{"id":2767,"date":"2011-10-10T10:24:45","date_gmt":"2011-10-10T10:24:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iconica.com.br\/?p=2767"},"modified":"2016-05-28T14:11:31","modified_gmt":"2016-05-28T14:11:31","slug":"o-habitat-como-marca-distintiva-da-especie-ou-os-fotografos-nos-eventos-de-arte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iconica.com.br\/site\/o-habitat-como-marca-distintiva-da-especie-ou-os-fotografos-nos-eventos-de-arte\/","title":{"rendered":"O habitat como marca distintiva da esp\u00e9cie [ou Os fot\u00f3grafos nos eventos de arte]"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_2801\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.iconica.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/CameraWork_02_03.jpeg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-2801\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-2801 \" src=\"http:\/\/192.249.123.35\/~iconic16\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/CameraWork_02_03-360x481.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"385\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2801\" class=\"wp-caption-text\">Edward Steichen, Auto-retrato, 1903<\/p><\/div>\n<p>Tr\u00eas eventos recentes e importantes \u2013 o SP-Arte\/Foto, o Paraty em Foco e o V\u00eddeoBrasil \u2013\u00a0me fizeram pensar sobre a presen\u00e7a tensa do fot\u00f3grafo em alguns ambientes dedicados \u00e0s artes.<\/p>\n<p>Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cad\u00ea o pessoal da fotografia? Certamente, o v\u00eddeo se expandiu na \u00faltima d\u00e9cada tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem art\u00edstica. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. Basta relembrar que, em 2009, tivemos em lugar do tradicional festival uma grande exposi\u00e7\u00e3o de Sophie Calle. Os militantes da arte do v\u00eddeo se ressentiram da mudan\u00e7a, e os militantes da arte da fotografia aproveitaram bem a vinda da artista, e mal se deram conta de que aquele evento tinha por tr\u00e1s uma institui\u00e7\u00e3o chamada Videobrasil. Em 2010, eles trouxeram uma exposi\u00e7\u00e3o de Joseph Beuys e outra de Chelpa Ferro. Agora em 2011, retomaram o modelo de \u201cfestival\u201d, mas com um nome diferente: <a href=\"http:\/\/www.videobrasil.org.br\/17\/\" target=\"_blank\">17\u00ba Festival Internacional de Arte Contempor\u00e2nea Sesc_Videobrasil<\/a>. Mesmo que a presen\u00e7a do v\u00eddeo no evento ainda seja forte, a abertura est\u00e1 firmada, e temos l\u00e1 a presen\u00e7a de escultura, pintura, performance, instala\u00e7\u00e3o. A fotografia tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1 mas, pela pergunta que Solange Farkas me fez, suponho que esperava uma presen\u00e7a maior de artistas formados nesse campo. Tentando esbo\u00e7ar uma resposta, fiquei imaginando que talvez fosse apenas desaten\u00e7\u00e3o: muitos fot\u00f3grafos &#8211; que pleiteiam regularmente um lugar nos espa\u00e7os de arte contempor\u00e2nea &#8211; ainda n\u00e3o tinham atinado para as transforma\u00e7\u00f5es do Videobrasil. Mas \u00e9 prov\u00e1vel que a hist\u00f3ria do festival e a palavra \u201cv\u00eddeo\u201d no nome da institui\u00e7\u00e3o ainda crie um ambiente desconfort\u00e1vel para os fot\u00f3grafos.<\/p>\n<p>Tivemos em setembro a feira <a href=\"http:\/\/www.sp-arte.com\/web\/inicio\/?F&amp;2011-SP__Foto-2011-7-INICIO-INICIO-0-A-0-0\" target=\"_blank\">SP-Arte\/Foto<\/a>, que confirma a forte presen\u00e7a da fotografia no mercado da arte. A feira era bastante aberta e ecl\u00e9tica: havia um n\u00famero razo\u00e1vel de obras que atropelavam a especificidade da fotografia, que exploravam as possibilidades trazidas pelas tecnologias digitais, mas havia tamb\u00e9m uma forte presen\u00e7a de artistas que aderiram a uma linhagem da fotografia conceitual perfeitamente em paz com o documental, com o anal\u00f3gico, com a bidimensionalidade, com a moldura e a parede, ou seja, obras que n\u00e3o recusam as estrat\u00e9gias constru\u00eddas pela tradi\u00e7\u00e3o da fotografia. Minha surpresa se deu n\u00e3o tanto na feira, mas nas conversas com artistas, as informais e tamb\u00e9m aquelas que compuseram a programa\u00e7\u00e3o de debates promovida pelo evento. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, os artistas ali representados sentiam a necessidade de explicar: \u201cn\u00e3o sou fot\u00f3grafo, apenas uso a fotografia\u201d.