{"id":2807,"date":"2011-10-17T09:59:03","date_gmt":"2011-10-17T09:59:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2807"},"modified":"2022-12-04T13:08:50","modified_gmt":"2022-12-04T13:08:50","slug":"la-ciotat-de-volta-para-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/la-ciotat-de-volta-para-o-futuro\/","title":{"rendered":"La Ciotat: de volta para o futuro*"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2811\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Charles-Baudelaire-vers-18601.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2811\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2811 size-full\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Charles-Baudelaire-vers-1860.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Charles-Baudelaire-vers-1860.jpg 240w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Charles-Baudelaire-vers-1860-674x900.jpg 674w, https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Charles-Baudelaire-vers-1860-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2811\" class=\"wp-caption-text\">Charles Baudelaire, c. 1860<\/p><\/div>\n<p>Proust escreveu que a \u201cimobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas s\u00e3o elas mesmas e n\u00e3o outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas<em>\u201d<\/em>. Vejam esta fotografia de Baudelaire, feita por seu amigo Nadar. Parece est\u00e1tica para n\u00f3s, hoje em dia, mas h\u00e1 todo um movimento ali. Um movimento que o poeta procurou expressar em um soneto dedicado ao fot\u00f3grafo. Depois de comparar a experi\u00eancia de posar no est\u00fadio fotogr\u00e1fico a morrer de uma \u201cdor saborosa\u201d, \u201cmisto de \u00eaxtase e horror\u201d, o poeta conclui:<\/p>\n<blockquote><p>Eu era como a crian\u00e7a \u00e0 espera do espet\u00e1culo,<br \/>\nOdiando o pano como se odeia um obst\u00e1culo&#8230;<br \/>\nMas a fria verdade enfim se revelou:<br \/>\nEu morrera sem susto, e a terr\u00edvel aurora<br \/>\nMe envolvia. \u2013 Mas como! o que ent\u00e3o se passou?<br \/>\nO pano j\u00e1 ca\u00edra e eu n\u00e3o me fora embora.<\/p><\/blockquote>\n<p>Pensemos esta estranha temporalidade instalada pelo soneto de Baudelaire: um tempo em que se permanece na antecipa\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 foi, em que o espet\u00e1culo acaba, sem ter come\u00e7ado, e onde se fica apesar de ter-se ido.\u00a0 Este tempo que n\u00e3o \u00e9 outro se n\u00e3o a nossa inquieta imobilidade \u201cagora\u201d.<\/p>\n<p>A imobilidade instant\u00e2nea da fotografia moderna \u00e9 radicalmente diferente da sua fixidez no s\u00e9culo XIX, quando imagens que se moviam eram praticamente desconhecidas do p\u00fablico. Para a esmagadora maioria dos espectadores da \u00e9poca, a fotografia n\u00e3o carecia de movimento, e foi apenas com a difus\u00e3o do cinema que esta percep\u00e7\u00e3o mudou radicalmente. \u00a0A hist\u00f3ria tradicional da \u201cs\u00e9tima arte\u201d (a fotografia, como voc\u00eas sabem, passou longe de ser a \u201csexta\u201d) terminou por nos habituar a ler as cronofotografias de Muybridge, Londe e Marey como \u201cprecursoras\u201d do dispositivo cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<div id=\"attachment_2810\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Etienne-Jules-Marey-18861.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2810\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2810 size-medium\" src=\"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Etienne-Jules-Marey-1886-360x500.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"500\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2810\" class=\"wp-caption-text\">Etienne Jules Marey, 1886<\/p><\/div>\n<p>Assim, em \u201cUm Salto em Dist\u00e2ncia do Sr&#8230;\u201d (1886), de Eti\u00e8nne-Jules Marey, vemos a decomposi\u00e7\u00e3o do salto em sete posi\u00e7\u00f5es, e damos por \u00f3bvio o esfor\u00e7o, tecnicamente muito mais complexo, de abarcar em uma s\u00f3 imagem todo o arco do movimento. Os historiadores e te\u00f3ricos do cinema lan\u00e7aram um olhar m\u00edope sobre estas imagens, observando nelas o fracionamento da trajet\u00f3ria em posi\u00e7\u00f5es sucessivas \u2013 seu princ\u00edpio cinem\u00e1tico \u00ad\u2013 e relevando suas (fr\u00e1geis) tentativas de terminalidade e completude: o homem <em>finaliza<\/em> seu salto, o nu (de Muybridge) desce<em> toda <\/em>a escada. O que assistimos nas primeiras duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX \u00e9 a progressiva domestica\u00e7\u00e3o do movimento por meio de sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 narrativa, no cinema cl\u00e1ssico, e seu abandono pela fotografia moderna, que se desenvolve a partir dos c\u00f3digos e da est\u00e9tica do instant\u00e2neo.