{"id":3518,"date":"2012-04-09T05:20:27","date_gmt":"2012-04-09T05:20:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3518"},"modified":"2016-05-28T14:10:21","modified_gmt":"2016-05-28T14:10:21","slug":"pina-3d-as-profundidades-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/pina-3d-as-profundidades-do-cinema\/","title":{"rendered":"Pina 3D: as profundidades do cinema"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei apreensivo quando soube que Wim Wenders embarcaria na onda do cinema 3D em seu document\u00e1rio sobre Pina Bausch. Com <em>Paris Texas<\/em> (1984) e <em>Asas do Desejo<\/em> (1987), ele j\u00e1 parecia ter demonstrado a profundidade que se pode arrancar dessa tela. Acompanhei mais ou menos o que veio em seguida, mas fiquei preso a algumas poucas coisas mais que descobri tardiamente, seu trabalho fotogr\u00e1fico e alguns filmes anteriores, como <em>Alice nas cidades<\/em> (1974) <em>Movimento em falso<\/em> (1975) e <em>No decurso do tempo<\/em> (1976).<\/p>\n<div id=\"attachment_3520\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Street-Corner-Butte-Montana-2003.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3520\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3520\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Street-Corner-Butte-Montana-2003-620x473.jpg\" width=\"620\" height=\"473\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3520\" class=\"wp-caption-text\">Wim Wenders, Fotografia, Esquina, Montana, 2003<\/p><\/div>\n<p>Essas eram as imagens que eu queria guardar de Wim Wenders. Fato \u00e9 que esse diretor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma lenda, ele continua vivo. Natural que queira dialogar com novos p\u00fablicos \u2013 como fez de modo correto em <em>Buena Vista Social Club<\/em> (1999) ou nas parcerias com o U2 \u2013 e tamb\u00e9m com novas tecnologias.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o consigo imaginar o 3D como futuro do cinema. <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=437\" target=\"_blank\"><em>Avatar<\/em> n\u00e3o ajudou muito<\/a>. <em>Hugo Cabret<\/em> sim, fez bastante sentido. Tem como personagem M\u00e9li\u00e8s, o primeiro ilusionista do cinema, mas o filme j\u00e1 seria bom sem esse recurso. \u00c9 prov\u00e1vel que minha resist\u00eancia seja semelhante a que o cinema sonoro ou a fotografia colorida enfrentaram, coisas que um dia tamb\u00e9m soaram extravagantes e desnecess\u00e1rias \u00e0s narrativas. Talvez eu mude de ideia ou simplesmente me acostume. Quase todo mundo concorda que o impacto do 3D se dissolve nos quinze primeiros minutos e, para nos lembrar que ele continua l\u00e1, de tempos em tempos, algum objeto salta da tela em nossa dire\u00e7\u00e3o. Pode ser que nesse tal futuro o olhar se acomode definitivamente ao efeito e o p\u00fablico mal se lembre que os filmes foram diferentes.<\/p>\n<p>Toda essa desconfian\u00e7a n\u00e3o impediu que eu visse <em>Avatar<\/em>, que me divertisse com <em>Tintin<\/em>, e que gostasse de <em>Hugo Cabret<\/em>. Eu n\u00e3o perderia a nova experi\u00eancia Wim Wenders.<\/p>\n<p>Foi uma \u00f3tima surpresa. Para come\u00e7ar, foi para mim uma oportunidade de descobrir Pina Bausch, at\u00e9 ent\u00e3o, um nome solto na hist\u00f3ria de uma arte que eu ignoro por completo. N\u00e3o h\u00e1 no document\u00e1rio informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas, \u00e9 apenas por suas cria\u00e7\u00f5es e breves testemunhos de bailarinos que o filme nos aproxima dela. Leio agora que ela reinventou a dan\u00e7a e que morreu de c\u00e2ncer em 2009, aos 68 anos de idade, repentinamente, alguns dias antes de Wenders dar in\u00edcio a esse projeto.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho repert\u00f3rio para dizer nada sobre a dan\u00e7a. Mas sejam os mais delicados ou violentos, os movimentos que vemos na tela reverberam em nossas cadeiras e s\u00e3o sentidos pelo corpo (mais ou menos como promete um tal cinema 4D de que fala uma reportagem publicada esta semana na <a href=\"http:\/\/acervo.folha.com.br\/fsp\/2012\/04\/06\/21\/5772486\" target=\"_blank\"><em>Ilustrada <\/em>&#8211; <em>Folha de S. Paulo<\/em>, pg. E3, 06\/04\/12<\/a>).<\/p>\n<div id=\"attachment_3524\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena11.