{"id":3281,"date":"2012-03-05T11:12:25","date_gmt":"2012-03-05T11:12:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3281"},"modified":"2016-05-28T14:10:38","modified_gmt":"2016-05-28T14:10:38","slug":"saudades-da-kodak","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/saudades-da-kodak\/","title":{"rendered":"Saudades da Kodak"},"content":{"rendered":"<p>Nossa forma\u00e7\u00e3o de esquerda ensina que as crises s\u00e3o inerentes ao capitalismo e n\u00e3o permite lamentar quando uma grande corpora\u00e7\u00e3o vai \u00e0 bancarrota. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que seus extintos produtos ganham contornos afetivos\u00a0em nossa mem\u00f3ria. Nessas horas, o conceito comercial de &#8220;marca&#8221; assume um sentido menos abstrato, quase sob a forma de uma cicatriz. Foi mais ou menos o que senti quando reencontrei uma caixinha de TRI-X perdida na geladeira, algumas semanas depois de ler as not\u00edcias sobre a fal\u00eancia da Kodak.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 90, fui algumas vezes \u00e0 f\u00e1brica da Kodak, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos. Eu coordenava o N\u00facleo de Fotografia da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Cassiano Ricardo, \u00f3rg\u00e3o municipal que geria os projetos de cultura dessa cidade. Todos os anos, faz\u00edamos nossa Semana da Fotografia e sempre bat\u00edamos \u00e0 porta deles para pedir apoio. Sa\u00edamos sempre indignados, com tr\u00eas ou quatro latas de filme para rebobinar, meia d\u00fazia envelopes de papel e uns trocados que mal pagavam um workshop. Praguej\u00e1vamos, porque era o mesmo que, quase todos os dias, eles davam a outros eventos: a festa de alguma igreja, o concurso fotogr\u00e1fico de uma escola etc. Eles eram disputados e esses eram tempos duros: n\u00e3o havia leis de incentivo que devolviam \u00e0s empresas o que gastavam com patroc\u00ednio. Tamb\u00e9m n\u00e3o acredit\u00e1vamos quando diziam, j\u00e1 naquela \u00e9poca, que a fotografia n\u00e3o representava para eles um neg\u00f3cio assim t\u00e3o lucrativo.<\/p>\n<p>Certa vez, t\u00ednhamos na programa\u00e7\u00e3o uma oficina de \u201cprocessos alternativos\u201d, com Kenji Ota. Quando explicamos do que se tratava, um diretor brincou: \u201cvoc\u00eas querem dinheiro da Kodak para fazer o pr\u00f3prio papel fotogr\u00e1fico?\u201d Eles n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se empolgavam, como sabiam que n\u00e3o haveria lealdade de nossa parte. Segundo um amigo que trabalhava l\u00e1, esse mesmo diretor teria dito numa reuni\u00e3o: \u201celes saem daqui e compram Ilford\u201d. Era verdade.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dos profissionais com essa empresa nunca foi simples. A Kodak supriu as necessidades desses fot\u00f3grafos durante todo o s\u00e9culo XX, mas sua prioridade sempre foi a fotografia amadora, mercado que essa empresa inventou. Viviam portanto das f\u00e9rias em fam\u00edlia e das festinhas de anivers\u00e1rio, mais do que da nossa arte. E nos ressent\u00edamos quando \u00e9ramos lembrados disso. Protestamos quando sumiram com o papel de fibra, quando tentaram tirar o TRI-X do mercado e, de modo geral, com o descaso com a fotografia em preto e branco. Mas, um dia, encaixotamos nossos ampliadores e colocamos na geladeira as caixas e bobinas que sobraram. Sem muita cerim\u00f4nia, passamos a batalhar por mais e melhores pixels.<\/p>\n<p>George Eastman, fundador da Kodak, ajudou a definir a rela\u00e7\u00e3o que o s\u00e9culo XX teve com as imagens (heran\u00e7a semelhante \u00e0quela que, segundo os entusiastas, Steve Jobs deixou para o s\u00e9culo XXI). Eastman lan\u00e7ou a primeira c\u00e2mera com pel\u00edcula em rolo em 1888. J\u00e1 no ano seguinte, suas lojas, que vendiam equipamentos e processavam as imagens, come\u00e7aram a se espalhar pela Europa. Criou tamb\u00e9m o slogan que ver\u00edamos por muitas d\u00e9cadas: \u201cvoc\u00ea aperta o bot\u00e3o, n\u00f3s fazemos o resto\u201d. Foi um americano exemplar, fez sua pr\u00f3pria fortuna, foi um negociante astuto, era respeitado por seus funcion\u00e1rios, praticava a filantropia e saia bem na foto com todos: entre os benefici\u00e1rios de suas doa\u00e7\u00f5es, havia universidades frequentadas por negros e tamb\u00e9m a \u201cSociedade Americana de Eugenia\u201d (institui\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 \u201cmelhoria racial\u201d). Suicidou-se com um tiro no peito, deixando um bilhete que dizia apenas: \u201cAos amigos: fiz meu trabalho. Por que esperar?