{"id":2874,"date":"2011-10-31T07:05:51","date_gmt":"2011-10-31T07:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2874"},"modified":"2017-03-01T12:22:38","modified_gmt":"2017-03-01T12:22:38","slug":"fotografias-radiantes-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/fotografias-radiantes-i\/","title":{"rendered":"Fotografias Radiantes I"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 compartilhei experi\u00eancias fotogr\u00e1ficas com pelo menos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Pensando bem, at\u00e9 mais. Convivo com o presente imag\u00e9tico e, posso afirmar, tive viv\u00eancias intensas com o passado a fim de me aproximar, conhecer e difundir as iniciativas est\u00e9ticas destas diferentes gera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, foi necess\u00e1rio pesquisar a hist\u00f3ria da linguagem, diacr\u00f4nica e sincronicamente, para entender em que medida essa produ\u00e7\u00e3o gera resson\u00e2ncia e contribui nos processos de cria\u00e7\u00e3o da nossa fotografia.<\/p>\n<p>Entendo a fotografia como um intenso instante da imagina\u00e7\u00e3o humana mas, seja ela de qualquer tempo e de qualquer lugar, tem que provocar enigmas e encantamentos. Fotografias exigem, na emerg\u00eancia de sua recep\u00e7\u00e3o, atitudes esclarecedoras e inventivas. N\u00e3o importa o que l\u00e1 est\u00e1 representado, e sim a capacidade dessa imagem de engendrar conex\u00f5es imprevistas em nosso sistema cognitivo.<\/p>\n<div id=\"attachment_2875\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Josef-Sudek-Portrait-of-the-Painter-Vaclav-Sivko-1955-F.R.A.C.-Collection-Aquitaine1.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2875\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2875\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Josef-Sudek-Portrait-of-the-Painter-Vaclav-Sivko-1955-F.R.A.C.-Collection-Aquitaine-360x508.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"508\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2875\" class=\"wp-caption-text\">Josef Sudek. Portrait of the Painter Vaclav Sivko, 1955 - F.R.A.C. Collection, Aquitaine<\/p><\/div>\n<p>Para ilustrar, quero lembrar o exemplo encontrado no cl\u00e1ssico e dif\u00edcil livro de James Joyce, <em>Ulisses<\/em>, quando num determinado momento o narrador Stephen Dedalus, ao ver o mar, v\u00ea simultaneamente o olhar de sua m\u00e3e no leito da morte que o encara. Tomando como ponto de partida esse paradoxo \u2013 de que s\u00f3 \u00e9 viva a imagem que ao nos olhar, obriga-nos a olh\u00e1-la verdadeiramente \u2013 \u00e9 que buscarei justificar essa minha prefer\u00eancia por imagens singulares. \u00c9 incr\u00edvel como essas fotografias trazem desconforto e incomodam justamente porque s\u00e3o exigentes com aqueles que as v\u00eaem.<\/p>\n<p>Evidentemente, como vivemos o mundo do excesso de imagens t\u00e9cnicas, s\u00e3o poucas aquelas que nos pedem um olhar diferenciado ou verdadeiro, como disse acima. Em sua maioria, fotografias contempor\u00e2neas buscam revelar alguns vest\u00edgios de provoca\u00e7\u00e3o e essas tentam nos convencer de que s\u00e3o efetivamente ousadas e instigantes. Na verdade, elas s\u00e3o apenas um pouco mais radiantes em meio a uma profus\u00e3o de mesmices familiares que ressoam nos diferentes suportes midi\u00e1ticos poss\u00edveis para sua propaga\u00e7\u00e3o. Mas aquilo que efetivamente desejamos \u2013 olh\u00e1-las verdadeiramente \u2013 fica cada vez mais distante.<\/p>\n<p>No livro <em>Figuras do Espanto \u2013 a fotografia antes da sua cultura<\/em>, do te\u00f3rico portugu\u00eas Pedro Miguel Fadre, o autor defende que nos primeiros anos do seu advento \u201ca fotografia foi \u2013 essencialmente \u2013 objeto de espanto\u201d. Essa id\u00e9ia de um modo geral tem proximidade com a proposta que trago aqui para reflex\u00e3o, ou seja, a fotografia tem que trazer a \u201ccentelha do acaso\u201d, como defende Walter Benjamin, capaz de contrastar com o \u00f3bvio aparente e desencadear perturba\u00e7\u00f5es que faz emergir uma experi\u00eancia perceptiva singular.