{"id":2970,"date":"2011-11-14T08:23:40","date_gmt":"2011-11-14T08:23:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2970"},"modified":"2022-12-04T13:10:03","modified_gmt":"2022-12-04T13:10:03","slug":"a-fotografia-e-seus-duplos-parte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-fotografia-e-seus-duplos-parte-3\/","title":{"rendered":"A fotografia e seus duplos III"},"content":{"rendered":"<p>Por meio do duplo a fotografia interroga-se sobre sua hist\u00f3ria e a respeito do papel que lhe cabe no mundo. Uma das formas recorrentes do duplo fotogr\u00e1fico \u00e9 colocar em cena as rela\u00e7\u00f5es entre a fotografia e outros modos de aparecer das imagens. Em 15\/02\/1937, a p\u00e1gina 9 da revista <em>Life\u00a0<\/em><span class=\"Apple-style-span\" style=\"text-align: -webkit-auto;\">estampou uma das fotos mais famosas de Margaret Bourke-White: diante de um outdoor onde a fam\u00edlia branca sorridente viaja de f\u00e9rias em seu carro, uma fila de homens e mulheres negros, refugiados das enchentes em Louisville (naquele ano, as cheias dos rios Ohio e Mississipi haviam produzido quase um milh\u00e3o de desabrigados). O texto que lhe serve de legenda enuncia: \u201cA inunda\u00e7\u00e3o deixa suas v\u00edtimas na fila do p\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_2971\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/B-W1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2971\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2971 size-large\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/B-W-674x900.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"900\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2971\" class=\"wp-caption-text\">Margaret Bourke-White. Louisville, Kentucky, 1937<\/p><\/div>\n<p>Na <em>Life<\/em>, os fot\u00f3grafos eram as estrelas \u2013 a ponto dos escritores estarem freq\u00fcentemente encarregados de carregar as malas e equipamentos dos colegas. Conta-se que, no caso de Bourke-White, o rep\u00f3rter tinha a obriga\u00e7\u00e3o adicional de lavar-lhe roupas. A fot\u00f3grafa era conhecida pelas proezas e riscos que corria, e pelo modo como compunha cenas com a mesma firmeza com que um diretor de cinema comandaria o set de filmagem: trabalhava com v\u00e1rios flashes sincronizados; seus assistentes interrompiam o tr\u00e2nsito, se necess\u00e1rio; e ela n\u00e3o hesitava em orientar as pessoas sobre onde deviam sentar-se ou para onde olhar. Tida como a \u201cmais famosa rep\u00f3rter fotogr\u00e1fica do mundo\u201d, Bourke-White rivalizava em fama com atrizes de Hollywood e posava de garota-propaganda de companhias a\u00e9reas, vinhos californianos, telefones e cigarros Camel.<\/p>\n<p>A fotografia da enchente em Louisville \u00e9 de f\u00e1cil leitura e grande impacto: exatamente as qualidades que Bourke-White procurava reunir em suas imagens. A ironia do contraste entre a fam\u00edlia branca motorizada e os negros desabrigados \u00e9 acentuada pelos dizeres do outdoor: uma faixa adornada com estrelas proclama que os Estados Unidos t\u00eam o \u201cmais alto padr\u00e3o de vida do mundo\u201d; e uma anota\u00e7\u00e3o em letra cursiva prov\u00e9m diretamente da experi\u00eancia da fam\u00edlia, atestando que <em>\u201cThere\u2019s no way like the American Way\u201d. <\/em>Por\u00e9m, esse jogo de contrastes n\u00e3o esgota a for\u00e7a desta fotografia: no momento em que o carro do outdoor \u00e9 capturado pelo flagrante fotogr\u00e1fico, o ve\u00edculo ganha velocidade. E com o aux\u00edlio da teleobjetiva acoplada \u00e0 c\u00e2mera Linhof, Bourke-White nos mostra que o acidente \u00e9 iminente, que os pedestres na fila do p\u00e3o ser\u00e3o atropelados, e que desse terr\u00edvel desastre talvez escape apenas o cachorrinho. A inunda\u00e7\u00e3o de Louisville, tal fotografia nos sugere, \u00e9 apenas mais uma entre tantas mazelas pelas quais passam os negros da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Bourke-White n\u00e3o entendia que as justaposi\u00e7\u00f5es ir\u00f4nicas de suas imagens resultassem de alguma habilidade construtiva particular. As ironias j\u00e1 estavam presentes no