\u201d A explica\u00e7\u00e3o recorrente \u00e9 a de que entrou em depress\u00e3o quando as dores na coluna j\u00e1 n\u00e3o lhe permitiam trabalhar, e n\u00e3o queria acabar numa cadeira de rodas como sua m\u00e3e.<\/p>\n<div id=\"attachment_3381\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/You_press_the_button1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3381\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3381\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/You_press_the_button1.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"404\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3381\" class=\"wp-caption-text\">Publicidade da Kodak, 1889<\/p><\/div>\n<p>A hegemonia da Kodak durou at\u00e9 o final do s\u00e9culo XX. Empresas como a inglesa Ilford, a belga Agfa e a compatriota Pollaroid fizeram-lhe algumas c\u00f3cegas. Sua primeira e mais efetiva concorrente foi a japonesa Fuji. Inicialmente restrita a mercados pontuais e inexpressivos, iniciou seu processo de expans\u00e3o ap\u00f3s os anos 1950 com uma estrat\u00e9gia agressiva de distribui\u00e7\u00e3o e de pre\u00e7os. A Kodak parecia confiar no princ\u00edpio nacionalista do \u201ccompre americano\u201d, sobretudo diante dos ex-inimigos de guerra. Mas os n\u00fameros foram demonstrando que o capitalismo n\u00e3o \u00e9 afeito a sentimentalismos. O golpe moral mais forte veio em 1984, nos Jogos Ol\u00edmpicos de Los Angeles, que teve a Fuji como patrocinadora oficial. E, claro, havia tamb\u00e9m o restante do mundo, totalmente alheio a esse patriotismo. Aqui no Brasil, lembro que era um esporte divertido dizer que o V\u00e9lvia (da Fuji) era muito melhor que o Ektachrome (da Kodak). J\u00e1 com preju\u00edzo, a Kodak manteve sua lideran\u00e7a nesse minguante mercado de filmes, pap\u00e9is, insumos para processamento e equipamentos anal\u00f3gicos amadores. N\u00e3o perdeu o bonde da fotografia digital, mas desceu dele em algum lugar no meio do caminho.<\/p>\n<p>Em 1975, prestes a completar um s\u00e9culo de exist\u00eancia, a Kodak desenvolveu o prot\u00f3tipo daquela que foi considerada a primeira a c\u00e2mera digital. Deram outros passos importantes. Fizeram o primeiro sensor a alcan\u00e7ar a marca que se tornaria unidade m\u00ednima dessas novas c\u00e2meras, \u201cum megapixel\u201d. Tamb\u00e9m fabricaram para a Apple as <em>Quicktake<\/em>, primeiras digitais que chegaram \u00e0s m\u00e3os dos consumidores dom\u00e9sticos. Depois, tornaram-se coadjuvantes num mundo em que todos passaram a ter uma c\u00e2mera digital em seus bolsos. A Fuji, os fabricantes tradicionais de c\u00e2mera como a Nikon e a Canon, os rec\u00e9m chegados ao mercado da fotografia como a Sony e a Panasonic e, por fim, os fabricantes de celular revelaram estrat\u00e9gias mais acertadas.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia da Kodak passou ent\u00e3o a depender das impressoras, de equipamentos m\u00e9dicos, de produtos muito especializados cujo nome nem sabemos, e da negocia\u00e7\u00e3o de patentes. S\u00e3o coisas que muito pouco representam sua import\u00e2ncia na hist\u00f3ria da fotografia.<\/p>\n<p>Dei uma espiada no site atual da empresa. \u00c9 como encontrar um velho parente que nos conheceu intimamente mas com quem, depois de muitos anos, n\u00e3o restou nenhuma afinidade. Foi estranho ler que a Kodak do Brasil conquistou, como prova de sua excel\u00eancia, o ISO 14001. Primeiro, esquecemos a ASA, depois, abandonamos o ISO a essas medidas t\u00e3o pouco sens\u00edveis do marketing. A Kodak que conhecemos sobrevive apenas na mem\u00f3ria, ou seja, depende agora do rem\u00e9dio contra a amn\u00e9sia que fabricou durante um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Quantas vezes a Kodak foi o inimigo, p\u00e3o-duro e displicente com nossa voca\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Esse &#8220;personagem com o qual perdemos a afinidade&#8221; compunha, na verdade, uma figura paterna: arcaico e autorit\u00e1rio, ao mesmo tempo provedor e castrador. Sonh\u00e1vamos com o momento em que n\u00e3o depender\u00edamos tanto dele. Em seu leito de morte, vivemos um sentimento amb\u00edguo, j\u00e1 n\u00e3o o reconhecemos, mas sabemos o quanto nossa hist\u00f3ria est\u00e1 marcada por ele.