{"id":3238,"date":"2012-02-26T11:55:51","date_gmt":"2012-02-26T11:55:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3238"},"modified":"2017-03-01T12:35:34","modified_gmt":"2017-03-01T12:35:34","slug":"a-fotografia-e-a-semana-de-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-a-semana-de-22\/","title":{"rendered":"A fotografia  e a Semana de 22 &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"<p>Na celebra\u00e7\u00e3o dos noventa anos da Semana de Arte Moderna, h\u00e1 v\u00e1rias homenagens e publica\u00e7\u00f5es que tentam dar conta da extens\u00e3o e da import\u00e2ncia que o evento teve nas artes em geral. Mas poucos discutem as lacunas e as aus\u00eancias cada vez mais evidentes \u00e0 medida que nos distanciamos no tempo.<\/p>\n<p>No dia 15 fevereiro de 1922, duas semanas antes do Carnaval, teve in\u00edcio a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. Em tese, este acontecimento cultural com preocupa\u00e7\u00f5es nacionalistas poderia ter ampliado sua resson\u00e2ncia caso se aproveitasse das festas do Momo para alavancar ainda mais o impacto dessa revolu\u00e7\u00e3o cultural que marcou a primeira metade do s\u00e9culo XX. Mas, estranhamente, n\u00e3o houve conex\u00e3o entre a Semana e o Carnaval, o que demonstra falta de planejamento e aus\u00eancia de um projeto cultural mais consistente.<\/p>\n<p>Na verdade, sabemos, a Semana nasceu conservadora. Patrocinada por Paulo Prado, integrante da aristocracia paulistana, que deu carta branca aos realizadores, mas estes preferiram destacar no evento a Pintura, a Arquitetura, a M\u00fasica, a Escultura, a Literatura, esquecendo-se de que as vanguardas europeias (j\u00e1 assimiladas pela nossa burguesia) tamb\u00e9m integraram em suas manifesta\u00e7\u00f5es a fotografia e o cinema, duas novas linguagens advindas de t\u00e9cnicas rec\u00e9m instauradas no cotidiano das pessoas, mas nem sempre admitidas como express\u00f5es da arte. Curiosamente, nossa vanguarda, que esteve pr\u00f3xima do Futurismo Italiano, n\u00e3o admitiu a produ\u00e7\u00e3o gerada pelas imagens t\u00e9cnicas que traziam novas conceitua\u00e7\u00f5es e novos questionamentos sobre a natureza do olhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico \u2013 fotografia, cinema, revistas ilustradas, autom\u00f3vel, avi\u00e3o, gramofone, r\u00e1dio, telefone e ind\u00fastria em geral \u2013 vai influenciar os artistas participantes do movimento, bem como suas obras. O per\u00edodo est\u00e9tico efervescente resultante dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 qualitativamente decisivo, mas a revolu\u00e7\u00e3o foi conservadora se considerarmos a inexist\u00eancia de experi\u00eancias com a fotografia e o cinema. De certo modo, deixa a Semana num segundo plano em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es das chamadas vanguardas hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Augusto de Campos afirma que tivemos \u201cum modernismo mitigado, tolerante, n\u00e3o isento de compromissos com a linguagem convencional e com os valores da tradi\u00e7\u00e3o. \u2018Sabe o que \u00e9 para n\u00f3s ser futurista? \u00c9 ser kl\u00e1xico\u2019, ironizava Oswald de Andrade\u201d. A revista <em>Klaxon<\/em>, porta voz do movimento a partir de maio de 1922, arrojada gr\u00e1fica e esteticamente, j\u00e1 produzia um conceito de modo antropof\u00e1gico. Na verdade, alguns dos modernistas s\u00f3 radicalizaram suas experi\u00eancias est\u00e9ticas depois da Semana. O pr\u00f3prio Mario de Andrade se torna fot\u00f3grafo e mais tarde cr\u00edtico de cinema e, eventualmente, de fotografia, publicando no Suplemento de Rotogravura do jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em> (mas isso ser\u00e1 assunto do pr\u00f3ximo post).<\/p>\n<p>Diante dessa constata\u00e7\u00e3o nos perguntamos se n\u00e3o havia manifesta\u00e7\u00f5es no mundo das imagens t\u00e9cnicas que poderiam ter merecido algum destaque enquanto linguagem e representa\u00e7\u00e3o por ocasi\u00e3o da Semana. Claro que sim, mas por motivo at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido, naquele momento os modernistas n\u00e3o tiveram sensibilidade (ou seria coragem?) suficiente para entender a import\u00e2ncia da fotografia e do cinema como manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Isso tudo apesar de conhecermos alguns poemas fotogr\u00e1ficos e cinematogr\u00e1ficos.<\/p>\n<div id=\"attachment_3241\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/III-Imagem-Cinema-Sil\u00eancioso00021.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3241\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3241\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/III-Imagem-Cinema-Sil\u00eancioso0002-360x431.