{"id":4083,"date":"2012-07-30T18:37:35","date_gmt":"2012-07-30T18:37:35","guid":{"rendered":"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?p=4083"},"modified":"2016-05-28T14:09:15","modified_gmt":"2016-05-28T14:09:15","slug":"a-verdade-na-caverna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-verdade-na-caverna\/","title":{"rendered":"A verdade na caverna"},"content":{"rendered":"<p>O acesso \u00e0s pinturas rupestres \u00e9 hoje bastante restrito. Muitas delas foram depredadas por curiosos, turistas e at\u00e9 mesmo por cientistas. Al\u00e9m disso, a luz artificial e a umidade deixada pela respira\u00e7\u00e3o do p\u00fablico favorecem o surgimento de um tipo de mofo que amea\u00e7a as pinturas.\u00a0Werner Herzog conseguiu uma autoriza\u00e7\u00e3o para filmar a Caverna de Chauvet durante seis dias, e l\u00e1 realizou o document\u00e1rio <em>A caverna dos sonhos esquecidos<\/em>, lan\u00e7ado em 2010. Nesse trabalho, ele aderiu\u00a0\u00e0 tecnologia 3D, interessante n\u00e3o apenas pelo realismo, mas tamb\u00e9m pelos defeitos que assume: objetos muito pr\u00f3ximos da c\u00e2mera perturbam constantemente essa ilus\u00e3o, e criam uma sensa\u00e7\u00e3o de claustrofobia que nos insere ainda mais naquele espa\u00e7o. Mas o 3D tamb\u00e9m nos ajuda a entender o modo como aqueles homens do paleol\u00edtico exploraram os relevos e a topografia da caverna para compor suas figuras.<\/p>\n<p>A maioria dos livros de hist\u00f3ria da arte ainda trazem as cavernas de Lascaux, na Fran\u00e7a, e de Altamira, na Espanha, como locais que abrigam as pinturas mais antigas da hist\u00f3ria da humanidade, com idade estimada entre 14 e 19 mil anos. A caverna de Chauvet, descoberta na Fran\u00e7a, em 1994, possui imagens produzidas entre 20 e 30 mil anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4088\" rel=\"attachment wp-att-4088\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-4088\" title=\"chauvet_horses\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chauvet_horses.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chauvet_horses.jpg 620w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chauvet_horses-768x476.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4084\" rel=\"attachment wp-att-4084\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-4084 size-large\" title=\"chauvetbison_new1\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/chauvetbison_new1-1024x676.jpeg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"445\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/iconica.com.br\/blog\/?attachment_id=4085\" rel=\"attachment wp-att-4085\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-4085\" title=\"5b\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5b.jpeg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5b.jpeg 750w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/5b-768x446.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Essas pinturas n\u00e3o surpreendem apenas pela idade, mas tamb\u00e9m pelas \u201csolu\u00e7\u00f5es figurativas\u201d que apresentam. Se a express\u00e3o parece for\u00e7osa, \u00e9 preciso admitir que n\u00e3o h\u00e1 como abordar essas experi\u00eancias sem ser anacr\u00f4nico, porque \u201cpintura\u201d ou \u201cimagem\u201d ou \u201carte\u201d s\u00e3o termos que j\u00e1 projetam sobre elas sentidos que est\u00e3o mais pr\u00f3ximos do n\u00f3s do que deles. Mas \u00e9 no anacronismo que reside a riqueza de olhar para essas imagens, porque \u00e9 ele que forja o di\u00e1logo entre personagens t\u00e3o distantes no tempo. Herzog sabe disso. O filme recorre ao compositor Wagner e \u00e0 pintura rom\u00e2ntica para entender o que a paisagem pode ter significado para aqueles homens, e apela para Fred Astaire (Bojangles of Harlem, 1936) para imaginar a dan\u00e7a das sombras produzidas pelas tochas que iluminavam a caverna.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/46357066\" width=\"640\" height=\"424\" frameborder=\"0\" title=\"A caverna dos sonhos esquecidos\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Herzog, como o p\u00fablico, quer entender a raz\u00e3o dessas pinturas e recorre a v\u00e1rios cientistas para ajud\u00e1-lo nessa tarefa. Mas as especula\u00e7\u00f5es do cineasta s\u00e3o muito mais ricas do que as discuss\u00f5es t\u00e9cnicas. Melhor ainda s\u00e3o os momentos de sil\u00eancio, bem calculados, quando somos convocados a sentir aquilo que a caverna revela de forma mais surpreendente: o tempo. N\u00e3o o tempo calculado de 30 mil anos, mas o tempo que sobrep\u00f4s desenhos feitos ao longo de mil\u00eanios, que fez desmoronar a entrada da caverna preservando sua escurid\u00e3o, e que fez soprar por uma fresta o vento que revelou ao presente sua exist\u00eancia. Enfim, o tempo que d\u00e1 espessura \u00e0 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nosso desejo \u00e9 o de saber quem foram aqueles homens. Os cientistas constroem suas hip\u00f3teses, mas elas ficam sempre aqu\u00e9m da experi\u00eancia de olhar as pinturas. Os limites da ci\u00eancia ficam evidentes quando, apesar de toda sua boa vontade, um pesquisador fracassa ao tentar demonstrar como os antigos ca\u00e7adores atiravam suas lan\u00e7as.