{"id":2828,"date":"2011-10-24T04:44:13","date_gmt":"2011-10-24T04:44:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2828"},"modified":"2017-03-01T12:42:13","modified_gmt":"2017-03-01T12:42:13","slug":"o-que-vem-a-luz-sobre-um-fundamento-que-lhe-e-estranho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-que-vem-a-luz-sobre-um-fundamento-que-lhe-e-estranho\/","title":{"rendered":"O que vem \u00e0 luz sobre um fundamento que lhe \u00e9 estranho"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2842\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2842\" rel=\"attachment wp-att-2842\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2842\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2842\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/anonimo-Flynn1-620x387.jpg\" width=\"620\" height=\"387\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2842\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo. Cole\u00e7\u00e3o Robert Flynn. EUA, c. 1920<\/p><\/div>\n<p>Ano passado as cigarras cantaram durante semanas para anunciar a chuva. Sempre ouvi dizer que elas anunciavam dias ensolarados, mas aqui no cerrado n\u00e3o. Quando seu canto ensurdece a tarde \u00e9 porque a seca est\u00e1 finalmente cedendo. Nos dias cantantes das cigarras, a seca parece ainda mais intensa e dura tanto quanto as dobras dos vestu\u00e1rios no in\u00edcio da fotografia de Walter Benjamin (quando viv\u00edamos n\u00e3o ao sabor do instante, mas dentro dele, crescendo dentro da imagem).<\/p>\n<p>Este ano as cigarras n\u00e3o apareceram. Temi o desaparecimento. Ser\u00e1 que a chuva n\u00e3o viria? Eu, que me apaixonara por seu estardalha\u00e7o, esperava. Numa manh\u00e3, ao abrir a porta do carro, encontrei uma mo\u00e7a da fam\u00edlia dos cicad\u00eddeos morta no ch\u00e3o. Soube nesse dia que as cigarras s\u00e3o sincronizadas: saem do ch\u00e3o todas ao mesmo tempo para, depois de cerca de duas semanas de canto ensurdecedor, acasalar e p\u00f4r seus ovos. Mas aquela ninfa estava sozinha, no asfalto, muda.<\/p>\n<p>Sem as cigarras, a seca n\u00e3o poderia ceder. Foi ent\u00e3o que numa dessas tardes em que o \u00fanico som era o estalar da plan\u00edcie avermelhada, ouvi um cheiro suave, embora decidido. Cheiro de chuva. A intensidade do cheiro acontecia como estrondo, posto que o olfato estava interditado pela aridez da seca. Na primeira vez que isso aconteceu, lembrei-me do soldado de <em>Os fuzis<\/em>, filme de Ruy Guerra, que cega diante da superexposi\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o. A monstruosidade desse cheiro sonoro residia no fato de a presen\u00e7a da chuva estar dissociada da \u00e1gua. A chuva sem \u00e1gua anunciava a certeza de umidade futura e, simultaneamente, a dramaticidade de sua aus\u00eancia. Quanto mais virtual, mais intensa: o limiar da chuva que eu n\u00e3o podia sentir, j\u00e1 sentindo. Paulatinamente, o estrondo foi sendo cada vez menos som e cada vez mais cheiro. Um dia, o cheiro veio junto com \u00e1gua. Sem as cigarras, o cheiro cantou o futuro.<\/p>\n<p>Entendi assim outras duas experi\u00eancias. A primeira, h\u00e1 n\u00e3o muito tempo, quando ouvi rasgar o c\u00e9u um avi\u00e3o supers\u00f4nico. Sem o avistar, ouvia uma imagem impressionante. Quanto menos encontrava a marca da imagem-som, mais o tempo parecia abrir-se como naqueles dias em que o cheiro de chuva sem chuva tornava abissal a passagem cronol\u00f3gica. Quando a aspereza do som j\u00e1 havia perdido a intensidade, encontrei um pontinho brilhante deslocando-se. N\u00e3o poderia ser ele; mas era. Enquanto tomava consci\u00eancia de sua pequena dimens\u00e3o, a imagem-som j\u00e1 havia partido. Naquele breve privil\u00e9gio, no pequeno instante em que a imagem desencontrou o objeto, constituiu-se a experi\u00eancia de pot\u00eancia das imagens que chegam aos nossos olhos n\u00e3o por um crit\u00e9rio de verdade ou identidade, mas segundo o crit\u00e9rio da dura\u00e7\u00e3o. Na defasagem, infiltrara-se a virtualidade: surgindo e desaparecendo num tempo menor do que o m\u00ednimo do cont\u00ednuo pens\u00e1vel; nessa efemeridade, no entanto, afirmava-se o tempo sobre o espa\u00e7o. Tais imagens continham o invis\u00edvel \u2013 o real sem ser atual.