<\/p>\n<p>O TRI-X na minha geladeira tem a ver com a parte mais consciente, tensa e superficial dessa rela\u00e7\u00e3o. A Kodak tem ra\u00edzes mais profundas em nossa experi\u00eancia com a fotografia, enterradas no fundo de nossos arm\u00e1rios, nas caixas de fotografias que guardamos. \u00c9 uma hist\u00f3ria que tem a ver com a Brownie, a Instamatic, a lojinha da esquina, o Kodachrome e o Kodacolor, <a href=\"http:\/\/www.dobrasvisuais.com.br\/?p=3752\" target=\"_blank\">o carrossel<\/a> de slides, mais do que com os tantos TRI-X que \u00a0rebobinamos.<\/p>\n<p>A Kodak tornou a fotografia uma experi\u00eancia corriqueira o bastante para aparecer numa can\u00e7\u00e3o despretensiosa como essa de Paul Simon (diga-se, numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia \u201cmerchans\u201d e \u201cjab\u00e1s\u201d).<\/p>\n<blockquote><p><strong>Kodachrome<\/strong><\/p>\n<p>[ti_audio media=&#8221;3286&#8243;]<\/p>\n<p><em>Kodachrome,<br \/>\nEles nos d\u00e3o belas cores \u200b\u200bbrilhantes<br \/>\nEles nos d\u00e3o\u00a0os verdes\u00a0do\u00a0ver\u00e3o<br \/>\nFazem voc\u00ea\u00a0pensar que o mundo todo<br \/>\n\u00e9 um dia ensolarado<br \/>\nEu comprei uma c\u00e2mera\u00a0Nikon<br \/>\nAdoro tirar fotografias<br \/>\nEnt\u00e3o, mam\u00e3e,\u00a0n\u00e3o leve embora meu Kodachrome\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Paul Simon, do \u00e1lbum There Goes Rhymin&#8217; Simon, de 1973]<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00f3s nos esfor\u00e7amos para nos distinguir desses usu\u00e1rios que compravam seus filmes no supermercado. Mas nossa fotografia profissional \u2013 a de publicidade, a de moda, o fotojornalismo \u2013 n\u00e3o teria o mesmo alcance se as pessoas comuns n\u00e3o houvessem, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, se apropriado dessa t\u00e9cnica. Nossa arte tamb\u00e9m n\u00e3o estaria t\u00e3o presentes nas bienais e nas galerias (vale lembrar que foram as vertentes herdeiras da <em>Pop Art<\/em> que abriram, sem pudores, as portas desses espa\u00e7os para n\u00f3s). \u00c9 mais do que leg\u00edtimo querer constituir um campo erudito de reflex\u00e3o e de produ\u00e7\u00e3o, mas a hist\u00f3ria da fotografia \u00e9 indissoci\u00e1vel de sua presen\u00e7a na cultura de massa. Nossa melhor poesia continua sendo, em boa medida, uma vers\u00e3o lapidada e conceitualizada de um vocabul\u00e1rio popular que a Kodak ajudou a construir.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Nesse momento, Livia Aquino analisa em sua pesquisa de doutorado uma s\u00e9rie de pe\u00e7as publicit\u00e1rias da Kodak. <a href=\"http:\/\/www.dobrasvisuais.com.br\/?p=4112\">Uma pequena amostra desse material est\u00e1 l\u00e1 no Dobras Visuais<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa forma\u00e7\u00e3o de esquerda ensina que as crises s\u00e3o inerentes ao capitalismo e n\u00e3o permite lamentar quando uma grande corpora\u00e7\u00e3o vai \u00e0 bancarrota. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que seus extintos produtos ganham contornos afetivos\u00a0em nossa mem\u00f3ria. Nessas horas, o conceito comercial de &#8220;marca&#8221; assume um sentido menos abstrato, quase sob a forma de uma cicatriz. Foi mais ou menos o que senti quando reencontrei uma caixinha de TRI-X perdida na geladeira, algumas semanas depois de ler as not\u00edcias sobre a fal\u00eancia da Kodak. Na d\u00e9cada de 90, fui algumas vezes \u00e0 f\u00e1brica da Kodak, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3357,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[821,838],"tags":[409,468,528],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3281"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3281"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6782,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3281\/revisions\/6782"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}