{"id":3481,"date":"2012-04-02T05:21:23","date_gmt":"2012-04-02T05:21:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3481"},"modified":"2016-12-29T19:28:38","modified_gmt":"2016-12-29T19:28:38","slug":"enigmas-da-visibilidade-ii-da-autenticidade-do-instante-a-autenticidade-da-eficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/enigmas-da-visibilidade-ii-da-autenticidade-do-instante-a-autenticidade-da-eficiencia\/","title":{"rendered":"Enigmas da visibilidade II: da autenticidade do instante \u00e0 autenticidade da efici\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Na chamada da propaganda da Canon, quando Sofia \u00e9 interrogada pelo locutor sobre qual o significado de ter refeito a fotografia, ela afirma ter sido a chance de recuperar o que deveria \u201cter dado certo na primeira vez e n\u00e3o deu\u201d. Em seu depoimento, Sofia \u2018reflete\u2019: \u201cOs grandes momentos escapam, e n\u00e3o temos oportunidade de reconhec\u00ea-los pelo que eles s\u00e3o. Quando se tem a oportunidade de observ\u00e1-los, a\u00ed podemos olhar para tr\u00e1s e perceber que se tratava de um grande momento que n\u00e3o se tinha reconhecido\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KtP6fWbDsQY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias apresentadas no site afirmam que a \u201cp\u00e9ssima\u201d qualidade das fotografias \u2013 seja porque estavam borradas, sem detalhes ou com fundo escuro demais \u2013 as impossibilitava de representar momentos significativos: as fotografias originais n\u00e3o eram capazes de ativar mem\u00f3ria ou constituir hist\u00f3ria; elas mentiam, confundiam ou despistavam o significado real dos acontecimentos. A imagem imprecisa n\u00e3o parece ser capaz de reencarnar nenhuma experi\u00eancia, posto que est\u00e1 relacionada com significativa invisibilidade. \u00c9 como se, nelas, n\u00e3o houvesse mais a presen\u00e7a do elo entre mem\u00f3ria e instante. Na perspectiva de Dara \u2013 outra integrante do \u2018projeto\u2019 <em>Second shot<\/em> \u2013, enquanto sua fotografia permanecia fora de foco, tremida ou escura, ela simplesmente parecia n\u00e3o existir como imagem (ficava \u201capenas em sua cabe\u00e7a\u201d). Seu depoimento n\u00e3o leva em conta a possibilidade de que \u201caquilo que existia em sua cabe\u00e7a\u201d provavelmente existia daquele modo e com aquela amplitude porque aquela imagem \u2013 turva e prec\u00e1ria \u2013 existia como corpo e afeto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gWaliDAgVSc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Substituir a imagem \u2018deficiente\u2019 da hist\u00f3ria, privada ou p\u00fablica, ficando em seu lugar um modo de mem\u00f3ria claro, exato, limpo e ass\u00e9ptico parece estar em total conson\u00e2ncia com as pol\u00edticas de digitaliza\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o do corpo; pol\u00edticas que n\u00e3o apenas possibilitam o n\u00famero gigantesco de cirurgias pl\u00e1sticas est\u00e9ticas, mas tamb\u00e9m solicitam que o universo fotogr\u00e1fico da atualidade esteja cada vez mais vinculado a uma verdadeira moral de uma vida sem impureza. \u201cDar vida\u201d \u00e0 mem\u00f3ria parece significar, na narrativa contempor\u00e2nea do <em>Second shot<\/em>, a transfer\u00eancia de um virtual incontrol\u00e1vel para um atual limpo e otimiz\u00e1vel (para usar met\u00e1fora bastante admirada nos dias atuais). O que se d\u00e1 a ver \u00e9 o imediatamente vis\u00edvel; o que se tolera ver \u00e9 a aparente exatid\u00e3o. O que suportamos admirar \u00e9 o outdoor da menina Dove.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hibyAJOSW8U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>O que se fixa como imagem-fato \u00e9 a imagem do outdoor, o rosto original n\u00e3o passa de rascunho a ser ultrapassado e apagado. Rascunho que, embora persistente (todo manh\u00e3 ele emerge, novamente livre da maquiagem ou do bisturi eletr\u00f4nico), solicita permanente corre\u00e7\u00e3o. Se as imagens do presente, vinculadas on line e globalmente devem responder a essa formata\u00e7\u00e3o corpo-imagem liso e jovem, por que nossos \u00e1lbuns de mem\u00f3ria n\u00e3o deveriam tamb\u00e9m ser reformatados \u00e0 luz desse sonho tecnocient\u00edfico?<\/p>\n<p>Como percebe Emmanuel Carneiro Le\u00e3o, a t\u00e9cnica tornou-se dom\u00ednio de tudo; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas uma intermedia\u00e7\u00e3o incompleta ou parcial entre o homem e a natureza. Tudo se v\u00ea compelido a viver e a determinar-se por seu car\u00e1ter limpo e eficiente. \u201c\u00c9 a atmosfera em que nos movemos, vivemos e somos. N\u00e3o \u00e9 apenas uma totalidade entre muitas outras, mas a totalidade que tudo absorve e decide.