<\/p>\n<p>Foi assim tamb\u00e9m que percebi a for\u00e7a daquela fotografia tirada pelo gar\u00e7om mensageiro dos anjos (<a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2538\">no post anterior avisei que voltaria ao encontro amoroso<\/a>). Escura, um tanto \u201cgranulada\u201d, um pouco tremida, a profundidade daquela fotografia estava em sua fragilidade. A felicidade do instante atualizava-se, a cada reencontro com a fotografia, a partir da precariedade do aspecto turvo. Via-se o sorriso do casal, ligeiramente sem gra\u00e7a, feliz, encantado. N\u00e3o era poss\u00edvel, por\u00e9m, ver muito mais: o borrado da imagem roubara a nitidez e, assim, ela permanecia entre o que poderia ser inesquec\u00edvel e sua fei\u00e7\u00e3o rugosa. Era, no entanto, exatamente a imprecis\u00e3o que conservava os tra\u00e7os de uma forma desaparecida, que nos fazia confrontar o tempo, confrontar tudo que lhes restava e tudo que lhes foi perdido.<\/p>\n<p>Era exatamente o inapreens\u00edvel que exercia a defasagem fotogr\u00e1fica capaz de atualizar os futuros pret\u00e9ritos, os sonhos metarfoseantes que aquela imagem continha. Era a instabilidade, a mescla do que se podia ver com o que n\u00e3o se podia, o opaco \u2013 como o cheiro de chuva sem chuva ou a imagem-barulho sem avi\u00e3o \u2013 que introduzia, numa suspens\u00e3o, a dimens\u00e3o abissal da temporalidade-imagem. Tal indetermina\u00e7\u00e3o possibilitava o virtual manter-se diferente do atual, embora fosse essa distens\u00e3o tamb\u00e9m o que permitia que o virtual estivesse sempre pressionando para novas e diferentes efetiva\u00e7\u00f5es. No instant\u00e2neo fotogr\u00e1fico daquele encontro amoroso emergia o paradoxo de uma apresenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apresenta (ou da lembran\u00e7a que lembra esquecendo) numa trama cheia de buracos \u2013 atrav\u00e9s deles pod\u00edamos, mesmo que efemeramente, intuir o transcendente.<\/p>\n<p>Os sentidos que as fotografias v\u00e3o adquirindo, a possibilidade de se reatualizarem permanentemente e sempre de modo variado, parecem advir dessa indetermina\u00e7\u00e3o, desse desencontro entre a imagem que nelas percebemos e sua materialidade objetiva; entre um instante espacializado e sua latente dura\u00e7\u00e3o; entre a atualidade de nossa percep\u00e7\u00e3o e a virtualidade daquele passado. Melhor: a experi\u00eancia da temporalidade-imagem parece advir dessas m\u00faltiplas dist\u00e2ncias que possibilitam que o virtual se renove no atual e que a imagem se constitua no devir. Nela h\u00e1 sempre a pot\u00eancia de um encontro desencontrado (como o perfume sem presen\u00e7a ou a vis\u00e3o sem objeto). Na desconex\u00e3o entre o que vemos e o que n\u00e3o vemos, o que vemos, mas n\u00e3o ouvimos, o que lembramos e o que j\u00e1 n\u00e3o mais acessamos. A cada vez que percebemos uma fotografia ela \u00e9 sempre igual e diferente, porque nosso corpo-outro deseja agir diferente e entra em contato de modo distinto com o invis\u00edvel que nela est\u00e1 contido. Entre a afec\u00e7\u00e3o sentida e a fotografia percebida existe a diferen\u00e7a de que a afec\u00e7\u00e3o est\u00e1 em nosso corpo, em nossa alegria ou ang\u00fastia, em nosso presente. Se cada fotografia faz nascerem outras fotografias \u00e9 porque n\u00e3o encontramos nela a possibilidade de regredir at\u00e9 o passado, o que percebemos \u00e9 um passado virtual que vem ao nosso encontro, encarnado em nosso corpo, mutante e vulner\u00e1vel. O sentido da imagem, n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 nem c\u00e1, est\u00e1 sempre nessa dura\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica, embora absolutamente carnal.<\/p>\n<div id=\"attachment_2853\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2853\" rel=\"attachment wp-att-2853\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2853\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2853\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/The_Face_in_the_Lens_Robert_Flynn_Johnson_France_circa_1910-777x758-620x604.jpg\" width=\"620\" height=\"604\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2853\" class=\"wp-caption-text\">An\u00f4nimo. Cole\u00e7\u00e3o Robert Flynn. EUA, c. 1880<\/p><\/div>\n<p>Como o pensador portugu\u00eas Jos\u00e9 Gil explicita, o virtual se define como o que surge e desaparece \u201cnum tempo menor do que o m\u00ednimo de tempo cont\u00ednuo pens\u00e1vel\u201d e opera por um princ\u00edpio de indetermina\u00e7\u00e3o ou de incerteza \u2014 j\u00e1 que a brevidade ou efemeridade do virtual, num tempo n\u00e3o pens\u00e1vel, introduz o aleat\u00f3rio e o caos no cerne do movimento virtual. Na zona de indetermina\u00e7\u00e3o, entre o que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 nem c\u00e1, o virtual se atualiza, sempre outro, como nas fotografias an\u00f4nimas da cole\u00e7\u00e3o do curador Robert Flynn Johnson.