{"id":4232,"date":"2012-09-03T03:35:11","date_gmt":"2012-09-03T03:35:11","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4232"},"modified":"2017-03-01T12:39:25","modified_gmt":"2017-03-01T12:39:25","slug":"os-papeis-efemeros-da-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/os-papeis-efemeros-da-fotografia\/","title":{"rendered":"Os pap\u00e9is ef\u00eameros da fotografia"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o somente a fotografia ati\u00e7a meu interesse e minha curiosidade. Gosto tamb\u00e9m de recolher, estudar e refletir sobre o processo de descarte das imagens, sejam elas antigas ou n\u00e3o. J\u00e1 registrei em alguns textos anteriores publicados aqui no Ic\u00f4nica meu trabalho de tentar resignificar essas fotografias ao coloc\u00e1-las novamente no circuito da visibilidade. Chamei-as de fotografias rasgadas, descartadas, deserdadas, entre outras denomina\u00e7\u00f5es para essas imagens que foram encontradas aleatoriamente em minhas andan\u00e7as por v\u00e1rias cidades brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4248\" rel=\"attachment wp-att-4248\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4248\" title=\"sem_imagem_rubensfernandes_0001\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/sem_imagem_rubensfernandes_00011-620x450.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"450\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4250\" rel=\"attachment wp-att-4250\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4250\" title=\"album_2fotos_rubensfernandes_0002\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/album_2fotos_rubensfernandes_00022-620x444.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"444\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tenho um profundo respeito por essas fotografias desconhecidas que sobreviveram \u00e0 viol\u00eancia daqueles que preferem jog\u00e1-las no lixo ao inv\u00e9s de guard\u00e1-las como fragmentos de sua historia familiar. Minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 quase sempre recolher essas imagens e estabelecer uma forma de resist\u00eancia contra o esquecimento. Para mim, essas fotografias tornam-se uma esp\u00e9cie de rel\u00edquia que fornecem min\u00fasculas evid\u00eancias de ritos s\u00f3cio-culturais que incendeiam a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpresa revelar minha admira\u00e7\u00e3o por tudo que cerca o fazer fotogr\u00e1fico. Quero aproveitar esse espa\u00e7o para compartilhar outras possibilidades de refletir sobre essa fotografia. Pode parecer exagero, mas junto com meu interesse em adquirir essas imagens que estavam na fronteira do esquecimento, comecei tamb\u00e9m recolher aquilo que denomino de \u201cpap\u00e9is ef\u00eameros\u201d, que entendo como significativos documentos e vest\u00edgios indicadores que envolvem a produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, consumo e posse da imagem fotogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Conhecemos bem a natureza humana que centra sua viv\u00eancia na eterna dial\u00e9tica \u201ccria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o\u201d. Basta olhar retrospectivamente para entender o quanto de beleza natural e constru\u00edda, o quanto de informa\u00e7\u00e3o produzida, entre outras coisas, j\u00e1 n\u00e3o se perdeu em decorr\u00eancia dessa vontade imperativa de intensificar o presente e esquecer o passado. Em contrapartida, \u00e9 comum falarmos que vivemos hoje a plenitude da civiliza\u00e7\u00e3o das imagens. Sem d\u00favida, uma afirma\u00e7\u00e3o inquestion\u00e1vel, mas gostaria de propor uma reflex\u00e3o de outra ordem, ou seja, evidenciar que h\u00e1 uma quantidade enorme de fotografias que silenciosamente s\u00e3o destru\u00eddas e descartadas. E o que seria de n\u00f3s sem as fotografias?<\/p>\n<p>Como j\u00e1 afirmei acima, meu interesse pela fotografia envolve n\u00e3o apenas a pesquisa e an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o consagrada pelo <em>mainstream<\/em> mas tamb\u00e9m, e principalmente, a produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica que perpassa pela historia como um caudaloso rio amaz\u00f4nico, com muitos afluentes criando as imagens mais significativas para a mem\u00f3ria da grande fam\u00edlia humana. Por isso, quero evidenciar minha preocupa\u00e7\u00e3o com o desaparecimento sistem\u00e1tico dessas imagens materializadas nos \u00e1lbuns e em outros suportes, provocando uma esp\u00e9cie de apagamento angustiante do passado em nome de um presente imag\u00e9tico padronizado, ass\u00e9ptico, e sem perspectivas futuras.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4237\" rel=\"attachment wp-att-4237\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4237\" title=\"saopaulo_rubensfernandes_0005\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/saopaulo_rubensfernandes_0005-620x511.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"511\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4238\" rel=\"attachment wp-att-4238\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4238\" title=\"moderna_rubensfernandes_0006\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/moderna_rubensfernandes_0006-620x533.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"533\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4239\" rel=\"attachment wp-att-4239\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4239\" title=\"fotoptica_fotoleo_rubensfernandes_0007\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/fotoptica_fotoleo_rubensfernandes_0007-620x365.