{"id":333,"date":"2009-12-07T04:11:42","date_gmt":"2009-12-07T04:11:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=333"},"modified":"2017-03-01T12:32:06","modified_gmt":"2017-03-01T12:32:06","slug":"tudo-o-que-se-enxerga-por-um-furo-de-agulha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/tudo-o-que-se-enxerga-por-um-furo-de-agulha\/","title":{"rendered":"Tudo o que se enxerga por um furo de agulha"},"content":{"rendered":"<p>Olhando minha prateleira de teses, reencontrei a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Maria Helena Villar, apresentada na Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1, sob orienta\u00e7\u00e3o de uma grande amiga, a professora Luciana Martha Silveira. Estive algumas vezes nessa Universidade, de onde saem algumas pesquisas muito rigorosas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre comunica\u00e7\u00e3o, arte e tecnologia (sejam as novas ou as velhas).<\/p>\n<p>O trabalho da Maria Helena se chama \u201cA fotografia estenop\u00e9ica revisitada: desconstru\u00e7\u00e3o da homologia tradicional atrav\u00e9s das dimens\u00f5es s\u00f3cio culturais da tecnologia\u201d. <em>Fotografia estenop\u00e9ica<\/em> \u00e9 um nome mais t\u00e9cnico para as imagens feitas com as c\u00e2meras que costumamos chamar de pin-hole, com a ressalva de que nem toda c\u00e2mera estenop\u00e9ica tem, efetivamente, um buraco de agulha.<\/p>\n<p>Como \u00e9 de praxe, o trabalho come\u00e7a com um passeio pela hist\u00f3ria da fotografia e pelas principais vertentes te\u00f3ricas. Mas da metade em diante que se torna efetivamente original.<\/p>\n<p>Entender essas c\u00e2meras artesanais e improvisadas \u00e9 talvez o modo mais efetivo de desmistificar a t\u00e9cnica, tal e qual nos convidam autores como Arlindo Machado, quando denuncia a \u201cM\u00edstica da Homologia Autom\u00e1tica\u201d (primeiro cap\u00edtulo de <em>A Ilus\u00e3o Especular<\/em>), ou Vil\u00e9m Flusser, quando critica os fot\u00f3grafos que s\u00e3o \u201cfuncion\u00e1rios do aparelho\u201d.<\/p>\n<p>Sobretudo agora, que as c\u00e2meras t\u00eam mais bot\u00f5es e recursos do que nunca, \u00e9 incr\u00edvel descobrir ou relembrar que ela n\u00e3o \u00e9 mais do que uma caixa vazia e escura, com um orif\u00edcio numa das faces. Quem j\u00e1 deu aula de fotografia sabe da import\u00e2ncia de passar por essas experi\u00eancias simples e arcaicas. Quem ainda d\u00e1 aula, sabe da dificuldade de manter nas escolas algumas velharias fundamentais: a c\u00e2mera, os ampliadores, a sujeirada qu\u00edmica toda&#8230;<\/p>\n<p>Depois de fazer uma detalhada incurs\u00e3o pelas raz\u00f5es culturais que levam a c\u00e2mera a ser constru\u00edda de uma forma e n\u00e3o de outra (isto \u00e9, de modo a respeitar o sistema de perspectiva renascentista), a disserta\u00e7\u00e3o aborda o trabalho de artistas que subvertem essa programa\u00e7\u00e3o elementar da fotografia, ou seja, artistas que desafiam e desmistificam o automatismo do aparelho, que deixam de ser seus funcion\u00e1rios. E podem fazer isso radicalmente, porque o controle do processo come\u00e7a com a fabrica\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera, ou com a descoberta de coisas que podem servir de c\u00e2mera. A\u00ed vem algumas boas surpresas.<\/p>\n<p>Alguns artistas variam a forma de posicionar o material sens\u00edvel na c\u00e2mera ou de construir o orif\u00edcio que permitir\u00e1 a entrada de luz. Por exemplo:<\/p>\n<p>Thomas Hudson monta a caixa com o pr\u00f3prio material sens\u00edvel, de modo que quase todo o interior da c\u00e2mera se transforma em imagem, depois de desmontada e revelada. J\u00fcrgen Lechner e a brasileira Ana Ang\u00e9lica Costa posicionam o material sens\u00edvel como um cilindro, no centro de uma c\u00e2mera com v\u00e1rios furos em sua parede, produzindo uma panor\u00e2mica de 360 graus. Joaquim Casado e Claudia Johas trabalham com rasgos (slits) com formatos variados em vez de furos, o que gera uma esp\u00e9cie de desordem na perspectiva. Paolo Gioli usa uma bolacha do tipo cream cracker e aproveita seus v\u00e1rios furos para formar imagens que se repetem e se sobrep\u00f5em no papel.<\/p>\n<div id=\"attachment_334\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-334\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-334\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/jurgen_lechner-487x140.jpg\" alt=\"J\u00fcrgen Lechner, Schloss weibenstein 1, Eckental Alemanha, 2006.