{"id":314,"date":"2009-11-20T06:50:01","date_gmt":"2009-11-20T06:50:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=314"},"modified":"2016-05-28T14:34:41","modified_gmt":"2016-05-28T14:34:41","slug":"o-video-nos-oferece-mais-que-a-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-video-nos-oferece-mais-que-a-fotografia\/","title":{"rendered":"O v\u00eddeo nos oferece mais que a fotografia"},"content":{"rendered":"<p>O <a href=\"http:\/\/www.letsvamos.com\/letsblogar\/2009\/11\/18\/sera-o-futuro-da-fotografia\/\" target=\"_blank\">Let\u2019s Blogar<\/a> colocou novamente a quest\u00e3o sobre o futuro da fotografia, relembrando que as c\u00e2meras digitais fazem v\u00eddeo em HD e que alguns espa\u00e7os tradicionalmente ocupados pela fotografia est\u00e3o agora aptos a receber imagens em movimento, sejam porta-retratos ou p\u00e1ginas de revista.<\/p>\n<p>J\u00e1 temos exemplos suficientes de que, no campo da arte, as linguagens e tecnologias n\u00e3o se substituem, mas a discuss\u00e3o \u00e9 sempre pertinente no que se refere ao papel mais utilit\u00e1rio da imagem, na ci\u00eancia, na comunica\u00e7\u00e3o, nas documenta\u00e7\u00f5es sociais. Algumas dessas coisas v\u00e3o nos divertir um pouco, outras v\u00e3o mudar \u2013 como j\u00e1 tem mudado \u2013 o modo como produzimos e como percebemos as imagens.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou a pessoa mais indicada para discutir o mercado. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.letsvamos.com\/letsblogar\/2009\/11\/18\/sera-o-futuro-da-fotografia\/\">Let\u2019s Blogar<\/a> fez boas pondera\u00e7\u00f5es e se encarregou de oferecer alguns bons links para esse debate. Queria pensar a fotografia numa rela\u00e7\u00e3o mais abrangente e cotidiana com a produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, assumo meu conservadorismo: de um lado, s\u00f3 consigo imaginar um porta-retratos digital sendo vendido nesses programas de TV, entre um multiprocessador de alimentos e um aparelho de gin\u00e1stica. E, de outro lado, n\u00e3o consigo imaginar um porta-retratos com um slide-show ou v\u00eddeo ligado o tempo todo na estante da sala. Menos ainda, algu\u00e9m ligando o porta-retrato quando chega a visita.<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria e desejo<\/strong><\/p>\n<p>A grande vantagem do v\u00eddeo \u00e9 que ele oferece uma imagem mais completa, mais prolixa, nos d\u00e1 mais informa\u00e7\u00e3o que a fotografia.\u00a0 Pode soar estranho, mas isso mesmo j\u00e1 me leva a supor: a vantagem da fotografia \u00e9 o fato de que ela nos d\u00e1 uma imagem mais sutil, mais lac\u00f4nica, com menos informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_317\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-317\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-317\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/Andre_Kertesz_August_16_1979_3152_411-280x284.jpg\" alt=\"Andre Kertesz, 1979.\" width=\"280\" height=\"284\" \/><p id=\"caption-attachment-317\" class=\"wp-caption-text\">Andre Kertesz, From my window, 1979.<\/p><\/div>\n<p>Sem d\u00favida h\u00e1 momentos que pedem o registro do movimento. Mas, de todo modo, os objetos de mem\u00f3ria mais importantes operam por intensidade, n\u00e3o por estens\u00e3o. Eles t\u00eam aquilo que Barthes, referindo-se \u00e0 fotografia, chamou de \u201cfor\u00e7a meton\u00edmica\u201d (uma parte que traz a sensa\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a do todo ausente). Portanto, uma for\u00e7a que \u00e9 tanto maior quanto menor o fragmento de mundo que \u00e9 capaz de nos afetar. Um brinquedo que sobra da inf\u00e2ncia, uma