\u00a0 Ou mais radicalmente: \u201cn\u00e3o sou fot\u00f3grafo, passo eventualmente pela fotografia\u201d. N\u00e3o parece haver maldade nessas afirma\u00e7\u00f5es, ao contr\u00e1rio, \u00e9 talvez uma quest\u00e3o de humildade, o desejo de respeitar e de n\u00e3o invadir um territ\u00f3rio alheio, mesmo que estivessem ali fazendo fotografia e, mais, discutindo com profundidade a hist\u00f3ria e os sentidos implicados pelo uso de t\u00e9cnicas fotogr\u00e1ficas. Mas n\u00e3o me parece apenas uma quest\u00e3o de garantir a liberdade de cria\u00e7\u00e3o, um desejo de n\u00e3o se situar em nenhuma das linguagens tradicionais. Uma coisa \u00e9 permanecer em sil\u00eancio, isto \u00e9, n\u00e3o precisar mencionar nenhuma filia\u00e7\u00e3o. Outra \u00e9 a necessidade de afirmar um distanciamento com o ambiente dos fot\u00f3grafos, esse territ\u00f3rio estrangeiro pelo qual os artistas est\u00e3o sempre numa r\u00e1pida passagem.<\/p>\n<p>Talvez o conflito n\u00e3o seja tanto entre a fotografia e as outras artes, mas entre a figura do artista e a figura do fot\u00f3grafo (quem teve essa intui\u00e7\u00e3o foi <a href=\"http:\/\/www.dobrasvisuais.com.br\/\" target=\"_blank\">Livia Aquino<\/a>). De fato, as linguagens t\u00eam dialogado muito bem entre si. No VideoBrasil, a fotografia est\u00e1 presente, seja em sua t\u00e9cnica, seja nas quest\u00f5es que lhe s\u00e3o hist\u00f3ricas. No m\u00ednimo, veremos ali que o v\u00eddeo recorre com muita freq\u00fc\u00eancia \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o, \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o do movimento ou \u00e0 busca de sua fra\u00e7\u00e3o ideal\u00a0de tempo, de modo que os olhares formados pela fotografia se sentir\u00e3o absolutamente em casa na exposi\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, portanto, a aus\u00eancia da fotografia e de seus problemas, mas dos fot\u00f3grafos (que, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, eu tamb\u00e9m n\u00e3o vi na abertura do evento). No SP-Arte\/Foto a quest\u00e3o \u00e9 ainda mais evidente: tudo era de algum modo fotografia, mesmo quando era tamb\u00e9m outra coisa. Mas quase ningu\u00e9m ali era fot\u00f3grafo. Em resumo, por mais que esses eventos dialoguem bem com todas as relativiza\u00e7\u00f5es promovidas pela arte contempor\u00e2nea, os fot\u00f3grafos n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 e, quem est\u00e1, se afirma n\u00e3o-fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Por fim, estive pela primeira vez no <a href=\"http:\/\/paratyemfoco.com\/\" target=\"_blank\">Paraty em Foco<\/a>, a\u00ed sim, um evento de fot\u00f3grafos: fot\u00f3grafos amadores, fot\u00f3grafos profissionais, fot\u00f3grafos cl\u00e1ssicos, fot\u00f3grafos contempor\u00e2neos, fot\u00f3grafos que trabalham tamb\u00e9m com outras linguagens e, claro, pesquisadores, cr\u00edticos e curadores de fotografia. N\u00e3o vi ali qualquer tipo de conservadorismo ou dogmatismo com rela\u00e7\u00e3o ao que se entende por fotografia. Mas \u00e9 fato que ali, por vezes, algumas rodas de conversa podiam assumir um ar de clube, de entidade de classe. Ali os fot\u00f3grafos se sentem \u00e0 vontade porque est\u00e3o entre os seus.<\/p>\n<p>Considerando esses tr\u00eas eventos, percebi uma esp\u00e9cie de tri\u00e2ngulo anti-amoroso: numa ponta, a exist\u00eancia de \u201ceventos de fot\u00f3grafos\u201d, ou seja, de lugares que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios; noutra, a exist\u00eancia de eventos em que fot\u00f3grafos n\u00e3o frequentam porque se sentem alheios; por fim, a exist\u00eancia de um evento dedicado ao di\u00e1logo da fotografia com o mercado da arte contempor\u00e2nea em que os participantes se reconhecem como artistas n\u00e3o-fot\u00f3grafos. Complexo!<\/p>\n<p>A fotografia parece viver, com certo agravamento, uma ambiguidade t\u00edpica de toda arte aplicada. Fot\u00f3grafos \u2013 assim como arquitetos, estilistas etc. \u2013 s\u00e3o artistas, mas que constituem seus pr\u00f3prios mercados, entidades de classe, eventos, tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, suas metodologias cr\u00edticas e suas teorias est\u00e9ticas. Eles t\u00eam uma presen\u00e7a evidente no universo da arte contempor\u00e2nea mas, com mais frequ\u00eancia, sentem tamb\u00e9m a necessidade de demarcar a especificidade de sua arte. Em contrapartida, os artistas podem fazer fotografia, construir espa\u00e7os, objetos, pe\u00e7as gr\u00e1ficas, vestu\u00e1rios mas n\u00e3o s\u00e3o profissionais desses campos, porque tamb\u00e9m s\u00e3o pouco convidados a aturar em seus espa\u00e7os espec\u00edficos.