\" width=\"487\" height=\"140\" \/><p id=\"caption-attachment-334\" class=\"wp-caption-text\">J\u00fcrgen Lechner, Schloss weibenstein 1, Eckental Alemanha, 2006.<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m outros que, para al\u00e9m das caixas de sapato, de f\u00f3sforo, caixotes, quartos, latas, utilizam objetos inusitados. Como diz Jochen Dietrich, um dos autores em que a pesquisa se ap\u00f3ia, \u201ctudo o que \u00e9 oco pode se transformar numa m\u00e1quina fotogr\u00e1fica\u201d: Ilan Wolff usa um piment\u00e3o vermelho, Paolo Gioli usa a m\u00e3o fechada, Thomas Bachler e Jeff Guess usam a boca, Jeff Fletcher usa cascas de ovos.<\/p>\n<div id=\"attachment_335\" style=\"width: 496px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-335\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-335\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/bachler-486x248.jpg\" alt=\"Thomas Bachler, O Terceiro Olho, 1999 (fotos feitas com a boca).\" width=\"486\" height=\"248\" \/><p id=\"caption-attachment-335\" class=\"wp-caption-text\">Thomas Bachler, O Terceiro Olho, 1999 (fotos feitas com a boca).<\/p><\/div>\n<p>Como o furo resulta numa baixa exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz, o registro pode se estender por dias, ou meses, ou ser feito em momentos muito distintos. Isso significa que a fotografia se afasta radicalmente da no\u00e7\u00e3o de instant\u00e2neo: Tarja Trygg registra numa mesma imagem os diferentes trajetos que o sol faz no c\u00e9u em dias e meses diferentes, o j\u00e1 citado Thomas Bachler usa uma mala como c\u00e2mera e registra, numa forma totalmente abstrata, o percurso de uma viagem, por exemplo, de Nuremberg a Kassel.<\/p>\n<div id=\"attachment_340\" style=\"width: 496px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-340\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-340\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/tarja_trygg1-486x290.jpg\" alt=\"Tarja Trygg, Solargraphy , Helsinki, 2003.\" width=\"486\" height=\"290\" \/><p id=\"caption-attachment-340\" class=\"wp-caption-text\">Tarja Trygg, Solargraphy , Helsinki, 2003.<\/p><\/div>\n<p>E por a\u00ed vai&#8230; O trabalho traz um conjunto de 132 imagens, e n\u00e3o deixa de situar o trabalho de artistas brasileiros, como Paula Trope e Neide Jallageas, Dirceu Mau\u00e9s e a j\u00e1 citada Ana Ang\u00e9lica Costa.<\/p>\n<p>Muitas dessas experi\u00eancias s\u00e3o facilmente encontradas na internet, mas a pesquisa tem o m\u00e9rito de mapear uma diversidade de situa\u00e7\u00f5es que poucos poderiam imaginar e de coloc\u00e1-las a servi\u00e7o de uma compreens\u00e3o da fotografia, num sentido muito amplo. O trabalho de Maria Helena \u00e9 uma esp\u00e9cie de arqueologia que demonstra o quanto as origens s\u00e3o importantes para entender o estado presente das coisas.<\/p>\n<p>A \u201corigem\u201d, como aprendemos com Walter Benjamin, \u00e9 aquele lugar em que todos os potenciais estavam anunciados e dispon\u00edveis, que podem ser silenciados e esquecidos, mas que permanecem acenando para o presente. Desse modo, a origem n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de culto saudosista, mas um lugar a que se chega quando a hist\u00f3ria permite realizar o potencial das coisas.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que faz a ind\u00fastria quando acrescenta novos recursos aos equipamentos, o foco desta pesquisa e desses artistas todos n\u00e3o \u00e9 tanto as novas tecnologias, mas as tecnologias plenas.<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho que merece ser publicado. Por enquanto, a disserta\u00e7\u00e3o pode ser encontrada no site <a href=\"http:\/\/www.scribd.com\/doc\/13881733\/Fotografia-Estenopeica-Revisitada-Dissert-Pinhole?autodown=pdf\" target=\"_blank\">Scrib<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhando minha prateleira de teses, reencontrei a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Maria Helena Villar, apresentada na Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1, sob orienta\u00e7\u00e3o de uma grande amiga, a professora Luciana Martha Silveira. Estive algumas vezes nessa Universidade, de onde saem algumas pesquisas muito rigorosas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre comunica\u00e7\u00e3o, arte e tecnologia (sejam as novas ou as velhas). O trabalho da Maria Helena se chama \u201cA fotografia estenop\u00e9ica revisitada: desconstru\u00e7\u00e3o da homologia tradicional atrav\u00e9s das dimens\u00f5es s\u00f3cio culturais da tecnologia\u201d. 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