{"id":2891,"date":"2011-11-07T05:10:54","date_gmt":"2011-11-07T05:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2891"},"modified":"2016-05-28T14:11:18","modified_gmt":"2016-05-28T14:11:18","slug":"cadaveres-em-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/cadaveres-em-disputa\/","title":{"rendered":"Cad\u00e1veres em disputa I"},"content":{"rendered":"<p>Entre os gregos antigos, o her\u00f3i precisava ter seus feitos cantados pelos poetas para merecer essa denomina\u00e7\u00e3o. Isso quase sempre lhe custava a vida ainda jovem: a condi\u00e7\u00e3o de seu hero\u00edsmo era a pr\u00f3pria imagem idealizada de sua morte, tal e qual viria a ser desenhada pelo mito. A \u201cbela morte\u201d (kal\u00f2s th\u00e1natos) \u00e9, como sugere o historiador Jean-Pierre Vernant, um dos temas centrais da Il\u00edada de Homero (Vernant, \u201cA bela morte e o cad\u00e1ver ultrajado\u201d).<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, essa imagem seria convocada a participar de guerras futuras, ao lado dos novos her\u00f3is: em Tr\u00f3ia, Aquiles cantou em sua tenda para o jovem Patroclo os feitos de seus antepassados. S\u00e9culos depois, Aquiles reaparecia nas hist\u00f3rias que inspiravam Alexandre, considerado por sua m\u00e3e um descendente direto do her\u00f3i da Il\u00edada.<\/p>\n<p>Se esse hero\u00edsmo inspirador \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que depende da imagem, a pr\u00f3pria imagem do candidato a her\u00f3i ser\u00e1 colocada em disputa.<\/p>\n<div id=\"attachment_2911\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Aquiles-arrastando-Heitor-c.-510-a.C.-Museum-of-Fine-Arts-Boston.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2911\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2911\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Aquiles-arrastando-Heitor-c.-510-a.C.-Museum-of-Fine-Arts-Boston-360x254.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"254\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2911\" class=\"wp-caption-text\">Cer\u00e2mica: Aquiles arrastando o corpo de Heitor, c. 510 a.C. Museu de Belas Artes de Boston<\/p><\/div>\n<p>A \u00e9tica dos antigos exigia que se concedesse \u00e0quele que foi morto em batalha o direito a todas as honras mas, por vezes, no calor da batalha, o vencedor n\u00e3o resistia \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de humilhar o vencido. Os deuses se mobilizaram para compensar a ofensa de Aquiles que, depois de ter matado Heitor, o her\u00f3i troiano, amarrou-o a um cavalo e arrastou seu corpo diante do olhar de seu povo, antes de lev\u00e1-lo para longe para que apodrecesse insepulto. O encontro em que Priamo, pai de Heitor e rei de Tr\u00f3ia, implora a Aquiles o direito de velar seu filho \u00e9 considerado uma das passagens mais comoventes da Il\u00edada. Segundo Vernant, os gregos chamavam de \u201caikia\u201d a a\u00e7\u00e3o de ultrajar o cad\u00e1ver. Como ele diz, \u201co essencial n\u00e3o \u00e9 poder tirar a vida do inimigo, mas despoj\u00e1-lo da bela morte\u201d.<\/p>\n<p>Esse tempo legend\u00e1rio ficou distante, mas as imagens dos inimigos mortos permanecem em disputa. Os her\u00f3is continuam merecendo suas narrativas m\u00edticas, agora, ilustradas com imagens mais expl\u00edcitas que aquela que era constru\u00edda pela palavra do poeta. E a \u201caikia\u201d, a humilha\u00e7\u00e3o do vencido, incorpora igualmente a fotografia e o v\u00eddeo como instrumentos recorrentes, j\u00e1 que r\u00e1pida compreens\u00e3o e difus\u00e3o da imagem se revela um ingrediente poderoso do ultraje. N\u00e3o faltam exemplos c\u00e9lebres, hist\u00f3ricos ou recentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_2907\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/1250981864_antonio_conselheiro.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2907\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2907\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/1250981864_antonio_conselheiro-360x226.