<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o tem nada a ver com a fotografia dif\u00edcil ou mesmo com a fotografia de choque, de impacto. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 de se ter algo na fotografia capaz de mobilizar o olhar. Existe uma ampla rede de conex\u00f5es afetivas que se concretizam quando utilizamos nossa mem\u00f3ria e nosso repert\u00f3rio para perceber a imagem. Mais ainda, a fotografia acima de tudo, sempre aguarda um leitor, ou seja, olhos que conseguem pressentir a chama do fogo que detona um saber legitimado pela provoca\u00e7\u00e3o engendrada na pr\u00f3pria imagem.<\/p>\n<div id=\"attachment_2876\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Eug\u00e8ne-Atget-Au-Tambour-1908.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2876\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2876\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Eug\u00e8ne-Atget-Au-Tambour-1908-360x478.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"478\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2876\" class=\"wp-caption-text\">Eug\u00e8ne Atget, Au Tambour, 1908<\/p><\/div>\n<p>Por exemplo, vamos analisar a fotografia ao lado, <em>Caf\u00e9 au Tambour<\/em>, de Eug\u00e8ne Atget, realizada em 1908. O curador John Szarkowski compara Atget a C\u00e9zanne, pois ele conseguiu atribuir \u00e0 fotografia uma qualidade inexistente at\u00e9 ent\u00e3o: tratar a fotografia como um meio em estado de permanente refinamento e auto-aperfei\u00e7oamento, fazendo a aparente estabilidade da imagem apontar para uma instabilidade com um equil\u00edbrio interno. Assim como em C\u00e9zanne, o espa\u00e7o da fotografia de Atget \u00e9 o resultado do exerc\u00edcio da d\u00favida dentro da composi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, onde faz reverberar algum estranhamento.<\/p>\n<p>Na fotografia em quest\u00e3o, se nos concentrarmos apenas em um detalhe no centro da imagem, no reflexo do vidro da porta, teremos recortado uma outra fotografia, at\u00e9 mais instigante. Ela mostra as pessoas que est\u00e3o dentro do caf\u00e9 e, entre elas, o reflexo da c\u00e2mera e de parte do corpo do fot\u00f3grafo. Mas onde estaria o fot\u00f3grafo? Para evitar sua apari\u00e7\u00e3o, Atget \u201cmonta\u201d seu corpo na cabe\u00e7a de um velho senhor, criando uma figura deformada e estranha que desequilibra a harmonia da composi\u00e7\u00e3o. Esses pequenos pontos de tens\u00e3o \u2013 essencialmente mobilizadores \u2013 s\u00e3o sutilezas que caracterizam seu trabalho e foi o que assombrou os surrealistas.<\/p>\n<p>Walter Benjamin, ap\u00f3s conhecer o \u00e1lbum <em>Atget, photographe de Paris<\/em>, editado por Berenice Abbott, assistente de Man Ray, ficou encantado com esse fot\u00f3grafo que criou uma atmosfera visual completamente diferente da fotografia urbana difundida at\u00e9 aquele momento. Diante disso, Benjamin entende as fotografias de Atget como \u201cas precursoras da fotografia surrealista, a vanguarda de um \u00fanico destacamento verdadeiramente expressivo que o surrealismo conseguiu por em marcha\u201d. Mas isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Vamos voltar a esta quest\u00e3o em outro momento, ou seja, refletir sobre as fotografias que exigem um olhar mais adensado, que nos permitem entrever processos que talvez possam explicar porque ficamos at\u00f4nitos diante dessas imagens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 compartilhei experi\u00eancias fotogr\u00e1ficas com pelo menos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Pensando bem, at\u00e9 mais. Convivo com o presente imag\u00e9tico e, posso afirmar, tive viv\u00eancias intensas com o passado a fim de me aproximar, conhecer e difundir as iniciativas est\u00e9ticas destas diferentes gera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, foi necess\u00e1rio pesquisar a hist\u00f3ria da linguagem, diacr\u00f4nica e sincronicamente, para entender em que medida essa produ\u00e7\u00e3o gera resson\u00e2ncia e contribui nos processos de cria\u00e7\u00e3o da nossa fotografia. 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