{"id":284,"date":"2009-11-12T15:23:02","date_gmt":"2009-11-12T15:23:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=284"},"modified":"2017-03-01T12:29:50","modified_gmt":"2017-03-01T12:29:50","slug":"o-olhar-incomum-de-walker-evans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-olhar-incomum-de-walker-evans\/","title":{"rendered":"O olhar incomum de WALKER EVANS"},"content":{"rendered":"<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_285\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-285\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-285\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/03w-280x406.jpg\" alt=\"Walker Evans, Signs, NY, 1928-30.\" width=\"280\" height=\"406\" \/><p id=\"caption-attachment-285\" class=\"wp-caption-text\">Walker Evans, Signs, NY, 1928-30.<\/p><\/div>\n<p>Walker Evans (1903, St. Louis, Missouri \u2013 1975, New Haven, Connecticut) sem d\u00favida, uma refer\u00eancia na hist\u00f3ria da fotografia, est\u00e1 presente pela primeira vez em S\u00e3o Paulo, com uma exposi\u00e7\u00e3o individual no MASP, que re\u00fane 113 fotografias que abrangem diferentes per\u00edodos de sua trajet\u00f3ria profissional. A rela\u00e7\u00e3o mais imediata que normalmente se faz com seu trabalho \u00e9 que ele foi um dos fot\u00f3grafos ativos na d\u00e9cada de 1930 no programa da <em>Farm Security Administration (FSA)<\/em>. Mas sua grandeza e sua import\u00e2ncia est\u00e3o muito al\u00e9m disso. Evans \u00e9 acima de tudo um intelectual refinado que se aproximou com muita intensidade da literatura e se conectou com movimentos art\u00edsticos que pontuam sua obra em diferentes momentos. Basta aprofundar um pouco nosso olhar sobre seu percurso para saber, por exemplo, que Evans incorporou o intelectualismo europeu da modernidade e das vanguardas, em particular o contexto liter\u00e1rio que est\u00e1 presente e \u00e9 significativo em sua fotografia. Ele mesmo se denominava \u201cum homem da literatura, influenciado por Flaubert, Baudelaire, Proust, Stendhal, Henry James, Hemingway e acima de tudo James Joyce\u201d.<\/p>\n<p>Influenciado por Eugene Atget, entre outros, sempre rejeitou o r\u00f3tulo de \u201cfine art photographer\u201d. Ali\u00e1s, o trabalho de Walker Evans foi muito mais publicado em livros, cat\u00e1logos e revistas, do que exibido em museus e galerias. Assumiu esse compromisso desde o in\u00edcio de sua carreira, optando por publicar suas imagens. Mesmo assim, tornou-se refer\u00eancia para muitos, entre eles Robert Frank, Lee Friedlander, Diane Arbus, Garry Winogrand, o melhor da fotografia americana produzida entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1970. Robert Frank, por exemplo, se aproximou de Evans desde sua primeira viagem aos EUA, e o tornou seu mentor intelectual. Por sua vez, Evans al\u00e9m de consider\u00e1-lo um jovem talento, foi o respons\u00e1vel (e uma esp\u00e9cie de co-autor secreto) por estimul\u00e1-lo a escrever um projeto \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Guggenheim, do qual era conselheiro. A realiza\u00e7\u00e3o deste projeto ap\u00f3s dois anos e 767 rolos de filmes 35mm, concretizou-se em outro cl\u00e1ssico, o livro <em>Les Am\u00e9ricains<\/em>, com 83 fotografias, em 1958, editado por Robert Delpire.<\/p>\n<p>Walker Evans por sua vez, j\u00e1 era consagrado quando Robert Frank chegou aos EUA pela primeira vez no final dos anos 1940. Foi colaborador da revista Fortune e em 1934 apresentou um vigoroso ensaio sobre o Partido Comunista dos EUA. Mais tarde tornou-se editor associado de fotografia e colaborou at\u00e9 abril de 1965. Entre outras realiza\u00e7\u00f5es, em 1933, sua exposi\u00e7\u00e3o <em>Walker Evans: Photographs of 19th Century Houses<\/em>, foi a primeira individual na hist\u00f3ria institucional do MOMA, apesar de Beaumont Newhall consider\u00e1-la apenas como uma exposi\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 arquitetura e n\u00e3o \u00e0 fotografia. Mas, foi em 1938, com a lend\u00e1ria exposi\u00e7\u00e3o <em>American Photographs<\/em>, resultado das fotografias produzidas nos dois anos anteriores no sul dos EUA, \u00e9 que Walker Evans inscreve seu nome nas artes visuais. Praticamente criou um estilo para a fotografia americana e a mostra \u00e9 considerada a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da fotografia como arte aut\u00f4noma no MOMA.