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"226\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2907\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f4nio Conselheiro, Canudos, 1897 (foto de\u00a0\u00a0Fl\u00e1vio de Barros)<\/p><\/div>\n<p>Em Canudos, Ant\u00f4nio Conselheiro foi desenterrado para ser fotografado em estado de putrefa\u00e7\u00e3o: \u201cestava hediondo. Envolto no velho h\u00e1bito azul de brim americano, m\u00e3os cruzadas ao peito, rosto tumefacto e esqu\u00e1lido, olhos fundos cheios de terra \u2014 mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida\u201d (Euclides da Cunha, <em>Os Sert\u00f5es<\/em>). Depois, foi enterrado e desenterrado mais uma vez para que sua cabe\u00e7a fosse cortada: \u201ca face horrenda, empastada de escaras e de s\u00e2nie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores&#8230; Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multid\u00f5es em festa, aquele cr\u00e2nio\u201d (<em>Os Sert\u00f5es<\/em>).<\/p>\n<div id=\"attachment_2898\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/altardelampiao-1.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2898\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2898\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/altardelampiao-1-360x264.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"264\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2898\" class=\"wp-caption-text\">Lampi\u00e3o e cangaceiros de seu bando decaptados, 1938<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a c\u00e9lebre a foto das cabe\u00e7as expostas de Lampi\u00e3o e de seu bando. Imagens desse tipo cumprem fun\u00e7\u00f5es diversas. \u00c9 um trof\u00e9u que atesta a supremacia do vencedor, como sugere Eder Chiodetto, respondendo \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o feita por\u00a0<a href=\"http:\/\/paratyemfoco.com\/blog\/2011\/09\/fotografias-para-o-fim-do-mundo-parte-vi\/\" target=\"_blank\">Livia Aquino no blog do Paraty em Foco<\/a>, sobre as imagens que n\u00e3o gostar\u00edamos de deixar para os olhares futuros. Mas a imagem cumpre tamb\u00e9m aqui o papel de exemplo a ser temido pelos adeptos da causa inimiga e de ru\u00eddo lan\u00e7ado sobre a eventual idealiza\u00e7\u00e3o do l\u00edder morto. Muitos poetas cantaram a vida e a morte de Lampi\u00e3o, como fez Chico Science (<em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?feature=player_embedded&amp;v=R_PRHFkLXAY\" target=\"_blank\">Sangue de Bairro<\/a><\/em>):<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quando degolaram minha cabe\u00e7a<br \/>\nPassei mais de dois minutos<br \/>\nVendo o meu corpo tremendo<br \/>\nE n\u00e3o sabia o que fazer<br \/>\nMorrer, viver, morrer, viver!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>A d\u00favida de Lampi\u00e3o vendo seu pr\u00f3prio corpo estribuchando se reflete nesses olhares posteriores que, fequentemente, reviram seu cad\u00e1ver para especular sobre sua condi\u00e7\u00e3o de benfeitor ou bandido.<\/p>\n<div id=\"attachment_2919\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/saddam.not_.blurred.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2919\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2919\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/saddam.not_.blurred-360x270.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"270\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2919\" class=\"wp-caption-text\">Sadam Husseim capturado, 2003<\/p><\/div>\n<p>O mesmo post de Livia Aquino traz ainda outros dois exemplos, ambos ligados \u00e0s guerras no Oriente M\u00e9dio: Felipe Russo e Lua Cruz apagariam as <a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Abu_Ghraib_Abu.jpg\" target=\"_blank\">fotografias feitas na pris\u00e3o de Abu Graib<\/a>, em que soldados norte-americanos transformam prisioneiros de guerra em animais de circo. Gustavo Pelizzon escolheu o <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?feature=player_embedded&amp;v=YVc0kcT9c7c\" target=\"_blank\">v\u00eddeo do enforcamento de Saddam Husseim<\/a> que, tempos antes, j\u00e1 havia sido exposto numa t\u00edpica imagem de celebra\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a, no momento de sua captura.