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3524\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3524\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena11.png\" width=\"620\" height=\"335\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3524\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Pina, Wim Wenders, 2011<\/p><\/div>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o de Wim Wenders \u00e9 evidente, mas sem maneirismos. Ele n\u00e3o pretendeu criar uma obra multim\u00eddia em que as fronteiras das linguagens se diluem. Est\u00e1 bastante claro qual \u00e9 a voz do cinema e qual \u00e9 a voz da dan\u00e7a. Ele usa recursos elementares como a montagem para acrescentar surpresas \u00e0s narrativas das coreografias, mudando repentinamente as loca\u00e7\u00f5es ou mesmo os personagens. Ele tamb\u00e9m explora paisagens exuberantes, mas com uma c\u00e2mera discreta que lembra muito aquela de suas fotografias. Os depoimentos dos bailarinos da Companhia de Pina Bausch s\u00e3o comoventes, mesmo sem qualquer dramatiza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tamb\u00e9m como retratos pensantes de longa exposi\u00e7\u00e3o, apenas rostos diante da c\u00e2mera e vozes em <em>off<\/em>, ou simplesmente o sil\u00eancio.<\/p>\n<div id=\"attachment_3526\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena31.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3526\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3526\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena31.png\" width=\"620\" height=\"335\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3526\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Pina, Wim Wenders, 2011<\/p><\/div>\n<p>No mais, Wim Wenders tem a delicadeza de deixar que as coreografias entrem em cena, e o espa\u00e7o em que o 3D melhor atua \u00e9 simplesmente o palco. \u00c9 esse ambiente original das coreografias que guia tamb\u00e9m boa parte dos movimentos da c\u00e2mera.\u00a0Imagino que, no cinema, o p\u00fablico tenha a oportunidade de perceber sutilezas que seriam dif\u00edceis de apreender no teatro: primeiro, o modo como elementos cenogr\u00e1ficos minimalistas impactam as din\u00e2micas permitidas pelo palco. Segundo, os movimentos mais sutis dos bailarinos, os olhares e os pequenos gestos que \u00e0s vezes comp\u00f5em coreografias inteiras.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/39920918\" width=\"592\" height=\"320\" frameborder=\"0\" title=\"Pina, Wim Wenders (2001, fragmento)\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Quanto ao 3D, descobri que ele pr\u00f3prio pode conter dimens\u00f5es muito distintas. Os filmes que temos visto usam esse recurso para fazer a cena saltar da tela em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. Em Pina, o 3D faz o movimento contr\u00e1rio, projeta a tela para dentro, reconstruindo aquilo que seria a profundidade do palco, ao mesmo tempo que o revela como dispositivo. Se o filme convida a entrar nesse espa\u00e7o, com frequ\u00eancia ele tamb\u00e9m devolve o olhar \u00e0 sua perspectiva convencional, desde a plat\u00e9ia, com fileiras de poltronas \u00e0 sua frente.<\/p>\n<p>A mesma consci\u00eancia \u00e9 cobrada quanto ao cinema. Nas poucas cenas em que vemos Pina Bausch, ela aparece ao fundo de um espa\u00e7o nost\u00e1lgico constru\u00eddo dentro da tela: uma sala de proje\u00e7\u00e3o de cinema, com todos os personagens e aparatos que a definem. Ao contr\u00e1rio dessa que parece ser a voca\u00e7\u00e3o do 3D, a imers\u00e3o que temos em Pina n\u00e3o visa apenas \u00e0 ilus\u00e3o. O tempo todo o filme evidencia o fato de que a imagem, seja a da dan\u00e7a ou do cinema, \u00e9 constitu\u00edda de enquadramentos, forjados pela topografia do teatro, ou pela tela que se coloca entre o p\u00fablico do cinema e a realidade que se deseja documentar.<\/p>\n<p>Se o futuro do cinema aponta para esse caminho, \u00e9 reconfortante saber que ainda haver\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para a experimenta\u00e7\u00e3o, e que o cinema pode continuar pensando a si mesmo tamb\u00e9m por meio desse recurso. Se a profundidade do 3D n\u00e3o se confunde \u00a0em nada com a profundidade que essa linguagem pode oferecer, pelo menos, elas n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/p>\n<div id=\"attachment_3527\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena4.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3527\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3527\" alt=\"Cena de Pina, Wim Wenders, 2011\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/cena4-300x162.png\" width=\"300\" height=\"162\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3527\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Pina, Wim Wenders, 2011<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei apreensivo quando soube que Wim Wenders embarcaria na onda do cinema 3D em seu document\u00e1rio sobre Pina Bausch. 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