\u201d Nessa simultaneidade e onipresen\u00e7a, a efici\u00eancia ocupa o lugar da progress\u00e3o, tendendo a excluir e inviabilizar outras imagens. O sistema contempor\u00e2neo da t\u00e9cnica em expans\u00e3o institui, desse modo, uma nova ecologia da imagem e, sobretudo, da mem\u00f3ria. Trata-se de uma autenticidade fotogr\u00e1fica que se afasta progressivamente de seus pilares modernos. A constitui\u00e7\u00e3o da legitimidade fotogr\u00e1fica como figura privilegiada do campo mnem\u00f4nico n\u00e3o esteve sempre vinculada a uma qualidade est\u00e9tica estritamente. A autenticidade da fotografia moderna ou, pelo menos, do que ela veio a ser modernamente fundava-se no estreito la\u00e7o entre instante e visibilidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_3498\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Barricades-de-la-Commune-avril-71.-Coin-de-la-place-Hotel-de-Ville1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3498\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3498\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Barricades-de-la-Commune-avril-71.-Coin-de-la-place-Hotel-de-Ville-360x386.jpg\" alt=\"An\u00f4nimo. Barricadas da Comuna de Paris, H\u00f4tel de Ville, 1871.\" width=\"360\" height=\"386\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3498\" class=\"wp-caption-text\">Pierre-Ambroise Richebourg. Barricadas da Comuna de Paris, H\u00f4tel de Ville, 1871.<\/p><\/div>\n<p>Os borr\u00f5es e os \u2018fantasmas\u2019, causados pelas longas exposi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o significavam sempre abalo significativo na autenticidade fotogr\u00e1fica e foram, durante algum tempo, tolerados como aberra\u00e7\u00f5es inevit\u00e1veis da vis\u00e3o da m\u00e1quina e at\u00e9 mesmo desculpados pelos espectadores. Se pensarmos nas vistas instant\u00e2neas da Comuna de Paris, por exemplo, vamos notar que n\u00e3o se reivindicava que capturassem exatamente o movimento \u2013 a maioria dos leitores teria concordado com a afirma\u00e7\u00e3o de que isso n\u00e3o poderia ser feito \u2013, mas que exibissem, em troca, sele\u00e7\u00f5es da realidade, peda\u00e7os de eventos que ocorreram, operando de modo fragment\u00e1rio, como rel\u00edquias, satisfazendo uma demanda de posse temporal e presen\u00e7a dos acontecimentos. As vistas instant\u00e2neas (que n\u00e3o eram instant\u00e2neos, pelo menos nos moldes que hoje os identificamos) articulavam a no\u00e7\u00e3o de autenticidade por meio de outros dispositivos que \u2018compensavam\u2019 a impossibilidade de congelar os movimentos.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando a fotografia se torna, de fato, \u2018instant\u00e2nea\u2019, quando se efetiva a passagem de uma fotografia r\u00e1pida ao paradigma da instantaneidade, tal autenticidade ganha contornos pr\u00f3prios que, entretanto, n\u00e3o est\u00e3o exclusivamente vinculados \u00e0 exig\u00eancia de \u2018efic\u00e1cia\u2019 e \u2018limpeza est\u00e9tica\u2019 que percebemos hoje em projetos de higieniza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria como os do <em>Second shot<\/em>. Antes de qualquer coisa, a legitimidade fotogr\u00e1fica esteve calcada na ideia de que havia uma capacidade maqu\u00ednica de ver e, sobretudo, de se apoderar, sincronizar e arquivar instantes temporais.<\/p>\n<p>Em 1874, o astr\u00f4nomo Jules Janssen criou o \u201crev\u00f3lver astron\u00f4mico\u201d \u2013 sistema de obturador controlado por um mecanismo cronom\u00e9trico que girava sobre um daguerre\u00f3tipo circular \u2013, para documentar no Jap\u00e3o o raro eclipse produzido pelo tr\u00e2nsito de V\u00eanus sob o Sol, ocorrido apenas cinco vezes desde 1639 (quando foi pioneiramente observado) e que, segundo as expectativas da \u00e9poca, s\u00f3 se daria novamente em 2004. Seu instrumento era capaz de fixar uma sequ\u00eancia de 48 instantes fotogr\u00e1ficos em 72 segundos. Janssen participava de uma grande expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com v\u00e1rias equipes em lugares diversos no mundo, programa que mobilizou durante anos a comunidade mundial e arrecadou significativos incentivos financeiros.<\/p>\n<div id=\"attachment_3494\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Pierre-Jules-C\u00e9sar-Janssen-O-tr\u00e2nsito-de-V\u00eanus-Daguerre\u00f3tipo-18741.