{"id":3406,"date":"2012-03-12T06:10:07","date_gmt":"2012-03-12T06:10:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3406"},"modified":"2016-05-28T14:10:30","modified_gmt":"2016-05-28T14:10:30","slug":"a-imagem-do-ano-e-as-imagens-que-atravessam-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-imagem-do-ano-e-as-imagens-que-atravessam-o-tempo\/","title":{"rendered":"A imagem do ano e as imagens que atravessam o tempo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3408\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/PN1_1.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3408\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3408\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/PN1_1-620x412.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"412\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3408\" class=\"wp-caption-text\">Samuel Aranda, I\u00eamen, 2011<\/p><\/div>\n<p>A imagem vencedora da edi\u00e7\u00e3o de 2011 do <a href=\"http:\/\/www.worldpressphoto.org\/photo\/world-press-photo-year-2011-0\" target=\"_blank\">Word Press Photo<\/a>, de Samuel Aranda, tem uma qualidade rara no fotojornalismo: mostra pouco, mas produz forte reverbera\u00e7\u00e3o. Mesmo que mal lembremos que existe no mapa um pa\u00eds chamado I\u00eamen, reconhecemos ali o sofrimento dessas pessoas. A foto n\u00e3o explica a raz\u00e3o ou a extens\u00e3o do problema, apenas\u00a0mostra a dor como qualidade e intensidade. Ainda que a Primavera \u00c1rabe nos afete pouco, ou mesmo quando seus eventos j\u00e1 n\u00e3o renderem mais not\u00edcias, essa imagem poder\u00e1 dizer alguma coisa sobre \u201ca dor dos outros\u201d, quem quer que sejam eles.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1570\" target=\"_blank\">Manifestei aqui no blog minha desconfian\u00e7a quanto \u00e0 foto premiada em 2010<\/a>: naquela ocasi\u00e3o, parecia estar em quest\u00e3o mais a gravidade do fato (uma jovem afeg\u00e3 que teve orelha e nariz decepados) do que a abordagem que fotografia fazia dele.\u00a0A premia\u00e7\u00e3o de 2011 j\u00e1 foi suficientemente noticiada, mas toda imagem que reverbera exige tempo para que seus efeitos sejam minimamente compreendidos. Assim como fiz no ano passado, achei que valia a pena compartilhar essa leitura.<\/p>\n<p>Duas desgra\u00e7as podem recair sobre o fotojornalismo: 1) presas demais aos fatos, suas imagens n\u00e3o sobrevivem aos dez minutos de curiosidade que a not\u00edcia mobiliza no p\u00fablico. Dizem que n\u00e3o h\u00e1 nada mais velho do que o jornal de ontem e, assim, a maior parte das imagens traz em si uma voca\u00e7\u00e3o para ser esquecida. 2) para dar sobrevida a seus produtos, os grandes bancos de imagem proliferam fotografias sem qualquer identidade, composi\u00e7\u00f5es estereotipadas e did\u00e1ticas que ilustram qualquer coisa, not\u00edcia, palestra ou propaganda (<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=1798\" target=\"_blank\">esse foi tamb\u00e9m o tema de um post anterior<\/a>). S\u00e3o imagens que j\u00e1 nascem indexadas e que t\u00eam como \u201cpauta\u201d as palavras-chave que deveriam lhes servir de interpreta\u00e7\u00e3o.\u00a0Ou seja, de um lado, uma imagem natimorta, de outro, uma imagem-zumbi que circula pelo mundo sem alma.<\/p>\n<p>Em sua exist\u00eancia ideal, a fotografia tenta alcan\u00e7ar a dif\u00edcil medida que lhe permitiria representar de modo singular uma experi\u00eancia universal, conciliando os fatos cotidianos com sentimentos que afetam os olhares em diferentes tempos e lugares. Essas imagens, raras, tornam-se arquet\u00edpicas.<\/p>\n<p>Um arqu\u00e9tipo \u00e9 o avesso do estere\u00f3tipo. O estere\u00f3tipo ret\u00e9m os tra\u00e7os mais banais de uma experi\u00eancia e a sacrifica em nome de uma comunica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. O arqu\u00e9tipo \u00e9 a imagem fundadora de certo tipo de experi\u00eancia, e n\u00e3o faz concess\u00f5es: s\u00f3 pode reaparecer como representa\u00e7\u00e3o no lugar em que tal experi\u00eancia possa ser plenamente compartilhada. O estere\u00f3tipo dilui todas as singularidades. O arqu\u00e9tipo faz com que essas singularidades se adensem pelo di\u00e1logo com experi\u00eancias afins que ocorrem em outros tempos.<\/p>\n<div id=\"attachment_3412\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/pieta-1390.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3412\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3412\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/pieta-1390-360x308.