{"id":4169,"date":"2012-08-20T19:29:37","date_gmt":"2012-08-20T19:29:37","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4169"},"modified":"2016-12-29T19:54:45","modified_gmt":"2016-12-29T19:54:45","slug":"estados-fotograficos-quando-as-casas-nos-devolvem-o-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/estados-fotograficos-quando-as-casas-nos-devolvem-o-olhar\/","title":{"rendered":"Estados fotogr\u00e1ficos: quando as casas nos devolvem o olhar*"},"content":{"rendered":"<div>\n<div id=\"attachment_4170\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4170\" rel=\"attachment wp-att-4170\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4170\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4170\" title=\"sobrados\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto_01-620x620.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"620\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4170\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Martinho \/ Paralaxis,\u00a0<em>Sobrados da Zona Oeste<\/em><\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>As casa antigas sempre me intrigaram. Morei dez anos num sobrado cujas portas e janelas, de madeira, n\u00e3o fechavam direito de t\u00e3o antigas. O teto, tamb\u00e9m de madeira, \u2018ecoava\u2019 tudo que acontecia no andar de cima. De anos em anos, as paredes sujas \u2013 as marcas dos p\u00e9s debaixo da escrivaninha, a disposi\u00e7\u00e3o dos quadros, o arranhado das costas das cadeiras, o decalque da bola atirada contra a parede, o queimado do sol \u00e0 direita de meu quarto \u2013 eram vest\u00edgios substitu\u00eddos pela pintura branca. A cada sucessiva pintura refaziam-se o jeito de nos sentar \u00e0 mesa, o modo como decor\u00e1vamos a casa, o h\u00e1bito de encerar a t\u00e1bua corrida. N\u00e3o eram apenas as marcas que esfuma\u00e7avam; a tinta branca incidia tamb\u00e9m sobre os sons que as imagens ruminavam (a vassoura batendo no rodap\u00e9, o despertador lembrando a ida para a escola, a dor de cotovelo de minha m\u00e3e ouvindo Tim Maia, a alegria das manh\u00e3s com os Novos Baianos tocando na vitrola). O novo revestimento promovia abafamentos sonoros: as conversas, a separa\u00e7\u00e3o, as festas, o barulho do liquidificador&#8230;. o r\u00e1dio da cozinha&#8230; tudo entrava em suspens\u00e3o provis\u00f3ria que me atingia, paradoxalmente, fazendo sentir como nunca sua estrid\u00eancia.<\/p>\n<p>Quantas camadas de tinta cada casa pode acumular? O que encontraria o fot\u00f3grafo se, com um filme infravermelho, pudesse ir desfolhando e revelando pistas e vest\u00edgios das fam\u00edlias que ali viveram?<\/p>\n<div id=\"attachment_4173\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4173\" rel=\"attachment wp-att-4173\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4173\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4173\" title=\"sobrados\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/fotos_02_03-620x310.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"310\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4173\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Martinho\u00a0\/ Paralaxis,\u00a0<em>Sobrados da Zona Oeste<\/em><\/p><\/div>\n<p>Antes de minha fam\u00edlia, outras marcas e ru\u00eddos se acomodaram naquela mesma casa que, desde do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, se equilibra no alto da ladeira Jo\u00e3o Afonso, no largo do Humait\u00e1. Em cada casa velha, sucessivas camadas de apagamentos, vest\u00edgios sobrepostos, permanentes rearruma\u00e7\u00f5es diacr\u00f4nicas. Paredes, portas, assoalhos e tetos-ouvidos. Vez por outra, ouvia transpirar pela tinta branca o cochicho de meus antepassados e tamb\u00e9m a voz dos meus eus passados. Logo depois da pintura feita, consequ\u00eancia da transgress\u00e3o do familiar para o estranho, emergia a imagem. Volta e meia, via. Reencontrava as manchas debaixo da escrivaninha nos infinitos momentos de fazer o dever de casa; reencontrava-as quando j\u00e1 n\u00e3o estavam l\u00e1. Nos pequenos objetos cotidianos e familiares: na ma\u00e7aneta da porta; na parede descascada ou, simplesmente, no vazio do p\u00e9-direito alto. N\u00e3o eram assombra\u00e7\u00f5es, mas a hist\u00f3ria \u2212 que, \u00e0s vezes, se torna percept\u00edvel na vertigem, fazendo o insignificante ser tomado de sentido.