{"id":3454,"date":"2012-03-26T05:15:37","date_gmt":"2012-03-26T05:15:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3454"},"modified":"2016-05-28T13:41:50","modified_gmt":"2016-05-28T13:41:50","slug":"mario-de-andrade-fotografia-e-modernidade-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/mario-de-andrade-fotografia-e-modernidade-ii\/","title":{"rendered":"A fotografia e a Semana de 22 &#8211; Parte II"},"content":{"rendered":"<p>A Semana de Arte Moderna comemora seus noventa anos e acredito que ningu\u00e9m pode negar sua import\u00e2ncia como evento que rompeu alguns paradigmas que imperavam na literatura e nas artes em geral daquele momento. Entendo a Semana como uma pequena insurrei\u00e7\u00e3o que deve sim ser celebrada, mas hoje, com o distanciamento hist\u00f3rico, podemos tamb\u00e9m apontar alguns vazios que n\u00e3o foram ocupados pelos precursores do movimento.<\/p>\n<p>Como entender, por exemplo, a aus\u00eancia da fotografia e do cinema, duas linguagens em plena ebuli\u00e7\u00e3o nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado? Nesse mesmo per\u00edodo, as vanguardas europeias souberam aproveitar o potencial est\u00e9tico intr\u00ednseco \u00e0s tecnologias de produ\u00e7\u00e3o de imagem e ampliaram suas insatisfa\u00e7\u00f5es diante de modelos estagnados de representa\u00e7\u00e3o. Nossa Semana teve seus momentos de extravag\u00e2ncia que causaram surpresa numa plateia havia muito acostumada com a passividade acad\u00eamica, sem cr\u00edtica social nem disson\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Apesar da fotografia e do cinema n\u00e3o serem contemplados enquanto linguagem art\u00edstica na Semana de Arte Moderna, alguns dos modernistas tinham conhecimento da sua pot\u00eancia criativa e de sua capacidade de produzir novos questionamentos e novas conceitua\u00e7\u00f5es sobre como e porqu\u00ea olhar o mundo vis\u00edvel por meio dessas pr\u00f3teses tecnol\u00f3gicas. Pretendo evidenciar algumas singularidades em parte do trabalho fotogr\u00e1fico de Mario de Andrade (1893-1945) que me permite inclu\u00ed-lo numa perspectiva modernista. Mario adquiriu em 1923\u00a0uma c\u00e2mera Kodak, denominada por ele de <em>\u201ccodaque\u201d <\/em>(assim como sua m\u00e1quina de escrever era <em>Manuela<\/em>, em homenagem a Manuel Bandeira), e iniciou produzindo algumas imagens com a finalidade de \u201campliar os \u00e1lbuns familiares\u201d.<\/p>\n<p>Sabemos que uma das principais caracter\u00edsticas da modernidade est\u00e1 exatamente no fato de ter incorporado estas t\u00e9cnicas com a clara inten\u00e7\u00e3o de pensar e produzir arte a partir de novas bases est\u00e9ticas. Diferentemente do que aconteceu no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo, ocasi\u00e3o em que nossos modernistas n\u00e3o foram suficientemente radicais em suas propostas de renova\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a uma nova sensibilidade. Mas, como muito bem lembrou Mario da Silva Brito, \u201ca Semana foi apenas o estopim do modernismo\u201d, cuja finalidade era livrar-se dos dogmas acad\u00eamicos vigentes e abrir novos caminhos para a inova\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o instrumental assumida pela fotografia na d\u00e9cada de vinte denota com certa precis\u00e3o a cegueira dos nossos artistas diante da possibilidade expressiva da fotografia e do cinema. Foram poucos os que ousaram propor um uso que fosse al\u00e9m do registro documental. Mas, em maio de 1922, por ocasi\u00e3o da primeira edi\u00e7\u00e3o da revista <em>Klaxon<\/em>, mens\u00e1rio de arte moderna e porta-voz dos modernistas, Mario de Andrade assume um discurso mais libert\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tecnologias da imagem e registra no editorial: \u201cKlaxon sabe que a cinematographo existe. (&#8230;) A cinematographia \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica mais representativa de nossa \u00e9poca. \u00c9 preciso observar-lhe a li\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_3461\" style=\"width: 266px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/mario.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3461\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-3461 \" src=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/mario.jpeg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/mario.jpeg 284w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/mario-768x1216.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3461\" class=\"wp-caption-text\">Mario de Andrade, Sombra minha, 1927<\/p><\/div>\n<p>Mario de Andrade foi o \u00fanico participante da semana que desenvolveu, mesmo que intuitivamente, alguma atividade com a fotografia. Entre 1926 a 1931, foi assinante da revista alem\u00e3 <em>Der Querschnitt (O corte vertical)<\/em>, que trazia o melhor da vanguarda fotogr\u00e1fica produzida na Europa. E foi a partir de 1926 que iniciou um percurso diferenciado na fotografia, criando algumas imagens arrojadas que, vistas hoje, ainda impactam pelo olhar corajoso e inovador. Mem\u00f3ria e inven\u00e7\u00e3o se fundem quando deslocamos nosso olhar para suas fotografias. Como exemplo, temos seu emblem\u00e1tico autorretrato <em>\u201cSombra minha\u201d<\/em>, realizado na fazenda Santa Teresa do Alto, de propriedade de Tarsila do Amaral, no dia 1\u00ba de janeiro de 1927.