{"id":3139,"date":"2012-01-30T13:50:39","date_gmt":"2012-01-30T13:50:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3139"},"modified":"2016-05-28T14:10:47","modified_gmt":"2016-05-28T14:10:47","slug":"o-luto-de-barthes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-luto-de-barthes\/","title":{"rendered":"O luto de Barthes"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3142\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Journal-de-deuil.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3142\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3142\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Journal-de-deuil-360x243.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"243\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3142\" class=\"wp-caption-text\">Di\u00e1rio de Luto: &quot;Desde a morte de mam., apesar - ou atrav\u00e9s - do esfor\u00e7o obstinado para empreender um grande projeto de escrita, altera\u00e7\u00e3o progressiva da confian\u00e7a em mim - naquilo que escrevo.<\/p><\/div>\n<p>Nestas f\u00e9rias, li\u00a0<em>Di\u00e1rio de Luto<\/em>, de Roland Barthes, editado recentemente em portugu\u00eas, com tradu\u00e7\u00e3o de Leyla Perrone-Mois\u00e9s. \u00c9 um conjunto de pequenas anota\u00e7\u00f5es iniciadas em outubro de 1977, um dia ap\u00f3s o falecimento de sua m\u00e3e, e que se estendem at\u00e9 setembro de 1979, seis meses antes de sua pr\u00f3pria morte. No meio disso, entre 15 de abril e 3 de junho de 1979, ele escreveu <em>A c\u00e2mara clara<\/em>. Etienne Samain j\u00e1 havia observado que esse livro, que tem 48 cap\u00edtulos, foi escrito em exatos 48 dias, possivelmente, tamb\u00e9m sob a forma de um di\u00e1rio. Conhecendo agora este novo livro, fica ainda mais evidente que <em>A c\u00e2mara clara<\/em> \u00e9 parte desse mesmo luto.<\/p>\n<p>\u00c9 leg\u00edtimo que algumas pessoas se irritem ao descobrir, apenas na sua segunda metade de <em>A C\u00e2mara Clara<\/em>, que todo investimento do autor visa dar conta daquilo que sente diante de uma foto de sua m\u00e3e. Se esse livro j\u00e1 parece demasiadamente sentimental, a dor que Barthes assume na intimidade de seu <em>Di\u00e1rio<\/em> pode soar patol\u00f3gica. Sua primeira anota\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o estranha quanto sintom\u00e1tica: \u201cprimeira noite de n\u00fapcias. Mas primeira noite de luto?\u201d (talvez porque, como revela, ele habitar\u00e1 o quarto em que ela agonizou). Mas cabe lembrar que essas s\u00e3o palavras privadas, ele diz no pr\u00f3prio di\u00e1rio que seu sofrimento n\u00e3o chega a ser percebido pela maioria das pessoas, porque ele se recusa a teatraliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p><em>A C\u00e2mara Clara<\/em> \u00e9 talvez o desdobramento p\u00fablico e cultural desse mesmo sentimento,<em> <\/em>que Barthes, no entanto, n\u00e3o esconde: &#8220;o afeto era o que eu n\u00e3o queria reduzir, sendo irredut\u00edvel, exatamente por isso, aquilo que eu queria, devia reduzir a Foto&#8221;, diz ele nesse livro. Por isso mesmo, \u00e9 absurdo confundir seu embate com a busca de uma \u201cess\u00eancia semiol\u00f3gica\u201d da fotografia, mesmo que \u00e0s vezes ele pare\u00e7a falar de qualquer fotografia. Quem tentar percorrer <em>A c\u00e2mara clara<\/em> com essa chave s\u00f3 poder\u00e1 achar suas conclus\u00f5es enviesadas. Seria desonesto ignorar o que diz logo no in\u00edcio: \u201cresolvi tomar como ponto de partida de minha busca apenas algumas fotos, aquelas que eu estava certo de que existiam <em>para mim<\/em>\u201d. N\u00e3o h\u00e1 ali um intelectual pensando a cultura fotogr\u00e1fica mas, como ele diz, um \u201cselvagem\u201d. Sua quest\u00e3o \u00e9: \u201co que meu corpo sabe da fotografia?