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"308\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3412\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo, Piet\u00e0, c. 1390<\/p><\/div>\n<p>A imagem premiada pelo World Press Photo evoca um arqu\u00e9tipo facilmente identific\u00e1vel, o da Piet\u00e0 (literalmente, <em>Piedade<\/em>). Em sua forma origin\u00e1ria, mostra Maria segurando Jesus morto em seus bra\u00e7os. \u00c9 uma imagem que confronta um sentimento universal &#8211; a como\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e diante do sofrimento de seu filho &#8211; com uma particularidade absoluta: o filho tamb\u00e9m \u00e9, nesse caso, Deus. Mas aqui esse Deus retorna \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o mais fr\u00e1gil e humana e, portanto, profundamente identificada com aqueles que est\u00e3o diante da cena. Com esse corpo sem vida, experimentamos um sentimento amb\u00edguo que resume o momento de forma\u00e7\u00e3o do cristianismo: primeiro, o estranhamento quanto \u00e0 ideia de que Deus, imaterial e distante, poderia existir num corpo mortal; logo em seguida, a ang\u00fastia de reconhecer tardiamente que Deus esteve t\u00e3o pr\u00f3ximo, habitando esse corpo agora morto. A express\u00e3o de Maria n\u00e3o \u00e9 coadjuvante: trata-se do amor incondicional de uma m\u00e3e que aceitou entregar seu filho a uma causa divina, e que o acolhe de volta com a mesma dedica\u00e7\u00e3o quando, ainda que tarde demais, ele volta a parecer apenas humano.<\/p>\n<p>O modelo que deprendemos dessa imagem, que faz dela um arqu\u00e9tipo, e que d\u00e1 sentido a outras experi\u00eancias ligadas ou n\u00e3o ao cristianismo, pode ser assim descrito: ignoramos a luta de algu\u00e9m que est\u00e1 \u00e0 margem, seu sofrimento sequer tem exist\u00eancia para nossos olhares. \u00c9 somente diante do sentimento universal de sua m\u00e3e que nos identificamos com esse personagem. Sua hist\u00f3ria \u00e9 distante, mas reconhecemos bem o amor que ali se expressa. Em contraste com nossa neglig\u00eancia ou desprezo, o amor pleno que ali se revela projeta invariavelmente uma aura sobre o personagem. Algo de divino que s\u00f3 pudemos reconhecemos tardiamente e que se desdobra em dois sentimentos (cruciais ao cristianismo): a culpa e a compaix\u00e3o. Numa Piet\u00e0, vemos projetado sobre um outro o amor que gostar\u00edamos de merecer e que revela a escassez nosso. Como s\u00f3 podemos reconhecer esse amor pleno no momento em que a dor desse outro j\u00e1 est\u00e1 constitu\u00edda, sempre\u00a0h\u00e1 numa Piet\u00e0 algu\u00e9m que sofreu ou que morreu por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Essa imagem n\u00e3o \u00e9 apenas uma f\u00f3rmula ret\u00f3rica, uma composi\u00e7\u00e3o cenogr\u00e1fica. Primeiro, h\u00e1 esse rosto maternal\u00a0que deve se construir inequivocamente mesmo que escondido detr\u00e1s de um niqab ou de uma figura masculina. Depois,\u00a0a imagem imp\u00f5e certas condi\u00e7\u00f5es para que possa existir. Essa forma arquet\u00edpica reaparece em momentos precisos, quando \u00e9 preciso redimir nossa cegueira ou apatia diante de um her\u00f3i marginal. Al\u00e9m de Jesus, esse personagem j\u00e1 foi, entre outras coisas, um jovem japon\u00eas contaminado pelo merc\u00fario derramado pela ind\u00fastria, um ativista infectado pelo v\u00edrus da Aids, um africano agonizando num campo de refugiados e, agora, um mu\u00e7ulmano punido por reivindicar a liberdade de seu povo.<\/p>\n<div id=\"attachment_3410\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/w.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3410\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3410\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/w-620x374.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"374\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3410\" class=\"wp-caption-text\">Eugene Smith, &quot;Tomoko Uemura em seu banho&quot; ou &quot;Piet\u00e0 de Minamata&quot;, 1971<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_3407\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/benetton_4.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3407\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3407\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/benetton_4-620x393.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"393\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3407\" class=\"wp-caption-text\">Therese Frare, foto de David Kirby em seu leito de morte, 1990. Esta imagem foi premiada pelo World Press Photo, e se tornou c\u00e9lebre nesta vers\u00e3o colorizada, utilizada numa campanha publicit\u00e1rias da Benetton que tinha a Aids como tema.<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_3409\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/g1_5.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3409\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3409\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/g1_5-360x552.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"552\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3409\" class=\"wp-caption-text\">Sebasti\u00e3o Salgado, Posto m\u00e9dico no campo de Katale, Congo, 1994.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem vencedora da edi\u00e7\u00e3o de 2011 do Word Press Photo, de Samuel Aranda, tem uma qualidade rara no fotojornalismo: mostra pouco, mas produz forte reverbera\u00e7\u00e3o. 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