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3494\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3494 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/Pierre-Jules-C\u00e9sar-Janssen-O-tr\u00e2nsito-de-V\u00eanus-Daguerre\u00f3tipo-1874-360x368.png\" width=\"360\" height=\"368\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3494\" class=\"wp-caption-text\">Jules Janssen, O tr\u00e2nsito de V\u00eanus (Daguerre\u00f3tipo), 1874<\/p><\/div>\n<p>As fotografias de Janssen obtiveram especial credibilidade, identificadas como as mais mais precisas por capturar, numa \u00fanica placa sens\u00edvel, a dura\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito atrav\u00e9s de \u201cinstantes constituidores\u201d. Seu sistema permitia, segundo palavras suas, tomar imagens \u201cno momento em que o contato vai-se reproduzir\u201d. Embora o tr\u00e2nsito de V\u00eanus fosse lento o suficiente para ser visto a olho nu, o rev\u00f3lver fotogr\u00e1fico possibilitava a autoinscri\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da luz de um processo temporal ef\u00eamero numa imagem permanente, que poderia ser estudada no futuro. Por meio dessa experi\u00eancia Janssen tornou a fotografia um m\u00e9todo humano de \u2018tocar\u2019 visualmente a passagem do tempo, transformando-a em instrumento de autoinscri\u00e7\u00e3o de uma temporalidade inacess\u00edvel. Sua experi\u00eancia produz um fato simb\u00f3lico e expressivo na rela\u00e7\u00e3o entre autenticidade da imagem, tempo e fotografia. A fotografia moderna \u00e9 capaz de acessar e armazenar o tempo invis\u00edvel, fluido e cada vez mais ef\u00eamero. Trata-se de marca importante que inaugura o que se constituir\u00e1 como elo fundamental entre a imagem da mem\u00f3ria e a fotografia moderna: sincronismo entre o instante e a obten\u00e7\u00e3o de imagens maqu\u00ednicas. Nessa contiguidade, a fotografia encontrava, ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de fei\u00e7\u00e3o e car\u00e1ter; o tempo, por outro lado, encontrava na fotografia um rosto, revelado no tr\u00e2nsito dos planetas. Configura-se, nessa perspectiva, uma esp\u00e9cie de \u2018contiguidade instant\u00e2nea\u2019 que adquire um forte sentido de visibilidade. O que a fotografia fazia ver era a ideia de coincid\u00eancia entre o clique\u00a0e o tempo do instante.<\/p>\n<div id=\"attachment_3491\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/kodak-1913b.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3491\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3491\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/kodak-1913b-360x467.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"467\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3491\" class=\"wp-caption-text\">Kodak, publicidade, 1913<\/p><\/div>\n<p>N\u00e3o por acaso a Kodak defendia, em 1912, que a \u201cc\u00e2mera capacita seu feliz propriet\u00e1rio a voltar ao passado, atrav\u00e9s da luz de sua pr\u00f3pria vis\u00e3o, a cenas que de outro modo desapareceriam da mem\u00f3ria e seriam perdidas\u201d. Sendo poss\u00edvel, que a imagem estivesse leg\u00edvel, clara e esteticamente apreci\u00e1vel; esse crit\u00e9rio, entretanto, n\u00e3o se sobrepunha ao fato de a imagem ser fruto de uma pretensa coincid\u00eancia com um agora de reconhecimento; a visibilidade da imagem estava relacionada com uma capacidade da fotografia apreender um momento irrecuper\u00e1vel da vida, mesmo que a imagem desse momento n\u00e3o estivesse absolutamente perfeita. Refazer propositalmente esse instante \u2013 ainda que conquistando absoluta nitidez \u2013 desataria, na perspectiva moderna da fotografia, seu elo com a realidade e seu certificado de presen\u00e7a; desenla\u00e7aria a contiguidade entre instante fotogr\u00e1fico e instante temporal. Reconstruir o passado fotogr\u00e1fico por uma demanda de efici\u00eancia est\u00e9tica interditaria sua ordem fundadora.<\/p>\n<p>Tal ordem j\u00e1 n\u00e3o parece fundante hoje. Tudo indica que esteja sendo institu\u00eddo um novo tratado de import\u00e2ncias cujo eixo central seja um relevante manancial de novidades tecnol\u00f3gicas. Como afirma o instigante pensamento de Paula Sibilia, esse manancial condensa uma das aspira\u00e7\u00f5es mais audazes de nossa civiliza\u00e7\u00e3o: \u201cadministrar a mem\u00f3ria humana como se fosse o disco r\u00edgido de um computador. Uma ambi\u00e7\u00e3o que suscita tanto fasc\u00ednio como espanto, e que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s n\u00e3o teria ultrapassado os amb\u00edguos terrenos da especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ou art\u00edstica.\u201d<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3211\" target=\"_blank\">Enigmas da visibilidade fotogr\u00e1fica no mundo contempor\u00e2neo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na chamada da propaganda da Canon, quando Sofia \u00e9 interrogada pelo locutor sobre qual o significado de ter refeito a fotografia, ela afirma ter sido a chance de recuperar o que deveria \u201cter dado certo na primeira vez e n\u00e3o deu\u201d. Em seu depoimento, Sofia \u2018reflete\u2019: \u201cOs grandes momentos escapam, e n\u00e3o temos oportunidade de reconhec\u00ea-los pelo que eles s\u00e3o. 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