{"id":349,"date":"2009-12-21T14:51:16","date_gmt":"2009-12-21T14:51:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=349"},"modified":"2016-05-28T14:34:27","modified_gmt":"2016-05-28T14:34:27","slug":"imagem-morte-e-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/imagem-morte-e-tempo\/","title":{"rendered":"Imagem, morte e tempo"},"content":{"rendered":"<p>Nesta \u00faltima sexta-feira, faleceu Godelieve, esposa do professor e amigo Etienne Samain. Pouco antes do vel\u00f3rio, Etienne apareceu com uma c\u00e2mera e me pediu para fazer algumas fotos da cerim\u00f4nia que aconteceria. Fiquei desconcertado, n\u00e3o consegui entender imediatamente o porqu\u00ea dessas fotografias. Mas logo lembrei de uma de suas aulas numa disciplina que dividimos na Unicamp, em que ele analisa um \u00e1lbum com 19 fotografias do enterro do av\u00f4 de Godelieve, feitas em 1957, na B\u00e9lgica.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a morte e seus rituais interessam a um antrop\u00f3logo. Mesmo quando ela ocorre t\u00e3o pr\u00f3ximo? Quem conhece Etienne, sabe o quanto ele critica o m\u00e9todo t\u00e3o difundido nas ci\u00eancias humanas de olhar com distanciamento, e a forma mais corajosa de fazer isso tem sido deixar sua vida aparecer com grande transpar\u00eancia em suas pesquisas. \u00c9 assim que vemos desde seu primeiro livro, em que apresenta a imers\u00e3o na tribo dos Kamayur\u00e1, o papel que teve Kay\u00e3maru (mulher que toca flauta), nome atribu\u00eddo pelos \u00edndios \u00e0 sua esposa. Cada um praticou a seu modo a antropologia: enquanto Etienne se aproximava das pessoas para compreend\u00ea-las, Godelieve fazia o mesmo para agreg\u00e1-las. Foi assim nos muitos lugares em que ela viveu, foi assim tamb\u00e9m em sua morte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/TFrFXMsxZyo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h5><span style=\"font-weight: normal\">Trecho do document\u00e1rio &#8220;De um caminho a outro&#8221;, dirigido por <\/span><span style=\"font-weight: normal\">Clarice Ehlers Peixoto. No v\u00eddeo, vemos Etienne, Godelieve (recentemente e tamb\u00e9m quando era chamada Kay\u00e3maru) e a filha Ma\u00edra. <\/span><\/h5>\n<p>N\u00e3o foi f\u00e1cil circular com a c\u00e2mera enquanto todos sofriam e choravam. Sabemos que outros rituais \u2013 casamentos, anivers\u00e1rios, formaturas \u2013 j\u00e1 s\u00e3o formatados para a fotografia, mas n\u00e3o este. A morte ainda \u00e9 assustadora demais para ser reduzida ao espet\u00e1culo das imagens.<\/p>\n<p>O \u00e1lbum do enterro do \u201cvov\u00f4 Viktor\u201d na B\u00e9lgica aliviava minha tarefa, como uma esp\u00e9cie de jurisprud\u00eancia, mas eu ainda n\u00e3o sabia o que fotografar. Qual \u00e9 a linguagem da fotografia de enterros? Se \u00e9 que j\u00e1 houve uma, ela se tornou distante. At\u00e9 conhecemos o antigo \u00a0h\u00e1bito de fotografar pessoas mortas, \u00e0s vezes, de levar o cortejo f\u00fanebre ao est\u00fadio local, mas sempre vimos isso como uma bizarrice provinciana e arcaica. Enfim, o que fotografar?<\/p>\n<p>Lembrei de novo das aulas do Etienne. Nos \u00faltimos anos, ele n\u00e3o tem se interessado pelos grandes c\u00f3digos que permitem ler a imagem: as poses, as composi\u00e7\u00f5es, ou as performances que se repetem nos rituais. Ele tem levado a s\u00e9rio o interesse pelo Punctum, aquilo que escapa \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do fot\u00f3grafo. E tem colocado Barthes em di\u00e1logo outro antrop\u00f3logo belga, Albert Piette, que se interessa por aquilo que chamou de \u201cmodo menor da realidade\u201d, o detalhe, o pequeno gesto, a pequena express\u00e3o facial, as dire\u00e7\u00f5es dos olhares. Ent\u00e3o, era imposs\u00edvel decidir o que merecia ser fotografado.