{"id":4119,"date":"2012-08-07T00:04:15","date_gmt":"2012-08-07T00:04:15","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4119"},"modified":"2016-05-28T13:41:19","modified_gmt":"2016-05-28T13:41:19","slug":"viagens-aparencias-e-aparicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/viagens-aparencias-e-aparicoes\/","title":{"rendered":"Viagens, apar\u00eancias e apari\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4121\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4121\" rel=\"attachment wp-att-4121\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4121\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4121\" title=\"1978 Jardim Elba (5)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/1978-Jardim-Elba-5-360x363.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"363\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4121\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Luiz Musa, Jardim Elba, 1978<\/p><\/div>\n<p>Nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, valorizou-se uma fotografia que se destaca tanto pela precariedade t\u00e9cnica quanto pela imagem difusa e irremediavelmente ruidosa. Nada contra essas decis\u00f5es est\u00e9ticas. Em contrapartida, alguns artistas fortaleceram a autonomia figurativa da fotografia, assumindo-a por inteiro.<\/p>\n<p>Essa segunda variante, que tamb\u00e9m \u00e9 uma atitude conceitual da cena contempor\u00e2nea, al\u00e9m de ampliar o campo de investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica, v\u00ea a imagem t\u00e9cnica como livre express\u00e3o, realista e fecunda, resultado direto da pr\u00f3pria natureza do dispositivo. E isso \u00e9 que vemos na exposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Luiz Musa na Galeria Luciana Brito, dividida em duas s\u00e9ries: <strong>Vila Prudente<\/strong>, produzida entre 1979 a 1981, e <strong>24X36<\/strong>,<strong> <\/strong>que traz os registros de suas viagens ao exterior realizada nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Distanciados em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, os dois ensaios mostram n\u00e3o apenas o rigor t\u00e9cnico que predomina na obra do artista, mas acima de tudo a coer\u00eancia diante de tudo que parece transit\u00f3rio e imperfeito. O primeiro foi desenvolvido com filme preto e branco e c\u00e2mera 6 X 6, dentro dos r\u00edgidos padr\u00f5es do <em>sistema de zonas<\/em>, mas vistos com\u00a0 distanciamento nos perturba porque revela o essencial, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a integridade do autor.<\/p>\n<div id=\"attachment_4122\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4122\" rel=\"attachment wp-att-4122\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4122\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4122\" title=\"1978 Vila Renato\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/1978-Vila-Renato-360x363.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"363\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4122\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Luiz Musa, Vila Renato, 1978<\/p><\/div>\n<p>No per\u00edodo de realiza\u00e7\u00e3o do ensaio <strong>Vila Prudente<\/strong>, Musa trabalhava no Laborat\u00f3rio de \u00a0Recursos Audiovisuais da FAU-USP, ao lado de Cristiano Mascaro e Raul Garcez, que idealizavam projetos pessoais como uma possibilidade de ampliar suas atividades fotogr\u00e1ficas e pol\u00edticas na Universidade. Trata-se de um trabalho diferenciado de documenta\u00e7\u00e3o da periferia da cidade de S\u00e3o Paulo que salta aos olhos, uma vez que consegue criar imagens que materializam um pensamento t\u00e9cnico e est\u00e9tico. N\u00e3o apenas sobre aquela realidade, mas principalmente, sobre a interpreta\u00e7\u00e3o da luz. \u00c9 preciso identificar neste esmerado trabalho que, entre a tomada simples e a cadeia de opera\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e interpretativas desenvolvidas ao longo do processo, produz-se um documento fotogr\u00e1fico de inquestion\u00e1vel plasticidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_4123\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4123\" rel=\"attachment wp-att-4123\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4123\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4123\" title=\"2011 Madrid, Espanha (2)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/2011-Madrid-Espanha-2-360x240.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4123\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Luiz Musa, Madrid, 2011<\/p><\/div>\n<p>Mas \u00e9 no ensaio <strong>24X36<\/strong> que podemos sentir plenamente o amadurecimento do artista. N\u00e3o mais um lugar determinado, nem uma frontalidade assumida diante do Outro, nem o m\u00e9dio formato que exige certos cuidados no procedimento.<\/p>\n<p>O que temos agora \u00e9 um olhar em tr\u00e2nsito e uma c\u00e2mera mais livre. Nada de submiss\u00e3o ao que se apresenta como mundo vis\u00edvel e sim fotografias que s\u00e3o coment\u00e1rios absolutamente livres e criativos, sem deixar de acentuar sua sofisticada organiza\u00e7\u00e3o formal \u2013 sua sintaxe.