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m para inviabilizar peregrina\u00e7\u00f5es que pudessem transform\u00e1-lo em m\u00e1rtir que o corpo de Osama Bin Laden foi sepultado \u00e0s pressas, em alto mar, pelo ex\u00e9rcito norte-americano. Nesta opera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve espa\u00e7o para rea\u00e7\u00f5es passionais: a captura foi minuciosamente calculada, sobretudo porque exigiu que os EUA invadissem o Paquist\u00e3o, territ\u00f3rio oficialmente amigo. Mas as comemora\u00e7\u00f5es da morte de Bin Laden cobraram imagens a altura do sofrimento gerado pelo 11 de setembro. Como o governo norte-americano resistiu em divulg\u00e1-las, n\u00e3o demorou at\u00e9 que <a href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/world\/2011\/may\/02\/osama-bin-laden-photo-fake\" target=\"_blank\">fotomontagens come\u00e7assem a circular pela internet<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_2922\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/gaddafi-dead.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2922\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2922\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/gaddafi-dead-360x233.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"233\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2922\" class=\"wp-caption-text\">Linchamento de Muammar Gaddafi, 2011<\/p><\/div>\n<p>Mais recentemente, vimos a queda de Muammar Gaddafi. Ao contr\u00e1rio do que ocorreu com Bin Laden, sua captura ocorreu em pleno calor das batalhas, e a circula\u00e7\u00e3o de imagens humilhantes foi inevit\u00e1vel. Os <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wknw5UwClFI&amp;skipcontrinter=1\">v\u00eddeos<\/a> e fotos em que Gaddafi aparece morto e, antes, sendo linchado s\u00e3o bastante expl\u00edcitos.<\/p>\n<p>Gaddafi \u00e9 um caso peculiar porque, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, esfor\u00e7ou-se por substituir a pose de terrorista por outras mais midi\u00e1ticas e folcl\u00f3ricas, alternando fantasias de general, rei mouro, bedu\u00edno ou playboy . Muitos concordar\u00e3o que, n\u00e3o apenas seu passado, mas tamb\u00e9m sua apar\u00eancia grotesca lhe tirava qualquer chance de uma \u201cbela morte\u201d.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o separavam o belo, o verdadeiro e o justo, os antigos j\u00e1 haviam colocado esse problema. Priamo, o rei de Tr\u00f3ia, comoveu seu filho Heitor lembrando que seus cabelos brancos e sua apar\u00eancia velha e decadente inviabilizaria qualquer possibilidade de uma \u201cbela morte\u201d. Aterrorizado, ele imagina seu velho corpo despeda\u00e7ado no campo de batalha, deixado para ser devorado pelos c\u00e3es criados em seu pr\u00f3prio pal\u00e1cio (cf. Vernant, 49). Ser humilhado pelos pr\u00f3prios c\u00e3es parece uma met\u00e1fora precisa do que vimos ocorrer com Gaddafi.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se pode compar\u00e1-lo \u00e0 Priamo. O rei de Tr\u00f3ia assumia que seu corpo tr\u00eamulo e seus cabelos brancos n\u00e3o seriam capazes de dar \u00e0 sua morte uma representa\u00e7\u00e3o a altura da lideran\u00e7a exerceu em vida. Gadaffi acreditava poder sustentar com cirurgias pl\u00e1sticas, tintura de cabelo e seu vestu\u00e1rio ex\u00f3tico a imagem que sua biografia n\u00e3o havia garantido. Incapazes de lutar, Priamo foi encontrado escondido num templo de Zeus, enquanto Gadaffi foi encontrado escondido numa fossa. Ou seja, dentre aqueles que n\u00e3o merecem uma bela morte, ainda parece haver uma hierarquia. Foi assim que as imagens degradantes da captura e da morte de Gaddafi soaram um tanto naturais e puderam ser comemoradas pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Requisitados como exemplos, tanto her\u00f3is como vil\u00f5es jamais descansar\u00e3o em paz, pois a batalha pode ser retomada mesmo quando o significado de suas imagens parece resolvido. Nem o lugar dos vil\u00f5es nem o dos her\u00f3is est\u00e1 garantido, seja nos mitos antigos, seja nos modernos. H\u00e1 sempre uma chance de reviravolta.