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil saber tamb\u00e9m o que n\u00e3o fotografar. Se n\u00e3o h\u00e1 uma linguagem para a fotografia de enterros, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma \u00e9tica. Aparentemente, ningu\u00e9m se incomodou com minha presen\u00e7a, talvez porque todos ali soubessem da forte liga\u00e7\u00e3o que Etienne tem com a imagem. Mas fquei me perguntando porque eu me tornava t\u00e3o moralista e tenso quando confrontado com a morte. Como j\u00e1 sugeri, fotografamos tudo mas, por medo e respeito, preservamos a morte da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o fosse o esfor\u00e7o de nossos ancestrais em lidar com a morte, talvez n\u00e3o existisse a fotografia. Talvez n\u00e3o existisse sequer o que chamamos hoje de arte, pois chamamos assim imagens que muitas vezes surgiram para dar conta da morte, para garantir a passagem para uma outra vida, para criar uma comunica\u00e7\u00e3o entre os que ficaram e os que se foram. \u201cSema\u201d, que est\u00e1 na base de termos como sem\u00e2ntica, semi\u00f3tica, semiologia era nada mais do que a pedra tumular. O sentido de um signo \u00e9 garantir a possibilidade de presen\u00e7a daquilo que est\u00e1 distante ou ausente. \u00c9 assim que as imagens se afirmaram em nossas civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas se as imagens nasceram da morte, porque ent\u00e3o poupamos a morte das imagens? Enquanto algumas sociedades antigas viviam em fun\u00e7\u00e3o desse tema obscuro, a modernidade optou por se voltar para as luzes, para o bem estar, para o prazer da vida. Aparentemente, esquecer a morte \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar a felicidade. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. Ningu\u00e9m aproveitou tanto o tempo presente quanto os tr\u00e1gicos antigos, aqueles que viviam com a consci\u00eancia de que talvez n\u00e3o existisse amanh\u00e3. O hedonismo moderno e o conseq\u00fcente pudor com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte \u00e9 apenas covardia travestida de racionalismo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se a pergunta \u00e9 \u201cpor que algu\u00e9m iria querer guardar imagens que lembram a morte?\u201d, a resposta pode ser simplesmente: porque n\u00e3o h\u00e1 motivo para tem\u00ea-la e porque enfrent\u00e1-la serenamente \u00e9 uma forma de celebrar a vida.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o que move um livro muito interessante de Regis Debray, <em>Vida e Morte da Imagem<\/em>. Ele lamenta o fato de que, quando afastamos a morte de nossas vistas, resta \u201cum fluxo de imagens, sem pretexto nem conseq\u00fc\u00eancias\u201d, isto \u00e9, a imagem passa a existir sem o maior e mais profundo dos sentidos que j\u00e1 possuiu. Segundo ele, quando evitamos a imagem da morte, assistimos \u00e0 morte da imagem.<\/p>\n<p>Interessante foi sair do enterro e chegar, horas depois, na festa de anivers\u00e1rio de outro amigo, co-autor deste blog. Como n\u00e3o deixaria de ser, a fotografia estava tamb\u00e9m ali muito presente, nos registros que eram feitos, mas tamb\u00e9m num \u00e1lbum que circulava entre os convidados, com uma biografia visual do aniversariante que come\u00e7ava com os antepassados (essa palavra que a gente evita porque soa t\u00e3o primitiva!). Naquela casa, tudo \u00e9 mem\u00f3ria: a pr\u00f3pria casa, os m\u00f3veis, os discos de vinil, a decora\u00e7\u00e3o de natal. Incr\u00edvel como a forma intensa e espont\u00e2nea de lembrar as pessoas ausentes apenas intensificava a alegria de quem estava ali presente: nenhuma d\u00edvida com o passado, nenhum temor quanto ao futuro, apenas uma bela festa, uma festa expandida, que reverberava tamb\u00e9m a alegria vivida com outras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As duas celebra\u00e7\u00f5es daquele dia me fizeram pensar que nada d\u00e1 mais consist\u00eancia \u00e0 imagem que a viv\u00eancia do tempo.\u00a0 Nada nos deixa mais em paz com o tempo do que a experi\u00eancia da imagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta \u00faltima sexta-feira, faleceu Godelieve, esposa do professor e amigo Etienne Samain. Pouco antes do vel\u00f3rio, Etienne apareceu com uma c\u00e2mera e me pediu para fazer algumas fotos da cerim\u00f4nia que aconteceria. Fiquei desconcertado, n\u00e3o consegui entender imediatamente o porqu\u00ea dessas fotografias. Mas logo lembrei de uma de suas aulas numa disciplina que dividimos na Unicamp, em que ele analisa um \u00e1lbum com 19 fotografias do enterro do av\u00f4 de Godelieve, feitas em 1957, na B\u00e9lgica. Sem d\u00favida, a morte e seus rituais interessam a um antrop\u00f3logo. Mesmo quando ela ocorre t\u00e3o pr\u00f3ximo? 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