u00e5t den r\u00e4tte komma in<\/em>), 2008, dirigido por Tomas Alfredson<\/p><\/div>\n<p>Pouco tempo depois, o filme reaparecia num remake hollywodiano, <em>Deixe-me entrar <\/em>(2010). Exatamente a mesma hist\u00f3ria, com um pouco mais ritmo, de sustos e efeitos especiais. Mas n\u00e3o disse a que veio, al\u00e9m de responder \u00e0 pregui\u00e7a dos americanos para ler as legendas. Foi um fracasso, n\u00e3o atraiu nem os entusiastas do cinema europeu, nem os f\u00e3s da saga Crep\u00fasculo. Vampiro que suga vampiro, morre de anemia.<\/p>\n<div id=\"attachment_4274\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4274\" rel=\"attachment wp-att-4274\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4274\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4274\" title=\"Let-Me-In-horror-movies-23793763-1280-960\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Let-Me-In-horror-movies-23793763-1280-960-620x465.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4274\" class=\"wp-caption-text\"><em>Deixe-me entrar<\/em> (<em>Let me in<\/em>), 2010, dirigido por Matt Reeves<\/p><\/div>\n<p><strong>A cita\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O cl\u00e1ssico <em>Nosferatu, sinfonia do horror<\/em> (1922) dispensa apresenta\u00e7\u00f5es: depois de passar a eternidade tentando evit\u00e1-la, o vampiro encontrou no expressionismo alem\u00e3o sua luz mais marcante (a prop\u00f3sito, <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrada\/63502-mostra-de-sp-tera-tarkovski-e-quotnosferatuquot.shtml\" target=\"_blank\">a Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo promete para novembro a proje\u00e7\u00e3o de uma c\u00f3pia restaurada com m\u00fasica ao vivo no Parque do Ibirapuera<\/a>). Murnau foi acusado de sugar demais do Dr\u00e1cula de Bram Stoker e teve problemas para exibir sua produ\u00e7\u00e3o. Com o tempo, seu vampiro Orlok revelou-se t\u00e3o aut\u00eantico que gerou sua pr\u00f3pria descend\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/11291731\" width=\"480\" height=\"360\" frameborder=\"0\" title=\"NOSFERATU 1922 trailer\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Um exemplo c\u00e9lebre \u00e9\u00a0<em>Nosferatu, o vampiro da noite<\/em> (1979), de Werner Herzog, que devolve ao vampiro criado por Murnau elementos da hist\u00f3ria original de Bram Stoker. Cita ambos, mas resulta numa obra com m\u00e9ritos pr\u00f3prios, dentre eles, as atua\u00e7\u00f5es de Klaus Kinsky (como Dr\u00e1cula), Isabelle Adjani e Bruno Ganz.<\/p>\n<div id=\"attachment_4275\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4275\" rel=\"attachment wp-att-4275\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4275\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4275\" title=\"20120430npdn1979c8\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/20120430npdn1979c8-620x335.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"335\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4275\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nosferatu, o Vampiro da noite<\/em> (<em>Nosferatu, the Vampyre<\/em>), 1979, dirigido por Werner Herzog<\/p><\/div>\n<p>Homenagem ainda mais assumida \u00e9 a par\u00f3dia\u00a0<em>A sombra do vampiro <\/em>(2000), que busca desvendar de modo fantasioso o \u00eaxito do personagem criado por Murnau. Nesta fic\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s ter negada a autoriza\u00e7\u00e3o para filmar a hist\u00f3ria de Bram Stoker, o diretor parte para a Checoslov\u00e1quia para trabalhar com um ator desconhecido, suposto disc\u00edpulo de Stanislavsky, e que adota m\u00e9todos exc\u00eantricos para mergulhar em seu personagem. Logo descobrimos que Murnau encontrou um vampiro de verdade, que aceitou cooperar mediante o direito de devorar a atriz principal, a bela Greta. Enquanto o vampiro apavora e dizima a equipe, Murnau tenta cont\u00ea-lo para completar as filmagens. Esse filme \u00e9 uma esp\u00e9cie de piada em torno do cl\u00e1ssico Nosferatu, n\u00e3o pretende repetir e nem superar o cl\u00e1ssico expressionista. Assume-se como celebra\u00e7\u00e3o e serve para lembrar o lugar em que o vampiro tomou uma de suas formas mais assustadoras.