{"id":3891,"date":"2012-05-27T21:26:37","date_gmt":"2012-05-27T21:26:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3891"},"modified":"2016-05-28T14:09:40","modified_gmt":"2016-05-28T14:09:40","slug":"as-formas-primitivas-de-apichatpong-weerasethakul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/as-formas-primitivas-de-apichatpong-weerasethakul\/","title":{"rendered":"As formas primitivas de Apichatpong Weerasethakul"},"content":{"rendered":"<p>O cineasta tailand\u00eas Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2010, com o filme <em>Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas<\/em>. \u00c9 uma narrativa repleta de fantasia sobre um homem que, com a proximidade da morte, reencontra pessoas as que ama, e tamb\u00e9m lugares, mem\u00f3rias e imagens ligadas a seu passado e a suas outras vidas. Neste ano, Apichatpong\u00a0retorna ao festival apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o document\u00e1rio <em>Mekong Hotel<\/em> e o curta <em>Ashes<\/em>, ambos de 2012. Este \u00faltimo \u00e9 o resultado de uma experi\u00eancia realizada com uma c\u00e2mera <em><a href=\"http:\/\/vimeo.com\/42505347\" target=\"_blank\">LomoKino<\/a><\/em>, que faz rodar um filme 35mm\u00a0por meio de uma manivela e que imprime ao trabalho um ar de foto-filme.<\/p>\n<p>Aqui vai um fragmento, o curta pode ser visto na \u00edntegra (20 min.) no\u00a0<a href=\"http:\/\/mubi.com\/films\/ashes\/watch\" target=\"_blank\">site Mubi<\/a>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/42955619\" width=\"640\" height=\"424\" frameborder=\"0\" title=\"Ashes - Fragmento (Apichatpong Weerasethakul, 2012)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Os filmes de Apichatpong s\u00e3o f\u00e1ceis de ver quando nos rendemos \u00e0 plasticidade das narrativas, mas s\u00e3o dif\u00edceis de entender quando n\u00e3o resistimos \u00e0 ansiedade de explicar o que vemos. Sobretudo depois do \u00eaxito de <em>Tio Boonmee<\/em> em Cannes, seus trabalhos passaram a mobilizar debates\u00a0intensos que ora reduzem sua obra a uma no\u00e7\u00e3o vaga e anacr\u00f4nica de \u201csurrealismo\u201d, ora tentam listar o significado de cada cena e de cada personagem. H\u00e1 certamente uma medida mais adequada entre a constata\u00e7\u00e3o do <em>non-sense<\/em> e a dicionariza\u00e7\u00e3o dos s\u00edmbolos.<\/p>\n<p>Quando comenta suas influ\u00eancias, Apichatpong n\u00e3o \u00e9 afeito a demonstra\u00e7\u00f5es de erudi\u00e7\u00e3o. Ele assume trabalhar de modo bastante livre com \u00a0suas mem\u00f3rias, aceita as descontinuidades que elas imp\u00f5em e n\u00e3o distingue entre aquilo que absorveu da tradi\u00e7\u00e3o tailandesa e os elementos da cultura de massa: a fotografia, a televis\u00e3o e a cinema. Algumas refer\u00eancias s\u00e3o evidentes. No momento em que o filho Boonmee explica que sua desapari\u00e7\u00e3o e sua metamorfose em um &#8220;macaco-fantasma&#8221; se desdobrou da obsess\u00e3o\u00a0gerada por uma fotografia, v\u00e1rios comentadores reconhecem uma cita\u00e7\u00e3o a <em>Blow-up<\/em>: os personagens dos dois filmes s\u00e3o igualmente enredados e transformados por uma fantasia constru\u00edda pela imagem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/42955621\" width=\"640\" height=\"352\" frameborder=\"0\" title=\"Tio Boonmee [fragmento 1]\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div id=\"attachment_3893\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-27-23h29m59s602.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3893\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3893 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-27-23h29m59s602.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"354\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3893\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966)<\/p><\/div>\n<p>A fotografia reaparece no filme quando, pouco antes de morrer, Boonmee narra um sonho sobre uma viagem ao futuro, onde se v\u00ea perseguido por homens que querem faz\u00ea-lo desaparecer atrav\u00e9s de um artif\u00edcio cinematogr\u00e1fico . As fotos que vemos n\u00e3o ilustram exatamente sua fala, s\u00e3o provavelmente sobra de um outro projeto, a instala\u00e7\u00e3o &#8220;Primitive&#8221;, mas traduzem sentimentos amb\u00edguos de aprisionamento e liberdade, de medo e desejo, como num sonho, como na experi\u00eancia da morte que se aproxima. Muito j\u00e1 se especulou sobre o personagem do macaco. \u00c9 suficiente pensar que, tamb\u00e9m nessa &#8220;pr\u00f3xima vida&#8221;, Boonmee \u00e9 confrontado com elementos de uma exist\u00eancia arcaica. Uma das \u00faltimas fotografias dessa s\u00e9rie parece remeter novamente a <em>Blow-up<\/em>, uma situa\u00e7\u00e3o em que a fotografia constr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o de prazer e de submiss\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/42955620\" width=\"616\" height=\"344\" frameborder=\"0\" title=\"Tio Boonmee [fragmento 2]\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div id=\"attachment_3935\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/primitive1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3935\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3935\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/primitive-620x205.