{"id":3699,"date":"2012-05-07T06:49:35","date_gmt":"2012-05-07T06:49:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3699"},"modified":"2016-05-28T14:09:56","modified_gmt":"2016-05-28T14:09:56","slug":"fischli-weiss-a-comedia-dos-objetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fischli-weiss-a-comedia-dos-objetos\/","title":{"rendered":"Fischli &amp; Weiss: a com\u00e9dia dos objetos"},"content":{"rendered":"<p>Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista su\u00ed\u00e7o David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli. \u00a0A dupla Fischli &amp; Weiss se consagrou com v\u00e1rias s\u00e9ries fotogr\u00e1ficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos cr\u00edticos de fotografia.<\/p>\n<div id=\"attachment_3734\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Equilibrium1.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3734\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3734\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Equilibrium1-620x361.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"361\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3734\" class=\"wp-caption-text\">Da s\u00e9rie &quot;Tarde silenciosa, Equil\u00edbrio&quot;, 1984-5<\/p><\/div>\n<p>Entendidas como registros de esculturas e instala\u00e7\u00f5es, suas fotos pareciam manter certa subservi\u00eancia diante de t\u00e9cnicas mais consagradas. N\u00e3o demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fot\u00f3grafos. N\u00e3o raramente, a hist\u00f3ria da fotografia se pauta por essa m\u00e1goa e, mesmo quando defende o tr\u00e2nsito entre linguagens, reivindica uma \u201ccota de participa\u00e7\u00e3o\u201d que compense a discrimina\u00e7\u00e3o sofrida durante mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Se os registros de Fischli &amp; Weiss parecem insuficientes para caracterizar uma arte fotogr\u00e1fica, \u00e9 preciso notar que, tamb\u00e9m como escultura, as obras em quest\u00e3o s\u00e3o igualmente banais, num di\u00e1logo evidente com a tradi\u00e7\u00e3o dos <em>ready-mades<\/em>. A dignidade da arte n\u00e3o \u00e9 portanto a chave para pensar qualquer aspecto dessa produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>Wurstserie<\/em> (algo como \u201cS\u00e9rie Salsicha\u201d), um de seus primeiros trabalhos em parceria, Fischli &amp; Weiss utilizam embutidos de carne e outros objetos para encenar cenas corriqueiras, como um acidente de carro, um desfile de moda ou o ambiente de uma loja de tapetes.<\/p>\n<div id=\"attachment_3704\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Serie-Salsicha1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3704\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3704\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Serie-Salsicha-620x207.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"207\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3704\" class=\"wp-caption-text\">&quot;Loja de Tapetes&quot; e &quot;O Acidente&quot;, da &quot;S\u00e9rie Salsicha&quot;, 1979<\/p><\/div>\n<p>Essas cenografias caricaturais d\u00e3o lugar \u00e0 ironia mais sutil da s\u00e9rie <em>Tarde silenciosa, Equilibrio<\/em>, realizada a partir de 1984. O que vemos aqui, \u00e9 uma esp\u00e9cie de anti-escultura cuja harmonia e estabilidade s\u00e3o pouco convincentes. Esse \u00e9 o papel da fotografia: dar o estranho efeito de perman\u00eancia a uma estrutura que parece insustent\u00e1vel.<\/p>\n<div id=\"attachment_3708\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/equilibrium11.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3708\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3708\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/equilibrium1-620x294.