{"id":292,"date":"2009-11-16T03:37:32","date_gmt":"2009-11-16T03:37:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=292"},"modified":"2017-03-01T12:30:49","modified_gmt":"2017-03-01T12:30:49","slug":"a-primeira-noticia-sobre-a-fotografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/a-primeira-noticia-sobre-a-fotografia\/","title":{"rendered":"A primeira not\u00edcia sobre a fotografia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/GazetteDeFrance03.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3803\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/GazetteDeFrance03-620x606.jpg\" width=\"620\" height=\"606\" \/><\/a>O artigo, escrito pelo jornalista Hippolyte\u00a0Gaucheraud, adota uma postura empolgada e quase propagand\u00edstica, apesar de expor algumas limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da nova imagem. Responde provavelmente a uma estrat\u00e9gia de divulga\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o do daguerre\u00f3tipo articulada por Daguerre e o pol\u00edtico e cientista Fran\u00e7ois\u00a0Arago, que defendeu a descoberta junto ao poder p\u00fablico Franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante \u2013 apesar de \u00f3bvio \u2013 notar a falta de um vocabul\u00e1rio para descrever a fotografia, e o modo como o autor se esfor\u00e7a com termos ligados \u00e0 pintura, ao desenho e \u00e0 gravura para explicar ao p\u00fablico o que eram as imagens que tinha visto em primeira m\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais literal poss\u00edvel. No meio do texto, alguns par\u00eanteses meus. E, ao final, algumas breves refer\u00eancias hist\u00f3ricas do que aconteceu depois.<\/p>\n<blockquote><p>BELAS ARTES<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Nova descoberta<\/strong><\/p>\n<p>Por \u00a0H. Gaucheraud<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anunciamos uma importante descoberta de nosso c\u00e9lebre pintor de diorama Sr. Daguerre. \u00c9 uma descoberta prodigiosa. Ela desconcerta todas as teorias da ci\u00eancia sobre a luz e sobre a \u00f3tica, e far\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o na arte do desenho.<\/p>\n<p>O Sr. Daguerre encontrou um meio de fixar imagens que v\u00eam se pintar sobre o fundo de uma c\u00e2mera escura; de tal modo que as imagens n\u00e3o s\u00e3o mais o reflexo passageiro dos objetos, mas sua impress\u00e3o fixa e duradoura, podendo se transportar para longe da presen\u00e7a dos objetos como um quadro ou uma estampa.<\/p>\n<p>Imagine-se a fidelidade da imagem da natureza reproduzida pela c\u00e2mera escura e some-se a isso o trabalho dos raios solares que fixam essa imagem, com todas as suas nuances de luzes, de sombra, de meios-tons, e teremos uma id\u00e9ia dos belos desenhos que Sr. Daguerre exp\u00f4s a nossa curiosidade. N\u00e3o \u00e9 sobre o papel que Sr. Daguerre pode operar, s\u00e3o-lhes necess\u00e1rias placas de metal polido. \u00c9 sobre o cobre que vimos diferentes vistas de boulevares, a Ponte Marie e seus entornos, e tantos outros lugares mostrados com uma veracidade que s\u00f3 a natureza pode dar \u00e0s suas obras. O Sr. Daguerre lhe mostra a pe\u00e7a de cobre nua, ele a coloca na sua frente dentro de seu equipamento e, ao final de tr\u00eas minutos, se temos um sol de ver\u00e3o, ou alguns [minutos] mais, se o outono ou inverno enfraquecem a for\u00e7a dos raios solares,\u00a0 ele retira o metal e o mostra coberto de um desenho arrebatador que representa o objeto na dire\u00e7\u00e3o do qual apontou o equipamento. Trata-se apenas de uma curta opera\u00e7\u00e3o de banhos, creio eu, e eis que a vista constru\u00edda em t\u00e3o curto instante torna-se invariavelmente fixado, e de modo que o sol mais ardente n\u00e3o a poder\u00e1 mais destruir.<\/p>\n<p>Os Srs. Arago, Biot e Humboldt constataram a autenticidade dessa descoberta, que despertou neles admira\u00e7\u00e3o, e o Sr. Arago a far\u00e1 conhecer na Academia das Ci\u00eancias dentro de poucos dias.<\/p>\n<p>Deseja outros detalhes? A\u00ed est\u00e3o alguns mais.