<\/p>\n<p>Sem poder apreender aquilo que foram, somos n\u00f3s que nos sentimos expostos. \u00a0Como diz Didi-Huberman: \u201ccome\u00e7amos a compreender que cada coisa que se d\u00e1 a ver, por mais exposta, por mais neutra que seja sua apar\u00eancia, torna-se inelut\u00e1vel quando uma perda se imp\u00f5e (&#8230;), e desse lugar ela nos olha, nos envolve, nos persegue\u201d [<em>O que vemos, o que nos olha<\/em>].<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que as pinturas rupestres n\u00e3o se acomodam bem \u00e0 no\u00e7\u00e3o moderna de arte. O historiador Arnold Hauser \u00e9 categ\u00f3rico nesse sentido: \u201cnessa \u00e9poca de vida puramente pr\u00e1tica, tudo gravitava, como \u00e9 \u00f3bvio, em torno da mera subsist\u00eancia, e nada justifica, portanto, supormos que a arte servia a qualquer outro prop\u00f3sito que n\u00e3o fosse o de constituir um meio para a obten\u00e7\u00e3o de alimentos. Todas as indica\u00e7\u00f5es apontam, mais exatamente, para o fato de que se tratava do instrumento de uma t\u00e9cnica m\u00e1gica e, como tal, tinha uma fun\u00e7\u00e3o inteiramente pragm\u00e1tica que visava alcan\u00e7ar objetivos econ\u00f4micos diretos\u201d [<em>Hist\u00f3ria social da arte e da literatura<\/em>].<\/p>\n<p>Herzog n\u00e3o ignora a rela\u00e7\u00e3o dessas imagens com a magia, mas parece resistir \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre os efeitos pr\u00e1ticos e os efeitos est\u00e9ticos que os homens do paleol\u00edtico podem ter almejado. Essa hip\u00f3tese come\u00e7a pelo entorno: a incr\u00edvel paisagem da regi\u00e3o cortada pelo Rio Ard\u00e8che pode ter influenciado a escolha daquela caverna.<\/p>\n<p>Mais do que isso, muitos detalhes apontam para uma forma complexa de simboliza\u00e7\u00e3o. Parece haver ali o desejo de jogar com as possibilidades da representa\u00e7\u00e3o: a ilus\u00e3o de movimento, a considera\u00e7\u00e3o do ponto de vista, a composi\u00e7\u00e3o, a narrativa, a explora\u00e7\u00e3o dos volumes das paredes para dar perspectiva \u00e0s figura\u00e7\u00f5es&#8230; Aqueles homens, estavam tentando dar conta do mundo por meio da imagem, mas estavam tamb\u00e9m tentando dar conta das pr\u00f3prias imagens.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/46356725\" width=\"640\" height=\"424\" frameborder=\"0\" title=\"A caverna dos sonhos esquecidos\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Definitivamente, h\u00e1 algo de est\u00e9tico nesse gesto, por mais utilit\u00e1rio que seja.\u00a0Para al\u00e9m de suas necessidades pr\u00e1ticas, esses homens devem ter observado essas pinturas por mil\u00eanios. Quando um deles entrou ali, viu as imagens de seus antepassados e deixou ao lado delas sua pr\u00f3pria inscri\u00e7\u00e3o, quem sabe n\u00e3o estivesse tamb\u00e9m nos imaginando. Essas paredes que viram surgir a humanidade, contemplam de algum modo toda sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o nos convida a sair da caverna e a renegar os simulacros projetados em suas paredes. Em sua teoria, a alma \u00e9 lan\u00e7ada a um lugar metaf\u00edsico onde se torna capaz de pensar as coisas fora do tempo. Nesse lugar, tanto ela quanto as verdades s\u00e3o perfeitas e eternas. Mas as cavernas escondem uma verdade maior, anterior. O que nos assombra agora \u00e9 reconhecer nelas n\u00e3o apenas a ant\u00edtese desse ideal plat\u00f4nico mas, como sugere Herzog, o lugar em que a pr\u00f3pria alma humana foi forjada, juntamente com as pinturas e, talvez, por meio delas.<\/p>\n<p>Leio agora que a caverna de Castillo, na Espanha, pode desbancar Chauvet com imagens que talvez alcancem 40 mil anos de idade. Tanto faz! A data calculada pelos cientistas ainda \u00e9 menos relevante do que a aura captada por Herzog. Os homens que pintaram Castillo ter\u00e3o que aguardar a oportunidade de um di\u00e1logo efetivo com o olhar do presente. Afinal, sab\u00edamos de Chauvet havia algum tempo, mas foi apenas na caverna escura do cinema que pudemos ser tocados pelo sentido de suas pinturas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O acesso \u00e0s pinturas rupestres \u00e9 hoje bastante restrito. Muitas delas foram depredadas por curiosos, turistas e at\u00e9 mesmo por cientistas. 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