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"205\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3935\" class=\"wp-caption-text\">Imagens da instala\u00e7\u00e3o &quot;Primitive&quot; (2009).<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_3905\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-28-01h23m02s2491.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3905\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3905 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-28-01h23m02s2491.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"354\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3905\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Blow-up, de Michelangelo Antonioni (1966).<\/p><\/div>\n<p>Em <em>Ashes<\/em>, Apichatpong apenas joga com as sequ\u00eancias de imagens, n\u00e3o chega a construir uma narrativa. O filme \u00e9 \u2013 assim como a mem\u00f3ria \u2013 uma colagem de cenas: um passeio por uma vila com um c\u00e3o, uma mulher pintando as unhas, protestos contra o &#8220;artigo 112&#8221; (da lei que define o crime de \u201cLesa-Majestade\u201d e que inibe a liberdade de express\u00e3o na Tail\u00e2ndia), o cineasta que tenta apreender por meio de desenhos as formas e as cores dos sonhos, os fogos de artif\u00edcio de uma festividade que criam abstra\u00e7\u00f5es (como j\u00e1 se via no filme <a href=\"http:\/\/www.animateprojects.org\/films\/by_date\/2009\/phantoms\" target=\"_blank\">Fantasmas de Nabua<\/a>, de \u00a02009,\u00a0que tamb\u00e9m integra o projeto &#8220;Primitive&#8221;).<\/p>\n<div id=\"attachment_3915\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-28-03h01m35s351.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3915\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3915\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/vlcsnap-2012-05-28-03h01m35s35-620x344.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"344\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3915\" class=\"wp-caption-text\">Frame de Ashes<\/p><\/div>\n<p>Essas imagens nos chegam num estado r\u00fastico. Juliano Gomes, <a href=\"http:\/\/www.revistacinetica.com.br\/tioboonmee.htm\" target=\"_blank\">num excelente artigo sobre o diretor<\/a>, sugere que tamb\u00e9m <em>Tio Boonmee<\/em> \u00e9 parte do projeto \u201cPrimitive\u201d, em que\u00a0Apichatpong assume todo seu fasc\u00ednio pela imagem: \u201co filme resgata esse deslumbramento primitivo, muito anterior ao cinema, esse prazer primeiro da dilata\u00e7\u00e3o da pupila, fasc\u00ednio ancestral que o fogo, os refletores, os raios, os LEDS e o sol, e todas as formas de pulsa\u00e7\u00e3o da luz nunca deixar\u00e3o de exercer sobre n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Com a <em>LomoKino<\/em>, Apichatpong retorna a uma imagem cinematogr\u00e1fica arcaica, assim como Boonmee retorna \u00e0 floresta para reencontrar as entidades que comp\u00f5e as hist\u00f3rias de suas vidas. Essa inst\u00e2ncia obscura que recebe a qualifica\u00e7\u00e3o de &#8220;primitiva&#8221; n\u00e3o representa qualquer simplicidade. Muito pelo contr\u00e1rio, ela \u00e9 o lugar em que o potencial das coisas pode ser reconhecido de modo mais evidente. Neste novo projeto, a montagem n\u00e3o esconde os saltos que o cinema opera, assim como a liga\u00e7\u00e3o de cada foto com a seguinte n\u00e3o esconde o esfor\u00e7o para criar a ilus\u00e3o de movimento.<\/p>\n<p>\u00c9 na escurid\u00e3o da floresta que Boonmee se encontrar\u00e1 com seus fantasmas e suas outras vidas. Em <em>Asches<\/em>, \u00e9 tamb\u00e9m na escurid\u00e3o que o cineasta falar\u00e1 da possibilidade de reter a mem\u00f3ria de um sonho. S\u00f3 a penumbra permite enxergar as luzes mais sutis, assim como \u00e9 o esquecimento que confere um contorno \u00e0 mem\u00f3ria. E Apichatpong Weerasethakul \u00e9 o nome impronunci\u00e1vel de um diretor cuja assinatura se torna cada vez mais leg\u00edvel nas imagens.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><em>Ashes<\/em> foi uma dica de um aluno de cinema da FAAP, Nicolas Zetune, a quem agrade\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cineasta tailand\u00eas Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2010, com o filme Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas. \u00c9 uma narrativa repleta de fantasia sobre um homem que, com a proximidade da morte, reencontra pessoas as que ama, e tamb\u00e9m lugares, mem\u00f3rias e imagens ligadas a seu passado e a suas outras vidas. Neste ano, Apichatpong\u00a0retorna ao festival apresentando fora da mostra competitiva dois novos projetos: o document\u00e1rio Mekong Hotel e o curta Ashes, ambos de 2012. 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