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/4hPP_u2FTMA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>A contamina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quando o vampiro j\u00e1 n\u00e3o frequentava nossos pesadelos, Stephenie Meyer fez com que ele reaparecesse em\u00a0sonhos mais doces, exacerbando na saga Crep\u00fasculo o potencial rom\u00e2ntico, civilizado e <em>fashion<\/em> do personagem. \u00c9 preciso reconhecer a habilidade da escritora de conciliar os medos mais arcaicos e os desejos mais juvenis. A vers\u00e3o para o cinema tem tamb\u00e9m o m\u00e9rito de ter dado um rosto marcante ao vampiro. T\u00e3o marcante que o ator Robert Pattinson permanece sendo assombrado por ele, n\u00e3o importa o papel que assuma.<\/p>\n<div id=\"attachment_4309\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4309\" rel=\"attachment wp-att-4309\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4309\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4309\" title=\"twilight2\" src=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/twilight21-620x415.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4309\" class=\"wp-caption-text\">Crep\u00fasculo 2 &#8211; Lua Nova (New moon), 2009, dirigido por Chris Weitz<\/p><\/div>\n<p>Ao incorporar Pattinson a\u00a0Cosm\u00f3polis (2012), David Cronenberg n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de aproveitar seu antigo personagem, mas tamb\u00e9m n\u00e3o teve como exorciz\u00e1-lo totalmente. O p\u00fablico logo percebe isso. No filme de Cronenberg, Pattinson interpreta Eric Packer,\u00a0tamb\u00e9m um corpo sem alma vagando com sua maldi\u00e7\u00e3o, a busca por um alimento cujo sabor ele j\u00e1 n\u00e3o sente: o capital especulativo.\u00a0Sua limusine blindada e ultratecnol\u00f3gica \u00e9, no final das contas, t\u00e3o assustadora e solit\u00e1ria quanto a cripta de Dr\u00e1cula.<\/p>\n<p>Packer vive de apostar um dinheiro cujo valor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de medir. Sua tarefa \u00e9 multiplic\u00e1-lo, mas j\u00e1 n\u00e3o sente sequer a sua perda. A especula\u00e7\u00e3o \u00e9 para o capital aquilo que o espelho \u00e9 para o vampiro: diante deles, toda forma sens\u00edvel desaparece. Enquanto todo vampiro \u00e9 nost\u00e1lgico de um amor do passado que lhe custou a alma, Packer vaga em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, um tempo que se revela vazio, constitu\u00eddo de apostas, n\u00fameros e gr\u00e1ficos. Um futuro sem qualquer experi\u00eancia, sem perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o, sem cria\u00e7\u00e3o, portanto, sem devir.<\/p>\n<p>Segundo li, o ator de Crep\u00fasculo s\u00f3 foi convocado depois que Colin Farrell recusou o papel, e Cronenberg se irrita ao ver seu personagem comparado com o vampiro. Mas as imagens tem vida pr\u00f3pria e produzem sentidos \u00e0 revelia de seus autores. Isso n\u00e3o \u00e9 dem\u00e9rito para Cronemberg, h\u00e1 g\u00eanios cujo talento se revela na desventura (como aconteceu com Bu\u00f1uel em <em>Esse obscuro objeto do desejo,<\/em> quando teve que trocar a atriz principal no meio do filme). Cosm\u00f3polis estava predestinado a redimir o vampiro da do\u00e7ura de Crep\u00fasculo, para devolv\u00ea-lo \u00e0 sombra, restituir-lhe o poder, o vazio, a melancolia. Cabe dizer que, nesse filme, Cronenberg reencontra ele pr\u00f3prio sua voca\u00e7\u00e3o mais monstruosa: abandona a a\u00e7\u00e3o violenta de filmes recentes e retoma formas profundas de perversidade, como nos bons tempos de <em>Videodrome<\/em> (1983) e <em>Crash<\/em> (1996).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/zoUUgnWtE8M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n[N\u00e3o se deixem enganar pelo trailer.\u00a0Cosm\u00f3polis \u00e9 acima de tudo um filme de personagens inclassific\u00e1veis, di\u00e1logos afiados e um apocalipse mais sugerido do que mostrado].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bram Stoker n\u00e3o inventou o vampiro, ele apenas deu um lugar na literatura moderna a esse personagem que j\u00e1 vagava pelas lendas europeias. Humanizado e rom\u00e2ntico, seu Dr\u00e1cula se transformou no modelo de vampiro que foi vivido no cinema por Bela Lugosi, Vincent Price, Christopher Lee e Gary Oldman. Com seu sangue impuro, o vampiro \u00e9 um ser de linhagem sempre indefinida. Ignoramos sua origem, sabemos apenas que ele sempre retorna. Apesar da m\u00e1 fama, \u00e9 um ser tolerante: est\u00e1 sempre disposto a reencarnar em corpos atualizados que dialogam com o imagin\u00e1rio de cada momento e de cada p\u00fablico. Imposs\u00edvel [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,835],"tags":[552,573,777,799],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4256"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6651,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4256\/revisions\/6651"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}