\u201d. Uma escrita visceral semelhante \u00e0 do <em>Di\u00e1rio de Luto<\/em>: \u201cescrita na qual eu punha minha pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quando descobrimos o quanto Barthes est\u00e1 imerso nesse luto, entendemos que, em\u00a0<em>A C\u00e2mara Clara, <\/em>ele apenas dissimula\u00a0um interesse cultural. Ele finge em certos momentos que algumas fotografias existem para ele quando, na verdade, existe apenas uma: a foto de sua m\u00e3e, que ele jamais chega a mostrar, porque seu sentido n\u00e3o \u00e9 em nada compartilh\u00e1vel. Esse \u00e9 um fato que ele acaba por admitir na segunda parte do livro: \u201cdecidi ent\u00e3o \u2018tirar\u2019 toda a Fotografia (sua \u2018natureza\u2019)\u00a0 da \u00fanica foto que com seguran\u00e7a existiu para mim\u201d.<\/p>\n<p>O que Barthes diz s\u00f3 faz sentido para fotografias que mobilizam um \u201camor extremo\u201d, como diz textualmente. E se isso se confunde com uma teoria \u00e9 porque as fotografias tocam nossos afetos com frequ\u00eancia. \u00c9 uma teoria ontol\u00f3gica sobre uma condi\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica que essa imagem, talvez como nenhuma outra, pode assumir.<\/p>\n<p>No Di\u00e1rio de Luto, Barthes faz poucas refer\u00eancias \u00e0 sua rotina de trabalho, mas fala da necessidade de escrever esse livro dedicado \u00e0 fotografia de sua m\u00e3e. Comentando sua passagem pela Igreja de Saint-Sulpice, ele diz: \u201cSento-me por um segundo; esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o instintiva: que eu consiga realizar o livro Foto-Mam.\u201d (09\/06\/78). \u201cMam.\u201d \u00e9, como se pode intuir, a abrevia\u00e7\u00e3o que ele quase sempre usa para se referir \u00e0 m\u00e3e. Uma nota da tradutora confirma que esse livro viria a ser\u00a0<em>A C\u00e2mara Clara<\/em>.<\/p>\n<p>Seguem-se no <em>Di\u00e1rio de Luto<\/em>\u00a0outras refer\u00eancias \u00e0 fotografia da m\u00e3e no Jardim de Inverno:<\/p>\n<blockquote><p>13\/06\/78: \u201cHoje cedo, com grande dificuldade, retomando as fotos, fiquei emocionado com uma de mam. quando menina, doce, discreta ao lado de Philippe Binger (Jardim de inverno de Chennevi\u00e8res, 1898). Choro. Nem mesmo o desejo de se suicidar.\u201d<\/p>\n<p>15\/06\/78: \u201cEstranho: sofri muito e, no entanto \u2013 atrav\u00e9s do epis\u00f3dio das Fotos -, sensa\u00e7\u00e3o de que o verdadeiro luto come\u00e7a (tamb\u00e9m porque caiu o \u00e9cran das falsas tarefas)\u201d<\/p>\n<p>24\/07\/78: \u201c(&#8230;) Foto do Jardin d\u2019Hiver: procuro desesperadamente dizer o sentido evidente. (Fotografia: impossibilidade de dizer o que \u00e9 evidente. Nascimento da literatura). \u201cInoc\u00eancia\u201d: que nunca far\u00e1 o mal\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Alguns meses antes de come\u00e7ar a escrita de <em>A C\u00e2mara Clara<\/em>, suas hip\u00f3teses j\u00e1 s\u00e3o claramente sentidas, mas ainda resistam \u00e0 escrita:<\/p>\n<blockquote><p>20\/01\/79: \u201cFoto de mam. quando menina, ao longe \u2013 diante de mim, sobre a mesa. Bastava-me olh\u00e1-la, captar o tal de seu ser (que me debato por escrever) para ser reinvestido por, imerso em, invadido, inundado por sua bondade\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio reconhecer a luta que Barthes trava com a escrita e com o limite das palavras. A fotografia capta o \u201ctal\u201d de seu ser, mas o que \u00e9 o \u201ctal\u201d? Muita coisa e quase nada. Quando nos referimos a \u201ctal coisa\u201d, falamos de uma coisa espec\u00edfica, singular, mas ao mesmo tempo n\u00e3o falamos nada dessa coisa. Assim \u00e9 aquilo que a foto parece lhe dizer.<\/p>\n<p>Barthes fala da m\u00e3e \u201cao longe \u2013 diante de mim\u201d. Esse \u00e9 o paradoxo de que <em>A C\u00e2mara Clara<\/em> tenta dar conta. Paradoxo que se revela temporal, n\u00e3o tanto espacial. \u201cLonge\u201d porque o que a fotografia mostra est\u00e1 situado no passado: \u201cela j\u00e1 n\u00e3o existe, ela j\u00e1 n\u00e3o existe, para sempre e totalmente\u201d (07\/12\/77); \u201cdiante de mim\u201d porque, por meio da fotografia, \u00e9 sentida como presente.