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"365\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 tempos venho colecionando esses \u201cpap\u00e9is ef\u00eameros\u201d, \u00a0particularmente aqueles que envolvem o fazer fotogr\u00e1fico e que por algum motivo n\u00e3o foi devidamente valorizado na cadeia produtiva. Desde os envelopes das casas fotogr\u00e1ficas que recebiam os filmes para revela\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o, notas fiscais e at\u00e9 mesmo os \u00e1lbuns e os suportes que foram para o lixo sem as fotografias que ali permaneceram confinadas durante d\u00e9cadas, com alguma visibilidade. Para mim, esses pap\u00e9is s\u00e3o importantes artefatos que carregam experi\u00eancias de vidas singulares e que tamb\u00e9m devem ser entendidos como parte do invent\u00e1rio da humanidade. Por isso interesso-me pela possibilidade de refletir sobre esse ato de descartar o passado e perder algumas camadas da pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Especular sobre o quanto de historia tem esses pap\u00e9is descartados talvez seja uma das chaves para compreendermos a import\u00e2ncia da fotografia na vida das pessoas. A origem de tudo o que vemos nessas imagens que separei para esta abordagem inicial sobre este assunto \u00e9 absolutamente desconhecida. Foram adquiridas nos sebos e nas feirinhas que frequento h\u00e1 anos. Em contrapartida, elas me permite avalia\u00e7\u00f5es em diferentes n\u00edveis, como por exemplo, o movimento das casas fotogr\u00e1ficas, seus parceiros comerciais, o design da papelaria, as principais solicita\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 mesmo me emocionar com os vazios desenhados pelas tradicionais cantoneiras que prendiam as imagens aos \u00e1lbuns.<\/p>\n<p>De modo geral, os \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos tinham uma narrativa bastante \u00edntima, \u00e0s vezes disfar\u00e7adamente autobiogr\u00e1fica, que a fam\u00edlia utilizava para evocar e celebrar a mem\u00f3ria de momentos vividos intensamente pelos personagens fotografados. Serve tamb\u00e9m para reconstituir a atmosfera de uma \u00e9poca e para documentar as experi\u00eancias daquele grupo de pessoas que se deslocou para diferentes lugares, e modelou atrav\u00e9s das imagens uma sens\u00edvel historia familiar. Geralmente encontramos nos \u00e1lbuns uma flu\u00eancia imag\u00e9tica de aparente simplicidade, mas que denota o universo particular de fantasia, de mem\u00f3ria e de inven\u00e7\u00e3o daquele grupo, que pode ser naturalmente universalizado.<\/p>\n<p>Fico comovido quando me deparo com \u00e1lbuns ou suportes em que as fotografias foram retiradas e destru\u00eddas. Um envelope sem fotografias, um suporte violentado, um \u00e1lbum vazio. O que vemos nesses pap\u00e9is que venho colecionando s\u00e3o met\u00e1foras de um esquecimento determinado pela sociedade contempor\u00e2nea globalizada, representadas tanto pelo gesto inconsciente da viol\u00eancia, vis\u00edvel pelos tra\u00e7os deixados nos pap\u00e9is, quanto pela dificuldade de aceitar a estranheza e o inc\u00f4modo da sua pr\u00f3pria ancestralidade. Afinal, seriam esses alguns dos verdadeiros motivos que levam as pessoas destru\u00edrem suas fotografias?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4240\" rel=\"attachment wp-att-4240\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-large wp-image-4240\" title=\"sem_imagem_rubensfernandes_0010\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/sem_imagem_rubensfernandes_0010-620x474.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"474\" \/><\/a><\/p>\n<p>Pensar a fotografia a partir do seu desaparecimento ou de sua aus\u00eancia \u00e9 tentar entender o que efetivamente ser\u00e1 preservado e conservado. Ao me deparar com os envelopes fotogr\u00e1ficos vazios, com os \u00e1lbuns e os suportes sem as fotografias que \u201chabitavam\u201d aquele espa\u00e7o, imagino o que foram esses campos de significa\u00e7\u00e3o e o que se tornaram \u00e0 medida que o tempo passou.<\/p>\n<p>Esses \u201cpap\u00e9is ef\u00eameros\u201d me atraem pois, ao perderem as refer\u00eancias afetivas e circularem na desordem do acaso, ganham novas possibilidades anal\u00edticas. S\u00e3o fragmentos arbitr\u00e1rios e irregulares que juntos evitam o esquecimento e potencializam novas emo\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o somente a fotografia ati\u00e7a meu interesse e minha curiosidade. Gosto tamb\u00e9m de recolher, estudar e refletir sobre o processo de descarte das imagens, sejam elas antigas ou n\u00e3o. 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Tenho um profundo respeito por essas fotografias desconhecidas que sobreviveram \u00e0 viol\u00eancia daqueles que preferem jog\u00e1-las no lixo ao inv\u00e9s de guard\u00e1-las como fragmentos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4236,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[823,821,838],"tags":[525,597],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4232"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6658,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4232\/revisions\/6658"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}