<\/p>\n<p>Aqueles que hoje dominam a circula\u00e7\u00e3o de imagens em larga escala n\u00e3o deixar\u00e3o de testar seu poder diante de julgamentos que pareciam definitivos. Judas \u00e9 sin\u00f4nimo mais que consolidado de trai\u00e7\u00e3o. Mas, recentemente, a National Geographic assumiu como projeto institucional as pesquisas sobre um tal livro denominado\u00a0<em>C\u00f3dice Tchacos<\/em> (nome da fam\u00edlia de antiqu\u00e1rios que encontrou a rel\u00edquia) que promete mudar essa leitura. Apoiado em dramatiza\u00e7\u00f5es e depoimentos de autoridades cient\u00edficas, a s\u00e9rie exibida em seu canal de TV sugere uma nova vers\u00e3o para os feitos de Judas: Jesus teria arquitetado sua pr\u00f3pria morte, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 sua afirma\u00e7\u00e3o como m\u00e1rtir. Dentre os ap\u00f3stolos, apenas Judas seria fiel e corajoso o bastante para assumir o papel do vil\u00e3o que a hist\u00f3ria pedia. <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1NE-Uuj_fM4&amp;list=PLBD60E3DC56D10D75&amp;index=1&amp;feature=plpp_video\" target=\"_blank\">E assim atesta o programa, logo em sua abertura: \u201caqui o traidor se torna um her\u00f3i\u201d<\/a>.<\/p>\n<p>Che Guevara, mesmo sendo um personagem hist\u00f3rico recente, teve tempo de se tornar uma figura m\u00edtica, morreu jovem e preservou sua bela imagem, como manda a tradi\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is cl\u00e1ssicos. \u00a0Sua ef\u00edgie se tornou emblem\u00e1tica do sonho de levar a revolu\u00e7\u00e3o para al\u00e9m das fronteiras de Cuba, inspirou as lutas contra as ditaduras na Am\u00e9rica Latina e, por fim, se transformou em ornamento corporal de uma juventude cuja apar\u00eancia rebelde j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 atrelada a nenhuma causa. H\u00e1 alguns anos, a revista Veja protestou \u2013 tamb\u00e9m em tom institucional \u2013 contra o culto \u00e0 figura de Che, atacando em duas frentes: de um lado, resgatou detalhes perversos de sua personalidade e, de outro, reivindicou que o momento humilhante de sua rendi\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia fosse lembrado, assim como eram as imagens que lhe conferiam uma aura her\u00f3ica (&#8220;<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/031007\/p_082.shtml\" target=\"_blank\">Che: h\u00e1 quarenta anos morria o homem e nascia a farsa<\/a>&#8220;). Mal percebeu a revista que Che estava fora de combate havia tempos, e que sua imagem tinha sido apaziguada pelo pr\u00f3prio movimento de celebra\u00e7\u00e3o indiscriminada.<\/p>\n<p>A disputa pela imagem de seus personagens c\u00e9lebres apenas transforma em espet\u00e1culo as potencialidades da hist\u00f3ria. Esse jogo de her\u00f3is e vil\u00f5es orientam nossa rela\u00e7\u00e3o com as novas e velhas causas pol\u00edticas, do mesmo modo que as celebridades inspiram as tend\u00eancias de comportamento. Quando suas imagens s\u00e3o convocadas para disputar o lugar estereotipado e eloquente do her\u00f3i ou do vil\u00e3o, \u00e9 porque tais personagens j\u00e1 chegaram derrotados ao nosso tempo. Provavelmente, o sil\u00eancio que resta num velho retrato an\u00f4nimo pode convidar a envolvimentos mais efetivos com a hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os gregos antigos, o her\u00f3i precisava ter seus feitos cantados pelos poetas para merecer essa denomina\u00e7\u00e3o. Isso quase sempre lhe custava a vida ainda jovem: a condi\u00e7\u00e3o de seu hero\u00edsmo era a pr\u00f3pria imagem idealizada de sua morte, tal e qual viria a ser desenhada pelo mito. A \u201cbela morte\u201d (kal\u00f2s th\u00e1natos) \u00e9, como sugere o historiador Jean-Pierre Vernant, um dos temas centrais da Il\u00edada de Homero (Vernant, \u201cA bela morte e o cad\u00e1ver ultrajado\u201d).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2922,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[835,454,838],"tags":[351,386,397,439,549],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2891"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2891"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2891\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8351,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2891\/revisions\/8351"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2922"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}