{"id":3022,"date":"2011-11-28T05:39:04","date_gmt":"2011-11-28T05:39:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=3022"},"modified":"2016-05-28T13:22:33","modified_gmt":"2016-05-28T13:22:33","slug":"nascimentos-fotograficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/nascimentos-fotograficos\/","title":{"rendered":"Nascimentos fotogr\u00e1ficos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3030\" style=\"width: 467px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=3030\" rel=\"attachment wp-att-3030\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3030\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3030\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/The-Great-Nebula-in-Andromeda-Keeler-James-Edward-b.1857-19001.jpg\" width=\"457\" height=\"600\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3030\" class=\"wp-caption-text\">Nebulosa em Andr\u00f4meda, James Keeler, 1899<\/p><\/div>\n<p>Nos <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?cat=470\" target=\"_blank\">dois \u00faltimos coment\u00e1rios aqui no Ic\u00f4nica<\/a> tratei de nascimentos fotogr\u00e1ficos. O que seria necess\u00e1rio para nascerem fotografias? <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2538\" target=\"_blank\">Um anjo, talvez um gar\u00e7om ou, ainda, um desencontro<\/a>. Dos gar\u00e7ons \u00e0s <a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2828\" target=\"_blank\">imagens-cigarras<\/a>, as origens fotogr\u00e1ficas foram pensadas como constela\u00e7\u00f5es temporais, fagulhas dispersas vindas de dire\u00e7\u00f5es temporais diferentes. \u00c0s vezes uma fotografia nasce pela for\u00e7a de futuro, outras vezes pela insist\u00eancia do presente: existo, existo, existo \u2013 resisto. H\u00e1, no entanto, fotografias que surgem porque o que j\u00e1 n\u00e3o existe persiste como fantasma, do mesmo modo que a estrela que, separada pelos milh\u00f5es de anos luz \u2013 s\u00f3 encontra sua imagem quando j\u00e1 silenciada. A estrela sobrevive na imagem gra\u00e7as ao impulso de um passado que deseja viver no futuro e que pressiona em dire\u00e7\u00e3o a ele. Ela, no entanto, s\u00f3 pode ser vista (e existir) por um olhar que, no futuro, se volta em dire\u00e7\u00e3o ao passado. A imagem est\u00e1vel da estrela \u00e9, na realidade, err\u00e2ncia permanente; luz imanente de objetos inexistentes, estrelas mortas cuja lumin\u00e2ncia \u00e9 mais viva do que nunca e cuja visibilidade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando os impulsos temporais (do passado, do presente e do futuro) se tocam e se tornam indiscern\u00edveis, deixando de se organizar por cronologia para se corresponder em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_3031\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/PSM_V58_D032_Nebulous_mass_in_cygnus_photographed_by_the_lick_observatory1.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3031\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-3031 \" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/PSM_V58_D032_Nebulous_mass_in_cygnus_photographed_by_the_lick_observatory-360x439.png\" width=\"360\" height=\"439\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3031\" class=\"wp-caption-text\">Nebulosa em Cygnus, c.1900.<\/p><\/div>\n<p>A constela\u00e7\u00e3o de origens fotogr\u00e1ficas est\u00e1 fundada sobre vetores de idades diferentes, que, embora aparentemente simult\u00e2neos e est\u00e1veis, prov\u00eam de tempos diversos. Ela parece nascer da ader\u00eancia ao presente: as fotografias est\u00e3o l\u00e1 n\u00edtidas como as estrelas, vivas diante de n\u00f3s. Mas a origem de uma constela\u00e7\u00e3o estelar n\u00e3o \u00e9 concomitante ao presente: seus elementos constitutivos s\u00e3o heterog\u00eaneos e vivem tempos desencontrados. Aparentemente est\u00e1ticos, s\u00e3o, na realidade, impulsos temporais indiscern\u00edveis, continuamente presentes e continuamente moventes. Perceber os nascimentos fotogr\u00e1ficos como constela\u00e7\u00f5es \u00e9 afirmar a suspens\u00e3o que a fotografia opera como inscri\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia \u00e0 mutabilidade, de um passado movente presente. Do futuro para o passado transita a imagem, do presente para o passado se volta o olhar: impulsos temporais que fazem da fotografia esse tr\u00e2nsito tal qual a imagem im\u00f3vel da estrela. Trata-se da instabilidade que assegura \u00e0 fotografia ter-se tornado, durante seu percurso, uma imagem temporal por excel\u00eancia. Detida, como pensou Pedro Miguel Frade, confinada e transbordante, a imagem fotogr\u00e1fica constituiu-se como uma dura\u00e7\u00e3o sustada e vital, atual e virtual.