<\/p>\n<p>Para Tel\u00ea Ancona Lopez, essa experi\u00eancia \u201cconfigura a incurs\u00e3o consciente pela fotografia como linguagem, a redefini\u00e7\u00e3o do olhar atrav\u00e9s da c\u00e2mera; a experi\u00eancia art\u00edstica, marcada por um forte senso de composi\u00e7\u00e3o. (&#8230;) Mario subverte os planos, corta, experimenta o \u2018close\u2019; calcula, comp\u00f5e e, j\u00e1 se sabe, n\u00e3o hesita em tomar figuras de costas\u201d. O in\u00edcio se d\u00e1 exatamente em 1926, criando algumas imagens junto aos modernistas, e no ano seguinte quando realiza sua primeira grande viagem pelo Brasil e produz mais de 500 fotografias (negativo no formato 6,1 X 3,7 cm). Denomina o projeto de <em>\u201cO Turista Aprendiz\u201d<\/em> e inventa o verbo <em>\u201cfotar\u201d<\/em>. Em sua segunda viagem, realizada entre 1928 e 1929, denominada por ele de viagem etnogr\u00e1fica, produziu 257 fotografias, mas com um olhar mais pr\u00f3ximo do registro documental.<\/p>\n<p>Nosso interesse recai sobre aquelas fotografias que rompem com o estatuto convencional do registro fotogr\u00e1fico e possibilitam narrativas mais complexas por parte do observador. Sem d\u00favida, essas fotografias t\u00eam forte influ\u00eancia das experi\u00eancias vistas na revista alem\u00e3 que publicava Rodtchenko, Moholy-Nagy, Man Ray, entre outros. Essas refer\u00eancias s\u00e3o fundamentais para a entendermos a fotografia <em>\u201cAmor e Psiqu\u00ea no Solim\u00f5es\u201d<\/em>, de 1927, cuja legenda j\u00e1 traz a cita\u00e7\u00e3o \u00e0 escultura de Alberto Canova (1787-1822).<\/p>\n<p>E o que dizer do retrato do pintor <em>\u201cCicero Dias<\/em>\u201d, de 1929, que tamb\u00e9m ati\u00e7a nossa imagina\u00e7\u00e3o pelo estranhamento. Uma imagem vertical, levemente desequilibrada pela posi\u00e7\u00e3o do corpo do artista e pelo \u00e2ngulo inusitado da tomada; a divis\u00e3o entre a luz intensa no ter\u00e7o superior da fotografia e a roupa branca que cobra o corpo estendido na sombra negra na parte inferior. Sem d\u00favida, traz refer\u00eancias diretas de Moholy-Nagy e Rodtchenko publicados na revista alem\u00e3.<\/p>\n<div id=\"attachment_3462\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/amor_cicero1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3462\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3462\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/amor_cicero-620x465.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3462\" class=\"wp-caption-text\">Mario de Andrade, Amor e Psiqu\u00ea, 1926 \/ C\u00edcero Dias, 1929<\/p><\/div>\n<p>Uma fotografia intrigante pontuada pelo foco cr\u00edtico, pelo enquadramento incomum, pelas formas e \u00e2ngulos inusitados, e pelas sombras acentuadas. Tudo para exercitar a modernidade presente na produ\u00e7\u00e3o europeia e despertar no leitor algum senso de novidade. Mas parte expressiva da produ\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica de Mario de Andrade centra-se mesmo na documenta\u00e7\u00e3o dos tipos humanos regionais, com sua cultura e suas manifesta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas espec\u00edficas, e o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e arquitet\u00f4nico com o objetivo de elencar nossa diversidade cultural e material.<\/p>\n<p>Devemos considerar e destacar essa produ\u00e7\u00e3o como uma verdadeira incurs\u00e3o pelo mundo da modernidade fotogr\u00e1fica t\u00e3o valorizada nas vanguardas hist\u00f3ricas e nem sempre lembrada em nossas reflex\u00f5es. Mario de Andrade era um t\u00edpico fot\u00f3grafo amador e, talvez por isso mesmo, sua fotografia seja fruto de sua viv\u00eancia experimental. O tempo todo ele defendia a necessidade humana de viajar, \u201cviagem de cria\u00e7\u00e3o\u201d, dizia ele, seja atrav\u00e9s da literatura, seja atrav\u00e9s das artes visuais.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3238\">A fotografia e a semana de 22 &#8211; Parte I<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Semana de Arte Moderna comemora seus noventa anos e acredito que ningu\u00e9m pode negar sua import\u00e2ncia como evento que rompeu alguns paradigmas que imperavam na literatura e nas artes em geral daquele momento. Entendo a Semana como uma pequena insurrei\u00e7\u00e3o que deve sim ser celebrada, mas hoje, com o distanciamento hist\u00f3rico, podemos tamb\u00e9m apontar alguns vazios que n\u00e3o foram ocupados pelos precursores do movimento. Como entender, por exemplo, a aus\u00eancia da fotografia e do cinema, duas linguagens em plena ebuli\u00e7\u00e3o nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado? 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