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"294\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3708\" class=\"wp-caption-text\">S\u00e9rie &quot;Tarde silenciosa, Equil\u00edbrio&quot;, 1984-5<\/p><\/div>\n<p>Essa s\u00e9rie transporta para o universo dos objetos os princ\u00edpios da com\u00e9dia cl\u00e1ssica. Nessas narrativas, as coisas tendem a se acertar apesar da falta de virtude dos personagens. O resultado parece feliz, mas a com\u00e9dia \u00e9 apenas o outro lado da moeda tr\u00e1gica: assim como a trag\u00e9dia nos apavora mostrando a impot\u00eancia do her\u00f3i diante de seu destino, a com\u00e9dia nos faz rir ao destacar os acidentes \u2013 os arranjos jocosos desse mesmo destino \u2013 que permitem ao anti-her\u00f3i um \u00eaxito circunstancial.<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio \u00e9 levado ao limite no filme <em>O modo como as coisas acontecem<\/em>, de 1987, s\u00e9rie de eventos e rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas em cadeia que produzem resultados eficientes, apesar dos movimentos tr\u00f4pegos e improv\u00e1veis.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/41630032\" width=\"640\" height=\"480\" frameborder=\"0\" title=\"O percurso das coisas ( Der Lauf Der Dinge, Peter Fischli and David Weiss, 1987)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Esse filme pode ser entendido como uma alegoriza\u00e7\u00e3o bem calculada das teorias que pensam a cria\u00e7\u00e3o como acidente produzido dentro de uma natureza ca\u00f3tica. Como a tese do darwinista russo Alexander Oparin, para quem a forma\u00e7\u00e3o da vida se d\u00e1 a partir de uma \u201csopa de prote\u00ednas\u201d submetida a uma sequ\u00eancia nada coordenada de eventos geol\u00f3gicos e clim\u00e1ticos. Ou, mais radicalmente, como a filosofia tr\u00e1gica de Cl\u00e9ment Rosset. Segundo ele, a pr\u00f3pria natureza n\u00e3o passa de um arranjo circunstancial dentro de um acaso primordial, algo que apenas parece ter alguma const\u00e2ncia dentro de uma escala de tempo moldada por nossa pr\u00f3pria efemeridade. Por sua vez, a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica seria a capacidade de evidenciar os instantes bem sucedidos desses encontros circunstanciais: \u201cuma arte de discernir, no acaso dos encontros, aqueles que dentre eles s\u00e3o agrad\u00e1veis: arte n\u00e3o de \u2018cria\u00e7\u00e3o\u2019, mas de antecipa\u00e7\u00e3o (prever, por experi\u00eancia e delicadeza, os bons encontros) e de reten\u00e7\u00e3o (saber \u2018reter\u2019 sua obra num desses bons encontros&#8230;)\u201d [Rosset, <em>L\u00f3gica do pior<\/em>].<\/p>\n<p>Podemos reler a\u00a0partir desse princ\u00edpio aquilo que, em trabalhos anteriores de Fischli &amp; Weiss, foi entendido como puro <em>non sense<\/em>. No primeiro filme que fizeram juntos, <em>A menor resist\u00eancia<\/em>, de 1981, eles narram o encontro inusitado de um Rato e um Urso, interpretados por eles pr\u00f3prios. Como \u00e9 t\u00edpico da com\u00e9dia, chegamos a uma profunda empatia com os personagens gra\u00e7as \u00e0 sua mal\u00edcia ing\u00eanua e a seus comportamentos pat\u00e9ticos (no duplo sentido do termo: comportamentos afetados e afetivos). Nessa f\u00e1bula, o Urso e o Rato percorrem a cidade de Los Angeles com a inten\u00e7\u00e3o de conquistar uma fortuna com a arte: &#8220;A\u00e7\u00e3o! Cultura! Dinheiro!&#8221; (Rato: \u201cVamos come\u00e7ar com um estrondo, logo de cara, como o lan\u00e7amento de um foguete&#8221;. Urso: &#8220;A verdade \u00e9 que n\u00e3o entendemos nada do assunto&#8221;. Rato: &#8220;Ainda n\u00e3o, mas isso vai mudar. Estamos come\u00e7ando uma viagem de estudos\u201d).<\/p>\n<p>Em <em>O caminho certo<\/em>, de 1983, esses mesmos personagens se reencontram e percorrem os Alpes su\u00ed\u00e7os, alternando entre situa\u00e7\u00f5es de pequenos conflitos e solidariedade, dialogando com a paisagem e mimetizando seus elementos, numa saga com prop\u00f3sitos ainda menos claros, mas t\u00e3o bela quanto desajeitada. No encontro com uma tartaruga, eles se admiram: &#8220;pequeno esfor\u00e7o, grande resultado!