<\/p>\n<p>O desejo de pensar nascimentos fotogr\u00e1ficos pode fazer lembrar aquele desejo ontol\u00f3gico de Barthes: ele desejava saber o que a fotografia era em si, a fotografia contra o cinema, o irredut\u00edvel fotogr\u00e1fico. A genialidade de Barthes percebe, no entanto, a impossibilidade de tratar A Fotografia. Era preciso tratar de fotografias, no plural. Se as teorias n\u00e3o davam conta de pensar o espanto de Barthes diante da Foto (estavam perto ou longe demais dela), sua busca tomava como ponto de partida apenas algumas fotos, aquelas cuja exist\u00eancia para ele lhe era certa. Nada a ver com um <em>corpus<\/em>, apenas com alguns corpos&#8230;. E as fotografias que existiam para ele, eram aquelas de que ele gostava. As que provocam j\u00fabilos: bens er\u00f3ticos pontiagudos. \u201cEIS-ME AQUI como MEDIDA do saber fotogr\u00e1fico\u201d, dizia Barthes.\u00a0 E ele, a partir das fotos, perseguia e inventava uma ci\u00eancia do sujeito, cujo nome pouco importava, desde que alcan\u00e7asse generalidade que nem o reduzisse nem o esmagasse.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o realizada por Barthes \u2013 que o faz encontrar a imagem \u201clouca com tintura de real\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9, entretanto, exatamente a mesma que faz pensar em nascimentos fotogr\u00e1ficos. Se a ontologia fixa o ser fotogr\u00e1fico, pensar atrav\u00e9s de constela\u00e7\u00f5es temporais \u00e9 supor consequentemente um processo de mudan\u00e7a permanente em que se interpenetram e se entrela\u00e7am aspectos diversos ao longo de uma constitui\u00e7\u00e3o eminentemente temporal. Investigar o que seria necess\u00e1rio para nascerem fotografias exige dois movimentos complementares. Em primeiro lugar, supor uma quase estabilidade a partir de \u201cideia de fotografia\u201d. Algo que lhe possibilite existir como campo do pensamento, objeto de estudo eminentemente temporal. N\u00e3o se trata nem de supor uma g\u00eanese autom\u00e1tica, nem uma ontologia, tampouco uma instabilidade geral que inviabilize o pensamento. Trata-se antes de pensar a fotografia em sua positividade.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, talvez seja necess\u00e1rio desviar das teorias contempor\u00e2neas segundo as quais o fotogr\u00e1fico n\u00e3o apresentaria qualquer estabilidade; n\u00e3o poderia haver nenhuma antropologia m\u00ednima na experi\u00eancia fotogr\u00e1fica, tampouco nenhuma unidade hist\u00f3rica. Desde a d\u00e9cada de 1980, cr\u00edticos e historiadores da arte rejeitam as an\u00e1lises da singularidade fotogr\u00e1fica, defendendo que relevante seria pensar suas interse\u00e7\u00f5es com outras m\u00eddias, seu hibridismo e rela\u00e7\u00f5es expandidas. Como afirmou Phillipe Dubois, n\u00e3o interessaria mais definir o que \u00e9 a fotografia, \u201cpois j\u00e1 se falou sobre isso nos anos 80 e porque esta n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o que se coloque em \u00e1rea nenhuma, nem no cinema, nem na fotografia\u201d. Tamb\u00e9m John Tagg, historiador da arte, defendeu a ideia de que as fotografias seriam t\u00e3o diferentes entre si, que dificilmente nelas poder\u00edamos encontrar marca comum: \u201cn\u00e3o existe isto de a fotografia como tal, uma m\u00eddia comum. Existem diferentes \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o, diferentes pr\u00e1ticas institucionalizadas, diferentes discursos (&#8230;) sua hist\u00f3ria n\u00e3o tem unidade\u201d. Em seu entendimento, \u201ca fotografia carece de identidade. Sua natureza como pr\u00e1tica depende de a institui\u00e7\u00e3o e dos agentes que a definem e a utilizam (&#8230;) O que devemos estudar \u00e9 o campo, n\u00e3o a fotografia como tal\u201d. Trata-se de discurso cada vez mais recorrente acerca da fotografia que a sup\u00f5e incapaz de produzir por si qualquer coisa, como se fosse esponja ou metal condutor, que s\u00f3 transmitisse atitudes anteriores a ela.