{"id":3613,"date":"2012-04-16T08:48:35","date_gmt":"2012-04-16T08:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3613"},"modified":"2016-05-28T14:10:13","modified_gmt":"2016-05-28T14:10:13","slug":"wolfgang-tillmans-engenharia-do-acaso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wolfgang-tillmans-engenharia-do-acaso\/","title":{"rendered":"Wolfgang Tillmans: engenharia do acaso"},"content":{"rendered":"<p>As imagens de Wolfgang Tillmans s\u00e3o simples mas, como conjunto, seu trabalho \u00e9 de dif\u00edcil apreens\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 desses autores que a gente entende buscando refer\u00eancias em livros ou na internet. Quando fazemos isso, fica sempre a impress\u00e3o de que as imagens n\u00e3o se conectam. Uma exposi\u00e7\u00e3o panor\u00e2mica como a que est\u00e1 agora no Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo n\u00e3o muda essa leitura, mas permite constatar o modo como suas imagens efetivamente n\u00e3o se conectam: reconhecemos que o aleat\u00f3rio se constr\u00f3i ali como uma arquitetura.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 suficiente dizer que o trabalho do artista est\u00e1 marcado pelo acaso, conceito que reaparece em lugares muito distintos da experi\u00eancia com a fotografia. Tillmans passa longe de uma no\u00e7\u00e3o de acaso como uma d\u00e1diva que s\u00f3 o olhar mais \u00e1gil consegue captar, como em Kert\u00e9sz ou Cartier-Bresson. Em princ\u00edpio, ele parece se identificar mais com o olhar despretencioso de figuras \u00a0como Nan Goldin (<em>The Ballad&#8230;<\/em>) ou Corine Day (<em>Diary<\/em>), que apontam suas c\u00e2meras para qualquer coisa que esteja pr\u00f3xima e que lhes seja \u00edntima. Mas ainda n\u00e3o \u00e9 isso, essas artistas s\u00e3o bastante coesas em suas imagens displicentes. Em Tillmans n\u00e3o h\u00e1 uma tem\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 uma estrat\u00e9gia, um estilo ou um olhar. Mas h\u00e1 um projeto, sem d\u00favida.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/paper-drop-Roma-Press-Image.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3634\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/paper-drop-Roma-Press-Image-620x415.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"415\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/tillmans-janela1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3633\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/tillmans-janela-620x414.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"414\" \/><\/a><\/p>\n<p>A diversidade e a inconst\u00e2ncia daquilo que ele mostra pode ser entendida como sintoma da acelera\u00e7\u00e3o e da fragmenta\u00e7\u00e3o que o olhar enfrenta nas viv\u00eancias mais cotidianas. \u201cTillmans constr\u00f3i um mapa do mundo contempor\u00e2neo\u201d, diz Felipe Chaimovich, um dos curadores da exposi\u00e7\u00e3o. Acostumado a olhar para as estrelas, talvez ele esteja em condi\u00e7\u00f5es resgatar sentidos desse caos aparente, talvez ele saiba como ligar pontos t\u00e3o isolados: \u201cqual um astr\u00f4nomo navegando pela noite, Tillmans busca fen\u00f4menos luminosos que possam estabelecer a posi\u00e7\u00e3o relativa dos corpos entre si\u201d, segue Chaimovich.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/tillmans-ceu-cidade1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3631  aligncenter\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/tillmans-ceu-cidade-620x447.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"447\" \/><\/a><\/p>\n<p>Lutamos muito para desconstruir a ideologia do instante bressoniano que fazia da fotografia uma arte de imagens \u00fanicas e individualmente poderosas. Em lugar disso, afirmamos o paradigma do ensaio, com imagens que se completam e que constroem juntas um pensamento. Cobramos ent\u00e3o do artista que soubese editar o conjunto que apresenta para formar um corpo. Por vezes, esperamos ainda encontrar uma \u201cpo\u00e9tica\u201d que permita ler a passagem de um trabalho para outro.<\/p>\n<p>Tillmans se situa totalmente fora dessa polaridade.