<\/p>\n<p>Enquanto escreve o <em>Di\u00e1rio<\/em>, Barthes rel\u00ea \u201cEm busca do tempo pedido\u201d, de Proust. Proust encontrou num biscoito a chave de uma mem\u00f3ria involunt\u00e1ria que faz repassar de modo muito vivo sensa\u00e7\u00f5es de seu tempo de inf\u00e2ncia. Est\u00e1 expl\u00edcito o reencontro que Barthes deseja com uma felicidade que ele s\u00f3 encontra no passado. Mas, se a fotografia \u00e9 capaz de operar movimento semelhante, ela o faz tamb\u00e9m de modo involunt\u00e1rio, por uma qualidade que n\u00e3o se poder querer colocar ou buscar na imagem, algo que escapa \u00e0 codifica\u00e7\u00e3o. Em A C\u00e2mara Clara, o nome de Proust aparece algumas vezes, numa delas, quando Barthes fala pela primeira vez da foto de sua m\u00e3e, das quais \u201cn\u00e3o esperava nada\u201d.<\/p>\n<p>O sentimento de presen\u00e7a daquilo que \u00e9 passado o reconforta mas, ao mesmo tempo, o apavora. Como vemos no di\u00e1rio, a apari\u00e7\u00e3o da m\u00e3e num sonho faz a perda ser vivida novamente como possibilidade: \u201csofro com medo do que aconteceu\u201d. Em <em>A C\u00e2mara Clara<\/em>, o reencontro com a m\u00e3e por meio da fotografia \u00e9 vivido como ansiedade: \u201c\u00e9 ela! \u00c9 exatamente ela! \u00c9 enfim ela\u201d), mas tamb\u00e9m como temor: \u201cisso ser\u00e1 e isso foi (&#8230;). Diante da foto de minha m\u00e3e crian\u00e7a, eu me digo: ela vai morrer: estreme\u00e7o&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>O tempo \u00e9 a ess\u00eancia dessas imagens que existem para Barthes. \u00c9 tamb\u00e9m a ess\u00eancia do luto, algo vivido num movimento descont\u00ednuo e paradoxal, como contagem progressiva que mede um suposto afastamento, mas como contagem regressiva de uma reaproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>28\/05\/79: \u201cA verdade do luto \u00e9 muito simples: agora que mam., est\u00e1 morta, sou empurrado para a morte (dela, nada me separa, a n\u00e3o ser o tempo).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em <em>A C\u00e2mara Clara<\/em> e mais explicitamente no <em>Di\u00e1rio de Luto<\/em>, Barthes fala da pr\u00f3pria morte que, de fato, logo chegaria. O desejo de reencontrar a pessoa que mais lhe faltava, se traduz em nostalgia, como \u00e9 \u00f3bvio, mas tamb\u00e9m em expectativa: o desenho de uma possibilidade de reencontro que n\u00e3o demoraria a acontecer. Esse tempo para o qual as fotografias apontam implica, portanto, um movimento mais complexo do que parece.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Para terminar, descobri por acaso que Barthes fez, nesse mesmo per\u00edodo, uma breve participa\u00e7\u00e3o no filme <em>As irm\u00e3s Bront\u00eb<\/em> (<em>Les S\u0153urs Bront\u00eb<\/em>, 1979), dirigido por seu amigo de Andr\u00e9 T\u00e9chin\u00e9. Ele interpreta o escritor ingl\u00eas William Thackeray, que acolhe silenciosamente a pesonagem principal, Charlotte Bront\u00eb (Marie France Pisier), em seu camarote.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/player.vimeo.com\/video\/34367327\" width=\"640\" height=\"384\" frameborder=\"0\" title=\"As irm&atilde;s Bront&euml; - Participa&ccedil;&atilde;o de Roland Barthes\" webkitallowfullscreen mozallowfullscreen allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em 1991, T\u00e9chine dirigiu o filme\u00a0<em>Eu n\u00e3o beijo\u00a0<\/em>(<em>J\u2019embrasse pas<\/em>), assumindo Barthes como inspira\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do personagem Romain.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestas f\u00e9rias, li\u00a0Di\u00e1rio de Luto, de Roland Barthes, editado recentemente em portugu\u00eas, com tradu\u00e7\u00e3o de Leyla Perrone-Mois\u00e9s. \u00c9 um conjunto de pequenas anota\u00e7\u00f5es iniciadas em outubro de 1977, um dia ap\u00f3s o falecimento de sua m\u00e3e, e que se estendem at\u00e9 setembro de 1979, seis meses antes de sua pr\u00f3pria morte. 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