<\/p>\n<p>Pensar uma quase estabilidade n\u00e3o significa, entretanto, pensar uma hist\u00f3ria lisa; ao contr\u00e1rio, exige que se perceba, sobretudo, a complexa, vertiginosa e, \u00e0s vezes, paradoxal rela\u00e7\u00e3o que a fotografia estabeleceu com o tempo, no tempo. Investigar o que seria necess\u00e1rio para nascerem fotografias exige uma segunda opera\u00e7\u00e3o: introduzir nessa \u201cquase estabilidade\u201d a err\u00e2ncia \u2013 a dura\u00e7\u00e3o como fundamento da experi\u00eancia fotogr\u00e1fica; o devir como parte de sua constitui\u00e7\u00e3o. Exige identificar uma singularidade que a atravessa, mas que tamb\u00e9m se transforma. O que a fotografia veio a ser, o que fez as fotografias nascerem s\u00e3o fagulhas temporais que se modificam com o pr\u00f3prio tempo. Os anjos do tempo, as brisas fotogr\u00e1ficas sopradas pelos gar\u00e7ons, as imagens-cigarras s\u00e3o imagens de uma certa <em>ideia<\/em> de fotografia, uma \u201cquase estabilidade\u201d que serve de par\u00e2metro para que sejam vislumbradas as dimens\u00f5es das altera\u00e7\u00f5es e os deslocamentos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Por isso a foto do casal tirada pelo gar\u00e7om: a precariedade daquela foto imagin\u00e1ria fazia uma certa ideia de fotografia existir para mim do mesmo modo que Barthes fazia uma ci\u00eancia do sujeito partir da fotografia do jardim de inverno (em que reencontrava sua verdadeira m\u00e3e na imagem de quando ela tinha apenas oito anos). Essa fotografia teria nascido duas vezes: primeiro, no instante do <em>click<\/em>, quando o sopro do anjo do tempo ventou a primeira fotografia; depois, quando a precariedade da imagem possibilitou o reencontro com o que nela j\u00e1 n\u00e3o mais existia. Nesse reencontro a imagem se fez diferente \u2013 mesma e renovada, brilhando como as estrelas que j\u00e1 n\u00e3o existem mais quando, de fato, elas existem para n\u00f3s. Duas fotografias numa fotografia. Dois nascimentos e, ainda, a pot\u00eancia de infinitos nascimentos futuros que n\u00e3o s\u00e3o, entretanto, meramente produzidos pelo presente, pois que emergem e v\u00eam \u00e0 luz porque, de algum modo, infiltraram-se em sua funda\u00e7\u00e3o. Essa certa ideia de fotografia desenha uma estabilidade movente: me faz pensar sobre o que a fotografia foi e o que ela ser\u00e1.<\/p>\n<p>Pensar o que seria necess\u00e1rio para haver fotografia parece, na realidade, relacionar-se ao enigma da visibilidade fotogr\u00e1fica. Fotografias nascem quando se tornam leg\u00edveis. Por isso pode nascer infinitas vezes a mesma e diferente fotografia. E, pensando com Walter Benjamin, \u00a0atingir essa \u201clegibilidade\u201d constitui um determinado ponto cr\u00edtico espec\u00edfico de movimento de determinada \u00e9poca. Todo presente \u00e9 determinado pelas imagens que lhe s\u00e3o sincr\u00f4nicas. A legibilidade dessa temporalidade se d\u00e1 no entrela\u00e7amento de uma experi\u00eancia hist\u00f3rica da fotografia e uma experi\u00eancia fotogr\u00e1fica do tempo. Cada fotografia parece dilatar, comprimir, explicitar, ocultar, de maneira singular e \u00fanica, aquilo que s\u00f3 se faz leg\u00edvel historicamente. \u00c9 somente na transfotografia, no atravessamento das imagens, que a temporalidade fotogr\u00e1fica parece dar-se a revelar. Ser\u00e1, no entanto, que tais possibilidade continuam leg\u00edveis para n\u00f3s? O que faz a fotografia existir hoje seria o mesmo que sustentou sua exist\u00eancia moderna \u2013 quando se constituiu como devir de tens\u00f5es temporais?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes uma fotografia nasce pela for\u00e7a de futuro, outras vezes pela insist\u00eancia do presente: existo, existo, existo \u2013 resisto. H\u00e1, no entanto, fotografias que surgem porque o que j\u00e1 n\u00e3o existe persiste como fantasma, do mesmo modo que a estrela que, separada pelos milh\u00f5es de anos luz \u2013 s\u00f3 encontra sua imagem quando j\u00e1 silenciada. A estrela sobrevive na imagem gra\u00e7as ao impulso de um passado que deseja viver no futuro e que pressiona em dire\u00e7\u00e3o a ele. Ela, no entanto, s\u00f3 pode ser vista (e existir) por um olhar que, no futuro, se volta em dire\u00e7\u00e3o ao passado. 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