{"id":3160,"date":"2012-02-06T07:16:14","date_gmt":"2012-02-06T07:16:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3160"},"modified":"2022-12-04T13:10:35","modified_gmt":"2022-12-04T13:10:35","slug":"a-fotografia-e-seus-duplos-parte-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-seus-duplos-parte-iv\/","title":{"rendered":"A fotografia e seus duplos &#8211; Parte IV"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">A hist\u00f3ria \u00e9 bem conhecida. Em 1867, Dostoi\u00e9vski visitava o museu da Basil\u00e9ia, na Sui\u00e7a, em companhia de sua mais recente esposa, Anna Snitkina, esten\u00f3grafa que havia colaborado com ele em \u201cO Jogador\u201d. Diante de uma pintura de Holbein, o Jovem, ele <em>congelou<\/em>, sem conseguir desviar os olhos. No rosto do escritor, a mesma express\u00e3o, mistura de \u00eaxtase e p\u00e2nico, que costumava ter na imin\u00eancia de um ataque epil\u00e9tico. No quadro do museu, Cristo, em tamanho natural, deitado em sua tumba.<\/p>\n<div id=\"attachment_3171\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/dead-christ-in-the-grave-hans-holbein-the-younger.jpeg\" class=\"broken_link\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3171\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3171 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/dead-christ-in-the-grave-hans-holbein-the-younger-674x900.jpeg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3171\" class=\"wp-caption-text\">Hans Holbein, o Jovem. Cristo na tumba, 1521-2<\/p><\/div>\n<p>O pintor havia registrado na imagem, como de costume, as marcas do mart\u00edrio. Mas introduziu algo novo, que jamais havia sido visto antes. Este corpo que ainda n\u00e3o come\u00e7ara a decompor-se \u2013 e que ao cabo de tr\u00eas dias ressuscitaria, erguendo-se inc\u00f3lume do sepulcro \u2013 estava ali, <em>estacionado<\/em>, t\u00e3o vivo quanto morto. O Jesus de Holbein n\u00e3o repousa seu quinh\u00e3o de eternidade: de olhos semi-abertos e abd\u00f4men contra\u00eddo, prolonga infinitamente a dor da cruz e ret\u00e9m indefinidamente seu \u00faltimo suspiro. A boca aberta n\u00e3o emite nenhum som, mas o dedo da m\u00e3o direita fala por todo o corpo e aponta-nos o Sud\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que viu Dostoi\u00e9vski na pintura de Holbein, se n\u00e3o o pr\u00f3prio duplo? Seu pr\u00f3prio corpo como duplo vivo da imortalidade morta de Cristo. O corpo do Cristo como duplo morto de sua pr\u00f3pria mortalidade viva. Tudo isso em suspenso, como em uma fotografia.<\/p>\n<p>Em um de seus \u00faltimos ensaios, dedicado \u00e0 solid\u00e3o dos moribundos, o soci\u00f3logo Norbert Elias sublinha que um dos tra\u00e7os da modernidade \u00e9 o modo \u201chigi\u00eanico\u201d como os moribundos s\u00e3o apartados da vista dos vivos: \u201cjamais anteriormente se transportaram os cad\u00e1veres humanos, sem odores e com tal perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, desde a c\u00e2mara mortu\u00e1ria at\u00e9 a tumba.\u201d Mas nem sempre foi assim. Elias transcreve um poema do s\u00e9culo XVII, do poeta barroco alem\u00e3o Christian Hoffmann von Hoffmannswaldau, para demonstr\u00e1-lo. Chama-se &#8220;Caducidade da Beleza&#8221; e nele a mulher amada \u00e9 retratada em detalhes, apodrecendo em sua tumba:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u201cCom o tempo por fim a morte p\u00e1lida<br \/>\ncom sua fria m\u00e3o acariciar\u00e1 teus seios,<br \/>\nempalidecer\u00e1 o coral maravilhoso de teus l\u00e1bios\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Pouco a pouco, o poeta v\u00ea a donzela virar p\u00f3, do \u201cgracioso andar\u201d ao \u201crel\u00e2mpago doce\u201d dos olhos. Por mais m\u00f3rbida que soe esta descri\u00e7\u00e3o, o poema tem uma inten\u00e7\u00e3o c\u00f4mica que pode escapar ao leitor moderno. Nos \u00faltimos versos, o poeta <em>mergulha<\/em> na cova de seu amor e o que ele traz de volta \u00e9 a \u00fanica parte de seu corpo que resistir\u00e1 \u00e0 a\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel da morte:<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u201cTudo isso e muito mais por fim vai extinguir-se.<br \/>\nS\u00f3 seu cora\u00e7\u00e3o poder\u00e1 vencer o tempo<br \/>\npois em diamante talhou-o a Natureza\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Isto \u00e9, a amada que resiste aos apelos do poeta tem um cora\u00e7\u00e3o de pedra, indestrut\u00edvel como o diamante: prefere legar o melhor de si aos vermes vorazes que entregar-se aos bra\u00e7os de quem lhe enaltece os predicados. O poema \u00e9 o \u00faltimo apelo do poeta: um convite \u00e0 dama para que contemple o duplo decr\u00e9pito que o futuro lhe reserva e ceda enquanto \u00e9 tempo.