<\/p>\n<p>Um olhar sens\u00edvel que inventa e materializa a imagem a partir de um cotidiano ordin\u00e1rio, que interrompe um movimento, que suspende o fluxo temporal. Suas fotografias agora documentam a\u00e7\u00f5es ef\u00eameras e estabelecem uma forte rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e tempo. Vejo-as muito mais como fotogramas de um filme que engendram hist\u00f3rias, que deflagram narrativas. Aparentemente, temos uma imagem captada com uma terr\u00edvel imparcialidade, mas o registro traz uma vis\u00e3o perturbadora que evidencia um momento particular, preciso, que traduz com exatid\u00e3o um estado imperfeito e provis\u00f3rio.Nas fotografias do ensaio <strong>24X36, <\/strong>que homenageia o formato do velho filme 35mm, Musa encontra uma ordem visual que nos escapa. Aquilo que fotografa \u00e9 uma apar\u00eancia dos m\u00faltiplos acontecimentos previs\u00edveis e imprevis\u00edveis na ordem temporal, que se concretizam diariamente diante dos nossos olhos. Dessa banalidade \u00e9 que nasce sua fotografia \u2013 tens\u00e3o advinda de um pensamento t\u00e9cnico que concebe o registro e a livre interpreta\u00e7\u00e3o da cena fotografada. H\u00e1 uma sele\u00e7\u00e3o diante do aparente vis\u00edvel e no caso desse ensaio em particular as apar\u00eancias ganham, ap\u00f3s cuidadoso trabalho de edi\u00e7\u00e3o e tratamento t\u00e9cnico, cada vez mais o aspecto de apari\u00e7\u00f5es \u2013 mist\u00e9rios que evidenciam uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de cumplicidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_4124\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4124\" rel=\"attachment wp-att-4124\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4124\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4124\" title=\"2011 Londres, Inglaterra (3)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/2011-Londres-Inglaterra-3-360x240.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4124\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Luiz Musa, Londres, 2011<\/p><\/div>\n<p>Entre uma infinidade de encontros poss\u00edveis o que vemos s\u00e3o imagens carregadas de intensa subjetividade. E isso \u00e9 consequ\u00eancia da originalidade no ato fotogr\u00e1fico. Ao se deparar com a fotografia ao lado \u2013 <em>Tate Modern, Londres, julho de 2011<\/em> \u2013 \u00e9 poss\u00edvel perceber tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de ironia silenciosa no ensaio. Podemos entender que o registro dessa cena banal estabelece uma curiosa rela\u00e7\u00e3o entre o excesso de imagens a que estamos expostos e o tempo que n\u00e3o temos para apreciar tudo isso que passa diante dos nossos olhos. O cruzamento das duas diagonais dessa imagem, por exemplo, cria um ponto de luz exatamente na cabe\u00e7a do observador est\u00e1tico e provavelmente em \u00eaxtase diante de uma obra em que a cor \u00e9 o extraordin\u00e1rio. A obra dentro da obra. Sofisticada metalinguagem que revela a sagacidade do artista.<\/p>\n<p>Musa se utiliza do potencial narrativo de sua fotografia para desenvolver sua estrat\u00e9gia de transformar o cotidiano numa apari\u00e7\u00e3o carregada de mist\u00e9rio. Tudo parece demasiadamente articulado \u2013 uma esp\u00e9cie de <em>tableau vivant<\/em> idealizado para tensionar a simples apar\u00eancia com o essencial de um momento flagrado na mobilidade da viagem. Os enquadramentos, tratados com muita liberdade, tamb\u00e9m s\u00e3o o resultado de experi\u00eancias est\u00e9ticas anteriores, pois seu trabalho \u00e9 antes de tudo cerebral.<\/p>\n<div id=\"attachment_4120\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4120\" rel=\"attachment wp-att-4120\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4120\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4120 \" title=\"2011 Paris, Fran\u00e1a (2)\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/2011-Paris-Fran\u00e1a-2-360x240.png\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"240\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4120\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Luiz Musa, Paris, 2011<\/p><\/div>\n<p>Em outro exemplo, <em>Boulevard des Italiens, Paris, agosto de 2011<\/em>, temos a oportunidade de entender melhor sua fotografia \u2013 quase palimpsestos ou uma composi\u00e7\u00e3o de <em>layers<\/em> que quando superpostos formam a imagem. Mas n\u00e3o \u00e9 nada disso. O que temos \u00e9 o simples registro que soma o dentro o e o fora, a luz e a sombra, o aparente e o invis\u00edvel, o est\u00e1tico e o din\u00e2mico. Uma permanente desconex\u00e3o de tempo e espa\u00e7o que transforma o fot\u00f3grafo num maestro dos imprevistos.<\/p>\n<p>Os dois ensaios mostram que a fotografia quando se volta para o cotidiano, para a banalidade ordin\u00e1ria, pode se transformar numa poderosa e emocionante manifesta\u00e7\u00e3o visual. Em conex\u00e3o com a arte contempor\u00e2nea, a fotografia de Jo\u00e3o Luiz Musa centrada nos objetos e lugares comuns, cura nossa cegueira de n\u00e3o enxergar mais nada diante da profus\u00e3o de imagens a que estamos submetidos. Ele demonstra com sua fotografia que, ao retirar da vida fragmentos visuais da maneira mais direta poss\u00edvel, ser\u00e1 poss\u00edvel repensar o homem e a arte e, quem sabe, conferir um pouco mais identidade ao homem diante de tamanha diversidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixe de ver a exposi\u00e7\u00e3o e conhecer os livros produzidos pela Narval\/Attar Editorial, impecavelmente impressos gra\u00e7as ao conhecimento t\u00e9cnico desenvolvido por Jo\u00e3o Luiz Musa e equipe, em sua longa trajet\u00f3ria de produzir, pensar, imprimir e disseminar sua fotografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, valorizou-se uma fotografia que se destaca tanto pela precariedade t\u00e9cnica quanto pela imagem difusa e irremediavelmente ruidosa. Nada contra essas decis\u00f5es est\u00e9ticas. Em contrapartida, alguns artistas fortaleceram a autonomia figurativa da fotografia, assumindo-a por inteiro. Essa segunda variante, que tamb\u00e9m \u00e9 uma atitude conceitual da cena contempor\u00e2nea, al\u00e9m de ampliar o campo de investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica, v\u00ea a imagem t\u00e9cnica como livre express\u00e3o, realista e fecunda, resultado direto da pr\u00f3pria natureza do dispositivo. 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