\u00a0 Suas imagens se apresentam isoladas, mas precisam ser vistas dentro da tens\u00e3o gerada por suas vizinhan\u00e7as. Um trabalho como esse exige a coragem de um <em>ready-made<\/em>: qualquer um poderia ter feito, mas s\u00f3 nas m\u00e3os certas ganha consist\u00eancia. Articular uma diversidade dessa grandeza \u00e9 algo que exige tempo e perseveran\u00e7a. Exige ainda um espa\u00e7o extenso: uma parede solta numa bienal passaria despercebida, ou se tornaria mero altar para aqueles que j\u00e1 cultuam o trabalho.<\/p>\n<p>Mais do que um percurso, Tillmans promove saltos. \u00c9 habilidoso o modo como ele nos destitui de qualquer tipo de categoria que possa resumir a experi\u00eancia que prop\u00f5e. \u00c9 preciso dar conta de cada imagem, uma por uma. As identifica\u00e7\u00f5es e os t\u00edtulos, sempre discretos e agrupados a certa dist\u00e2ncia das fotos, n\u00e3o prometem nenhuma seguran\u00e7a. Essa diversidade alcan\u00e7a limites extremos: \u00e0s vezes, encontramos imagens exuberantes, bem compostas, com t\u00e9cnica impec\u00e1vel; outras vezes, vitrines que pontuam a exposi\u00e7\u00e3o com conjuntos ainda mais variados de informa\u00e7\u00f5es e objetos apropriados. N\u00f3s que n\u00e3o somos astr\u00f4nomos, j\u00e1 temos dificuldades de reconhecer no c\u00e9u as constela\u00e7\u00f5es. Imagine se nos fosse permitido ver outros tantos pontos brilhantes que ocupam o universo e que n\u00e3o chegam a vencer a escurid\u00e3o. \u00c9 mais ou menos essa a sensa\u00e7\u00e3o que resta diante dessas vitrines.<\/p>\n<p>Quando o olhar parece habituado a esses saltos, nos surpreendemos com uma parede inteira dedicada \u00e0 quest\u00f5es ligadas ao corpo, \u00a0sexualidade, e comportamentos <em>underground<\/em>, com um interesse de porte etnogr\u00e1fico. Outra s\u00e9rie mergulha numa pesquisa quase pict\u00f3rica sobre cores aplicadas a superf\u00edcies que se descolam de seu plano. A mostra encontra assim meios de evitar a pura entropia, isto \u00e9, a total dissolu\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es na pura aleatoriedade. Em outras palavras, quando o acaso se estabelece como regra, \u00e9 sua pr\u00f3pria suspens\u00e3o por meio de uma s\u00e9rie org\u00e2nica e bem editada que assume para o olhar a condi\u00e7\u00e3o de &#8220;incidente&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/trillmans-trio1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3632  aligncenter\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/trillmans-trio-620x302.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"302\" \/><\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_3628\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/2008_Regen_11.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3628\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3628\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/2008_Regen_11-620x339.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"339\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3628\" class=\"wp-caption-text\">Wolfgang Tillmans, s\u00e9rie Lighter (montagem na Regen Projects, Los Angeles, 2008)<\/p><\/div>\n<p>O mesmo vale para os formatos que tamb\u00e9m s\u00e3o muito diversos e se espalham sem qualquer linearidade pelas paredes, de modo que jamais encontramos a dist\u00e2ncia mais confort\u00e1vel para se situar diante da exposi\u00e7\u00e3o. Essas idas e vindas do p\u00fablico s\u00e3o uma coreografia prevista pelo projeto. Uma imagem gigantesca pede para ser vista de longe. Bem ao lado dela, uma outra muito pequena exige sentir o cheiro de tinta da parede. E assim o trajeto vai sendo cumprido por meio de par\u00e1bolas e hesita\u00e7\u00f5es. Quando esses movimentos come\u00e7am a se tornar autom\u00e1ticos, encontramos uma grande s\u00e9rie conjugada por molduras de mesmo tamanho e simetricamente alinhadas. Aqui, \u00e9 a const\u00e2ncia da s\u00e9rie que se torna perturbadora.<\/p>\n<div id=\"attachment_3629\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Wolfgang-Tillmans-Concorde-Grid-19973.