<\/p>\n<p>A natureza em movimento n\u00e3o pode ser reproduzida, ou n\u00e3o poderia a n\u00e3o ser com grande dificuldade pelo processo em quest\u00e3o. Em uma das vistas da qual falei do Boulevard, ocorreu que todos os que caminhavam ou se movimentavam n\u00e3o tiveram lugar no desenho, dos dois cavalos atrelados na esta\u00e7\u00e3o, infelizmente, um deles balan\u00e7ou a cabe\u00e7a durante a curta opera\u00e7\u00e3o, e o animal est\u00e1 sem cabe\u00e7a no desenho. As \u00e1rvores se mostram muito bem, mas sua cor, ao que parece, imp\u00f5e obst\u00e1culos quando os raios solares a reproduzem com a mesma rapidez com que faz com as casas e outros objetos de cores diferentes. \u00c9 uma dificuldade para a paisagem, porque h\u00e1 uma regulagem fixa para a perfei\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores e da cor verde, e outra para aquilo que tem outras cores, que n\u00e3o a verde. Resulta, de fato, que enquanto as casas s\u00e3o alcan\u00e7adas, as \u00e1rvores n\u00e3o; e quando se alcan\u00e7a as \u00e1rvores, \u00e9 demasiado para as casas.<\/p>\n<p>A natureza morta, a arquitetura, a\u00ed est\u00e1 o triunfo do equipamento ao qual o Sr. Daguerre quer batizar, a partir de seu nome, de Daguer\u00f3tipo [no original, Daguerotype, em vez de Daguerreotype]. Uma aranha morta, vista no microsc\u00f3pio solar [supostamente, Daguerre chegou a fazer fotografias microsc\u00f3picas e telesc\u00f3picas, destru\u00eddas num inc\u00eandio em seu laborat\u00f3rio, em 8\/3\/1839], \u00e9 de uma tal riqueza de detalhes no desenho, que com ele poder\u00edamos estudar sua anatomia, e sem lupa, como fazemos com a natureza mesma. N\u00e3o h\u00e1 nem um fio, nem um vaso, por t\u00eanue que seja, que n\u00e3o se possa seguir e examinar. Viajantes, voc\u00eas logo poder\u00e3o, talvez, com algumas centenas de Francos, adquirir o equipamento inventado pelo Sr. Daguerre, e poder\u00e3o trazer para a Fran\u00e7a os mais belos monumentos, os mais belos lugares do mundo inteiro. Voc\u00eas ver\u00e3o o quanto seus l\u00e1pis e seus pinc\u00e9is est\u00e3o longe da veracidade do Daguer\u00f3tipo. No entanto, que os desenhistas e pintores n\u00e3o se desesperem, os resultados do Sr. Daguerre s\u00e3o algo diferente de seus trabalhos e, por melhor que seja, n\u00e3o pode substitu\u00ed-los.<\/p>\n<p>Se eu quisesse fazer uma compara\u00e7\u00e3o dos efeitos trazidos pelo novo procedimento, diria que s\u00e3o como a gravura a buril ou a gravura em negro [mezzo-tinto], mais para esta \u00faltima. Quanto \u00e0 veracidade, est\u00e3o acima de tudo.<\/p>\n<p>Falei apenas da descoberta sob o ponto de vista da arte nesta curta exposi\u00e7\u00e3o. Se o que me chegou \u00e9 exato, os resultados do Sr. Daguerre devem conduzir a n\u00e3o menos que uma nova teoria sobre um ramo importante da ci\u00eancia. O Sr. Daguerre avisa generosamente que a primeira id\u00e9ia de seu procedimento lhe foi fornecida, h\u00e1 quinze anos, pelo Sr. Nieps [o nome de Ni\u00e9pce aparece grafado exatamente assim], de Chalons-sur-Saone, mas dentro de um tal estado de imperfei\u00e7\u00e3o que foi preciso um longo e obstinado trabalho para alcan\u00e7ar o resultado que ele esperava!<\/p><\/blockquote>\n<p><strong><br \/>\nE depois&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Em 7 de janeiro, um dia ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o desse texto, Arago exibe a descoberta para a Academia Francesa de Ci\u00eancias e prop\u00f5e que o governo franc\u00eas compre a patente para torn\u00e1-la um patrim\u00f4nio p\u00fablico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns meses de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a proposta de Arago \u00e9 aceita e, no dia 19 de agosto de 1839 (que se oficializou como dia da fotografia), ocorreu numa sess\u00e3o especial conjunta da Academia de Ci\u00eancias e da Academia de Belas Artes a solenidade em que Arago descreve detalhadamente o processo do daguerre\u00f3tipo, e em que o governo franc\u00eas formaliza a pens\u00e3o de 6 mil francos anuais para Daguerre, e de 4 mil francos anuais para o filho de Ni\u00e9pce.<\/p>\n<p>Reproduzido alguns dias depois no <em>Journal of the Belles Lettres, Arts, Science, <\/em>de Londres, esse texto provocou algumas rea\u00e7\u00f5es imediatas. O pintor e bot\u00e2nico ingl\u00eas Francis Bauer, que tinha consigo algumas das heliografias de Ni\u00e8pce (incluindo a famosa vista da janela), se esfor\u00e7ou para que fossem reconhecidas as experi\u00eancias pioneiras feitas pelo amigo. Fox-Talbot e John Herschel tamb\u00e9m se manifestaram. Conforme lembra Kossoy, o historiador Pierre G. Harmant chegou a computar um total de 24 pessoas que reivindicaram para si a inven\u00e7\u00e3o da fotografia, Hercules Florence dentre elas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo, escrito pelo jornalista Hippolyte\u00a0Gaucheraud, adota uma postura empolgada e quase propagand\u00edstica, apesar de expor algumas limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da nova imagem. 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