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"431\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3241\" class=\"wp-caption-text\">Gilberto Rossi, An\u00fancio do Est\u00fadio (fotomontagem), detalhe, c. 1915<\/p><\/div>\n<p>Nessa primeira incurs\u00e3o no assunto aqui no Ic\u00f4nica, queremos destacar algumas imagens e autores que estavam em plena sintonia com as vanguardas. Um deles \u00e9 o italiano Gilberto Rossi (1882-1971), elogiado na \u00e9poca por Oswald de Andrade e recentemente homenageado pela Cinemateca Brasileira, por ocasi\u00e3o da V Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. Rossi aprendeu fotografia na It\u00e1lia, teve est\u00fadio pr\u00f3prio at\u00e9 1911 quando resolveu vir para S\u00e3o Paulo montar um novo neg\u00f3cio. Inicialmente, estabeleceu-se como cinegrafista, mas como essa atividade era ainda muito nova, voltou-se para a fotografia, atuando em S\u00e3o Paulo, Jundia\u00ed e no estado de Mato Grosso.<\/p>\n<p>Suas fotomontagens possuem uma narrativa pr\u00f3pria, centradas no autorretrato, e um humor caracter\u00edstico daqueles artistas que entendiam a fotografia como possibilidade expressiva e manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. A propaganda do seu est\u00fadio tamb\u00e9m traz \u00edcones da modernidade \u2013 a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e o autom\u00f3vel, ve\u00edculos de acelera\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Rossi soube apreender seu tempo e trabalhar nesse momento pr\u00e9-moderno com quest\u00f5es que posteriormente ser\u00e3o temas do movimento modernista.<\/p>\n<div id=\"attachment_3239\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/I-Imagem-Cinema-Sil\u00eancioso00011.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3239\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3239\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/I-Imagem-Cinema-Sil\u00eancioso0001-620x440.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"440\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3239\" class=\"wp-caption-text\">Gilberto Rossi, Autorretrato (fotomontagem), c.1910<\/p><\/div>\n<p>Curiosamente, em 1911, o brasileiro Valerio Vieira (1862-1941) exibiu seu trabalho na Feira Internacional de Turim, It\u00e1lia. Ainda n\u00e3o sei se h\u00e1 conex\u00e3o entre Vieira e Rossi, mas os dois trabalhos tem aproxima\u00e7\u00f5es interessantes. Com certeza, a obra de Vieira tem especificidades t\u00e9cnicas e est\u00e9ticas que estavam \u00e0 frente do seu tempo e parece antecipar o momento de inser\u00e7\u00e3o do Brasil numa experi\u00eancia moderna. Ousado em suas propostas, marcou sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica com solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas revolucion\u00e1rias para sua \u00e9poca, subvertendo todos os par\u00e2metros de visualidade a partir de uma produ\u00e7\u00e3o singular, desenvolvida nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, ou seja, bem anterior \u00e0 Semana.<\/p>\n<p>Sua obra mais conhecida, <em>Os Trinta Val\u00e9rios<\/em>, produzida por volta de 1900, premiada com a Medalha de Prata na <em>Louisiana Purchase Exposition<\/em>, em St. Louis, EUA, em 1904, \u00e9 com certeza o paradigma da modernidade da fotografia brasileira. Atrav\u00e9s desta imagem, ele buscou na fotografia n\u00e3o s\u00f3 um meio que registrava com perfei\u00e7\u00e3o o mundo vis\u00edvel, mas uma linguagem capaz de expressar ideias pr\u00f3prias, mostrando que o artista com a c\u00e2mera pode ser imaginativo e criar obras de complexidade incomum. O artista entendeu precocemente a fotografia como dire\u00e7\u00e3o, arranjo e combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_3243\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/os_trinta_valerios.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3243\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-3243\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/os_trinta_valerios-620x473.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"473\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3243\" class=\"wp-caption-text\">Val\u00e9rio Vieira, Os trinta Val\u00e9rios, c. 1900<\/p><\/div>\n<p><em>Os Trinta Val\u00e9rios<\/em>, uma fotomontagem sensacional, traz uma in\u00e9dita composi\u00e7\u00e3o de autorretratos articulados num sofisticado painel mostrando uma imagina\u00e7\u00e3o desconcertante, desconhecida at\u00e9 ent\u00e3o na fotografia brasileira.<\/p>\n<p>Com estes exemplos defendemos que, no caso da fotografia, entre alguns profissionais havia aqueles que estavam realizando pesquisas e experi\u00eancias t\u00edpicas das vanguardas e que, por algum motivo, n\u00e3o foram incorporados na Semana de Arte Moderna. Voltaremos a este assunto que estamos investigando h\u00e1 alguns anos. Os modernistas que radicalizaram suas experi\u00eancias est\u00e9ticas, entre eles Mario de Andrade, perceberam tardiamente a import\u00e2ncia da fotografia na cena cultural brasileira naquele momento da modernidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na celebra\u00e7\u00e3o dos noventa anos da Semana de Arte Moderna, h\u00e1 v\u00e1rias homenagens e publica\u00e7\u00f5es que tentam dar conta da extens\u00e3o e da import\u00e2ncia que o evento teve nas artes em geral. Mas poucos discutem as lacunas e as aus\u00eancias cada vez mais evidentes \u00e0 medida que nos distanciamos no tempo. No dia 15 fevereiro de 1922, duas semanas antes do Carnaval, teve in\u00edcio a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. 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