conchinha recolhida na praia, o ingresso de um show n\u00e3o relatam muita coisa sobre o passado mas, de algum modo, parecem carreg\u00e1-lo consigo. S\u00e3o fetiches que operam naquilo que ainda hoje pode restar de magia, no sentido antropol\u00f3gico do termo: o pensamento m\u00e1gico, superado pelo pensamento racional, desconhece a diferen\u00e7a entre o signo e o objeto representado por esse signo, entre a imagem e o mundo. A fotografia \u00e0s vezes parece operar desse modo: \u00e9 a raz\u00e3o de se guardar e tocar quase com carinho a imagem das pessoas que amamos, bem como de se picar em pedacinhos a imagem de quem passamos a odiar. Essa sobreposi\u00e7\u00e3o entre a imagem e o mundo \u00e9 tanto mais poderosa quanto maior for a dist\u00e2ncia e a despropor\u00e7\u00e3o entre eles (para o bom feiticeiro, basta uma pe\u00e7a de roupa, um fio de cabelo para poder se colocar diante de algu\u00e9m).<\/p>\n<p>A fotografia funciona desse modo: ela nos encanta n\u00e3o tanto pelo tanto que ela explicita mas, ao contr\u00e1rio, pelo que oculta e que, n\u00e3o estando ali, deve ser recuperado pela imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso pode ser discutido no plano te\u00f3rico: a psican\u00e1lise nos ensina que o desejo sempre atua sobre uma lugar vazio. Ou seja, s\u00f3 pode mobilizar o desejo aquilo que n\u00e3o est\u00e1 dado ou, ainda, o desejo se desloca para outro lugar vazio quando seu suposto objeto se oferece por completo. \u00c9 a diferen\u00e7a entre o er\u00f3tico e o pornogr\u00e1fico: o primeiro \u00e9 intenso, porque insinua sem oferecer quase nada, dando a certeza de que falta algo para ser visto; o segundo \u00e9 enganoso, esvazia-se ao oferecer tudo, por n\u00e3o haver nada que se queira ver e que j\u00e1 n\u00e3o se tenha visto.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 poss\u00edvel demonstrar isso na pr\u00e1tica de nossa rela\u00e7\u00e3o com as imagens. As imagens se tornam importantes quando s\u00e3o quase perdidas, quase esquecidas, e depois reencontradas. Os v\u00eddeos ou os velhos <em>super 8<\/em>, que nos d\u00e3o mais que a fotografia, se tornam mais interessantes quando deles s\u00f3 restam fragmentos ou quando, por sabedoria, eles s\u00e3o editados para exibir apenas fragmentos. Eu me pergunto se os turistas que viajam com a c\u00e2mera ligada o tempo todo realmente assistem o que gravam, ou apenas se reconfortam com o fato de saber que tudo est\u00e1 l\u00e1. E tenho a impress\u00e3o de que nunca olhamos t\u00e3o pouco para nossas fotografias de viagem quanto agora, quando retornamos com milhares de imagens que, ali\u00e1s, j\u00e1 foram vistas no LCD da c\u00e2mera.<\/p>\n<p>Cada vez mais \u00e9 importante a figura do editor, essa pessoa que tem o poder e a sabedoria de n\u00e3o mostrar o que n\u00e3o tem for\u00e7a. Dizem que os fotojornalistas, num futuro pr\u00f3ximo, em vez de se darem ao trabalho de encontrar o momento certo, poder\u00e3o voltar para suas reda\u00e7\u00f5es com v\u00eddeos de qualidade suficiente para extrair o frame que ser\u00e1 publicado. Se isso acontecer, mais do que nunca, os editores ser\u00e3o necess\u00e1rios e os bons \u201crep\u00f3rteres de imagem\u201d ainda ser\u00e3o aqueles poucos que saber\u00e3o encontrar no fluxo das coisas uma meia d\u00fazia de fragmentos indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00c9 absurdo o princ\u00edpio de que imagem boa \u00e9 aquela que nos oferece mais. A fotografia j\u00e1 produziu essa fal\u00e1cia no s\u00e9culo XIX, ao tentar exibir suas vantagens sobre a pintura. Mas tamb\u00e9m seria tamb\u00e9m absurdo reagir ao v\u00eddeo do mesmo modo que, naquela ocasi\u00e3o, a pintura reagiu \u00e0 fotografia.