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 nessa ambiguidade, mas nesse suposto agravamento: de um lado, a fotografia se tornou quase onipresente no mercado e nas exposi\u00e7\u00f5es de arte contempor\u00e2nea; de outro, ela me parece um pouco mais descaradamente denegada do que essas outras artes utilit\u00e1rias. Talvez porque esteja \u00f3bvio que um artista n\u00e3o se torna estilista ou arquiteto, mesmo quando dialoga com essas atividades. Enquanto que, caso n\u00e3o avise, ele pode perfeitamente ser confundido com um fot\u00f3grafo, profissional que n\u00e3o depende de muitas credenciais para ser visto como tal.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro paradoxo: a fotografia \u00e9 uma arte f\u00e1cil, \u201cmediana\u201d, nas palavras de Bourdieu. Sua presen\u00e7a na arte contempor\u00e2nea est\u00e1 profundamente ligada a isso, na esteira das experi\u00eancias \u201cpop\u201d que almejam destruir a id\u00e9ia do artista como g\u00eanio para aproxim\u00e1-lo das massas e de sua vida cotidiana. Mas poucos est\u00e3o dispostos a atravessar de vez a fronteira. Talvez seja diferente com o cinema: tenho visto v\u00e1rios artistas formados no ambiente das galerias que sentem certo orgulho de serem chamados de cineastas. Em contrapartida, eles celebram essa aproxima\u00e7\u00e3o com o universo pop da fotografia; at\u00e9 fazem alguns <em>freelas<\/em> se for o caso, mas mant\u00eam sempre um dos p\u00e9s dentro de um c\u00edrculo sagrado da arte para nos lembrar de onde v\u00eam.<\/p>\n<p>Mesmo com todas as aberturas promovidas pela arte contempor\u00e2nea, n\u00e3o penso que as distin\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas historicamente entre as linguagens deveriam ser definitivamente ignoradas. Ou seja, n\u00e3o acho que dever\u00edamos substituir de vez a ideia de fotografia por outra mais abrangente de \u201carte contempor\u00e2nea\u201d. At\u00e9 mesmo porque \u201carte\u201d j\u00e1 \u00e9 um recorte carregado de certa especificidade historica: conforme Hans Belting, a arte \u00e9 um dentre v\u00e1rios regimes de exist\u00eancia das imagens (O fim da hist\u00f3ria da arte, 2006). Ali\u00e1s, segundo ele, um regime que pouco d\u00e1 conta das imagens que produzimos hoje.<\/p>\n<p>Nada contra falar em fotografia ou de qualquer arte que se pretende outra coisa, mesmo quando atravessa a fotografia. Nada contra falar da fotografia sob o paradigma da arte ou pens\u00e1-la fora dele, conforme o contexto exija. Por fim, nada contra um evento definir o lugar a partir de onde deseja pensar a produ\u00e7\u00e3o das imagens. O problema est\u00e1 na dificuldade que o fot\u00f3grafo enfrenta de se pensar e ser pensado fora de seu habitat. H\u00e1 de fato um isolamento do qual, no entanto, ele n\u00e3o se sente v\u00edtima, ao contr\u00e1rio, que ele vivencia com certo orgulho. Rubens Fernandes me disse que ouviu de Rosangela Renn\u00f3, no FestFotoPoA, e de Miguel Rio Branco, no Paraty em Foco, a mesma ideia, algo mais ou menos assim: &#8220;sempre me perguntam o que sou. Digo que sou fot\u00f3grafo(a) quando estou entre artistas, e que sou artista quando estou entre fot\u00f3grafos&#8221;. Essa talvez seja a melhor resposta pol\u00edtica ao problema, o exerc\u00edcio de frequentar todos os territ\u00f3rios mas de sempre se fazer um pouco estrangeiro onde quer que se esteja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas eventos recentes e importantes \u2013 o SP-Arte\/Foto, o Paraty em Foco e o V\u00eddeoBrasil \u2013\u00a0me fizeram pensar sobre a presen\u00e7a tensa do fot\u00f3grafo em alguns ambientes dedicados \u00e0s artes. Em agosto, quando o Videobrasil divulgava sua lista de artistas selecionados, encontrei com Solange Farkas, curadora do evento, que me perguntou: cad\u00ea o pessoal da fotografia? Certamente, o v\u00eddeo se expandiu na \u00faltima d\u00e9cada tanto quanto a fotografia ou qualquer outra linguagem art\u00edstica. Mas, acima de tudo, o evento viveu uma grande abertura. 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