{"id":3659,"date":"2012-04-23T08:20:31","date_gmt":"2012-04-23T08:20:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3659"},"modified":"2016-05-28T13:41:43","modified_gmt":"2016-05-28T13:41:43","slug":"as-fotomontagens-de-jorge-de-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/as-fotomontagens-de-jorge-de-lima\/","title":{"rendered":"As fotomontagens de Jorge de Lima"},"content":{"rendered":"<p>Na historia da fotografia brasileira temos algumas experi\u00eancias isoladas que merecem nossa aten\u00e7\u00e3o. Na maioria das vezes, s\u00e3o iniciativas que adquiriram import\u00e2ncia por estarem desconectadas do fluxo sequencial da linguagem ou por se tornarem demonstra\u00e7\u00e3o de interesses particulares de artistas mais inquietos que foram atra\u00eddos por alguns aspectos inusitados do fazer fotogr\u00e1fico. Um desses artistas \u00e9 Jorge de Lima (1893 \u2013 1953), alagoano, m\u00e9dico, romancista, poeta, pintor (esteve na I Bienal de S\u00e3o Paulo, em 1951) e que, por um curto per\u00edodo, tamb\u00e9m trabalhou com a fotografia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi fot\u00f3grafo. Jorge de Lima produziu algumas fotomontagens, no final da d\u00e9cada de 1930, que se tornaram p\u00fablicas atrav\u00e9s de uma cr\u00f4nica de Mario de Andrade no <em>Suplemento de Rotogravura<\/em> do jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, na primeira quinzena de novembro de 1939. Vale lembrar que as onze fotomontagens que foram enviadas a Mario de Andrade pertencem hoje ao arquivo do IEB \u2013 Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<div id=\"attachment_3661\" style=\"width: 291px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Livro-de-Sonetos1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3661\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3661 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Livro-de-Sonetos1.jpg\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"384\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3661\" class=\"wp-caption-text\">Jorge de Lima. Livro de Sonetos (Acervo do IEB)<\/p><\/div>\n<p>Mais tarde, em mar\u00e7o de 1943, Jorge de Lima publicou o livro <em>A Pintura em P\u00e2nico<\/em> (em \u00fanica edi\u00e7\u00e3o, com 41 fotomontagens, tiragem de 250 exemplares, numerados e assinados), hoje rar\u00edssimo e completamente esquecido na cronologia da fotografia brasileira. Seus poemas e suas fotomontagens remetiam \u00e0s experi\u00eancias mais radicais das vanguardas europeias, tanto que, no livro, a apresenta\u00e7\u00e3o de seu parceiro Murilo Mendes (1901 \u2013 1975) destaca a total sintonia com os trabalhos de Max Ernst, Salvador Dali, entre outros. Jorge de Lima, sabemos, j\u00e1 tinha lido Freud na segunda metade da d\u00e9cada de 1920, e conhecia os principais artistas do movimento surrealista.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de simultaneidade e aparente desconex\u00e3o trazida pela fotomontagem \u00e9 fruto direto das experi\u00eancias iniciadas com as colagens cubistas de Braque e Picasso, mais tarde ampliadas pelo futurismo italiano e pelo dada\u00edsmo. Ali\u00e1s, \u00e9 no dada\u00edsmo que a denomina\u00e7\u00e3o fotomontagem se instaura e ganha resson\u00e2ncia. Ressaltamos que foi nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX que ocorre a explos\u00e3o da imagem, seja atrav\u00e9s dos jornais e das revistas ilustradas, seja no cinema com as experi\u00eancias de Dziga Vertov, Sergei Eisenstein e Walter Ruttman, seja no texto liter\u00e1rio fragmentado de <em>Berlin Alexanderplatz<\/em>, de Alfred Doblin. \u00c9 neste contexto \u2013 de intensidades e justaposi\u00e7\u00f5es, de velocidade de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagens \u2013 que a fotomontagem emerge com a dif\u00edcil tarefa de articular a complexa compreens\u00e3o entre arte, cultura de massa e cotidiano.<\/p>\n<p>A fotomontagem traz uma explos\u00e3o de pontos de vista, estabelece ins\u00f3litas rela\u00e7\u00f5es de luz e sombra, de oposi\u00e7\u00f5es formais, variabilidade de texturas, e caracteriza-se pela harmonia ou pelo inesperado das imagens associadas. Tudo isso a aproxima dos enigmas perturbadores dos nossos sonhos, presente tamb\u00e9m nas imagens de Jorge de Lima, onde \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma organiza\u00e7\u00e3o formal em que \u00e9 percept\u00edvel as diferentes texturas, o desenho da luz e uma narrativa on\u00edrica e misteriosa.