<\/p>\n<p>O v\u00eddeo \u00e9 fabuloso. Disputar\u00e1 alguns espa\u00e7os com a fotografia e provavelmente conquistar\u00e1 v\u00e1rios deles. Mas n\u00e3o pelos motivos que est\u00e1vamos supondo, n\u00e3o porque oferece mais. Ele ocupar\u00e1 seu lugar na medida em que souber selecionar, tornar-se lac\u00f4nico, operar por intensidades. Em outras palavras, oferecer as lacunas necess\u00e1rias ao desejo e \u00e0 mem\u00f3ria. Tamb\u00e9m precisar\u00e1 saber conter o movimento e fazer a imagem durar diante dos olhos para que ela tenha consist\u00eancia. E aprender a olhar com certo sil\u00eancio para as coisas banais, para tornar essa mem\u00f3ria universal.<\/p>\n<p>Cao Guimar\u00e3es, <em>Da janela do meu quarto<\/em>, 2004.<\/p>\n<p>No filme <em>Sem Sol <\/em>(1992), Chris Marker imagina uma civiliza\u00e7\u00e3o que habitar\u00e1 a Terra no ano 4001 e que ser\u00e1 capaz de lembrar de todas as coisas: \u201cap\u00f3s muitas hist\u00f3rias de pessoas que que perderam a mem\u00f3ria, eis a de algu\u00e9m que perdeu o esquecimento\u201d. Esse habitante do futuro n\u00e3o entender\u00e1 a emo\u00e7\u00e3o de ouvir uma m\u00fasica ou de ver um retrato, coisas ligadas \u00e0 mis\u00e9ria de sua pr\u00e9-hist\u00f3ria. A conclus\u00e3o j\u00e1 havia sido dada no come\u00e7o desse relato: \u201cuma mem\u00f3ria total \u00e9 uma mem\u00f3ria anestesiada\u201d.\u00a0Assistam ao filme todo e vejam como que o valor da montagem (da bricolagem) que Marker faz est\u00e1 mais nos saltos que realiza, nas lacunas que deixa, do que na ilus\u00e3o de continuidade que o cinema poderia muito bem produzir (esse filme acompanha o <em>La Jet\u00e9e<\/em> no mesmo DVD lan\u00e7ado aqui no Brasil).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m encontramos um recado semelhante num texto bastante conhecido de Borges, <em>Do rigor na ci\u00eancia<\/em>:<strong> <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8230; Naquele Imp\u00e9rio, a Arte da Cartografia atingiu uma tal perfei\u00e7\u00e3o que o mapa duma s\u00f3 Prov\u00edncia ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Imp\u00e9rio, toda uma Prov\u00edncia. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos n\u00e3o satisfizeram e os Col\u00e9gios de Cart\u00f3grafos levantaram um Mapa do Imp\u00e9rio que tinha o tamanho do Imp\u00e9rio e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gera\u00e7\u00f5es Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era In\u00fatil e n\u00e3o sem Impiedade o entregaram \u00e0s inclem\u00eancias do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despeda\u00e7adas Ru\u00ednas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o Pa\u00eds n\u00e3o resta outra rel\u00edquia das disciplinas geogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>(Suar\u00e9z Miranda: Viajes de Varones Prudentes, Livro Quarto, Cap\u00edtulo XIV, L\u00e9rida, 1658.)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Let\u2019s Blogar colocou novamente a quest\u00e3o sobre o futuro da fotografia, relembrando que as c\u00e2meras digitais fazem v\u00eddeo em HD e que alguns espa\u00e7os tradicionalmente ocupados pela fotografia est\u00e3o agora aptos a receber imagens em movimento, sejam porta-retratos ou p\u00e1ginas de revista. J\u00e1 temos exemplos suficientes de que, no campo da arte, as linguagens e tecnologias n\u00e3o se substituem, mas a discuss\u00e3o \u00e9 sempre pertinente no que se refere ao papel mais utilit\u00e1rio da imagem, na ci\u00eancia, na comunica\u00e7\u00e3o, nas documenta\u00e7\u00f5es sociais. 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