{"id":3441,"date":"2012-03-19T10:24:38","date_gmt":"2012-03-19T10:24:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3441"},"modified":"2022-12-04T13:12:33","modified_gmt":"2022-12-04T13:12:33","slug":"ultimos-suspiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/ultimos-suspiros\/","title":{"rendered":"\u00daltimos suspiros*"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 bem conhecida a hist\u00f3ria contada por Nadar que Balzac n\u00e3o gostava de posar com medo de ser \u201cdescamado\u201d pela c\u00e2mera. Mas esta n\u00e3o era a \u00fanica fantasia que atormentava os modelos durante a lenta transmigra\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia que caracterizava o ato fotogr\u00e1fico naqueles tempos. Havia tamb\u00e9m quem receasse ser sugado pela objetiva. Existem relatos, particularmente de mulheres, que declararam sentir seus olhos sendo atra\u00eddos para dentro da lente da c\u00e2mera enquanto eram fotografadas. Acredito que boa parte do esc\u00e2ndalo em torno de <em>Fading Away <\/em>(1858), de Henry Peach Robinson \u2013 fotografia romanticamente encenada de uma jovem em seu leito de morte \u2013 n\u00e3o se deveu apenas \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de que se tratasse de registro real e, portanto, intoler\u00e1vel invas\u00e3o de privacidade para o bom gosto vitoriano, mas pela possibilidade de que uma tomada fotogr\u00e1fica \u201creal\u201d tivesse virtualmente subtra\u00eddo da moribunda seu \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_3444\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Fading-Away1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3444\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3444 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Fading-Away-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3444\" class=\"wp-caption-text\">Henry Peach Robinson,\u00a0Fading Away, 1858<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 uma respira\u00e7\u00e3o suspensa em toda fotografia. Algumas vezes, por\u00e9m, a expira\u00e7\u00e3o que lhe sucede torna-se a pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser da imagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_3446\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/barry-helium1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3446\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3446 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/barry-helium-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3446\" class=\"wp-caption-text\">Robert Barry,\u00a0Helio, 1969<\/p><\/div>\n<p>Robert Barry destampa o recipiente. Ele recua alguns passos at\u00e9 onde a c\u00e2mera est\u00e1 devidamente assentada sobre o trip\u00e9 e dispara. Outra fotografia l\u00edmpida e precisa foi realizada. Mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em cena e a parte do mundo que o quadro recorta est\u00e1 t\u00e3o longe do pitoresco que dificilmente poderia ser chamada \u2018paisagem\u2019. No entanto, nunca o car\u00e1ter testemunhal da fotografia foi explicitado de modo t\u00e3o cristalino. A <em>S\u00e9rie G\u00e1s Inerte<\/em>, de 1969, \u00e9 <strong>evid\u00eancia<\/strong> em estado puro, pois nela a dist\u00e2ncia entre acontecimento e registro foi inteiramente abolida. As extensas legendas das imagens n\u00e3o deixam qualquer margem \u00e0 d\u00favida: \u201cCr\u00edpton, de um volume medido a uma expans\u00e3o indefinida. Em 3 de mar\u00e7o de 1969, em Berverly Hills, California, devolveu-se \u00e0 atmosfera um litro de cr\u00edpton.\u201d Ou: \u201cH\u00e9lio. Na manh\u00e3 de 6 de mar\u00e7o de 1969, em algum lugar do deserto de Mojave, na California, dois p\u00e9s c\u00fabicos de h\u00e9lio foram devolvidos \u00e0 atmosfera\u201d. E, a seguir, Xenon nas montanhas, Argon na Praia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/kryptonbarry1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft wp-image-3443 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/kryptonbarry-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><\/p>\n<p>Muitos se perguntaram naquele momento \u2013 e muitos ainda o fazem hoje: qual \u00e9 propriamente a \u201cobra de arte\u201d aqui? Seguramente, n\u00e3o a fotografia, porque esta afinal n\u00e3o apresenta nenhum dos atributos est\u00e9ticos que, em qualquer tempo, vieram a caracteriz\u00e1-la como tal. Seria mais seguro dizer que o gesto art\u00edstico propriamente dito seria a libera\u00e7\u00e3o do g\u00e1s. Mas, esta resposta tamb\u00e9m \u00e9 insatisfat\u00f3ria, pois que sentido tem o registro fotogr\u00e1fico de obras de arte invis\u00edveis?<\/p>\n<p>Quando nos colocamos diante destas duas impossibilidades, nos damos conta que o ato fotogr\u00e1fico n\u00e3o opera aqui como interrup\u00e7\u00e3o do fluxo temporal ou do movimento. Ele \u00e9 o corte que separa a fotografia daquilo que se v\u00ea. E, ao mesmo tempo, documenta um processo que, como tal, \u00e9 simultaneamente impercept\u00edvel e intermin\u00e1vel: a expans\u00e3o dos gases liberados por Barry, por menor que tenham sido seus volumes originais, continua a ocorrer at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>A legenda que acompanhava cada fotografia trazia ainda uma no\u00e7\u00e3o crucial: devolu\u00e7\u00e3o, retorno. Walter Benjamin perguntou-se uma vez: \u201cN\u00e3o somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? N\u00e3o existem, nas vozes que escutamos, ecos das vozes que emudeceram?