mundo, sustentava, como uma esp\u00e9cie de ret\u00f3rica espont\u00e2nea. Os outdoors <em>There\u2019s no way&#8230; <\/em>estavam espalhados pelas estradas e eram parte de uma campanha publicit\u00e1ria promovida pela maior entidade patronal da ind\u00fastria norte-americana, a NAM (<em>National Association of Manufacturers<\/em>). Seu objetivo, segundo o historiador da fotografia John Tagg, era angariar apoio junto ao \u201cp\u00fablico\u201d contra as leis de prote\u00e7\u00e3o ao trabalho \u2013 que vinham sendo progressivamente propostas e implantadas no \u00e2mbito do <em>New Deal <\/em>\u2013 e as greves de trabalhadores organizadas pela <em>American Federation of Labor<\/em>. Afinal, como dizia o slogan de uma campanha patronal anterior: \u201ca prosperidade mora onde reina a harmonia.\u201d<\/p>\n<p>Neste momento nos damos conta que a intrincada superposi\u00e7\u00e3o de imagens e textos desta fotografia n\u00e3o se esgota na cr\u00edtica social.\u00a0 A foto de Bourke-White n\u00e3o trata apenas apreender um real que se apresenta como tal, mas de encenar seu confronto com o imagin\u00e1rio, representado pelas personagens do cartaz. Neste duelo, o outdoor revela-se um rid\u00edculo mercador de ilus\u00f5es cuja efic\u00e1cia fragiliza-se diante do mero confronto com a realidade. Nesta p\u00e1gina hist\u00f3rica, Bourke-White e a <em>Life<\/em> celebram a superioridade moral da fotografia sobre a ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_2972\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/AK1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2972\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2972 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/AK-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2972\" class=\"wp-caption-text\">Andr\u00e9 Kert\u00e9sz. Nova York, 1951<\/p><\/div>\n<p>De fato, em fins da d\u00e9cada 1930, o documentarismo j\u00e1 come\u00e7ara a construir seu c\u00e2none e as revistas ilustradas transformavam fot\u00f3grafos em her\u00f3is populares. Segura de si mesma, a fotografia, empurrava a ilustra\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica para o fundo da cena. Como a tela de um teatro mambembe, serve agora apenas de contraste para a performance dos verdadeiros atores. Pouco mais de uma d\u00e9cada depois &#8211; d\u00e9cada, por\u00e9m, que valeu por meio s\u00e9culo, pois abriga a cat\u00e1strofe da Segunda Grande Guerra \u2013 Andr\u00e9 Kert\u00e9sz realiza mais uma de suas naturezas mortas. A foto n\u00e3o busca aqui o contraste com a pintura, antes lhe toma um de seus motivos mais caracter\u00edsticos. A pr\u00f3pria materialidade da pintura comparece, adornando a parede que serve de fundo \u00e0 fruteira em primeiro plano.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de Kert\u00e9sz n\u00e3o \u00e9 opor fotografia e pintura \u2013 tal como havia feito Bourke-White \u2013, mas estabelecer entre ambas um estranho jogo de reciprocidades e interc\u00e2mbios. Quem buscasse interpretar esta imagem a partir dos mesmos procedimentos ret\u00f3ricos utilizados pela estrela da <em>Life<\/em>, poderia ver ali a fotografia <em>desenquadrando<\/em> a pintura. Ou, inversamente, o fracasso da fotografia que, a despeito de produzir belas obras, permaneceria atavicamente presa ao mundo real \u201cfora da moldura\u201d, sendo, por este motivo, discriminada e subestimada no campo das artes.<\/p>\n<p>Mas tudo isso \u00e9 insuficiente. A trama de sentidos montada por Kert\u00e9sz \u00e9 todavia mais complexa que a de Bourke-White. Esta singela natureza-morta faz parte do livro <em>On Reading<\/em> [<em>Sobre a leitura<\/em>], reuni\u00e3o de fotos de pessoas lendo que o fot\u00f3grafo realizara ao longo de muitas d\u00e9cadas. Sim, h\u00e1 algu\u00e9m lendo nesta imagem, mas n\u00e3o foi o dispositivo fotogr\u00e1fico que a surpreendeu neste estado, mas a pr\u00f3pria pintura. Sentada \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, a mo\u00e7a se deixa \u201cflagrar\u201d absorta na leitura. Enquanto no caso do atropelamento da fila do p\u00e3o, as temporalidades da ilustra\u00e7\u00e3o e da fotografia convergem para um \u00fanico instante, na foto de Kert\u00e9sz elas se confundem: a eternidade da natureza-morta agora habita a fotografia, enquanto a pintura absorve as qualidades do instant\u00e2neo que interrompe o curso de uma a\u00e7\u00e3o. E, como para tornar esse contrabando de temporalidades ainda mais <em>complicado<\/em>, pode-se suspeitar que as frutas da natureza morta tamb\u00e9m estejam presentes no cesto que a jovem leitora tem a seu lado. Teriam sido rec\u00e9m-colhidas mo\u00e7a, que agora descansa? Ou ela as levou consigo para prolongar mais seu passeio?