<\/p>\n<p>Quase tr\u00eas s\u00e9culos depois, outra donzela, no M\u00e9xico, contempla seu destino. \u00c9 a senhorita Adela Fonseca que olha para a pr\u00f3pria imagem encapsulada em uma jarra de vidro. A Adela da jarra, por sua vez, encara o fot\u00f3grafo. \u00a0Tal como Dostoi\u00e9vski, a Adela de fora n\u00e3o consegue desviar os olhos da prisioneira. Est\u00e1 igualmente capturada pelo pren\u00fancio do futuro mas, diferentemente da musa do poeta barroco, a Adela de dentro tem um cora\u00e7\u00e3o mole: o sapato j\u00e1 lhe escapa do p\u00e9 esquerdo, os ombros est\u00e3o desnudos e, n\u00e3o fosse pelas m\u00e3os retendo delicadamente o vestido, o busto teria ido pelo mesmo caminho.<\/p>\n<div id=\"attachment_3162\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/Adela-Fonseca.-Armando-Saler\u0097-n.-Chilapa-Mexico-1930.1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3162\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3162 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/Adela-Fonseca.-Armando-Saler\u0097-n.-Chilapa-Mexico-1930.-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3162\" class=\"wp-caption-text\">Adela Fonseca. Armando Saler\u0097 n. Chilapa (Mexico), 1930.<\/p><\/div>\n<p>O sepulcro de cristal em que a imagem da donzela foi capturada n\u00e3o \u00e9 apenas uma janela que se abre para o futuro. \u00c9 uma encena\u00e7\u00e3o da transpar\u00eancia do meio fotogr\u00e1fico. A quem Adela ir\u00e1 entregar-se? A n\u00f3s? Ao fot\u00f3grafo? Ou ela apenas nos dirige (ou a ele) um \u00faltimo apelo? Nem o veterano fot\u00f3grafo mexicano sabe a resposta. De fato, \u00e9 ele quem realmente se pergunta, mirando a jarra transparente que a mo\u00e7a lhe oferece no est\u00fadio de Chilapas: afinal, \u201co que pode uma fotografia?\u201d N\u00e3o, n\u00e3o exatamente. Creio que ainda \u00e9 poss\u00edvel ouvi-lo murmurar: \u201cComo pode, uma fotografia?\u201d<\/p>\n<p>O desejo oculto de toda imagem que tem outra imagem dentro de si \u00e9 libertar-se de sua materialidade. Assim, a pergunta sobre o duplo \u00e9 sempre uma pergunta sobre a alma das imagens, pois mesmo as fotografias mais est\u00e1ticas s\u00e3o animadas. De olhos cravados na jarra em que a senhorita guarda seu \u00faltimo momento de recato, Don Armando d\u00e1-se conta que a chapa que est\u00e1 em vias expor acolhe as sombras de tudo que no mundo \u00e9 sabido existir, de todos os sonhos jamais realizados, e de suas pr\u00f3prias expectativas de fot\u00f3grafo que o clique ir\u00e1 mais uma vez decepcionar. E se a jarra agora encher-se de \u00e1gua? Por quanto tempo a gentil Adela seria capaz de prender a respira\u00e7\u00e3o? Todo o tempo do mundo? Tr\u00eas dias, como Nosso Senhor? Ou apenas o tempo suficiente de uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica? Voltar a olhar esta jarra \u00e9 deix\u00e1-la verter, gota a gota, seus fantasmas. Por meio do duplo uma fotografia pergunta-se sobre o seu destino e as pelas obscuras raz\u00f5es da sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesta fotografia de Bibi Calderaro a \u00e1gua alcan\u00e7ou a borda da jarra. N\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o estamos \u00e0 espera de que o fot\u00f3grafo volte \u00e0 superf\u00edcie para mostrar-nos o que recolheu em seu \u00faltimo mergulho. O duplo aqui n\u00e3o necessita de qualquer encena\u00e7\u00e3o ou representantes. Estamos face a face com ele. Se as fotografias t\u00eam uma alma, acredito que este bem poderia ser um de seus retratos. Como crian\u00e7as suspensas na \u00e1gua, que prendem a respira\u00e7\u00e3o e nos encaram, fotografias s\u00e3o dura\u00e7\u00e3o e sonho represados prestes a romper os diques da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_3163\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/Bibi-Calderaro.-Argentina-1996.1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3163\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-3163 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/Bibi-Calderaro.-Argentina-1996.-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3163\" class=\"wp-caption-text\">Bibi Calderaro. Argentina, 1996.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u00e9 bem conhecida. 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