&#8221;. Vis\u00e3o idealista de um animal que foi encontrado de pernas para o ar, que parece andar com desconforto, mas que tem vida longa e nunca desiste. Porque, no final das contas, o princ\u00edpio que parece reger a aventura desses dois personagens &#8211; assim como o movimento das traquitanas em\u00a0<em>O modo como as coisas acontecem &#8211;\u00a0<\/em>\u00e9 exatamente o oposto: &#8220;uma grande saga com\u00a0objetivos incertos&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/dQcPx6oUPmQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Fischli &amp; Weiss retomaram a fotografia em exposi\u00e7\u00f5es recentes, com grandes s\u00e9ries retiradas de seus arquivos. Em\u00a0<em>Mundo Vis\u00edvel<\/em>\u00a0(1986-2001), tanto o t\u00edtulo quanto a massa de tr\u00eas mil fotos alinhadas em pequenos conjuntos sugerem os riscos de esgotamento do mundo pelas imagens.<\/p>\n<div id=\"attachment_3728\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/weisscomp2.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3728\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3728\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/weisscomp2-620x398.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"398\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3728\" class=\"wp-caption-text\">Mundo Vis\u00edvel (livro)<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_3735\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Visible-World22.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3735\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3735\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Visible-World22-620x424.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"424\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3735\" class=\"wp-caption-text\">Mundo Vis\u00edvel (Exposi\u00e7\u00e3o)<\/p><\/div>\n<p>Sobre esse trabalho, diz Fischli: \u201cquando atingimos o ponto em que todas as imagens\u00a0j\u00e1 foram feitas, o fato de realizarmos algo que\u00a0n\u00e3o tem nenhum prop\u00f3sito \u00e9 agora um dado do\u00a0trabalho.\u00a0Mesmo que essas imagens\u00a0j\u00e1 tenham sido feitas, decidimos ir\u00a0a esses locais\u00a0e fazer nossas\u00a0pr\u00f3prias imagens. E n\u00f3s as fizemos. Quanto\u00a0mais in\u00fatil se torna a a\u00e7\u00e3o\u00a0de tirar fotografias, mais\u00a0o trabalho revela sua import\u00e2ncia.\u00a0Voc\u00ea n\u00e3o pode\u00a0deixar de experimentar as coisas pessoalmente\u201d.<\/p>\n<p>A com\u00e9dia tem essa capacidade arrancar potencialidades da insignific\u00e2ncia e do erro. O mundo, em toda sua banalidade, merece ser percorrido. Esse percurso, mesmo incerto, pode se traduzir em experi\u00eancias. No final das contas, assim como vemos na cadeia de eventos de\u00a0<em>O modo com as coisas acontecem<\/em>, assim como ocorre nas aventuras do Rato e do Urso, h\u00e1 beleza na iniciativa de seguir com convic\u00e7\u00e3o esse caminho que n\u00e3o leva a lugar algum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu na semana passada, aos 66 anos de idade, o artista su\u00ed\u00e7o David Weiss que, desde o final dos anos de 70, trabalhava em parceria com Peter Fischli. \u00a0A dupla Fischli &amp; Weiss se consagrou com v\u00e1rias s\u00e9ries fotogr\u00e1ficas que foram, no entanto, pouco reconhecidas pelos cr\u00edticos de fotografia. Entendidas como registros de esculturas e instala\u00e7\u00f5es, suas fotos pareciam manter certa subservi\u00eancia diante de t\u00e9cnicas mais consagradas. N\u00e3o demonstravam portanto a autoridade conquistada a duras penas pelos fot\u00f3grafos. 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