<\/p>\n<p>A cada vis\u00e3o, existiam novamente as vozes, num som ou figura, mas sempre de modo fotogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Explico: desconfio que a fotografia (de fato ou n\u00e3o; realizada ou n\u00e3o) n\u00e3o era a impress\u00e3o luminosa numa superf\u00edcie sens\u00edvel, mas um <em>estado<\/em> de, subitamente, entrever a presen\u00e7a de algo que estava e n\u00e3o estava l\u00e1.<\/p>\n<div>\n<div id=\"attachment_4172\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4172\" rel=\"attachment wp-att-4172\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4172\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4172\" title=\"foto_04\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto_04-620x620.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"620\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4172\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Martinho\u00a0\/ Paralaxis,\u00a0<em>Sobrados da Zona Oeste<\/em><\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Tratava-se antes de um corte, interrup\u00e7\u00e3o: acontecimento capaz de fazer a casa emergir, mesmo que por alguns segundos, como pot\u00eancia de uma imagem especialmente fotogr\u00e1fica. Tratava-se de uma fotografia que n\u00e3o se efetivava pelo <em>clic<\/em>, mas pela entrada repentina da casa num estado pr\u00f3prio, num conjunto provis\u00f3rio de configura\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es temporais. A casa era, assim, dotada de in\u00fameros olhos que me fitavam de modo desconcertante, fazendo perceber n\u00e3o apenas minha presen\u00e7a (inscrita em atualidade da qual n\u00e3o se pode esquivar) e a presen\u00e7a de in\u00fameros murmurinhos passados, mas tamb\u00e9m minha aus\u00eancia, futura embora iminente (a mesma que abafou as muitas vozes que viveram ali antes de mim). Morava, ent\u00e3o, no interior da fotografia n\u00e3o realizada; numa paisagem provis\u00f3ria que me devolvia o olhar que \u00e0 casa dirigi. Essas pupilas, que estavam e n\u00e3o estavam l\u00e1, eram os olhos da sina de ter sobrevivido \u00e0 passagem cronol\u00f3gica; de ter visto e respirado outra atmosfera. Essa sina me convidava a habitar a manifesta\u00e7\u00e3o de uma paisagem intensiva cuja for\u00e7a se devia a uma lat\u00eancia. Ela me convocava a entrar em muitas outras moradas, a investigar seus donos e destinos. O que eu via, naquele breve privil\u00e9gio, n\u00e3o era a imagem do antigo morador, de seus h\u00e1bitos e costumes; ao sentir sua presen\u00e7a (ela estava l\u00e1), havia que enfrentar os olhos do passado me devolvendo o olhar; havia que suportar a paradoxal coexist\u00eancia da presen\u00e7a de um vento j\u00e1 ventado e da impossibilidade de sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Talvez porque o estado fotogr\u00e1fico instale nos objetos a dura\u00e7\u00e3o de um tempo adormecido, o tempo das coisas inanimadas, dos seres sem rel\u00f3gio e sem movimento \u2013 tempo peculiar que se manifesta entre a imagem de minha ru\u00edna e a ru\u00edna da imagem. Tratava-se de um arranjo singular em que a aus\u00eancia se dava em modo de presen\u00e7a, e o reencontro em modo de dist\u00e2ncia, num regime tenso de proximidade dos long\u00ednquos. Tal vertigem tinha sido disparada pelo instante em que assistia bruscamente \u00e0 minha pr\u00f3pria falta: as paredes, a janela, o limo do muro n\u00e3o s\u00f3 possibilitavam a sutil presen\u00e7a do passado, mas tamb\u00e9m me faziam perceber a materialidade de minha futura aus\u00eancia. No interior daquela esp\u00e9cie de fixidez, no r\u00e1pido e brusco momento da percep\u00e7\u00e3o, a materialidade da casa emergia como <em>experi\u00eancia fotogr\u00e1fica, <\/em>durando infinitamente, como num abismo.<\/p>\n<div>\n<div id=\"attachment_4171\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4171\" rel=\"attachment wp-att-4171\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4171\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-4171\" title=\"foto_05\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/foto_05-620x620.