<\/p>\n<p>Por quanto tempo essa condi\u00e7\u00e3o de fraterno interc\u00e2mbio entre fotografia e pintura, que essa imagem encena, ir\u00e1 perdurar? Ter\u00e1 de fato existido algum dia? Ou testemunhamos aqui apenas o desejo de um fot\u00f3grafo que desde sua emigra\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos, em 1936, s\u00f3 recebia encomendas de revistas de segunda linha, do tipo <em>Casa e Jardim<\/em>? Quando comp\u00f4s esta natureza morta, Kert\u00e9sz estava h\u00e1 cinco anos sem expor uma s\u00f3 fotografia sequer, e ainda teria que amargar mais onze anos de ostracismo (Steichen o deixou de fora de <em>The Family of Man<\/em>). Nunca conseguiu aprender bem o ingl\u00eas e certa vez um editor criticou suas imagens por \u201cfalarem demais\u201d. Mas, em contraste com a enchente de Louisville, a <em>Natureza-morta, 1951<\/em> \u00e9 peculiarmente silenciosa. A fotografia de Bourke-White est\u00e1 repleta de palavras que aviltam ainda mais a situa\u00e7\u00e3o por que passam as vitimas das inunda\u00e7\u00f5es. A de Kert\u00e9sz, a despeito de tematizar a leitura, mant\u00e9m ocultas as palavras, transformando cada fotografia de seu ensaio em oportunidade de mergulharmos nesta experi\u00eancia de interioridade \u00e0 qual literatura esteve t\u00e3o associada.<\/p>\n<p>No mundo <em>Life<\/em> de Bourke-White, as imagens talvez fossem capazes de dizer tudo. As palavras se tornariam ociosas ou transformar-se-iam elas pr\u00f3prias tamb\u00e9m em imagens, como sucede aos dizeres do outdoor. Por\u00e9m, tal qual Proust, Kert\u00e9sz prefere debru\u00e7ar-se sobre os \u201clivros de outrora\u201d. Escolheu voltar a folhe\u00e1-los como calend\u00e1rios dos \u201cdias perdidos\u201d, na esperan\u00e7a ver refletidas em suas p\u00e1ginas \u201cas habita\u00e7\u00f5es e os lagos que n\u00e3o existem mais\u201d.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m a &#8220;<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2396\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">parte 1<\/a>&#8221; e a &#8220;<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2656\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">parte 2<\/a>&#8221; da s\u00e9rie &#8220;A fotografia e seus duplos&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por meio do duplo a fotografia interroga-se sobre sua hist\u00f3ria e a respeito do papel que lhe cabe no mundo. Uma das formas recorrentes do duplo fotogr\u00e1fico \u00e9 colocar em cena as rela\u00e7\u00f5es entre a fotografia e outros modos de aparecer das imagens. Em 15\/02\/1937, a p\u00e1gina 9 da revista Life estampou uma das fotos mais famosas de Margaret Bourke-White: diante de um outdoor onde a fam\u00edlia branca sorridente viaja de f\u00e9rias em seu carro, uma fila de homens e mulheres negros, refugiados das enchentes em Louisville (naquele ano, as cheias dos rios Ohio e Mississipi haviam produzido quase um milh\u00e3o de desabrigados). O texto que lhe serve de legenda enuncia: \u201cA inunda\u00e7\u00e3o deixa suas v\u00edtimas na fila do p\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":2971,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[838,829,885],"tags":[480,514,566],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2970"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2970"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2970\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12186,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2970\/revisions\/12186"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}