<\/p>\n<p>Mas alguma coisa ficou ali perdida pelo caminho. N\u00e3o exatamente um movimento puro, livre, selvagem, indeterminado, mas a busca pela dura\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria das coisas e dos acontecimentos, independentemente das tramas em que as envolvemos e dos aspectos significativos que buscamos extrair delas. Algo que encontrou na espera, seu ref\u00fagio. Pois a espera n\u00e3o \u00e9 apenas expectativa de algo, \u00e9 abertura da dura\u00e7\u00e3o naquele que espera \u00e0 multiplicidade de dura\u00e7\u00f5es que o rodeiam: \u201cminha pr\u00f3pria dura\u00e7\u00e3o\u201d, ensina Deleuze em \u201cBergsonismo\u201d, \u201ctal como a vivo na impaci\u00eancia da espera, por exemplo, serve para revelar outras dura\u00e7\u00f5es que pulsam em outros ritmos que diferem de natureza com a minha\u201d. Por interm\u00e9dio da espera o fot\u00f3grafo abria-se \u00e0 multiplicidade de dura\u00e7\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>A espera foi \u00faltimo abrigo do tempo no tempo da fotografia instant\u00e2nea, mas havia um fio perdido na meada dos enredos cinematogr\u00e1ficos. Foi Hiroshi Sugimoto quem deu a melhor express\u00e3o pl\u00e1stica a este novelo. Em sua famosa s\u00e9rie \u201cTheatres\u201d, o tempo de exposi\u00e7\u00e3o das fotografias coincide com o tempo de proje\u00e7\u00e3o de um filme numa tela de cinema. A fotografia \u00e9 \u201cum modo de produzir f\u00f3sseis a partir do presente\u201d, declarou, sublinhando que considerava estes decalques negativos de plantas e animais como dispositivos pr\u00e9-fotogr\u00e1ficos de registro e como as formas mais antigas de arte. Ali, portanto, perdida em meio a um turbilh\u00e3o de fotogramas, jazia adormecida, como a radia\u00e7\u00e3o f\u00f3ssil de uma estrela extinta, a sombra luminosa de uma imagem <em>multiduracional<\/em>.<\/p>\n<p>No extremo oposto das dilata\u00e7\u00f5es temporais de Sugimoto e Michael Wesely, est\u00e3o algumas das imagens em movimento que come\u00e7am a ser produzidas pelas c\u00e2meras digitais <em>full frame<\/em> que se tornaram o equipamento padr\u00e3o tanto dos fot\u00f3grafos como dos cineastas atuais. Toda uma nova legi\u00e3o de imagens sem nome est\u00e1 brotando desta converg\u00eancia. J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver estas figuras intermidi\u00e1ticas at\u00e9 mesmo nos sites de jornais tradicionais<em>. <\/em>Mas \u00e9 nas m\u00e3os de uma nova gera\u00e7\u00e3o de seres h\u00edbridos <em>\u2013<\/em> a quem tenho chamado <em>fotoastas \u2013<\/em> que as tens\u00f5es que originam a nova condi\u00e7\u00e3o m\u00f3vel da fotografia s\u00e3o mais vis\u00edveis.\u00a0 Neste sentido, um trabalho do coletivo brasileiro <em><a href=\"http:\/\/www.ciadefoto.com\/#1671754\/LONGA-EXPOSI\u00c7\u00c3O\">Cia de Foto<\/a><\/em> \u00e9 exemplar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"longa exposi\u00e7\u00e3o : hector babenco\" width=\"1150\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CC2DcI-slUo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Em <em>Longa Exposi\u00e7\u00e3o <\/em>(2009), importa antes a pose que o retrato. Entre outras celebridades, o cineasta Hector Babenco espera <em>ao vivo<\/em> por um clique que nunca chega. No <em>portrait<\/em> animado do cineasta, a mem\u00f3ria traum\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es entre fotografia e cinema toma conta da cena.\u00a0 Babenco, sisudo, destitui-se de toda performatividade e atravessa heroicamente os primeiros noventa segundos de sua \u201cexposi\u00e7\u00e3o\u201d sem sequer piscar os olhos. Certamente era tamb\u00e9m dele que falava Baudelaire, ao comentar:<\/p>\n<blockquote><p>Desespero e esperan\u00e7a, indiferen\u00e7a ociosa.<br \/>\nQuanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,<br \/>\nMais a tortura me era atroz e deliciosa;<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o fugia ao mundo familiar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por\u00e9m, antes que a cortina milenar venha dar um fim ao teatro da vida, ainda existem promessas por cumprir. As novas longas exposi\u00e7\u00f5es da fotografia, m\u00f3veis ou im\u00f3veis, buscam realizar uma destas: o de abrir-se o dispositivo fotogr\u00e1fico, completa e devotadamente, a um mundo mutiduracional. Promessa antiga reencontrada agora, rejuvenescida, vigorosa, pois esteve ali hibernando, por mais de um s\u00e9culo, em um canto esmaecido da hist\u00f3ria da imagem t\u00e9cnica. \u00c9 o elo perdido da fotografia, a velha promessa de Lumi\u00e8re, esquecida e obscurecida pelo cinema, e que agora retorna: o mesmo trem que chega, como se fosse pela primeira vez, a uma antiga esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Entr\u00e9e d&#039;un train en gare de la Ciotat&quot; (cin\u00e9-concert)\" width=\"1150\" height=\"863\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v6i3uccnZhQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>* <em>Dei um tempo na s\u00e9rie dos duplos fotogr\u00e1ficos que retornam no meu pr\u00f3ximo <\/em>post<em>. Uma vers\u00e3o mais longa (e mais acad\u00eamica) do texto de hoje, chamada \u201cO Elo Perdido da Fotografia\u201d, ser\u00e1 publicada no primeiro n\u00famero da Revista Eletr\u00f4nica LAIKA, editada pelo Laborat\u00f3rio de Investiga\u00e7\u00e3o e Cr\u00edtica Audiovisual da ECA\/USP.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Proust escreveu que a \u201cimobilidade das coisas que nos cercam talvez lhes seja imposta por nossa certeza de que essas coisas s\u00e3o elas mesmas e n\u00e3o outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas\u201d. Vejam esta fotografia de Baudelaire, feita por seu amigo Nadar. Parece est\u00e1tica para n\u00f3s, hoje em dia, mas h\u00e1 todo um movimento ali. Um movimento que o poeta procurou expressar em um soneto dedicado ao fot\u00f3grafo. 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