<\/p>\n<p>Em 2008, tive a oportunidade de participar da banca de doutorado de Diana de Abreu Dobranszky, da Unicamp, que pesquisou durante mais de um ano os arquivos do MOMA para sua tese \u201cA legitimiza\u00e7\u00e3o da Fotografia no Museu de Arte: o Museum of Modern Art de Nova York e os anos Newhall no Departamento de Fotografia\u201d, orientada pelo Prof. Dr. Fernando de Tacca. Um exemplar est\u00e1 dispon\u00edvel na Biblioteca do Instituto de Artes da Unicamp e recomendamos fortemente este trabalho pela quantidade e qualidade dos dados reunidos e que discute e relaciona a presen\u00e7a da fotografia no MOMA, ap\u00f3s \u00e1rdua e intensa pesquisa.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que a exposi\u00e7\u00e3o <em>American Photographs<\/em> contempla mais de uma centena de fotografias produzidas ao longo de uma d\u00e9cada e foi minuciosamente editada por Evans. A mostra foi concebida por Lincoln Kirstein, seu amigo de toda a vida, teve organiza\u00e7\u00e3o inicial de Newhall. Mas, este \u00faltimo foi praticamente hostilizado por Evans que optou pelo controle total da exposi\u00e7\u00e3o, criando conscientemente, uma narrativa consistente que valorizava inten\u00e7\u00e3o, continuidade e cl\u00edmax. Por outro lado, o livro publicado com o mesmo t\u00edtulo tem projeto editorial do fot\u00f3grafo, mas \u00e9 completamente diferente. 47 fotografias da exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o no livro e 33 outras que est\u00e3o\u00a0 editadas na publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o na exposi\u00e7\u00e3o, o que diferencia os dois produtos, ambos cl\u00e1ssicos e referenciais.<\/p>\n<div id=\"attachment_287\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-287\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-287\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/01w1-280x347.jpg\" alt=\"Walker Evans: The Hungry Eye, de Gilles Mora e John T. Hill\" width=\"280\" height=\"347\" \/><p id=\"caption-attachment-287\" class=\"wp-caption-text\">Walker Evans: The Hungry Eye, de Gilles Mora e John T. Hill<\/p><\/div>\n<p>Antes da <em>FSA<\/em>, Walker Evans j\u00e1 tinha realizado e publicados alguns\u00a0 ensaios contundentes e reveladores, entre eles, <em>Brooklyn Bridge<\/em> e <em>New York Streets<\/em>, ambos de 1929, <em>Tahiti<\/em>, de 1932 e <em>Havana<\/em>, de 1933. Segundo Gilles Mora e John T. Hill, no fascinante livro <em>Walker Evans \u2013 The Hungry Eye<\/em>, \u201centre os 75 mil negativos dos arquivos da <em>FSA<\/em>, Evans contribuiu com apenas algumas poucas centenas. Sua produ\u00e7\u00e3o, realizada no per\u00edodo dezembro de 1935 e julho de 1938, \u00e9 diferenciada e n\u00e3o obedeceu aos preceitos de Roy Stryker, um dos coordenadores e que alinhava as imagens \u00e0 ideologia do projeto. Evans se recusou participar deste contexto e quando se afastou, deixou claro que sua fotografia para <em>FSA<\/em> \u201cera puro registro, n\u00e3o propaganda\u201d.<\/p>\n<p>Walker Evans \u00e9 um fot\u00f3grafo intenso, dram\u00e1tico e l\u00f3gico, que soube articular com precis\u00e3o a c\u00e2mera para n\u00e3o transform\u00e1-la num mero aparato de reprodu\u00e7\u00e3o, mas dot\u00e1-la de uma intelig\u00eancia mediadora conectada ao seu olhar instigante e cr\u00edtico. A exposi\u00e7\u00e3o <strong>Walker Evans<\/strong> em exibi\u00e7\u00e3o no Masp \u2013 Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, Avenida Paulista, 1578 \u2013 tem encerramento previsto para o dia 10 de janeiro de 2010. N\u00e3o deixe de ver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walker Evans (1903, St. Louis, Missouri \u2013 1975, New Haven, Connecticut) sem d\u00favida, uma refer\u00eancia na hist\u00f3ria da fotografia, est\u00e1 presente pela primeira vez em S\u00e3o Paulo, com uma exposi\u00e7\u00e3o individual no MASP, que re\u00fane 113 fotografias que abrangem diferentes per\u00edodos de sua trajet\u00f3ria profissional. A rela\u00e7\u00e3o mais imediata que normalmente se faz com seu trabalho \u00e9 que ele foi um dos fot\u00f3grafos ativos na d\u00e9cada de 1930 no programa da Farm Security Administration (FSA). Mas sua grandeza e sua import\u00e2ncia est\u00e3o muito al\u00e9m disso. 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