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"620\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4171\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Martinho\u00a0\/ Paralaxis,\u00a0<em>Sobrados da Zona Oeste<\/em><\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Poderia ser que a fotografia se estivesse apoderando da casa sem atravessar nenhum aparelho? Sem que fizesse nenhuma peregrina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de qualquer dispositivo tecnol\u00f3gico? Se houve um pisco, n\u00e3o tinha sua g\u00eanese na c\u00e2mera; provavelmente havia sido gestado muito mais a partir de \u201cmaquina\u00e7\u00e3o\u201d do que de uma maquinaria. Tamb\u00e9m n\u00e3o se tratava de obra exclusivamente minha; era a casa que me visava; era sua materialidade que podia (ou n\u00e3o) ser capturada pelo estado fotogr\u00e1fico. Sendo um estado, tratava-se de dom\u00ednio prec\u00e1rio, inst\u00e1vel, transitivo, embora efetivo: um arranjo de configura\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias que a casa podia, ou n\u00e3o, apresentar. Uma configura\u00e7\u00e3o contingente proveniente de um corte, interrup\u00e7\u00e3o temporal, seguida por uma experi\u00eancia intensiva de presen\u00e7a e dura\u00e7\u00e3o. Efetuava-se, portanto, em tr\u00e2nsito temporal pr\u00f3prio, numa pequena crise geradora de vertigem que, provavelmente, nenhum outro modo de ser imag\u00e9tico poderia produzir.<\/p>\n<p>Nenhum outro? Por que me parecia especialmente fotogr\u00e1fico o estado em que a casa ingressava? Como poderiam existir acontecimentos fotogr\u00e1ficos desatrelados de suas c\u00e2meras de origem?<\/p>\n<p>Se todas as fam\u00edlias de imagens se interpenetram e dialogam, se minha percep\u00e7\u00e3o est\u00e1 contaminada tanto pela pintura como pelo cinema, tanto pelas imagens dos sonhos quanto as da mem\u00f3ria, se quase j\u00e1 n\u00e3o conseguimos mais distinguir um tipo de imagem do outro, como poderia reconhecer um estado e outro sem a delimita\u00e7\u00e3o do agenciamento maqu\u00ednico que o fermentou? N\u00e3o estaria a casa \u2013 com seu regime de imagens sobrepostas e moventes \u2013 em um estado mais cinem\u00e1tico do que fotogr\u00e1fico? E mais: existiria alguma pertin\u00eancia em, ainda, realizar tais indaga\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Provavelmente, quando pensamos em <em>estado fotogr\u00e1fico<\/em>, nos referimos a uma certa <em>ideia<\/em> de fotografia, que embora apresente uma \u201cquase estabilidade,\u201d possui um diagrama m\u00f3vel, posto que sua emerg\u00eancia depende da hist\u00f3ria e dos modos com que certos agenciamentos maqu\u00ednicos foram incorporados e modificaram o pr\u00f3prio estado de for\u00e7as que lhes possibilitou. Tal ideia de fotografia, se ela existe, vincula-se a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria: a seu advento, desenvolvimento, sua genealogia; a suas acomoda\u00e7\u00f5es, fraturas e deslocamentos. O que a fotografia veio a ser n\u00e3o parece constituir ess\u00eancia \u00fanica e imut\u00e1vel, mas algo que, em seu percurso moderno, em suas transforma\u00e7\u00f5es, operou persistindo em um modelo temporal. Trata-se de um \u201cveio a ser\u201d fotogr\u00e1fico que, em sua intensidade, cristalizou o pr\u00f3prio vento de sua funda\u00e7\u00e3o \u2013 que esteve sempre a perder-se e encontrar-se, em tessitura temporal ora mais frouxa, ora mais tensa. Se \u00e9 poss\u00edvel pensar a fotografia como um estado \u00e9 porque parece haver nela, em sua hist\u00f3ria (insisto), uma experi\u00eancia peculiar e vertiginosa de tempo.<\/p>\n<p>Desse modo, pensar o fotogr\u00e1fico como <em>estado <\/em>exige que, ao entrever o aspecto transitivo dessa imagem, levemos em conta outros estados imag\u00e9ticos, outras materialidades e opera\u00e7\u00f5es que, ao longo da vida, nos atravessam. Por outro lado, exige tamb\u00e9m que se estabele\u00e7am as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade desses tr\u00e2nsitos \u2212 possivelmente o reconhecimento de singularidades. O desafio, no entanto, \u00e9 constatar que tais singularidades s\u00e3o elas pr\u00f3prias m\u00f3veis, encarnam a hist\u00f3ria e simultaneamente a transformam. Assim, j\u00e1 n\u00e3o podemos saber se a casa seria hoje capturada pelo <em>mesmo<\/em> fotogr\u00e1fico: tudo parece indicar que aquele estado constitu\u00eddo por tens\u00f5es temporais (o instante e a dura\u00e7\u00e3o; o cont\u00ednuo e o descont\u00ednuo; a urg\u00eancia e a perman\u00eancia; a mem\u00f3ria e o esquecimento; o passado e o futuro) est\u00e1 em plena muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>* Adapta\u00e7\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Sobrados da Zona Oeste<\/em>, de Fernando Martinho, Editora Olhares, cujas imagens s\u00e3o tamb\u00e9m publicadas neste post.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As casa antigas sempre me intrigaram. 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