\u201d De fato, toda expira\u00e7\u00e3o \u00e9 uma devolu\u00e7\u00e3o: libera\u00e7\u00e3o do que estava aprisionado, do que havia sido apartado da atmosfera e que agora pode retornar \u00e0 mistura original na qual todos n\u00f3s estamos mergulhados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_3445\" style=\"width: 358px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Frampton1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3445\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3445 size-full\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Frampton.jpg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Frampton.jpg 348w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/Frampton-768x640.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3445\" class=\"wp-caption-text\">Hollis Frampton, (Nostalgia), Fotograma, 1971<\/p><\/div>\n<p>Hollis Frampton coloca a fotografia sobre a espiral de um fog\u00e3o el\u00e9trico. Um plano principia. At\u00e9 quando \u00e9 poss\u00edvel sustent\u00e1-lo? O plano cinematogr\u00e1fico est\u00e1 condenado \u00e0 extin\u00e7\u00e3o desde o primeiro <em>frame<\/em>. Se a experi\u00eancia da imagem que congela, da pausa, da \u201ctomada fotogr\u00e1fica do filme\u201d, \u00e9 \u201ct\u00e3o forte\u201d, prop\u00f5e o te\u00f3rico franc\u00eas Raymond Bellour, \u00e9 porque \u201c<em>joga com a senten\u00e7a de morte\u201d. <\/em>S\u00f3 diante da fotografia, o cinema tem oportunidade de contrair toda a sua hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria finalmente liberta da diegese, uma hist\u00f3ria de fotogramas imposs\u00edveis, tal como buscou realizar Goddard em sua(s) <em>Hist\u00f3ria(s) do Cinema.<\/em><\/p>\n<p>A imagem congelada no monitor de v\u00eddeo \u00e9 um cad\u00e1ver insepulto. \u00c9 tanto o fim da hist\u00f3ria como a hist\u00f3ria sem fim. Em <em>(nostalgia), <\/em>filme de Hollis Frampton, as imagens ardem. Elas t\u00eam um corpo. \u00c9 preciso que a fotografia esteja de algum modo \u201cfora do filme\u201d, \u00e9 preciso que haja aqui uma dist\u00e2ncia, pois toda vez que a fotografia ganha corpo, o cinema revigora o estatuto da pr\u00f3pria transpar\u00eancia. S\u00e3o doze fotografias, como doze horas de um rel\u00f3gio que jamais det\u00e9m sua marcha. Por isso, as mem\u00f3rias que cada uma delas evoca, na voz do narrador, j\u00e1 n\u00e3o pertencem a ela, mas \u00e0 \u201chora\u201d seguinte. Por isso, as fotografias queimam.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/voMDL1TgTh4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>Queimam em ef\u00edgie<\/em>. Queimam no lugar do cinema (e do v\u00eddeo), condenado desde sempre a uma luminosa incorporeidade. No Tibete, n\u00e3o \u00e9 raro que fotografias sejam queimadas junto com o corpo do retratado de modo a recolocar em circula\u00e7\u00e3o toda a mat\u00e9ria que lhe tenha servido de encarna\u00e7\u00e3o. Favorecem-se assim os percursos futuros do esp\u00edrito e evita-se o desequil\u00edbrio do mundo (do mesmo modo e pelo mesmo princ\u00edpio que uma das mol\u00e9culas de g\u00e1s liberadas por Robert Barry pode estar sendo respirada, neste momento, por algum leitor deste texto).<\/p>\n<p><em>Queimam em mem\u00f3ria<\/em>. Pois se faz ali o luto da imagem, no esfor\u00e7o derradeiro para que do enigma da chama seja poss\u00edvel extrair seus derradeiros conte\u00fados de verdade, exalados, como \u00faltimos suspiros, em meio \u00e0 fuma\u00e7a. Esta verdade n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o uma promessa de corpo que cada imagem mant\u00e9m guardada consigo. Uma promessa que jamais poder\u00e1 ser cumprida plenamente, e para a qual o holocausto \u00e9 a \u00fanica possibilidade de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre esta imagem que arde o plano se det\u00e9m. Diz\u00ea-lo assim \u00e9 demasiado pouco, pois em face dela o plano tamb\u00e9m se consome. N\u00e3o se trata apenas de uma coincid\u00eancia, mas de um pacto (como aquele que celebram os amantes que preferem morrer juntos a viver separados). O gesto incendi\u00e1rio presta assim uma \u00faltima rever\u00eancia a este tempo outro da fotografia, o tempo da sua consuma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma disjun\u00e7\u00e3o fatal entre o que se olha e o que se v\u00ea, entre o que se v\u00ea e o que se diz, e entre o que se lembra e o que se mostra. Tudo expira.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>* Texto <em>inspirado <\/em>pela obra \u201cExpira\u00e7\u00e3o\u201d do artista mineiro Pablo Lobato que participa do Programa Rumos Artes Visuais do Instituto Ita\u00fa Cultural (2011-2013).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 bem conhecida a hist\u00f3ria contada por Nadar que Balzac n\u00e3o gostava de posar com medo de ser \u201cdescamado\u201d pela c\u00e2mera. Mas esta n\u00e3o era a \u00fanica fantasia que atormentava os modelos durante a lenta transmigra\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia que caracterizava o ato fotogr\u00e1fico naqueles tempos. Havia tamb\u00e9m quem receasse ser sugado pela objetiva. Existem relatos, particularmente de mulheres, que declararam sentir seus olhos sendo atra\u00eddos para dentro da lente da c\u00e2mera enquanto eram fotografadas. 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