<\/p>\n<p>Talvez seja isso tamb\u00e9m que fa\u00e7a <em>This photography is my proof<\/em>, de Duane Michals, t\u00e3o especial. O manuscrito \u00e0 margem da foto faz o leitor ter consci\u00eancia de que sua leitura s\u00f3 pode acontecer diante daquela atualidade: \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o inscrita pelo texto que faz ver o futuro pret\u00e9rito do amor que ambos sonhavam. \u00c9, simultaneamente, essa mesma inscri\u00e7\u00e3o que nos faz interrogar se ali o olhar daquela mulher j\u00e1 n\u00e3o intu\u00eda o t\u00e9rmino de seu amor. O\u00a0que se percebe, s\u00f3 pode vir a \u00e0 luz sobre um fundamento que lhe \u00e9 estranho e passado. A dist\u00e2ncia entre o que foi, o que poderia ter sido e a atualiza\u00e7\u00e3o efetiva desses planos virtuais \u00a0faz a imagem existir como experi\u00eancia.<\/p>\n<div id=\"attachment_2860\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/?attachment_id=2860\" rel=\"attachment wp-att-2860\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2860\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-2860\" alt=\"\" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Duane-MIchals-this-is-my-proof_21-620x560.jpg\" width=\"620\" height=\"560\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2860\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!&#8221; &#8211; Duane MIchals, 1974<\/p><\/div>\n<p>Tal atualiza\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o decorre de opera\u00e7\u00e3o exclusiva da mem\u00f3ria, independente da fotografia, como se, por si s\u00f3, ela conectasse sua virtualidade. N\u00e3o se trata de um efeito das leituras fotogr\u00e1ficas, de sua recep\u00e7\u00e3o estritamente. A experi\u00eancia de perceber os sentidos de um fotografia n\u00e3o parece poder ser compreendida como produ\u00e7\u00e3o exterior a ela. O transcendente da imagem parece acontecer por um princ\u00edpio imanente, interior \u00e0 fotografia, relacionado ao fluxo que a fundou e que pode ser atualizado em diferentes graus de contra\u00e7\u00e3o e distens\u00e3o. A origem\/funda\u00e7\u00e3o de uma fotografia parece seguir junto com ela, tanto em atualidade quanto em virtualidade, em n\u00edveis mais ou menos intensos. Uma singularidade que a atravessa, mas que tamb\u00e9m se transforma. Uma origem que aparece como intensifica\u00e7\u00e3o da vontade no tempo, que insiste em retornar, maturada pelo pr\u00f3prio tempo. Uma subst\u00e2ncia de altera\u00e7\u00e3o. Algo que n\u00e3o \u00e9 meramente produzido pelo presente, pelo observador. Algo que s\u00f3 pode vir \u00e0 luz sobre um fundamento que lhe \u00e9 estranho, uma dist\u00e2ncia entre o presente e aquele passado que n\u00e3o pode mais agir, mas que agir\u00e1, no entanto, ao se inserir numa sensa\u00e7\u00e3o atual da qual toma emprestada vitalidade.<\/p>\n<p>Se a fotografia comunica algo \u00e9 porque ela \u00e9 propagadora de uma funda\u00e7\u00e3o \u201candante\u201d, do vento funda\u00e7\u00e3o soprado pelo anjo-guardi\u00e3o-da-dura\u00e7\u00e3o que traz com ele todos os agregados temporais que estiveram contra\u00eddos no momento do <em>click<\/em> \u2013 o que esper\u00e1vamos que f\u00f4ssemos, o que acredit\u00e1vamos que ser\u00edamos. Assim parece propagar uma origem que n\u00e3o designaria o devir do que nasceu, mas o que est\u00e1 em via de nascer no devir. Como pensou Agamben, a origem jamais se d\u00e1 a conhecer na exist\u00eancia nua, evidente, factual, e sua r\u00edtmica n\u00e3o pode ser percebida sen\u00e3o numa dupla perspectiva. Ela pede para ser reconhecida, de um lado, como restaura\u00e7\u00e3o, restitui\u00e7\u00e3o, de outro lado como algo que por isso mesmo \u00e9 inacabado, sempre aberto e, portanto, opaco. A fotografia daquele encontro amoroso, do mesmo modo como o cheiro-estrondo, a imagem-barulho e a instabilidade-vis\u00e3o, faz para mim um enredo interessante sobre a pot\u00eancia da imagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano passado as cigarras cantaram durante semanas para anunciar a chuva. Sempre ouvi dizer que elas anunciavam dias ensolarados, mas aqui no cerrado n\u00e3o. Quando seu canto ensurdece a tarde \u00e9 porque a seca est\u00e1 finalmente cedendo. 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