<\/p>\n<div id=\"attachment_3662\" style=\"width: 299px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/nven\u00e7\u00e3o-de-Orfeu-Canto-II1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3662\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3662 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/nven\u00e7\u00e3o-de-Orfeu-Canto-II1.jpg\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"429\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3662\" class=\"wp-caption-text\">Jorge de Lima. inven\u00e7\u00e3o de Orfeu\/Canto II (Acervo do IEB)<\/p><\/div>\n<p>Mario de Andrade, no texto \u201cFantasias de um Poeta\u201d, publicado no <em>Suplemento de Rotogravura<\/em>, afirmava a partir das imagens enviadas pelo amigo poeta que \u201ca fotomontagem parece brincadeira, a princ\u00edpio. Consiste apenas na gente se munir de um bom n\u00famero de revistas e livros com fotografias, recortar figuras, e reorganiz\u00e1-las numa composi\u00e7\u00e3o nova, que a gente fotografa ou manda fotografar. A princ\u00edpio as cria\u00e7\u00f5es nascem bisonhas, mec\u00e2nicas e mal inventadas. Mas aos poucos o esp\u00edrito come\u00e7a a trabalhar com maior facilidade, a imagina\u00e7\u00e3o criadora apanha com rapidez, na cole\u00e7\u00e3o de fotografias recortadas, os documentos capazes de se coordenar num todo fant\u00e1stico e sugestivo. (&#8230;) em vez de uma pura brincadeira de passatempo, estamos diante de uma verdadeira arte, de um meio novo de express\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que tardias, as fotomontagens de Jorge de Lima s\u00e3o de enorme import\u00e2ncia para entendermos o percurso da nossa fotografia, j\u00e1 que devemos incorporar essas experi\u00eancias inesperadas e nem sempre totalmente conhecidas. O fato de ser escritor, poeta e pintor, valorizar a rela\u00e7\u00e3o vida-poesia-sonho, ter conex\u00f5es com os modernistas, em particular os paulistas, estar atento aos movimentos da arte, e produzir imagens de toda ordem \u00e9 que caracteriza este seu interesse em particular. Murilo Mendes, na introdu\u00e7\u00e3o do livro <em>A Pintura em P\u00e2nico<\/em> destaca este seu trabalho afirmando que nele \u201ch\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o do imprevisto com a l\u00f3gica. E a fotografia tem ajudado o homem a alargar sua experi\u00eancia da vis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Se considerarmos o procedimento \u2013 basicamente por apropria\u00e7\u00e3o de fotografias publicadas em ve\u00edculos de grande circula\u00e7\u00e3o \u2013 podemos entender alguns trabalhos posteriores que pontuam ainda hoje a arte contempor\u00e2nea. Isso apenas denota o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio da fotomontagem, que buscava, do ponto de vista \u00f3ptico e do conte\u00fado, criar uma imagem diferenciada, distante dos automatismos maqu\u00ednicos, e estabelecer novas visualidades a partir do caos da \u00e9poca.<\/p>\n<div id=\"attachment_3660\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/O-Nome-da-Musa1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3660\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3660 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/O-Nome-da-Musa1.jpg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"384\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3660\" class=\"wp-caption-text\">Jorge de Lima. O nome da Musa (Acervo do IEB)<\/p><\/div>\n<p>Curiosamente, por outro lado, \u00e9 interessante verificar como a denomina\u00e7\u00e3o fotomontagem era explicada por Raoul Hausmann (1886 \u2013 1971), um dos nomes mais importantes do movimento Dada: \u201cchamamos a este processo de fotomontagem porque ele continha a nossa avers\u00e3o a fazer o papel de artistas. Consider\u00e1vamo-nos engenheiros, nossa inten\u00e7\u00e3o era construir, \u2018montar\u2019 o nosso trabalho (como um serralheiro). A partir de 1918, assumiam com a fotomontagem um papel transgressor na atividade questionadora de produzir imagens que buscavam desmascarar o sistema dominante.<\/p>\n<p>Jorge de Lima n\u00e3o nos deixou maiores informa\u00e7\u00f5es sobre suas fotomontagens. O que teria pretendido o poeta com suas colagens? Al\u00e9m de homenagear suas \u201cMusas\u201d, tema recorrente em sua obra liter\u00e1ria, ele explora o on\u00edrico e o inusitado a partir da disparidade dos elementos visuais justapostos que enfatizam sua intencional narrativa surrealista. Ao aprofundarmos nosso olhar sobre suas fotomontagens, podemos at\u00e9 ser surpreendidos por algum detalhe que escapou da nossa vis\u00e3o, mas continua o mist\u00e9rio de uma obra que n\u00e3o podemos ignorar na cronologia da fotografia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na historia da fotografia brasileira temos algumas experi\u00eancias isoladas que merecem nossa aten\u00e7\u00e3o. Na maioria das vezes, s\u00e3o iniciativas que adquiriram import\u00e2ncia por estarem desconectadas do fluxo sequencial da linguagem ou por se tornarem demonstra\u00e7\u00e3o de interesses particulares de artistas mais inquietos que foram atra\u00eddos por alguns aspectos inusitados do fazer fotogr\u00e1fico. Um desses artistas \u00e9 Jorge de Lima (1893 \u2013 1953), alagoano, m\u00e9dico, romancista, poeta, pintor (esteve na I Bienal de S\u00e3o Paulo, em 1951) e que, por um curto per\u00edodo, tamb\u00e9m trabalhou com a fotografia. Mas n\u00e3o foi fot\u00f3grafo. 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