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3629\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3629\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Wolfgang-Tillmans-Concorde-Grid-19973-620x348.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"348\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3629\" class=\"wp-caption-text\">Wolfgang Tillmans, Concorde Grid (montagem na Chisenhale Gallery, em Londres, em 1997)<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 coisas que me incomodam na exposi\u00e7\u00e3o. Suas fotografias j\u00e1 constituem uma bela alegoria do car\u00e1ter fragment\u00e1rio e transit\u00f3rio da vida contempor\u00e2nea. Mas algumas radicaliza\u00e7\u00f5es parecem desejar oferecer, numa escala reduzida, uma s\u00edntese\u00a0daquilo que a mostra constr\u00f3i aos poucos, num ritmo mais instigante, porque oposto \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o do olhar cotidiano. Nesse sentido, tenho d\u00favidas quanto \u00e0s vitrines, sobretudo porque n\u00e3o cheguei a ver em meio ao p\u00fablico ningu\u00e9m disposto a percorr\u00ea-las com a mesma aten\u00e7\u00e3o que as fotografias conseguem.<\/p>\n<p>As aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos que cada imagem exige do olhar s\u00e3o planejadas de modo habilidoso e perturbam o espa\u00e7o idealizado do museu. Algumas imagens colocadas em lugares quase escondidos, nas passagens entre as paredes ou em nichos \u201cn\u00e3o-expositivos\u201d da sala podem se tornar uma esp\u00e9cie de refor\u00e7o did\u00e1tico de uma ideia que, sem isso, j\u00e1 era poderosa.<\/p>\n<p>Por fim, olhando para os bastidores, n\u00e3o compreendo bem a necessidade recorrente de justificar o trabalho de Tillmans como contraponto das propostas de Dusseldorf, mesmo que sua nacionalidade torne a compara\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel, mesmo que, em algum momento, seu contato com os artistas dessa escola tenha efetivamente existido. Ou ainda, mesmo que o pr\u00f3prio artista queira se colocar nesse lugar.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas imagens que est\u00e3o suficientemente distantes dos crit\u00e9rios mais dogm\u00e1ticos de Dusseldorf e h\u00e1, em contrapartida, algumas que se aproximam deles. Tanto faz, uma coisa e outra s\u00e3o incidentes inevit\u00e1veis numa obra que abra\u00e7a tamanha diversidade, mas a diferen\u00e7a permanece evidente. Tillmans toma um caminho que se sustenta por si mesmo e que n\u00e3o depende dessa compara\u00e7\u00e3o. Mesmo os artistas que assumiram a heran\u00e7a dos Becher tentam hoje se aliviar do peso dessa refer\u00eancia. Talvez nomes como Andreas Gursky, Candida Hoffer, Thomas Struth ou Thomas Ruff jamais se descolem totalmente de suas hist\u00f3rias com os Becher. Penso que Tillmans n\u00e3o precisaria carreg\u00e1-los como fantasmas.<\/p>\n<p>Nada disso ofusca o valor da obra de Tillmans. Se \u00e9 um tanto dif\u00edcil explicar o que vemos, a mostra promove uma experi\u00eancia intensa e duradoura, exatamente num tempo que ali mesmo vemos representado em toda sua instabilidade. A exposi\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a ainda um \u00eaxito raro no universo da arte conceitual, que \u00e9 o de permitir que se sinta tamb\u00e9m no plano do olhar aquilo que os artistas e cr\u00edticos debatem num plano te\u00f3rico. Tillmans \u00e9 um autor para ser visto e pensado, na ordem que se desejar.<\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p><strong>Exposi\u00e7\u00e3o: Wolfgang Tillmans<\/strong><\/p>\n<p>Curadoria:\u00a0Felipe Chaimovich,\u00a0Julia Peyton-Jones,\u00a0Hans-Ulrich Obrist\u00a0e Sophie O\u2019brien<\/p>\n<p>At\u00e9 27 de maio<\/p>\n<p><strong>MAM<\/strong><\/p>\n<p>Parque do Ibirapuera, port\u00e3o 3 &#8211; S\u00e3o Paulo<br \/>\n(11) 5085-1300<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As imagens de Wolfgang Tillmans s\u00e3o simples mas, como conjunto, seu trabalho \u00e9 de dif\u00edcil apreens\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 desses autores que a gente entende buscando refer\u00eancias em livros ou na internet. 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